Marcos da história: Episcopado brasileiro aprova Diretrizes de Ação Evangelizadora com vivência sinodal em Aparecida
28/04/2026

Quatro anos, mais de 1500 emendas e um caminho, com mais tempo, é verdade. Até a edição de número 62 da Assembleia Geral dos Bispos do Brasil, organizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), as Diretrizes Gerais de Ação Evangelizadora (DGAE) tinham quatro anos para serem implementadas, vividas e compartilhadas nas dioceses, paróquias e comunidades; mas, este ano, os bispos aprovaram uma extensão desse período, para seis anos.
Serão mais dias, horas e experiências da sinodalidade, tão falada e trabalhada em Aparecida, São Paulo, entre 15 e 24 de abril. Abençoados pelo ‘Apóstolo de Aparecida’, padre Vítor Coelho de Almeida, no Centro de Eventos que leva seu nome, e pela Padroeira do Brasil, Nossa Senhora da Conceição Aparecida, os bispos titulares e eméritos aprovaram, marcados pela esperança e pelo compromisso renovado com a evangelização em tempos desafiadores, as novas DGAE.
Divididas em seis capítulos (Estrutura de “Tenda” e Comunidade (Capítulo 1): Introduz a imagem da “tenda” como representação da Igreja. Temáticas Sinodais (Capítulo 2): Aprofunda os processos de implementação do Sínodo dos Bispos 2021-2024. Liturgia e Missão (Capítulo 3): Aborda temas de liturgia e textos litúrgicos. Caminhos Finais (Capítulos 4, 5 e 6): Analisados pelos bispos como os capítulos de encerramento do texto das diretrizes) a aprovação do texto não cumpriu apenas um protocolo, acumulado pelo tempo, devido a não realização da AG em 2025, pelo falecimento às vésperas do Papa Francisco; mas foi o ápice de um processo de escuta que envolveu comunidades de todo o país. O clima de comunhão foi reforçado logo no início dos trabalhos, por uma carinhosa carta enviada pelo Papa Leão XIV, que encorajou o episcopado brasileiro a manter a unidade e a fidelidade ao anúncio do Evangelho. É uma mensagem do presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, reforçando o compromisso do estado com a liberdade religiosa e reconhecimento pelos trabalhos sociais e caritativos.
O Cardeal franciscano Jaime Spengler, presidente da CNBB, explicou que a “tenda” representa uma Igreja que acolhe, que protege e que se move. Um dos pontos mais significativos das novas diretrizes é a sintonia total com as decisões do Sínodo sobre a Sinodalidade, promovido pelo Papa Francisco. A Igreja no Brasil reafirma que seu caminho é o da corresponsabilidade, onde clero, religiosos e leigos caminham juntos, ouvindo o que o Espírito diz às comunidades locais. “Cada assembleia da CNBB é um verdadeiro Pentecostes. Hoje somos 497 bispos no Brasil – o maior episcopado do mundo. É muito triste quando se ouve que a conferência não representa alguém; ela busca promover e sustentar a comunhão entre os bispos, sucessores dos apóstolos, na missão de promover a evangelização”, pontuou.
A igreja existe para evangelizar, afirmou o cardeal. “Buscamos construir indicações para que a obra continue conforme os desafios do tempo presente. O Brasil é imenso e marcado por diferenças; por isso as diretrizes são gerais, auxiliando as igrejas particulares a construir indicações viáveis para a realidade local”, acentuou. Complementando a visão de renovação, a Irmã Regina da Costa Pedro, diretora das Pontifícias Obras Missionárias no Brasil, recordou a necessidade de foco na missão: “A essência é a missão, mas as nossas urgências às vezes fazem com que nos tornemos uma igreja muito autorreferencial. É necessário esse contínuo caminho de conversão para podermos voltar a ser aquilo que nós somos”, refletiu.
Ao longo da AG as diversas comissões episcopais abordaram e trabalharam importantes eventos nos próximos anos, com agendas que abrangem desde encontros de base até congressos continentais. Segundo o arcebispo de Goiânia e vice-presidente da CNBB, dom João Justino de Medeiros Silva, o calendário começa em julho de 2027, entre os dias 20 e 24, com o 16º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que será realizado na Diocese de Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Ainda em 2027, a cidade de Goiânia (GO) receberá o 19º Congresso Eucarístico Nacional (CEN). O evento ocorrerá de 03 a 07 de setembro sob o tema “Hóstias vivas no mundo, para a glória do Pai”, com o objetivo de reforçar a importância da Eucaristia no cotidiano cristão. Já para novembro de 2029, está prevista a realização do 7º Congresso Americano Missionário (CAM 7) em Curitiba (PR). Com o tema “América em saída, povo de Deus que anuncia e testemunha Jesus Cristo”, o congresso contará com representantes de 22 países. Para viabilizar o encontro, o episcopado brasileiro aprovou, durante a 62ª Assembleia Geral, a criação de um Ano Missionário Nacional (de novembro de 2028 a novembro de 2029) e a realização de uma coleta específica para o subsídio do evento.
Celebrações: Fé que se torna vida
Os dez dias de assembleia foram pontuados por celebrações emocionantes na Basílica de Aparecida. Houve momentos de oração especial pelos bispos eméritos – nossos pastores que já completaram seu tempo de governo, mas continuam sendo fontes de sabedoria – e missas que recordaram as vítimas da exclusão social. A Missa de encerramento, no dia 24 de abril, foi um grande ato de ação de graças. Nela, o episcopado reafirmou seu compromisso de ser uma presença profética, especialmente em regiões como a Amazônia, onde a ecologia integral e a defesa dos povos originários são urgências inadiáveis.
Em 2026, a Assembleia Geral ainda celebrou os 200 anos de relação Brasil-Santa Sé e o Acordo de 2008. Os encontros contaram com a presença do Núncio Apostólico no Brasil, Dom Giambattista Diquattro.
“O Acordo Brasil Santa Sé dá cidadania à Igreja, às ações da Igreja. Ele dá cidadania a tudo aquilo que a Igreja faz. Ele representa a verdadeira laicidade do Estado. Duzentos anos de relação e, nesses duzentos anos, a Igreja foi uma grande companheira do Estado brasileiro. Claro que teve momentos um pouco mais difíceis nessa relação, com a questão religiosa. Depois, também, quando teve a proclamação da República. Mas a relação, cada vez mais, foi amadurecendo. E o acordo, em 2008, representa exatamente esse momento bonito, maduro, desses duzentos anos de relação. Onde, entre dois Estados, foi assinado esse documento, esse acordo. E que dá a liberdade, onde a liberdade religiosa está no centro, onde afirma a liberdade religiosa, a liberdade e o direito que a Igreja tem de exercer a sua missão e de continuar a contribuir com a sociedade brasileira, através das suas inúmeras obras”, analisou o Cardeal Paulo Cezar Costa, arcebispo de Brasília (DF) e presidente da Comissão Especial para o Acordo Brasil – Santa Sé.
Igreja, cidadania e o ano eleitoral
Em um ano marcado por eleições gerais, a Igreja reafirmou seu papel na formação da consciência política, sem cair no partidarismo. O Cardeal Jaime Spengler, presidente da CNBB, foi enfático ao dizer que o voto é a expressão do espírito democrático: “O voto é a expressão do espírito democrático que existe entre nós. Num espírito republicano, cada cidadão é chamado a manifestar, através do voto, aquilo que sonha para um Brasil melhor. Nesse sentido, as eleições são uma oportunidade privilegiada para avaliar propostas, considerar e ver o que nós verdadeiramente desejamos, a partir dos critérios do Evangelho, para o futuro do nosso Brasil. A igreja não tem partido político, porém, a igreja promove consciência cidadã, consciência política. E nesse sentido, certamente a igreja tem sim uma responsabilidade neste processo. Repito, a igreja não faz publicidade política partidária. Até porque, ao longo da história, sempre que política partidária e religião se encontraram ou se encontram, os resultados não são ou não foram positivos”.
Cardeal Paulo Cezar Costa, arcebispo de Brasília (DF) reforçou o coro contra a instrumentalização da fé. “A religião nunca deve ser instrumento de manipulação, ela nunca deve ser instrumento para uso eleitoral. É claro que nós, religiosos, votamos, os católicos votam, os evangélicos votam, mas a religião não deve ser nunca instrumento de manipulação eleitoral, a religião aponta sempre na direção do bem, na direção da ética, ela aponta sempre na direção de uma sociedade verdadeiramente à altura e grandeza da dignidade humana. Por isso, a religião nunca deve ser instrumentalizada, e não é o caminho, essa busca nesse tempo, nesse ano eleitoral, na busca de proximidades, na busca de conchavos, que às vezes conchavos que não são evangélicos e que não exprimem o evangelho. Então, a religião nunca deve ser manipulada”, disse.
Já o secretário-geral da CNBB, Dom Ricardo Hoepers afirmou que todos temos responsabilidade do voto. “Responsabilidade cidadã, nós temos todos uma responsabilidade no voto, é a nossa participação na democracia, então estamos conscientizando a todos do papel e da importância desse momento e que todos possam fazer essa diferença com o voto consciente e que ajude o bem comum do nosso país”, falou.
Cobertura especial
A cobertura deste momento histórico contou com o olhar atento do jornalismo da Rádio Frei Galvão, que levou aos ouvintes e internautas cada detalhe das discussões. Por meio de boletins diários, entrevistas exclusivas e transmissões ao vivo, a rádio não apenas informou, mas conectou o carisma franciscano aos grandes temas da Igreja, traduzindo o espírito de Aparecida para os ouvintes.
Essa atuação se expandiu e conteúdos foram gerados para outros meios de Comunicação da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, como a Rádio e TV Celinauta de Pato Branco, PR.
“Francisco não morreu, Francisco de Assis continua vivo, e a espiritualidade, a teologia, a filosofia franciscana continuam pautando, eu diria assim, a ação de todos aqueles, aquelas que acreditam que nós podemos juntos construir um mundo novo, um mundo onde a casa comum seja respeitada, onde a fraternidade e a justiça possam reinar. Francisco continua sendo atual, e essa atualidade de Francisco de Assis se expressa também na vida daqueles que assumiram esta forma de vida ainda hoje. São distintas expressões de vida consagrada, mas não só, também temos leigos encantados, por assim dizer, com a proposta franciscana”, finalizou o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Cardeal Jaime Spengler.
Felipe Melo e Guilherme Costa (Rádio Frei Galvão)














