Notícias - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Carta do Ministro provincial para a Solenidade de São Francisco

29/09/2026

Notícias

Caros Irmãos e Irmãs, o Senhor vos dê a Paz! 

No caminhar das alegrias e comemorações desse Ano Jubilar Franciscano, eis que chegamos ao seu ponto alto, momento de celebrar no espírito da fraternidade a Solenidade de nosso Seráfico Pai São Francisco de Assis. Os 800 anos da tarde do dia três de outubro se aproximam, momento em que evocaremos com singular atenção os instantes derradeiros daquele que, abraçado nessa terra pelo Altíssimo, saltou com Ele para o seu transitus, para a sua passagem. Nunca é demais recordar que aquele que viveu a encarnação profunda do Evangelho em seu próprio ser já não teme a morte, mas, celebrando todo o seu viver em Cristo, acolhe a própria vida eterna que já nele fulgurava. É com o coração atento ao mistério pascal do Senhor que nos aproximamos para também nós podermos colher bons frutos nas celebrações de São Francisco neste especial ano de 2026.

A mensagem cristã encontra seu centro irradiante na Páscoa de nosso Senhor. Por meio de sua vida entregue, de seu Evangelho e do anúncio do Deus que é Amor, Jesus oferece a própria vida pela salvação do mundo. Num mundo marcado por tantas injustiças e maldades, Ele nos aponta para a instauração do Reino de Deus, para um projeto restaurador que transforma corações e estruturas através do mandamento supremo do amor, da bondade que se faz atitude e do serviço que se faz entrega. Com sua vida e mensagem, Jesus Cristo desvela no tempo e na história o mais próprio da nossa identidade humana, que tantas vezes parece confusa e perdida.

Tentaram silenciar sua mensagem pregando-o numa Cruz, julgando que ali terminaria sua mensagem; mas Ele ressuscita, pois a morte jamais será maior do que o Amor! Ele se levanta do túmulo e continua a se levantar, hoje, em cada fiel que comunga desse mistério pascal: a ressurreição é vida nova que não se esgota, é fonte inesgotável de esperança! É convite universal, dirigido a toda a humanidade, para que também ela faça a experiência do mistério de uma vida plena que brota do Senhor. Cristo, portanto, permanece vivo nos corações de todos os que hão de manter sua mensagem viva e ressuscitada nos tempos sem fim!

Unido a esse mistério pascal do Senhor, Francisco de Assis é, ele mesmo, um homem pascal — um homem que morreu para si e ressuscitou para o Evangelho. Na mensagem da Paz, núcleo central do anúncio do Ressuscitado, Francisco se faz “Arauto”: arauto do Grande Rei, arauto de um Deus que se fez pobre para enriquecer a todos com os dons da humildade e do serviço. É o homem todo da Paz — paz consigo mesmo, paz com os irmãos e com toda a criação! Assim, o sonho e a obra de Francisco também não morrem. Sua mensagem não se encerra com sua vida terrena, pois participa da própria lógica pascal que a inspira, pois aquilo que é entregue por amor não se perde, floresce! Íntimo apaixonado de Jesus Cristo, a ponto de configurar-se a Ele até nas próprias chagas, celebramos 800 anos de uma tradução ímpar do que significa ser cristão. Francisco é um itinerário para além de qualquer livro ou texto; ele permanece como uma voz sempre eloquente para a humanidade e para o mundo.

O carisma franciscano não é ideologia passageira nem crônica historiográfica. Nosso carisma é mensagem portadora de Jesus Cristo e do seu Evangelho. É mensagem que não pode envelhecer, ser posta de lado ou esquecida. Em cada tempo e em cada pessoa, nosso carisma se apresenta com o perspicaz e vigoroso sopro do Espírito, porque desde Francisco, passando por nós e se projetando à eternidade, somos continuamente comandados a sermos construtores da Igreja e do Reino. Missão esta que é profícua quando se apresenta jovial e assertiva, pois os arautos da Paz e do Bem foram atualíssimos no tempo de Jesus, no tempo de Francisco e também devem sê-lo no chão do nosso presente. Não vivemos um carisma que se articula como ponto de chegada, mas que se estrutura como contínuo impulso de quem deve sempre pôr-se a caminho, de quem na senda do Evangelho se deixa iluminar pela verdade e se deixa moldar pela vida. A novidade de cada tempo e cada momento é dom d’Aquele que faz brotar rios de graças sobre seus filhos e filhas, pois o Altíssimo que não abandonou Francisco também não nos deixará sós!

Algo muito importante deve brilhar em nossas celebrações: não a ideia de que chegamos ao fim de um percurso, como quem depõe as armas por já ter cumprido sua parte, mas sim a certeza viva de que podemos e somos chamados a seguir ainda mais entusiasmados, com o coração mais ardente e os passos mais firmes, no caminhar que há de prosseguir, pois é postura autêntica da celebração cristã não o acabamento, mas o fortalecimento da chama que nos impulsiona a continuarmos colhendo e recolhendo da vida e da realidade o que, com Deus e com a fraternidade, celebramos.

Celebramos 800 anos daquele que, mesmo tendo alcançado a perfeição evangélica, nos deixou como testamento e mandato estas palavras que atravessam os séculos: “Recomecemos, irmãos, pois até agora pouco ou nada fizemos!” Palavras de quem soube entender o inesgotável “construir-se” do Reino de Deus, de quem foi todo doação para que nada em sua vida ficasse fora do amor do Altíssimo. Por isso, meu irmão e minha irmã, somos herdeiros de um tesouro que não se guarda em cofres, mas de um sonho que tem valor quando se torna verbo, desejoso de ser sonhado e vivido! O nosso tempo presente, tão confuso e tumultuado, não pode germinar em nós o vício da indiferença e o comodismo conformista. O dom dado como herança para o “recomeço” que não envelhece, que não se acomoda e que jamais tem seu fim é trama de vitalidade para que, em cada instante da história, possamos ser agentes esperançosos da luz de um mundo digno do sonho de Deus para toda a Criação.

O sonho de Francisco continua vivo — e continuará vivo enquanto houver corações dispostos a recomeçar — porque o Evangelho que o inspirou continua sendo, hoje como ontem, urgente e necessário. As respostas para os dilemas mais profundos deste século XXI encontram-se na própria herança evangélica: um modo de vida marcado pela simplicidade que liberta e pela gratidão que reconhece tudo como dom; pela instauração de uma fraternidade que viva, em plenitude, o modo de ser sinodal, caminhando junta e escutando-se mutuamente; pelo cuidado que dignifica os mais necessitados e excluídos, devolvendo-lhes a dignidade quando o mundo tantas vezes lhes nega; e pela luta desarmante rumo a uma paz que seja concreta, duradoura e tecida a partir dos gestos mais simples do cotidiano. Por tudo e tanto, para nós, Família Franciscana, esses 800 anos devem se compreender como envio esperançoso de uma herança desejosa por sempre frutificar!

Que nossas celebrações e nossos festejos sejam verdadeiros tempos de graça, um “kairós” pascal, que façam jus à vida de Francisco! Que a alegria que há de transbordar em nossos hinos e preces não se esgote nesta solenidade, mas se converta em fermento para todo o nosso viver e nossos espaços: nas fraternidades, nas missões, nas comunidades, nos colégios, nos serviços, em cada canto e lugar sejamos luz profética de um tempo novo. Como irmão entre irmãos e irmãs, deixo-vos minha oração: que o Senhor, autor de todo bem, renove em cada um de nós a alegria de sermos chamados a este mesmo sonho, e que São Francisco, nosso Pai e Irmão, interceda para que jamais nos falte coragem de recomeçar. Sigamos, pois, unidos e animados, certos de que há ainda muito por ser escrito da nossa história franciscana! A todos e a todas, com imensa alegria e gratidão, desejo uma feliz Solenidade de São Francisco. Que o Senhor vos dê a paz!

Fraternalmente,
Frei Paulo Roberto Pereira, OFM
Ministro provincial