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Frente da Comunicação reflete sobre juventudes e mídias digitais

24/10/2017

Notícias

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Rondinha (PR) – “Juventude, novas mídias e as múltiplas mudanças na comunicação” foram os temas que dominaram o primeiro dia da quinta edição do Encontro Provincial da Frente de Evangelização da Comunicação, no Convento São Boaventura de Rondinha (PR), nesta terça-feira (24/10). Para tratar desses temas, o evento contou com a assessoria do mestre e doutor em Ciências da Comunicação, o gaúcho Moisés Sbardelotto, que lançou em julho último o livro “E o Verbo se fez Rede – Religiosidades em reconstrução no ambiente digital”. No final do dia, Frei Diego Melo e Gabriel Dellandrea, coordenadores das ações com a juventude na Província, através do Serviço de Animação Vocacional, relataram como é feito esse trabalho através das mídias sociais.

O Encontro teve início com a Celebração Eucarística, às 7h15, em memória pelo sétimo dia de falecimento de Frei Nelson Rabelo, que todos os anos estava presente no evento como Diretor de programação da Fundação Celinauta. Frei Neuri Reinisch, Presidente da Fundação Celinauta, presidiu a Santa Missa e Frei Gustavo Medella, coordenador da Frente da Comunicação, fez a homilia homenageando o profissional e confrade Frei Nelson e dando as boas vindas aos participantes do evento. Tomando por base o Evangelho do dia (Lc 12), Frei Medella falou da importância de estarmos vigilantes em nosso tempo e, principalmente, saber escutar em meio ao excesso de informações que circulam no mundo, especialmente nas redes sociais.

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O encontro reuniu profissionais e pessoas ligadas à comunicação em diferentes áreas da Província: Fundação Celinauta de Pato Branco, (TV e Rádio), Fundação Frei Rogério (Curitibanos), Editora Vozes, Associação Bom Jesus e FAE, Universidade São Francisco, Comunicação da Sede Provincial, Fraternidade de Rondinha e Paróquia Nossa Senhora Aparecida, de Nilópolis (RJ).

O Vigário Provincial Frei César Külkamp saudou a todos e explicou que o Ministro Provincial também gostaria de se fazer presente, mas devido ao dia de Frei Galvão, a ser celebrado amanhã, ele já estava comprometido com celebrações tanto em São Paulo como em Guaratinguetá.

Moisés propôs aos participantes um encontro de partilha e provocações. “Tudo que nós comunicamos de algum modo é evangelização”, lembrou. O palestrante abordou a questão das juventudes (no plural) e as realidades juvenis de hoje, o conceito de digitalização e como os jovens vivem isso no seu cotidiano, na sua vida pessoal, e as mudanças na comunicação, não só nas práticas mas no conceito.

Para falar de juventudes, lembrou os dados do último Censo (2010), que mostram ainda uma população relativamente jovem no Brasil. “Os jovens são um quarto da população total do Brasil. Uma cifra bastante significativa”, observou, explicando que o IBGE considera como jovens aqueles que têm de 15 a 29 anos.

Outros dados são que a maioria dos jovens é urbana e trabalha. “Se a gente quer pensar a evangelização hoje, trata-se de um grupo focal, vamos dizer assim”, analisou, indicando como base de sua palestra três documentos: “Juventude e Contemporaneidade”, um trabalho em conjunto da Anped e Unesco; “Gritos silenciados, mas evidentes”, do Pe. Hilário Dick, que é da Unisinos e foi um dos primeiros assessores da Pastoral da Juventude da CNBB e tem uma longa caminhada com a juventude; e o tema que o Papa lançou para o próximo Sínodo de 2018: “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”.

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Segundo o palestrante, os jovens são sempre trabalhados, estudados ou vistos como um grupo social que não se enquadra como aquilo que é considerado normal dentro da sociedade. “É uma crítica que fazem no primeiro documento, porque em geral os jovens são vistos como aqueles que resistem à ação socializadora. A sociedade em geral tenta padronizar os costumes, as práticas, e os jovens são sempre aqueles que resistem, fogem do padrão normativo. Um dos artigos deste documento vai analisar exatamente as tradições que vão aparecendo ao longo da história. O jovem tem uma tradição boêmia, que se entrega às drogas ou alguém que exagera e leva para o radicalismo as questões que já estão presentes na cultura”, destacou. “Mas por outro lado, o jovem é idealizado como a promessa da juventude. As mídias em geral e o mercado tentam apontar para a juventude o seu foco de interesse, porque aí eles vão poder movimentar a economia”, lembrou, ponderando que esses dois extremos vão contra a evangelização da Igreja. “Por um lado, os jovens são vistos como decadência e, por outro, são vistos como esperança”.

Segundo o palestrante, isso está baseado numa sociologia funcionalista: que função os jovens podem desempenhar na sociedade para que ela seja melhor? Não se tem uma preocupação pelos jovens, para que sejam bons cidadãos, mas como a sociedade pode usar os jovens para que eles melhorem a sociedade. “Então, são sempre perspectivas de uso dos jovens. Muitas vezes jogamos os problemas nos jovens. Mas a gente não problematiza a nossa ação: será que estamos usando a linguagem que eles querem?”, ressaltou.

Segundo Moisés, para o jovem dizer quem ele é, precisa dizer que ele não é. “E como ele faz isso? Através de várias mediações. São as marcas visíveis: a música, a moda, gadgets, tecnologia… Nessa fase ele precisa botar para fora o que está descobrindo. E faz isso pelas mediações. E aqui entra muito fortemente o papel dos meios de comunicação. São eles que fornecem as mediações, essas construções simbólicas por onde o jovem deve ir”, disse, exemplificando com música, que é internacionalizada e, no caso do sertanejo, que era local, hoje também se disseminou pelo Brasil inteiro.

Para Moisés, a sociedade tem essa ambivalência ou choque de culturas. Tribos juvenis querendo conquistar espaços na sociedade, mas ela, por sua vez, exigindo que entrem num padrão normativo. E os meios de comunicação têm, de certo modo, fazer esse meio de campo.

A escola, a família e o estado continuam pensando a juventude apenas como uma “categoria de trânsito”, de transição e preparação para o futuro. “Ou seja, o jovem de certo modo não tem valor. Só vai ter valor quando for adulto e corresponder aos padrões daquela cultura”, indicou. Será que a Igreja, perguntou o palestrante, também não pensa muitas vezes assim? Ou seja, o jovem não existe como ser. Ele vai ser quando ele for pai de família, padre, freira etc.

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Para os jovens, ao contrário, o seu ser-saber-fazer está ancorado no presente. “Eles vivem o momento. Essa ideia foi captada pelo mercado e pelo entretenimento. O que mercado faz? Você, jovem, pode ter esse carro agora, essa roupa agora…”, disse Moisés.

Segundo o documento citado por Sbardelotto, quando os jovens são assunto dos cadernos destinados aos “adultos”, no noticiário, em matérias analíticas e editoriais, os temas mais comuns são aqueles relacionados aos “problemas sociais”, como violência, crime, exploração sexual, drogas, ou as medidas para dirimir ou combater tais problemas.

“Porque quando a gente se preocupa com os jovens, a gente tem que se estar preocupado com eles, com as preocupações deles, ou a gente quer se aproveitar dos jovens para renovar as instituições? A preocupação no fundo é a instituição. É o partido político, a Igreja, a Paróquia, etc. Qual interesse nós temos ao trabalhar com os jovens”, acrescentou.

Segundo o palestrante, através do livro “Gritos silenciados, mas evidentes”, o Pe Hilário Dick vai resgatar vários pontos de vista sobre a juventude. Pondera como estas visões influenciam até hoje a interação entre e com a juventude.

Neste livro, o autor diz que nunca a juventude foi tão “violentamente” manipulada pelos meios de comunicação. Temos “juventude” quando temos jovens organizados e articulados. “Os jovens se tornam juventude quando estão organizados e lutam por objetivos comuns”, disse Moisés.

COMO O JOVEM É PENSADO PELA IGREJA

Por último, Sbardelotto falou sobre o documento preparatório para o próximo Sínodo dos Bispos e destacou o capítulo “Os jovens no mundo de hoje”, que recorda que a juventude, mais do que identificar uma categoria de pessoas, é uma fase da vida que cada geração volta a interpretar de modo singular e irrepetível.

Segundo Moisés, a velocidade dos processos de mudanças e de transformações caracterizam as sociedades e culturas. “A combinação entre elevada complexidade e rápida mudança faz com que nos encontremos num contexto de fluidez e de incerteza jamais experimentado precedentemente”, destacou. “O que vai ser da minha vida, o que vai ser da família?”.

Segundo o documento, “não podemos nem queremos abandonar os jovens às formas de solidão e de exclusão às quais o mundo os expõe”.

Neste mundo de elevada complexidade, os jovens caminham rumo a uma geração hiper(conectada). “Hoje as jovens gerações são caracterizadas pela relação com as modernas tecnologias da comunicação e com aquilo que normalmente é chamado o ‘mundo virtual’, mas que também tem efeitos muito reais. Ele oferece possibilidades de acesso a uma série de oportunidades que as gerações precedentes não tinham, e ao mesmo tempo apresenta riscos”, citou.

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Para a pastoral, os jovens são sujeitos e não objetos. Na prática, eles são muitas vezes tratados pela sociedade como uma presença inútil ou importuna: a Igreja não pode reproduzir esta atitude, porque todos os jovens, sem exclusão alguma, têm o direito de ser acompanhados no seu caminho. Aos olhos da fé, o nosso tempo exige um crescimento na cultura da escuta, do respeito e do diálogo.

 O MUNDO DIGITAL

Usando dados da Global Digital Snapshot 2017, Sbardelotto mostrou que no mundo, o Brasil ocupa a segunda colocação entre os países com mais tempo gasto em frente ao computador, perdendo apenas para as Filipinas. “Por trás desses números estão os jovens”, lembrou.

No contexto da evangelização através das novas mídias, Moisés lembrou que a Igreja não ficou só nas mensagens para o Dia Mundial das Comunicações Sociais. Em 2001, o Papa João Paulo II enviou o primeiro email para toda a Igreja; 1995 foi inaugurado o site da Santa Sé; em 2011 nasceu o News.va e o primeiro twit papal; em 2012, o Papa Bento XVI teve a sua primeira conta na rede social; em janeiro de 2013, foi lançado o APP do Vaticano; em 2014, foi feita a primeira conferência numa plataforma do Google; e em janeiro de 2016, o primeiro vídeo do Papa.

A mensagem deste ano, contudo, para o Dia Mundial das Comunicações Sociais resumem bem o esforço evangelizador da Igreja nas novas mídias. “A vida do homem não se reduz a uma crônica asséptica de eventos, mas é história, e uma história à espera de ser contada através da escolha de uma chave interpretativa capaz de selecionar e reunir os dados mais importantes. Em si mesma, a realidade não tem um significado unívoco. Tudo depende do olhar com que a enxergamos, dos ‘óculos’ que decidimos pôr para ver: mudando as lentes, também a realidade aparece diversa. Então, qual poderia ser o ponto de partida bom para ler a realidade com os ‘óculos’ certos? Para nós, cristãos, os óculos adequados para decifrar a realidade só podem ser os da boa notícia: partir da Boa Notícia por excelência, ou seja, o ‘Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus’ (Mc 1, 1)”.

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CAMINHANDO COM OS JOVENS

Frei Diego Melo e Frei Gabriel Dellandrea acompanham os jovens que se interessam em conhecer mais a fundo a vida franciscana, com a possibilidade de ingressar na Ordem Franciscana e também coordenam as ações com a juventude da Província da Imaculada.

“Por força das atividades com os jovens, a gente tem tentado entrar nesse universo das grandes mídias e nesses veículos para tentar estabelecer um diálogo com eles. Estou no Serviço de Animação Vocacional desde 2012. São seis anos. Ao longo deste tempo, a gente foi percebendo o quanto toda a evangelização com os jovens passava por essas mídias”, contou o frade, que tem duas grandes atividades com a juventude: as Missões Franciscanas, que acontecem sempre em janeiro, e as Caminhadas Franciscanas.

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“As mídias sociais são administradas pelos próprios jovens”, revela Frei Diego. “Eles pensam a partir da própria lógica deles”, ensina. “Em 2014, na primeira atividade, elaboramos uma carta e enviamos para os frades das Paróquias fazerem a divulgação. A adesão foi muito baixa. Depois, muitos jovens, que tivemos contato pelo Facebook, nos disseram que queriam ir mas não estavam sabendo. Foi aí que percebemos que para chegar aos jovens, o caminho mais fácil e direto seriam as mídias sociais”, explicou. Desde então, o trabalho só se intensificou. Hoje, as Missões têm um aplicativo próprio.

“Nesse trabalho com a juventude, você tem que fazer uma opção de fato por essa causa jovem e entender o universo deles e estar dentro do universo deles. Desde o aconselhamento amoroso- afetivo até o jovem que pediu uma orientação sobre o que era ‘igreja em saída’. Ele queria saber quem estava saindo da Igreja. Das coisas mais elementares da catequese até grandes confissões acontecem na informalidade do celular”, contou. “Vieram me contar da alegria que tiveram ao entrar em contato com o Frei Fidêncio (Ministro Provincial). A figura hierárquica distante de repente se torna tão próxima a esta realidade. A demanda é muito grande, mas a gente tem tentado estar próximo a eles”, completou.

Nesta quarta-feira, o professor Moisés aborda “O desafio da comunicação em vista da juventude e do fenômeno convergência de mídias” e Frei César Külkamp fala sobre o Plano de Evangelização da Província da Imaculada.

Frei Augusto Luiz Gabriel, Érika Augusto e Moacir Beggo

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