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Ana Elisa: “O conhecimento só faz sentido quando ele estiver a serviço da dignidade humana”

10/06/2026

Notícias

Ana Elisa: "O conhecimento só faz sentido quando ele estiver a serviço da dignidade humana"

“Antônio não usava sua sabedoria para conquistar prestígio, mas para fazer com que a justiça de Deus alcançasse aqueles que sofriam injustiças humanas”, anunciou Frei Cristian Lopes na apresentação do Momento Devocional, às 18 horas desta terça (9/6), no Santuário e Convento São Francisco.

Depois dos cantos e orações, foi feita a leitura do Livro do Profeta Isaías (Is 58,1-9a), dando uma dimensão do tema: “Assim fala o Senhor Deus: “Grita forte, sem cessar, levanta a voz como trombeta e denuncia os crimes do meu povo e os pecados da casa de Jacó”. Em seguida, um trecho dos Sermões de Pe. Antônio Vieira, foi lido como um raio: “Os homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros”.

O momento esperado chegou com Ana Elisa Bechara, diretora da Faculdade de Direito da USP, que abordou o tema: “Por uma sociedade pautada na justiça e no Direito”. Este dia de celebrações contemplamos Santo Antônio de Pádua como defensor da justiça e do direito. Ana Elisa é a segunda mulher a dirigir a instituição em 200 anos de história.

CONFIRA NA ÍNTEGRA A PALESTRA!

POR UMA SOCIEDADE COM JUSTIÇA E DIREITO

Boa noite a todas e todos! Paz e bem!

Gostaria, antes de qualquer palavra, de agradecer ao Santuário São Francisco pelo convite e pela oportunidade de estar aqui nesta noite. É uma alegria especial participar de um encontro que reúne pessoas movidas pela fé, pela esperança e pelo compromisso com o próximo.

Ao longo da minha vida acadêmica, tive o privilégio de falar para estudantes, professores, magistrados, advogados e profissionais das mais diversas áreas. Mas confesso, as conversas mais importantes que podemos ter não acontecem necessariamente nas universidades ou nos tribunais. Acontecem em espaços como este, onde nos reunimos para refletir sobre quem somos, sobre a sociedade que estamos construindo e sobre o mundo que desejamos deixar para as próximas gerações.

E confesso que falar sobre justiça neste lugar possui um significado muito especial. Porque o Santuário São Francisco não é apenas um espaço religioso. É um espaço carregado de valores e de uma tradição que, há séculos, convida as pessoas a refletirem sobre fraternidade, solidariedade e cuidado com o próximo. E, para mim, essa conexão possui um significado ainda mais particular.

A Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, que em breve celebrará seu bicentenário, também carrega uma herança franciscana. Não apenas porque suas Arcadas foram construídas sobre o antigo Convento de São Francisco, cujas paredes guardam parte da memória da própria cidade de São Paulo. Mas também porque sua história foi marcada por pessoas que compreenderam o conhecimento como instrumento de emancipação humana. Compreenderam que o conhecimento só faz sentido quando está a serviço da dignidade humana.

E talvez isso nos lembre de uma verdade simples: Instituições sobrevivem quando conseguem preservar valores que transcendem seu tempo. É justamente sobre alguns desses valores que gostaria de refletir nesta noite.

O tema do nosso encontro é “Por uma sociedade com justiça e Direito”.

E eu gostaria de começar com uma pergunta aparentemente simples. Quando ouvimos a palavra “justiça”, no que pensamos? Muitas pessoas pensam imediatamente em juízes. Outras pensam em tribunais. Outras pensam em leis. Mas será que a justiça começa nos tribunais? Eu diria que ela começa muito antes. A justiça começa quando uma criança aprende a dividir. Ela começa quando alguém decide dizer a verdade, mesmo quando mentir seria mais conveniente. Ela começa quando escolhemos respeitar alguém que pensa de maneira completamente diferente da nossa. A justiça começa quando somos capazes de reconhecer humanidade em quem não pertence ao nosso círculo, à nossa comunidade ou ao nosso grupo.

Percebam que, antes de ser um conceito técnico do Direito, a justiça é uma experiência humana. Ela nasce das relações.  Ela nasce da consciência de que ninguém constrói sua vida sozinho.

E aqui encontramos uma das grandes lições de São Francisco de Assis. São Francisco viveu em uma época marcada por desigualdades profundas, por conflitos e por exclusões. Sua resposta não foi a indiferença. Também não foi o ressentimento. Foi a fraternidade. Foi a capacidade extraordinária de enxergar humanidade onde muitos enxergavam apenas diferenças. Aqui, devemos  recordar outra figura profundamente ligada à tradição franciscana: Santo Antônio. Conta a tradição que, diante da dificuldade de ser ouvido pelos homens, Santo Antônio voltou-se aos peixes para pregar. Naturalmente, a força dessa imagem não está nos peixes. Está nos homens. Está na advertência que ela contém. Vivemos em um tempo em que todos falam, mas poucos ouvem, poucos estão dispostos ao diálogo. Em que frequentemente buscamos apenas a confirmação daquilo que já pensamos. O sermão de Santo Antônio permanece atual justamente porque nos lembra que a capacidade de ouvir é uma virtude moral e também uma virtude cívica. E há uma segunda lição igualmente importante. Santo Antônio chama a atenção para os perigos da ambição, do egoísmo e do abuso dos mais fortes sobre os mais fracos. Essa talvez seja uma das críticas mais permanentes da história humana. Quando os mais fortes se sentem autorizados a devorar os mais vulneráveis, a sociedade adoece. Quando o poder deixa de ser exercido com responsabilidade, a justiça se enfraquece.

Talvez por isso as mensagens de São Francisco e de Santo Antônio continuem tão atuais. Porque vivemos um tempo em que as diferenças voltaram a nos assustar. Vivemos uma época de polarizações. Uma época em que muitas vezes deixamos de conversar para apenas reagir. Uma época em que nos tornamos rápidos para julgar e lentos para compreender. E isso produz consequências preocupantes.

Começamos a enxergar adversários onde deveriam existir concidadãos. Começamos a acreditar que determinadas pessoas não merecem ser ouvidas. Começamos a imaginar que alguns grupos são menos importantes do que outros. E toda vez que isso acontece, a justiça se afasta. Porque a justiça começa exatamente quando reconhecemos que cada pessoa possui um valor próprio e inegociável.

No Direito, chamamos isso de dignidade da pessoa humana. Na tradição cristã, encontramos essa mesma ideia expressa de muitas maneiras. Por caminhos diferentes, chegamos a uma conclusão semelhante: Toda vida humana importa. Toda vida humana merece respeito, merece proteção. Mas afirmar isso não significa fechar os olhos para os problemas do mundo. Ao contrário. Significa enfrentá-los com coragem.

Vivemos em uma sociedade extraordinariamente avançada. Temos tecnologias que pareciam impossíveis há poucas décadas. Temos acesso instantâneo à informação. Temos avanços científicos impressionantes, que transformaram radicalmente a vida humana. Mas convivemos, ao mesmo tempo, com desafios profundos. A desigualdade continua presente. A violência continua presente. O preconceito continua presente. A exclusão continua presente. A solidão é crescente.

E talvez uma das maiores contradições do nosso tempo seja esta: Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão distantes uns dos outros. Temos mais meios de comunicação do que qualquer geração anterior, mas nem sempre temos mais diálogo. Temos mais informação, mas nem sempre temos mais compreensão. Temos mais opinião, mas nem sempre temos mais escuta. E sem escuta não existe convivência democrática. Sem escuta não existe cidadania. Sem escuta não existe justiça.

Uma sociedade justa não é uma sociedade sem conflitos. Isso é impossível. Conflitos fazem parte da vida humana. Existem diferenças de interesses. Diferenças de valores. Diferenças de perspectivas. O problema não é a existência dos conflitos. O problema é a forma como lidamos com eles.

E é exatamente aí que entra o Direito. Muitas vezes imaginamos que o Direito existe apenas para punir. Mas sua função principal é outra. O Direito existe para permitir que possamos viver juntos apesar de nossas diferenças. Ele existe para impedir que a força substitua a razão. Para impedir que o mais poderoso imponha sua vontade ao mais vulnerável. Para proteger liberdades. Para garantir direitos. Para criar regras de convivência. Em outras palavras: O Direito existe para transformar conflitos em diálogo.

Por isso, defender o Direito não significa defender burocracias. Defender o Direito significa defender a própria possibilidade de convivência civilizada. Mas existe um risco que precisamos reconhecer. Vivemos uma época que busca respostas rápidas para problemas extremamente complexos. Queremos soluções imediatas. Queremos resultados instantâneos. E isso muitas vezes gera frustração. Porque a construção da justiça é um trabalho lento. É um trabalho coletivo. É um trabalho permanente.

Não existe sociedade justa construída apenas por governantes. Não existe sociedade justa construída apenas por juízes. Não existe sociedade justa construída apenas por universidades. A justiça é uma obra coletiva. E todos participamos dela.

Quando uma família educa para o respeito, está construindo justiça. Quando uma escola promove inclusão, está construindo justiça. Quando uma igreja acolhe quem sofre, está construindo justiça. Quando um cidadão combate o preconceito, está construindo justiça. Quando alguém escolhe a honestidade em vez da vantagem indevida, está construindo justiça. A justiça não nasce apenas das grandes decisões. Ela nasce também dos pequenos gestos cotidianos.

Ao longo de quase duzentos anos, a Faculdade de Direito da USP procurou contribuir para essa construção. Muitas das grandes discussões sobre democracia, liberdade, cidadania e direitos humanos passaram por suas Arcadas. Mas o que sempre me impressiona é que as maiores tradições da Faculdade não estão escritas em pedra. Elas estão ligadas a valores. À defesa da liberdade. À resistência contra arbitrariedades. À preocupação com os mais vulneráveis. À compreensão de que o conhecimento deve servir à transformação social.

E talvez seja justamente nesse ponto que as tradições franciscana e acadêmica se encontram. Ambas nos lembram que nenhuma instituição existe para si mesma. Toda instituição existe para servir às pessoas. A universidade existe para servir à sociedade. A Justiça existe para servir à sociedade. O Estado existe para servir à sociedade. E a própria comunidade religiosa existe para servir às pessoas. Quando esquecemos isso, perdemos nossa razão de existir.

Permitam-me caminhar para a conclusão.

Ao longo de quase oitocentos anos, a mensagem de São Francisco atravessou gerações porque falava de algo essencial: A possibilidade de construir uma comunidade fundada não na força, mas na fraternidade. Ao longo de quase duzentos anos, a Faculdade de Direito da USP também procurou, a seu modo, contribuir para essa mesma construção. São histórias diferentes. Mas unidas por uma convicção comum. A convicção de que nenhuma sociedade será verdadeiramente justa se perder a capacidade de reconhecer a dignidade de cada ser humano.

Talvez o maior desafio de nosso tempo não seja tecnológico. Nem econômico. Nem jurídico. Talvez seja humano. Precisamos reaprender a conviver. Precisamos reaprender a dialogar. Precisamos reaprender a reconhecer no outro não uma ameaça, mas um semelhante. E é exatamente por isso que justiça e Direito não podem caminhar separados da fraternidade. Porque a justiça sem humanidade corre o risco de se tornar mera formalidade. E a fraternidade sem compromisso com a justiça corre o risco de permanecer apenas uma boa intenção.

Que possamos, cada um em seu espaço, contribuir para aproximar essas duas dimensões. Que possamos construir uma sociedade mais livre, mais solidária e mais justa. E que possamos fazê-lo inspirados por valores que atravessam séculos, desde São Francisco até os dias atuais, lembrando sempre que as grandes transformações da história começam quando seres humanos comuns decidem cuidar uns dos outros.

Muito obrigada pela paciência e atenção!

SER SAL E LUZ PARA O MUNDO COMO SÃO FRANCISCO E SANTO ANTÔNIO

No mesmo dia, às 15 horas, também foi celebrada a Eucaristia e a bênção de Santo Antônio no Convento e Santuário São Francisco, no centro de São Paulo. Com o tema “A regra do jogo: Santo Antônio Defensor da Justiça e do Direito”, a celebração foi presidida por Frei Luiz Henrique Ferreira Aquino, que recordou ainda a memória litúrgica de São José de Anchieta celebrada pela Igreja nesta data.

Tomando como base o Evangelho do dia (Mt 5,13-16), o celebrante disse que somos chamados a dar o “sabor de Cristo” aos ambientes onde vivemos e sermos luz para iluminar o caminho e dissipar as trevas. São Francisco e Santo Antônio cumpriram a regra do Evangelho.

“Santo Antônio teve sua vida direcionada para Deus. Jogou aquilo que o Evangelho apresenta. As regras de Santo Antônio foram praticar e viver dia a dia aquilo que ele pregava”, lembrou, explicando por que Santo Antônio se identifica tanto com São Francisco, embora seja bastante diferente dele. “Dos santos franciscanos, Santo Antônio é o que mais se assemelha a São Francisco. Mas são bastante diferentes. Eles tinham origens distintas. Um era português, outro italiano, tinham formações diferentes. São Francisco nunca estudou, seu pai era rico, podia fazer o que queria. Ter dinheiro é ter poder. Santo Antônio viveu numa família nobre e se dedicou aos estudos. Se tornou sacerdote e São Francisco nunca quis ser sacerdote. Eles tinham maneiras diferentes e diversas de viver. Santo Antônio conhecia profundamente a Teologia. Ele era cônego agostiniano. São Francisco iniciou sua vida através da intuição que Deus lhe deu e vários companheiros o seguiram, tornando-se frades. Aí nasceu a Ordem Franciscana. E qual é a regra do jogo dessas duas figuras. Ambos encontraram no Evangelho o centro da própria vida. E é o que também temos de buscar. Encontrar diante do Evangelho o centro de nossa vida. Por isso nós rezamos, por isso estamos aqui”, frisou.

O martírio de cinco frades franciscanos em Marrocos em 1220 foi o ponto de virada na vida de Santo Antônio. “Aquilo o comoveu tanto que ele mudou de hábito, tornando-se franciscano. Mas ele não foi o outro São Francisco, ele não foi uma cópia de São Francisco e nenhum de nós deve ser cópia do outro. A regra é o Evangelho, mas cada um tem que jogar, conforme o tema de hoje, o seu próprio jogo e não copiar o outro. Ele viveu a vida franciscana à sua maneira própria, com seus dons, à sua maneira de servir. E isso é importante para nós. Cada um tem que viver sua vida cristã à sua maneira. Cristo é a fonte. São Francisco e Santo Antônio são espelhos dessa fonte”, acrescentou.

No final, Frei Luiz lembrou que a pedra preciosa tem diversos lados quando é lapidada e cada lado brilha de maneira própria. Assim são os santos. Que São Francisco, Santo Antônio e São José de Anchieta, que foi um grande missionário, mostrem para nós como ser sal e luz do mundo, que é a identidade do cristão.

Nesta terca, em todas Igrejas franciscanas, as celebrações são tradicionalmente dedicadas a Santo Antônio por um motivo histórico: embora ele tenha falecido em uma sexta-feira (13 de junho de 1231), ele foi sepultado em Pádua (Itália) exatamente em uma terça-feira (17 de junho). No final da Missa, Frei Luiz Henrique deu a bênção com a relíquia de Santo Antônio.


Equipe de Comunicação do Santuário e Convento São Francisco