Notícias - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Mensagem do Ministro Provincial para a Páscoa de 2026

30/03/2026

Notícias

Minha cara irmã, meu caro irmão,

O Senhor vos dê a paz.

A celebração da Páscoa do Senhor se constitui como espaço privilegiado para o revigoramento da experiência de fé de todos os que desejam testemunhar, com fidelidade e profecia, o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

A Família Franciscana que vem, ao longo dos últimos quatro anos, vivendo a graça do tempo jubilar, que ofereceu a todos a possibilidade de reencontro com as experiências balizares do carisma franciscano, neste ano recorda os 800 anos da morte, do trânsito, da Páscoa de Francisco de Assis.

A Páscoa de Jesus dá sentido à páscoa de Francisco. A Páscoa de Jesus é o verdadeiro sentido da busca de todo coração humano desejoso da plenitude da existência. A consideração de que a vida não se mede pelo estreito intervalo do primeiro choro ao último suspiro, tem suas balizas no mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo. 

Entre a cruz no alto do Gólgota e a pedra rolada da frente do túmulo cedido por José de Arimateia, se define o caminho de plenitude e abundância que justifica a pregação do Mestre de Nazaré: vida e vida plena para todos; o Reino que não é deste mundo; a promessa do cêntuplo e a realização das bem-aventuranças; o alívio e a suavidade advindos do seguimento fiel; a luz dos olhos, o som dos ouvidos, os passos recuperados, a liberdade resgatada, o protagonismo dos pobres, a dor e a morte superadas; a pedra rolada e os panos dobrados… sinais evidentes do Reino presente na história humana; Páscoa de Jesus, nossa Páscoa.

Sob a inspiração da Palavra

O Evangelho proclamado na Vigília Pascal deste ano é retirado do capítulo 16 do livro de Marcos. O evangelista narra a movimentação das mulheres que estavam preocupadas em cuidar dos rituais relativos ao sepultamento de Jesus. No dia anterior, o corpo do Senhor havia sido colocado no sepulcro e elas foram até este lugar levando perfumes para ungi-lo, conforme o costume. Entre outras coisas, elas estavam preocupadas em saber como iriam mover a grande pedra que havia sido colocada na porta do túmulo.

As mulheres foram ao lugar do sepultamento do Senhor com piedade, isso é verdade; elas fizeram isso com respeito e veneração, sim; estavam movidas por sentimentos nobres, também; poderia haver no coração dela tristeza e medo, com certeza. O íntimo relacionamento delas com o Mestre pode ter feito nascer todos esses sentimentos. Mas uma coisa ainda lhes faltava: acreditar nas palavras que o Senhor havia dito. A partir da confiança nas palavras do Senhor, as mulheres por primeiro, depois todos os discípulos, passaram a enxergar os eventos da vida de Jesus com os olhos da fé. Assim, tudo ficou mais claro; tudo ficou mais cheio de sentido; tudo passou a ser vivido a partir da lógica da vitória sobre a morte, a partir da ressurreição.

O texto do Evangelho registra um diálogo importante ocorrido nas imediações do sepulcro de Jesus. O mensageiro de Deus, confundido com um jardineiro, pergunta às desoladas mulheres: por que procuram entre os mortos aquele que vive? E confirma a elas a verdade das palavras do Senhor: “Não vos assusteis; Ele ressuscitou”.

Jesus ressuscitou. Esta é a grande notícia da Páscoa. Este é o mistério da nossa fé. Pela ressurreição de Jesus o céu e a terra são novamente unidos. A dor, tristeza e morte, que limita o ser humano e o condena a uma existência sem sentido, foram vencidas pelo vigor da vida em Jesus Cristo. A páscoa de Jesus é nossa vitória. Como São Paulo, na carta aos Romanos, também podemos dizer: “se morremos com Cristo, cremos que viveremos com ele também”. A pedra colocada na entrada do sepulcro já foi removida; não procuremos entre os mortos aquele que vive para sempre. 

A Páscoa de Francisco

O itinerário percorrido por Francisco de Assis até alcançar a leveza e a plena liberdade que deu à sua alma a capacidade de “voar para Deus” foi marcado por momentos de incompreensão. Até adquirir aquela identidade definida por Tomás de Celano, qual seja, um ser humano “de caráter manso, de temperamento calmo, afável na fala, cauteloso nas admoestações, extremamente fiel no cumprimento das tarefas que lhe eram confiadas, prudente nos conselhos, eficaz na ação, amável em tudo. De mente serena, de alma doce, de espírito sóbrio, absorto em contemplações, constante na oração e em tudo cheio de entusiasmo”, Francisco empenhou muitas energias em “procurar entre os mortos aquele que vive”. Inclusive, quando já havia percorrido um bom trecho do seu caminho penitencial, assim como as mulheres da madrugada pascal, Francisco ainda se perguntava a respeito de quem o poderia auxiliar a “remover a pedra do sepulcro”.

Ao celebrar os 800 anos da morte de São Francisco devemos evitar o danoso equívoco de ler o passamento do santo como um evento isolado do seu peregrinar ou como o epílogo de uma vida transformada pela graça e por suas ousadas escolhas pessoais. Como já foi dito por um sábio teólogo, “começar onde Francisco terminou é ilusão”; afinal, sua trajetória de um jovem rico a um pobre absoluto foi um processo lento de amadurecimento, um encontro com o divino que cresceu em profundidade até o termo de seus passos pela terra e se plenificou com sua páscoa, com sua admissão na eternidade.

Assim como Francisco de Assis, os guardiães de sua herança deverão purificar suas escolhas sob pena de não conseguir corresponder ao seu projeto de vida. A verdadeira alegria promovida pelo desapego e a pobreza não podem ser apenas elogio ao heroico comportamento de outrem. A escolha por viver entre os leprosos, os de ontem e os de hoje, deve passar dos livros para as ruas onde transitamos ou deveríamos transitar. O destemor diante da ferocidade dos lobos nos fará promotores de sínteses necessárias neste contexto de peleias desumanizantes. A clareza e a coragem de promover o reencontro do bispo com o prefeito de Assis deverão fazer de nós homens e mulheres do diálogo e promotores da paz. Que o desejo de plenitude que irrompeu no louvor a todas as criaturas que fez Francisco abraçar a morte como irmã nos faça capazes de reconhecer nossos limites humanos e nos permita iluminá-los com a luz da ressurreição.

O caminho de conversão de Francisco de Assis foi seu caminho pascal. Consideremos um privilégio e um presente sem par celebrar a Páscoa do Senhor neste ano em que celebramos os 800 anos da páscoa de Francisco.

O caminho pascal

A celebração anual da Páscoa não deve ser um exercício repetitivo de piedade e devoção. Aos discípulos e discípulas do Senhor é dada a oportunidade de crescer e aprofundar o entendimento da mensagem de Jesus. Tendo percorrido o itinerário de jejum e penitência durante os quarenta dias da Quaresma; tendo acompanhado os passos de Jesus a partir da entrada triunfante em Jerusalém; tendo estado com o Mestre e com os discípulos reunidos para a última ceia; com Ele passamos pelo Calvário, para também com Ele experimentar o dia sem fim da ressurreição.

A Páscoa exige de nós constância e perseverança no caminho. A Páscoa fortalece em nós o compromisso de testemunhar a mensagem de Jesus e nos faz homens e mulheres geradores de paz. A Páscoa revigora nossos passos e revigora nossas vozes para denunciar toda forma de violência e de morte e nos faz arautos de um tempo novo.

Que o alegre testemunho da ressurreição nos reanime e nos impulsione a encher o mundo de Paz e Bem.

Frei Paulo Roberto Pereira, OFM
Ministro Provincial