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Frei Marcos compartilha os frutos de sua experiência na Terra Santa

10/07/2026

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Frei Marcos compartilha os frutos de sua experiência na Terra Santa

Antes de partir para a Terra Santa, Frei Marcos Prado dos Santos percebeu que a missão exigiria uma preparação especial, incluindo amadurecimento espiritual e disposição para acolher o novo. Após intensificar o aprendizado da língua italiana e cumprir todas as exigências burocráticas para obtenção do visto, embarcou em 29 de setembro de 2025 rumo a Jerusalém, onde permaneceria até 4 de julho de 2026, dedicando-se aos estudos de Teologia, Exegese e Arqueologia Bíblica junto ao Studium Biblicum Franciscanum.

“Minhas expectativas eram altíssimas e giravam em torno de um objetivo muito claro: tocar e estudar o chamado ‘Quinto Evangelho’. Desejava ardentemente que as páginas das Sagradas Escrituras ganhassem relevo, cor e geografia diante dos meus olhos. Esperava encontrar não apenas respostas científicas e históricas para os meus estudos exegéticos, mas também um profundo renovamento da minha fé e da minha vocação, bebendo diretamente na fonte onde a história da nossa salvação se concretizou”, comenta. 

A rotina na Terra Santa era intensa: os dias começavam às 5h45, com as Laudes e a celebração da Eucaristia, seguidas pelas aulas durante toda a manhã; à tarde, havia tempo reservado para estudo pessoal; enquanto as noites eram novamente dedicadas à oração comunitária, meditação e convivência entre os frades. 

Os compromissos fixos incluíam, ainda, nas sextas-feiras, a tradicional Via-Sacra na Via Dolorosa, em Jerusalém, vivida ao lado de peregrinos de diversas partes do mundo. Aos sábados, as excursões arqueológicas transformavam a própria Terra Santa em sala de aula, permitindo relacionar os textos bíblicos aos lugares onde os acontecimentos eram narrados. Por fim, os domingos eram reservados à celebração do Dia do Senhor e à contemplação da cidade de Jerusalém, sendo encerrado às 19h com a oração das Vésperas, seguida da meditação e da solene bênção com o Santíssimo Sacramento.

“A vivência na Terra Santa representou um verdadeiro divisor de águas na minha fé e na minha vocação franciscana. Estudar a Palavra de Deus exatamente nos lugares onde a história da salvação se encarnou transformou a exegese, antes predominantemente teórica, em uma experiência viva, concreta e profundamente pessoal”, reflete.

Complexidade cultural e a convivência cotidiana

Para o Frei, Habitar um território onde judeus, cristãos e muçulmanos compartilham o mesmo espaço evidenciou ainda mais a importância do diálogo e da escuta mútua. Ao mesmo tempo, ele também se mostrou impressionado pela devoção dos peregrinos nos lugares santos, especialmente no Santo Sepulcro, Getsêmani (Basílica da Agonia), Nazaré, Belém, Betânia e na Galileia. 

“Habitar um espaço onde essas identidades se cruzam a cada esquina revela que a Terra Santa é um verdadeiro mosaico vivo, no qual o diálogo respeitoso e a escuta do outro tornam-se urgentes e indispensáveis. Ver pessoas vindas de diferentes partes do mundo chorando, rezando e tocando aquelas pedras fez-me compreender que a geografia bíblica não é um museu do passado, mas um memorial vivo da Encarnação. A Terra Santa não é um lugar que se visita e se deixa para trás; ela permanece dentro de nós”, observa.

Outro aspecto que despertou seu apreço foi a missão desempenhada pela Custódia Franciscana da Terra Santa, presente na região há mais de 800 anos. Nesse contexto, o cuidado dedicado aos santuários e às chamadas “pedras vivas” (os cristãos que continuam habitando aquela terra) expandiu a sua compreensão sobre a grandeza do carisma franciscano. A convivência diária com frades e estudantes de dezenas de nacionalidades também ampliou sua percepção da universalidade da Igreja, ali representada por diferentes culturas e tradições reunidos em torno da mesma fé.

Preservação da identidade em meio à guerra

Durante sua permanência, Frei Marcos também acompanhou de perto a realidade vivida pelas populações afetadas pelos conflitos na região. Segundo ele, os efeitos da guerra ultrapassam os confrontos armados e atingem profundamente o cotidiano das famílias, provocando desemprego, restrições de mobilidade, insegurança, entre outras adversidades. 

Ele explica que os recentes conflitos alteraram profundamente o tecido social e a rotina da população na região. Um dos principais fatores é a paralisação econômica, provocada pelo fechamento de fronteiras e pelo cancelamento das peregrinações, que gera desemprego em larga escala entre as comunidades cristãs, historicamente dependentes do turismo religioso. Soma-se a ainda a restrição do direito de ir e vir, que isola cidades e vilarejos, separa famílias e transforma atividades simples, como ir à escola ou ao trabalho, em verdadeiros desafios.

“Mesmo sob o peso constante da guerra, a população local e as comunidades cristãs demonstram uma coragem admirável para permanecer em sua terra e preservar sua identidade. Ver essa capacidade de manter viva a esperança, mesmo em meio ao sofrimento, ensinou-me que o testemunho cristão na Terra Santa não se sustenta em discursos, mas em uma presença firme, paciente e perseverante. É uma fé que se manifesta no cotidiano, tornando-se um verdadeiro sinal de esperança para toda a Igreja”, complementa.

Segundo ele, essa realidade também se faz presente em outros países da região, como o Líbano, que continua sofrendo os efeitos de constantes ataques militares, e a Síria, que enfrenta um cenário de instabilidade política e social agravado pelas recentes mudanças de governo e pelas tensões nas fronteiras.

“Permanecer na terra onde Jesus viveu é, para eles, um ato diário de amor, fidelidade e esperança, mesmo quando a emigração parece oferecer um caminho mais fácil. Ser cristão naquela região, em meio às constantes tensões geopolíticas e pertencendo a uma comunidade numericamente tão pequena, é uma escolha consciente e profundamente corajosa. Essa permanência revela uma identidade profundamente enraizada na história da salvação e um compromisso admirável com as próprias raízes”, reflete.

“A fé desse povo está profundamente ligada à própria terra: eles rezam nos mesmos lugares e, muitas vezes, utilizam os mesmos idiomas litúrgicos de seus antepassados, mantendo acesa uma chama que atravessou os séculos. Recordo-me também da hospitalidade, que considero verdadeiramente sagrada. Mesmo enfrentando sérias dificuldades econômicas, muitas famílias abriam generosamente as portas de suas casas para acolher os peregrinos. Nesse gesto simples e profundamente humano, vi refletida a hospitalidade ensinada pelo próprio Cristo”, acrescenta.

“A vida e a Ressurreição sempre triunfam sobre a dor”

Nesse contexto, mesmo diante dos conflitos, os franciscanos permanecem junto ao povo, mantendo igrejas, conventos e santuários de portas abertas como espaços de acolhida, oração e esperança. Também são desenvolvidos trabalhos humanitários nos quais são compartilhados alimentos, medicamentos e auxílio às famílias mais vulneráveis, além de ações para preservar escolas e projetos sociais. 

“Contemplar essa realidade fez-me retornar ao Brasil com uma compreensão renovada da fé cristã. Aprendi que seguir Jesus não depende de circunstâncias favoráveis nem de estruturas confortáveis. Os cristãos da Terra Santa ensinaram-me, com a própria vida, que a fidelidade ao Evangelho se constrói na presença constante, na paciência diante da história e na confiança inabalável de que, ao final, a vida e a Ressurreição sempre triunfam sobre a dor”, compartilha.

Entre as lembranças, ele menciona ainda uma frase do Custódio da Terra Santa, Frei Francesco Lelpo, que sintetiza a esperança local: “A Terra Santa continua ensinando ao mundo que a Sexta-Feira Santa é real, mas o Domingo da Ressurreição tem a última palavra.” 

Frei Marcos também destaca a atuação do Patriarca Latino de Jerusalém, Cardeal Pierbattista Pizzaballa, cuja liderança tem sido marcada pelo empenho em garantir a chegada de ajuda humanitária e pelos constantes apelos em favor da paz, especialmente diante do sofrimento da população da Faixa de Gaza.

“A paz promovida pelos franciscanos não é apenas um discurso diplomático ou uma ideia abstrata. Trata-se de uma paz encarnada na vida cotidiana, construída por meio da presença constante, da proximidade com os que sofrem e do serviço prestado sem qualquer distinção de religião, nacionalidade ou origem. Permanecer onde muitos desejam partir, estender a mão sem perguntar a quem pertence quem sofre e continuar acreditando na força do Evangelho são, talvez, as formas mais autênticas de manter viva a esperança na Terra Santa”.

Por fim, ao refletir sobre os ensinamentos que a Terra Santa continua oferecendo à Igreja e à Família Franciscana, ele destaca que a região permanece como uma verdadeira escola espiritual na qual a fé cristã nasce da concretude da Encarnação. 

“Para concluir, recordo o encontro de Jesus com a mulher samaritana, junto ao poço de Jacó (Jo 4). A narrativa fala de um povo marcado por divisões, sede e esperança, mas aponta, acima de tudo, para a água viva oferecida por Cristo. Assim também permanece a Terra Santa: uma terra marcada por feridas, mas continuamente chamada a ser fonte de reconciliação, paz e vida nova para toda a humanidade”, finaliza. 


Guilherme Coutinho