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Compromisso e Dignidade: Frades do Pós-Noviciado participam de formação sobre Redução de Danos e Riscos

28/05/2026

Notícias

Alinhados ao compromisso Franciscano de defesa da vida e acolhimento dos marginalizados, os Frades do Pós-Noviciado participaram de uma intensa e necessária formação sobre Redução de Danos e Riscos (RD). Divididos em dois grupos, os religiosos mergulharam em discussões sobre saúde pública, direitos humanos e assistência social.

A iniciativa foi promovida pelo serviço Franciscano Chá do Padre e ministrada pela equipe do Centro de Convivência “É de Lei”. Conduziram as reflexões e dinâmicas a Dra. Janaína Rubio Gonçalves, coordenadora do Núcleo de Ensino e Pesquisa da instituição, e Thainá Alves Lira, colaboradora do núcleo.

A capacitação foi estruturada estrategicamente em dois momentos complementares para fornecer tanto o embasamento teórico quanto a aplicação prática do tema. 

No primeiro momento, debateram o conceito fundamental da Redução de Danos, compreendendo-a como uma estratégia de cuidado e uma verdadeira política de sobrevivência. Foi apresentado que a RD se traduz em um paradigma ético-político: um conjunto de práticas desenhadas para minimizar as consequências negativas do uso de substâncias, focando no sujeito e na sua autonomia, sem que a abstinência seja uma condição obrigatória para que a pessoa receba atendimento e respeito.

Ainda nesta primeira etapa, as palestrantes trouxeram um importante resgate histórico. O grupo compreendeu que essa visão começou a se desenhar globalmente a partir de 1906, quando relatórios no contexto da Guerra Mundial passaram a entender a dependência como uma questão médica e química, e não como uma falha de caráter ou crime. Outro marco recordado foi o ano de 1984, quando surgiram os primeiros grupos clandestinos de troca de seringas para conter o avanço das hepatites e do HIV, demonstrando uma transição da antiga visão “médico-moral” para uma perspectiva “social-política”. Ao final do bloco, discutiu-se a importância das terminologias corretas (risco versus dano) para o combate ao estigma e ao preconceito.

No segundo momento, a formação mudou o foco para a análise das substâncias, estratégias e a realidade do cuidado humanizado. O bloco aprofundou-se nos conceitos de substâncias psicotrópicas e psicoativas, além de analisar a percepção pública sobre as drogas mais consumidas no Brasil. Com uma forte crítica social, debateu-se como “a miséria gera lucro no capitalismo” e de que forma as classificações das substâncias dependem diretamente da ação química e do contexto de cada indivíduo.

A partir da análise dos fatores de risco e de proteção para o uso de substâncias, surgiu no grupo uma inquietação legítima: qual é a melhor forma de tratar uma pessoa que está refém das dependências químicas? A resposta construída reforçou que o caminho passa pela quebra de preconceitos, pelo acolhimento incondicional da dor do outro e pelo entendimento de que o isolamento compulsório em centros terapêuticos não preserva o cuidado, já que a situação de saúde deve ser tratada no âmbito da própria saúde. 

Para os frades do período formativo, a experiência foi um divisor de águas na forma de enxergar a realidade das ruas e qualificar o olhar pastoral. 

“O encontro foi bastante interessante por eu poder entender de modo mais claro como atuar junto com um usuário de entorpecentes, fugindo de conceitos prévios”, partilhou Frei Filipo Carpi Girão. “Trouxe informações muito valorosas sobre como acolher as pessoas neste universo e entender o processo para ajudar nas necessidades delas, sem entrar em julgamentos — isso a sociedade já faz. Poder me fazer presente sem o discurso distópico que enxerga o usuário apenas como um criminoso me fez entender que a questão é de saúde, portanto, devo ajudar na busca pela saúde”, concluiu.

Frei Luis Naldo Rodrigues da Conceição também destacou o caráter essencialmente formativo e humano da atividade:

“De fato, uma ‘Formação Humana’ é importante para nós que vivemos neste contexto social! A abordagem de Redução de Danos e o trabalho do ‘É de Lei’ mudam a lógica do cuidado e combatem o preconceito, muitas vezes arraigado no ‘moralismo’. Não se trata de incentivar o consumo, mas de acolher e respeitar a dignidade humana de quem as utiliza, especialmente pessoas em situação de extrema vulnerabilidade, cujas histórias e contextos muitas vezes não compreendemos.”

Frei Luiz Naldo lembrou ainda que essa postura resume com fidelidade a própria essência das obras sociais franciscanas: “O tripé da atuação do SEFRAS resume bem essa premissa: ‘Acolher, cuidar e defender'”, finalizou o frade.

Reabastecidos de empatia e mentes munidas de conhecimento técnico e humanitário, os Frades do Pós-Noviciado seguem por um caminho mais preparados para estender a mão e ser uma presença compassiva e defensora da vida nas franjas da sociedade.


Frei Cristian dos Santos Lopes