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Francisco antes de “São Francisco”

28/09/2026

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Francisco antes de “São Francisco”

Quando nos preparamos para celebrar São Francisco de Assis, muitas vezes somos levados a olhar para o santo já formado: o homem da pobreza, fraternidade, paz e do cuidado com a criação. Esse olhar, porém, pode fazer esquecer que a santidade de Francisco foi fruto de um longo percurso, marcado por sonhos, conflitos, incertezas e escolhas.

Antes de ser conhecido como o Poverello de Assis, Francisco foi um jovem que sonhava em ser reconhecido. Nascido entre 1181 e 1182, em Assis, na região da Úmbria, Giovanni di Pietro di Bernardone cresceu em uma família economicamente confortável. Seu pai, Pietro Bernardone, era um próspero comerciante de tecidos, com relações comerciais que lhe garantiam uma posição respeitável na sociedade local. 

Nesse ambiente, Francisco aprendeu o ofício do pai, conheceu a cultura francesa (através das raízes da sua mãe, Pica Bourlemont) e circulou entre os jovens de Assis. Os primeiros relatos sobre sua juventude apresentam um rapaz alegre, generoso e apreciado pelos companheiros, mas também profundamente inserido nos valores de seu tempo. Francisco desejava prestígio e sonhava com a vida de cavaleiro, um horizonte que, naquele contexto, representava reconhecimento e possibilidade de ascensão social.

Uma guerra entre a sua cidade natal contra a cidade vizinha de Perúgia, porém, faria com que o projeto pessoal de Francisco começasse a perder o brilho. Após alistar-se no exército local, foi capturado e levado como prisioneiro, permanecendo cerca de um ano longe de Assis. Nesse contexto, ao retornar à cidade, já não parecia encontrar o mesmo entusiasmo no projeto de vida que antes o movia.

Os primeiros sonhos começam a perder o sentido

A mudança, contudo, não aconteceu de uma vez. Francisco ainda procuraria outros caminhos, alimentaria expectativas e precisaria atravessar experiências de incerteza. A conversão seria menos um processo no qual antigas certezas foram, de forma gradual, substituídas por uma pergunta mais profunda: que vida valeria a pena ser vivida?

Foi nesse período que começaram a surgir experiências que o levariam a uma mudança radical: passou a dedicar mais tempo à oração, a frequentar igrejas e a buscar respostas para uma inquietação que já não encontrava espaços nos antigos sonhos. 

Entre essas experiências, uma seria particularmente decisiva: o encontro com um leproso. Em seu Testamento, Francisco recordaria esse momento como o início de sua transformação. Diante de alguém que a sociedade preferia manter à distância, ele fez justamente o movimento contrário: aproximou-se, confrontando uma realidade que antes lhe provocara repulsa. 

Após o episódio, Francisco começou a perceber que o caminho que procurava poderia estar justamente onde antes “não procurava”. Em São Damião, diante do Crucificado, essa busca ganhou uma direção decisiva: a vida que começava a nascer nele seria construída a partir do seguimento de Cristo.

A escolha pela pobreza

Em meio à nova realidade que vivia, Francisco começou a mudar concretamente sua relação com o dinheiro e com os bens de sua família. Um dos episódios mais conhecidos de sua juventude ocorreu justamente quando vendeu tecidos pertencentes ao pai e destinou o dinheiro à reconstrução de uma “igrejinha de São Damião”. A atitude provocou a reação de Pietro Bernardone e desencadeou um conflito que ultrapassaria o âmbito familiar.

Em ensaio publicado pela revista A Terra é Redonda, o professor Ricardo Evandro S. Martins, da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Pará (UFPA), analisa esse episódio a partir do processo movido por Pedro de Bernardone contra o filho. 

Depois de ser levado diante do bispo, Francisco devolveu ao pai o dinheiro e, segundo os relatos biográficos, também as roupas que havia recebido dele. A cena se tornaria uma das mais conhecidas de sua trajetória. Diante dos presentes, ele declarou: “Pai nosso que estais nos céus, não pai Pedro Bernardone”, rompendo simbolicamente com aquilo que até então definia sua condição familiar e social.

“Como Jesus, no limite da sua humanidade, Francisco se opõe a este mundo. Opõe sua forma de viver que, mais tarde, virá a ser a regula de sua Ordem dos frades menores. Renuncia aos bens terrenos, porque, como diz Francisco no seu Fragmentos de outra regra não bulada: ‘nada nos pertence’, ‘atribuímos todos os bens ao Senhor Deus altíssimo e sumo e reconheçamos que todos os bens são dele’. E isto está melhor definido na sua Regra Bulada, quando orienta aos frades menores: ‘Os irmãos não se apropriem de nada, nem de casa, nem de lugar, nem de coisa alguma’”, explica o professor.

“Seu permanente estado de necessidade poderia gerar uma “exceção à exceção” das medidas de emergência pelas quais o estado de direito governa nossas vidas, ao ponto de fazer deste viver algo impossível de se sustentar sem sua forma própria, impossível de ser separada da vida por qualquer outra medida ética, jurídica, por decreto ou lei. Pois seu ethos está unido à sua ação. Forma unida à vida. Francisco é um exemplo de vida inseparável de sua forma, a ponto de qualquer outra forma, ou regra heterônoma, tornarem-se desnecessárias, ao menos quanto ao seu uso comum, jurídico, patrimonial, inquisitivo, etc”, complementa Martins. 

Um jovem ainda em transformação

Apesar de parecer curta, a transformação do jovem que sonhava com as glórias da cavalaria no homem que caminharia entre os pobres de Assis foi um longo processo. Francisco não abandonou simplesmente uma vida para assumir outra; precisou descobrir, pouco a pouco, que aquilo que considerava sucesso já não correspondia aos seus novos anseios.

Em matéria publicada pela BBC Brasil, o pesquisador de hagiologias Thiago Maerki, da Universidade Federal de São Paulo e associado da Hagiography Society, observa que Francisco pode ser compreendido como um homem que questionou a relação entre riqueza, poder e vida cristã.

“Alguns pesquisadores dizem que ele foi um reformador sem sair da Igreja, pois questionava a riqueza e via a pobreza como algo significativo.” 

Para Maerki, a preocupação de Francisco com aqueles que sofriam também ajuda a explicar sua permanência no imaginário contemporâneo: “Ele falava isso na Idade Média, criticando a miséria, o poder e o status do clero que não ligava para os que necessitavam. Foi um santo extremamente complexo.”

No mesmo artigo, essa dimensão também é destacada pelo Frei Marcelo Toyansk Guimarães, da Comissão Justiça, Paz e Integridade da Criação dos Frades Capuchinhos e assessor da Comissão Justiça e Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil: “Ele era uma pessoa antissistema, uma pessoa desconcertante. Estava sempre ao lado dos pobres, mas conseguia dialogar e trazer essa vida para o seio da Igreja”, observa.

Em vista desses acontecimentos, é possível resumir, em outras palavras, que a busca por reconhecimento seria substituída por outra forma de grandeza, e a ideia de conquista ganharia uma direção diferente. É a partir desse jovem inquieto, ainda tentando compreender o que fazer da própria vida, que começa a se delinear a história do Poverello de Assis.

Este texto integra uma série de matérias e artigos especiais preparados para a semana que antecede a celebração de São Francisco de Assis, em 4 de outubro. Ao longo dos próximos dias, a série propõe diferentes olhares sobre a vida, a espiritualidade e o legado do santo, percorrendo aspectos de sua trajetória que ajudam a compreender a atualidade de sua mensagem.


Guilherme Coutinho