Custódia Imaculada Mãe de Deus de Angola – Primeiro aniversário de criação
14/10/2026

O Senhor vos dê a Paz.
Com o coração agradecido, saúdo a todos no dia em que recordamos o primeiro aniversário de criação da Custódia Imaculada Mãe de Deus, de Angola. O decreto de criação da nova entidade da Ordem dos Frades Menores, lido em solene celebração, não se deixa definir apenas como um ato de ofício do Ministro Geral, senão como o reconhecimento do vigor do ideal franciscano, tenazmente cultivado por tantos irmãos a partir de Angola.
Entre as motivações e escolhas do Movimento Franciscano, o espírito missionário sempre se fez notar. Aliás, antes de ser uma característica da forma de vida franciscana, o mandato missionário nasceu com o Movimento de Jesus e, desde suas raízes, a Igreja busca atender ao apelo do Ressuscitado: “Ide por todo o mundo” (Cf. Mc 16,15). Fiéis ao Espírito do Senhor e sua santa operação, desde as primeiras horas, Francisco e seus irmãos se esmeraram na tarefa de “encher o mundo com o Evangelho de Cristo”. Há um pouco mais de 35 anos a Ordem Franciscana foi convidada a fazer-se presente em Angola. Fiel à sua vocação missionária, em 1990, a Província da Imaculada destinou um grupo de 03 irmãos às terras banhadas pelo rio Kwanza. Pelos caminhos deste pujante país os filhos de São Francisco foram fraternalmente acolhidos; se alimentaram de memória e de sonhos, de esperança e alegria; encontraram terreno fértil e fincaram raízes; floresceram e puderam oferecer os frutos da Paz e do Bem. Dez anos mais tarde, por feliz coincidência, 03 irmãos angolanos puderam ser acolhidos para o período do noviciado. De lá para cá, a bondade do Senhor e a força atrativa do ideal franciscano fizeram nascer em muitos corações o desejo de oferecer passos e propósitos no seguimento de Jesus Cristo, a partir do caminho inaugurado por Francisco de Assis e seus companheiros há 800 anos.
Amadurecimento carismático
Nos últimos anos, os irmãos em Angola foram instados a construir caminhos de amadurecimento institucional. No período que antecedeu a criação da Custódia foram alcançados grandes progressos na definição do Programa Formativo e do Plano de Evangelização; na regularização de terrenos e outras propriedades; na constituição da personalidade jurídica da Ordem junto aos organismos civis e eclesiásticos; no esclarecimento das relações entre a Custódia, a Província e a Ordem. A primeira Assembleia Anual da nova Custódia reconheceu tais avanços e, ao mesmo tempo, levou em conta que o amadurecimento institucional é um desafio permanente. Na referida Assembleia, os irmãos propuseram um novo desafio, qual seja, envidar esforços para promover o constante amadurecimento carismático.
A definição de lugares e atividades a serem assumidas, a forma de sustento da vida e da missão, a maneira de organizar as casas e fraternidades, deverão levar em conta o crescimento numérico dos irmãos que, de acordo com as projeções, seguirá a proporção de, ao menos, 08 novos irmãos a cada ano pelos próximos 10 anos; dessa forma, pode-se esperar para o ano de 2037 uma entidade com quase 200 irmãos. Além de todas estas considerações, não deve ser esquecida a principal plataforma a partir da qual se evidenciará o modo franciscano de testemunhar o evangelho a partir da Custódia angolana: a consciência de que somos “irmãos menores em missão”.
Acolhimento e cuidado vocacional
Desde os primeiros anos da presença dos franciscanos em Angola, o Senhor da messe fez chegar até nós muitas vocações. O reconhecimento do vigor vocacional das terras angolanas reforça a confiança na providência divina, destaca a força atrativa do carisma franciscano e, ao mesmo tempo, reafirma o compromisso de receber fraternalmente aqueles que se sentem chamados a trilhar as sendas do Movimento Franciscano. Deste modo, reafirma-se o zeloso e fraterno preceito de que se deve acolher a todos os vocacionados; todos, quantos a Custódia puder oferecer as melhores condições de formação, ou seja, equipes formadoras robustas, bem como estruturas espaciais adequadas. Sob este aspecto, nos próximos anos, a Custódia deverá priorizar a formação de formadores e a configuração de um itinerário formativo conforme as exigências do tempo e urgências da evangelização.
Uma Custódia em Angola
Quis a bondade do Senhor que a criação da Custódia coincidisse com as comemorações do cinquentenário da conquista da autonomia política de Angola, celebrado no ano passado. A perspectiva de construção de uma sociedade capaz de curar as feridas da sua história recente, junta-se ao desejo de reencontrar-se com seu passado que encerra saberes e tradições extraordinárias. O continente africano, berço da espécie humana, atualmente vive diversas experiências de afirmação da sua identidade. A autonomia política é antes uma garantia da autonomia cultural. O reencontro com o passado inaugura perspectivas novas para os dias que virão. Este criativo movimento engloba todas as vertentes da vida do povo, inclusive a religião. O diálogo entre o cristianismo e as religiões tradicionais deve ser, cada vez mais, aprimorado. Os saberes tradicionais, que nem sempre se deixam apreender pela academia, sejam conhecidos e considerados. Da mesma maneira, o poder tradicional, a forma de organização das sociedades, desafiadas pelo crescimento das periferias das grandes cidades, precisa ser entendido e até ressignificado, inclusive no âmbito das Fraternidades.
“De Cabinda ao Cunene, um só povo, uma só nação” o anseio por unidade, expresso nesta frase do hino alusivo ao mencionado cinquentenário, toca também a nós franciscanos. Da mesma forma, auguramos dias onde reine e a justiça e o direito para todos. Destarte, a Custódia nasceu com signo de um tempo alvissareiro. O compromisso com a justiça, com a promoção da paz e defesa da integridade da criação (JPIC) deverá ocupar lugar de destaque entre a missão da nova entidade.
Há muitas Angolas num mesmo país; a proveniência e costumes dos confrades atestam isso. As Fraternidades e cada um dos irmãos são convidadas a extrapolar os conceitos antropológicos; eles são essenciais ao debate, mas não o encerram. É necessário estudar e ir além do estudo das etnias com seus territórios e suas próprias formas de linguagem, cultura e tradições; será preciso extrapolar as discussões sócio-políticas e das relações de poder. Sendo uma Fraternidade composta por homens consagrados; tendo por herança e opção a forma franciscana de ver o mundo; comprometidos com o anúncio do Evangelho e desejosos da plenitude da vida nos céus, devemos nos perguntar: como viver a fidelidade ao projeto de Deus em terras de Angola? Qual o nosso lugar na Igreja e na sociedade de Angola?
Saudação final
A Custódia da Imaculada Mãe de Deus de Angola nasceu no vigoroso período em que a Ordem Franciscana celebra os Jubileus de sua origem; tempo marcado pela fecundidade do primeiro amor e pelo revigoramento do desejo de testemunhar o Evangelho de Jesus, como fizeram Francisco, Clara e os primeiros companheiros e companheiras. Que, a partir das terras angolanas, os irmãos possam oferecer sua original contribuição para que a Ordem, bem como cada frade presente no mundo, possa viver e testemunhar, com alegria e profecia, a vida de “irmãos menores em missão”.
A bondade do Senhor nos agraciou com o dom da vocação franciscana. O estabelecimento de estruturas de organização não seja apenas uma medida administrativa, mas revele a criatividade e o empenho dos irmãos em viver e espalhar a mensagem da paz e do bem com determinação e profecia. A gratidão pela possibilidade de construir laços de fraternidade ilumine nossos passos no seguimento do Evangelho de Jesus; sua Mãe, Aparecida e Muxima, interceda por cada um de nós.
Paz e Bem.
Frei Paulo Pereira, Ministro.


