Frei Medella: Relação com Deus a partir de uma ideia de desafio
11/06/2026

“Santo Antônio, o português que conquistou o mundo” foi o tema escolhido para as reflexões desta quarta-feira (10) no Santuário e Convento São Francisco, no centro de São Paulo. A escolha presta homenagem ao Dia de Portugal, a terra onde nasceu Santo Antônio.
O pároco Frei Gustavo Medella presidiu a Celebração Eucarística, às 15 horas, e iniciou a sua reflexão a partir da 1ª Leitura (1Rs 18, 20-39), quando o profeta Elias convoca o povo ao Monte Carmelo para provar que o Senhor é o verdadeiro Deus. “E hoje traz um gênero literário que prende muito a atenção e está na essência de muito da literatura, da ficção e até mesmo dando a tônica da convivência humana: o gênero do desafio. Aqui, no caso, o desafio com Deus. Os adoradores de Baal e outros deuses e os adoradores do Deus único. Ambos preparam o novilho para o sacrifício e colocam sob a lenha apagada e aquele cuja a lenha for acesa após a invocação do seu Deus será o vencedor do desafio. E eis que vencem o desafio os seguidores do Deus único”, contou.
O celebrante lembrou que o desafio é algo que nos chama a atenção, nos prende a curiosidade, como as novelas, os filmes, quase todos são construídos em torno de dramas e dilemas que trazem, de alguma forma, algum desafio. “Até mesmo na história dos santos, a narração das legendas traz episódios marcados por esta característica de desafio. Por exemplo, Santo Antônio diante do grupo que negava a presença de Cristo na Eucaristia e, por isso, não agia com tanta reverência em relação ao Santíssimo Corpo do Senhor, propôs um desafio envolvendo a mula de um homem que era herege. E disse o seguinte: deixe a mula sem comer e depois coloque de um lado o Santíssimo Sacramento e do outro um feixe de capim e observe onde a mula vai primeiro. E a mula, miraculosamente, fazendo Santo Antônio vencer o desafio, vai diante do Santíssimo Sacramento e ainda dobra os joelhos. Os desafios, muitas vezes, também na convivência até entre os mais íntimos, acabam entrando um pouco nesse jogo, e vencer o desafio mexe um pouco com nosso brio, parece que alimenta o ego, nos confirma, faz algum bem de certa maneira”, explicou.
No entanto, frisou o frade, quando aparece Jesus Cristo e a sua proposta do Reino tão acessível, tão próxima, tão amorosa e acolhedora, ele faz cair por terra esta necessidade de pensarmos a nossa relação com Deus a partir de uma ideia de desafio. “Eu desafio e Deus me honra, eu proponho e ele me atende de maneira incisiva. Que ameaça, que poder, que grandeza nos oferece o homem de braços abertos rasgados em cima da cruz, a não ser esta ousadia de Deus de se fazer um de nós e suportar todos os desafios sem responder com humildade. ‘Se és o Filho de Deus desce desta cruz, manda que os exércitos venham te proteger’. Jesus não cedeu para mostrar que fazer-se próximo, colocar-se a serviço, não se importar em ser o último, vencer a si mesmo e, às vezes, fazer até sacrifícios em prol do bem comum, é o maior desafio que o ser humano pode vencer. Que o Senhor nos ajude a sermos estes que não ficam em busca de desafios, de desafiar os outros, ou de serem desafiados, mas se coloquem na dinâmica da gratuidade”, exortou.
“Creio que Santo Antônio soube se colocar nesse caminho com toda a capacidade intelectual, com toda preparação acadêmica, com toda competência linguística, fez o que era necessário fazer, desde o trabalho da cozinha, o desejo de ser um missionário, a atenção aos pobres, a escuta das pessoas. Ninguém se sentiu desafiado pela presença de Santo Antônio nem intimidado porque ele se fez gratuidade com aqueles que o Senhor colocava no seu caminho”, completou Frei Medella.
Hoje, o tema da nossa reflexão é “Santo Antônio, o português que conquistou o mundo inteiro”, e também o santo das torcidas. E concluiu com um trecho do livro de Edson Veiga: “Santo Antônio de Pádua, o homem que tomou para si o nome da cidade e rendeu a ela fama mundial, não nasceu Antônio, muito menos paduano. Por Batismo, Santo Antônio se chamava Fernando. E nasceu em Lisboa, que na época ainda não era a capital de Portugal”.

Diretor da casa de Portugal lembra que devoção a Santo Antônio veio com os portugueses
No mesmo dia, o Momento Devocional teve a presença de Antônio Freixo, diretor de Intercâmbio com Associações Luso Brasileiras, que falou da presença portuguesa no Brasil e da data que hoje é celebrada com orgulho pela comunidade luso brasileira: o Dia de Portugal.
O comentário inicial da celebração definiu o encontro: “Hoje celebramos Santo Antônio, um português que nasceu em Lisboa, atravessou fronteiras com sua palavra e conquistou o mundo não pela força, mas pela fé, pela inteligência e pela compaixão. Ele se tornou, ao longo dos séculos, um amigo próximo do povo, alguém em quem se confia de coração aberto. Que Santo Antônio de Pádua nos ajude a sermos pessoas de fé viva, coração generoso e mãos abertas para ajudar quem precisa. Assim, mais do que admiradores do santo, seremos verdadeiros imitadores de seu amor a Cristo e ao próximo”.
Segundo Freixo, o dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas é feriado nacional e homenageia o país, a língua portuguesa, o poeta Luís Vaz de Camões (falecido em 1580) e a diáspora lusa.
Trata-se de um momento de exaltação da cultura, história e identidade de Portugal. “A Casa de Portugal dispõe de um patrimônio que ressalta a tradição e a preservação dos valores históricos, culturais e a presença dos portugueses em São Paulo”, lembrou o palestrante. Segundo ele, os imigrantes trouxeram pouca bagagem quando vieram para o Brasil, mas trouxeram a fé. “Especialmente a fé e a devoção em Santo Antônio”, acrescentou. Exemplo disso, segundo ele, são as muitas igrejas em todo o país que distribuem o Pãozinho de Santo Antônio. Emocionado, ele contou quando começou a trabalhar no Centro de São Paulo, em 1966, vinha buscar o Pãozinho nesta igreja franciscana para levar à sua mãe. Em 2002, ingressou na Diretoria da Casa de Portugal e do Conselho da Comunidade Luso-brasileira do Estado de São Paulo e não saiu mais.
Freixo lembrou que Santo Antônio fez 53 milagres, mas escolheu para falar do milagre dos peixes. Ao ver que os hereges locais se recusavam a ouvir a Palavra de Deus, o santo foi até a praia do Mar Adriático. Ele clamou aos peixes, que emergiram em multidão e alinharam-se com a cabeça para fora da água para escutá-lo.
No encerramento, Frei Medella agradeceu a Antônio Freixo por partilhar e mostrar bem-querer e espírito de confraternização.
Equipe de Comunicação do Santuário e Convento São Francisco












