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CF 2026: acesso à terra e os desafios estruturais da moradia no Brasil

20/03/2026

Notícias

A realidade da moradia no Brasil é marcada por contrastes estruturais que vão muito além da falta de habitação. Nesse contexto, para o padre Antônio Naves, assessor arquidiocesano da Campanha da Fraternidade 2026 e atuante na Pastoral da Moradia, o principal desafio está na forma como o território e os recursos são distribuídos no país.

“Existe uma contradição muito grande. O Brasil tem uma enorme extensão territorial e, no entanto, a maior parte da população vive concentrada em uma parcela muito pequena desse espaço”, afirma. Segundo ele, a ausência de uma redistribuição demográfica mais equilibrada está diretamente ligada à falta de avanços consistentes em duas frentes históricas: a reforma agrária e a reforma urbana. 

“Quando olhamos para a escala Gini (estatística utilizada para quantificar a desigualdade de renda ou distribuição de riqueza, com índices de 0 a 100), encontramos uma taxa de 0,87 no Brasil, o que revela uma distribuição profundamente desigual dos bens”, explica. Nesse cenário, discutir moradia implica necessariamente discutir o acesso à terra e os mecanismos que perpetuam sua concentração.

Além disso, fatores culturais e históricos também dificultam que parte da população reconheça a existência das desigualdades, influenciada por uma herança marcada por séculos de escravidão e por narrativas que tendem a minimizar essas questões. “Há uma dificuldade de compreender a própria realidade e de reconhecer as injustiças presentes no país. Isso impacta diretamente na forma como a sociedade reage ao problema da moradia”, observa.

Diante desse quadro, um dos pontos centrais para mudar a realidade, é a organização social. “O desafio é ajudar o povo a compreender sua própria história, sua formação, e a partir disso se organizar para exigir seus direitos. Existe uma expressão que já se tornou comum: a casa é a porta de entrada para todos os outros direitos.”

A análise também aponta caminhos práticos, destacando o papel das comunidades na leitura concreta da realidade local. Isso implica ir além do entorno imediato da paróquia e identificar situações de moradia precária no próprio bairro, promovendo, a partir daí, iniciativas de cobrança e participação social. Nesse processo, ele ressalta ainda a importância de acompanhar e participar das decisões sobre o orçamento público, como forma de garantir a efetiva implementação de políticas habitacionais.

Ao analisar o cenário mais amplo, o assessor arquidiocesano identifica avanços e retrocessos nas últimas décadas, destacando, entre os progressos, a organização de movimentos populares e a criação de leis que garantem o direito à moradia, especialmente após a Constituição de 1988. No entanto, ressalta que esses direitos ainda não são plenamente conhecidos nem efetivados. 

“A Igreja precisa estar onde estão as situações de precariedade: nas favelas, nos cortiços, nos lugares onde a moradia é mais frágil. Isso faz parte da nossa missão. Temos boas leis, mas é preciso que a população conheça e exija sua aplicação”, complementa.

Por outro lado, também são mencionadas interrupções em processos de participação social, como o enfraquecimento de experiências do orçamento participativo. “Vivemos um cenário de avanços e retrocessos. O momento é desafiador, mas há caminhos possíveis a partir da organização popular”, avalia.

Um exemplo concreto dessas contradições aparecem nas grandes cidades, a exemplo de São Paulo, local onde há uma demanda significativa por moradia, ao mesmo tempo em que existe um grande número de imóveis sem função social. 

“Temos necessidade de centenas de milhares de moradias, mas também muitos imóveis vazios que poderiam ser aproveitados. Isso mostra que o problema não é apenas de quantidade, mas de gestão e de acesso”, conclui.


Guilherme Coutinho