Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Santíssima Trindade

Solenidade da Santíssima Trindade

Um Mistério de Graça, Amor e Comunhão

 

Frei Gustavo Medella

“A Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Amor do Pai e a Comunhão do Espírito Santo estejam sempre convosco”.

Bendito seja Deus que nos reuniu no Amor de Cristo. Esta é a resposta da Igreja à saudação que lhe é feita ao iniciar muitas de suas ações celebrativas, especialmente a Santa Missa. A referida saudação, extraída da 2ª Carta de São Paulo aos Coríntios, vem imediatamente após o sinal da cruz, no qual a comunidade reunida é acolhida pelo “Abraço da Trindade”, conforme o Papa Bento XVI certa feita definiu. Graça, Amor e Comunhão, três dons que emanam da Trindade e que sustentam a vida da Igreja.

Graça é graxa! É óleo, pomada, remédio que penetra, cura, lubrifica dá brilho e não deixa perecer. É o contato corpo a corpo do Pai com seus filhos através da Humanidade do Filho Jesus, que nos foi enviado para ser nossa cura e salvação (Cf, Jo 3,17).

Amor é origem, começo! É a Força Criadora que chama à vida, que organiza e dispõe tudo aquilo que existe. Extravasa e ultrapassa todos os limites que podemos conhecer. É o “sempre mais” do Infinito de Deus sempre surpreendente e generoso.

Comunhão é convite. É a disposição de Deus em se mostrar comunidade para nos chamar a vencermos o individualismo que pode aprisionar a nossa vida em amarras egoístas e mesquinhas. O vento do Espírito, ao mesmo tempo que espalha e envia em Missão, congrega e reúne os enviados para testemunhar o mistério da unidade.

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Que este sinal seja para nós, hoje e sempre, um verdadeiro “banho” de Graça, Amor e Comunhão.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.

Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: Êxodo 34,4-6.8-9

Naqueles dias, 4Moisés levantou-se, quando ainda era noite, e subiu ao monte Sinai, como o Senhor lhe havia mandado, levando consigo as duas tábuas de pedra. 5O Senhor desceu na nuvem e permaneceu com Moisés, e este invocou o nome do Senhor. 6Enquanto o Senhor passava diante dele, Moisés gritou: “Senhor, Senhor! Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel”. 8Imediatamente, Moisés curvou-se até o chão 9e, prostrado por terra, disse: “Senhor, se é verdade que gozo de teu favor, peço-te, caminha conosco; embora este seja um povo de cabeça dura, perdoa nossas culpas e nossos pecados e acolhe-nos como propriedade tua”.


Salmo Responsorial: Dn 3

A vós louvor, honra e glória eternamente!
1. Sede bendito, Senhor Deus de nossos pais. – R.
2. Sede bendito, nome santo e glorioso. – R.
3. No templo santo onde refulge a vossa glória. – R.
4. E em vosso trono de poder vitorioso. – R.
5. Sede bendito, que sondais as profundezas. – R.
6. E superior aos querubins vos assentais. – R.
7. Sede bendito no celeste firmamento. – R.


Segunda Leitura: 2 Coríntios 13,11-13
11Irmãos, alegrai-vos, trabalhai no vosso aperfeiçoamento, encorajai-vos, cultivai a concórdia, vivei em paz, e o Deus do amor e da paz estará convosco. 12Saudai-vos uns aos outros com o beijo santo. Todos os santos vos saúdam. 13A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós.


Jesus provoca decisão

Evangelho: Jo 3,16-18

-* 16 «Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna. 17 De fato, Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, e sim para que o mundo seja salvo por meio dele. 18 Quem acredita nele, não está condenado; quem não acredita, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho único de Deus.

* 16-21: Deus não quer que os homens se percam, nem sente prazer em condená-los. Ele manifesta todo o seu amor através de Jesus, para salvar e dar a vida a todos. Mas a presença de Jesus é incômoda, pois coloca o mundo dos homens em julgamento, provocando divisão e conflito, e exigindo decisão. De um lado, os que acreditam em Jesus e vivem o amor, continuando a palavra e a ação dele em favor da vida. De outro lado, os que não acreditam nele e não vivem o amor, mas permanecem fechados em seus próprios interesses e egoísmo, que geram opressão e exploração; por isso estes sempre escondem suas verdadeiras intenções: não se aproximam da luz.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

Santíssima Trindade, ano A

Oração: “Ó Deus, nosso Pai, enviando ao mundo a Palavra da verdade e o Espírito santificador, revelastes o vosso inefável mistério. Fazei, que professando a verdadeira fé, reconheçamos a glória da Trindade e adoremos a unidade onipotente”.

  1. Primeira leitura: Ex 34,4b-6.8-9

Senhor, Senhor! Deus misericordioso e clemente.

Moisés desceu do monte Sinai com as placas da Lei e encontrou o povo adorando um bezerro feito de ouro. Irritado, Moisés jogou as duas placas no chão e as quebrou. Deus queria exterminar povo que havia libertado do Egito. Moisés, porém, suplicou em favor do povo infiel e aplacou a ira divina (Ex 32–33). Então Deus ordenou a Moisés que preparasse duas novas placas de pedra, para encontrar-se novamente com Ele no monte Sinai. O texto de hoje narra o que aconteceu no encontro de Deus com Moisés. Sem dúvida, é um dos textos mais lindos de todo o Antigo Testamento. Uma verdadeira síntese da caminhada do povo pecador com Deus misericordioso e libertador. Enquanto Moisés sobe com as placas de pedra, Deus desce ao seu encontro e permanece com ele. No entanto, a permanência é rápida. Enquanto Deus passava na sua frente, Moisés prostra-se por terra em sua presença e exclama: “Senhor, Senhor! Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel”. Apesar dos pecados e infidelidades, o povo de Israel teve uma experiência viva da misericórdia divina em sua história. Por fim, contando com o amor misericordioso do Senhor, Moisés faz três pedidos: caminha conosco, perdoa nossas culpas e acolhe-nos como propriedade tua. Ou seja, como o seu povo escolhido, da nova aliança.

Salmo responsorial

A vós louvor, honra e glória eternamente!

  1. Segunda leitura: 2Cor 13,11-13

A graça de Jesus Cristo, o amor de Deus

e a comunhão do Espírito Santo.

O breve texto desta leitura conclui a 2ª Carta de Paulo aos coríntios. Contém uma exortação (v. 11a), um voto ou promessa (v. 11b), uma despedida (v. 12) e uma bênção final (v. 13). Estes elementos aparecem também em outras cartas paulinas. Na exortação aparecem cinco verbos no imperativo que visam melhorar a vida em comunidade: alegrai-vos, trabalhai no vosso aperfeiçoamento, encorajai-vos, cultivai a concórdia – isto é, o diálogo – vivei em paz. É o caminho que Paulo traça para construir a paz na comunidade abalada por conflitos e divisões internas. Agindo assim, acontecerá o que o apóstolo deseja: “e o Deus do amor e da paz estará convosco”. A bênção final explica quem é o Deus do amor e da paz: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo”. É o Deus Trindade Santíssima, que nos envolve numa comunhão de Amor, como filhos e filhas queridos. Quando vivemos o amor com nossos irmãos, Deus que é amor estará sempre conosco.

Aclamação ao Evangelho

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.

Ao Deus que é, que era e que vem,

pelos séculos. Amém.

  1. Evangelho: Jo 3,16-18

Deus enviou seu Filho ao mundo,

para que o mundo seja salvo por ele.

O Evangelho de hoje faz parte do diálogo de Jesus com Nicodemos (Jo 3,1-21). Nicodemos era um fariseu rico que admirava Jesus. Veio procurar Jesus de noite, porque discordava de outros fariseus que perseguiam a Jesus. Na conversa, Nicodemos reconhece Jesus como um mestre vindo de Deus, por causa dos sinais que fazia. Jesus lhe diz que ele precisava nascer de novo, isto é, nascer de Deus. Em outras palavras, assim como Nicodemos acredita em Jesus como um Mestre vindo de Deus, deveria também acreditar em Jesus como Filho de Deus, e assim nascer de novo, desta vez de Deus. No diálogo Jesus diz a Nicodemos que a chave de entrada na vida eterna é crer (três vezes) no Filho do Homem (3,9-15). A mesma insistência na fé aparece no evangelho de hoje. Deus amou tanto o mundo, que deu/entregou seu Filho unigênito para salvar todos que nele crerem. Deus não enviou seu Filho como juiz, para condenar as pessoas, mas para salvar a todos. A condição para ser salvo é crer no nome Filho unigênito. Este nome é Jesus, que significa “Deus salva”. Deus não condena ninguém. Quem não crê em Jesus Cristo, salvador da humanidade, condena-se a si mesmo.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Mistério de amor que envolve os homens

Frei Clarêncio Neotti

O mistério da Santíssima Trindade, embora mistério, é a luz que ilumina todas as verdades da fé. E é um mistério de amor. A Santíssima Trindade é uma comunidade de amor. O Pai cria tudo por amor; o Filho, muito amado pelo Pai (Mt 17,5; Mc 9,7), constrói no mundo, com sua vida, um reino de amor, e o amor é um dos grandes dons do Espírito Santo. O Evangelho de hoje, tirado do diálogo de Jesus com Nicodemos, recorda o imenso amor (v. 16) de Deus pelas criaturas, sobretudo pela criatura humana; um amor tão grande que vence a barreira do pecado à custa do sangue derramado de seu próprio Filho. Um amor tão grande que quer ter todas as criaturas juntas a si, participando de sua feliz vida eterna (v. 16). De tal modo nos ama Deus, que nos enviou o Espírito Santo em auxílio da fraqueza de nossa fé (Rm 8,26), enchendo nosso coração de esperança, avivando a fé em Jesus Cristo, revestindo de tal maneira nossa vida que São Francisco de Assis chega a dizer que é ele que reza em nós e em nós rende louvores e graças a Deus. Então, o Pai já não olha para o nosso pecado e nossa ignorância, mas vê “o próprio Espírito, que advoga por nós em gemidos inefáveis” (Rm 8,26).

O pequeno trecho do diálogo com Nicodemos, que lemos hoje, formula o cerne da fé cristã, que é uma resposta da criatura humana a uma proposta de Deus, que nasce do amor, explícita-se na encarnação e morte de Jesus e tem por finalidade dar a todos a vida eterna. Esses elementos são facilmente encontrados no versículo 16. A resposta da criatura humana consistirá em aceitar ou não a missão do Filho. Aceitar ou não exige uma decisão pessoal, que o Evangelho chama de julgamento. Jesus garante que o Espírito Santo nos ajudará a conhecer a verdade (Jo 16,13) e a discernir as coisas. Mas não nos tolherá a liberdade. A maneira de respondermos, positivamente, e decidir-nos pela vida eterna é crer em Jesus Cristo, Filho de Deus Salvador. Uma resposta de fé que se transforma em uma atitude amorosa (Jo 15,9-10), porque “se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14,15).


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Altíssimo, Onipotente e Bom Senhor

Frei Almir Guimarães

Vós sois nossa esperança, Vós sois nossa fé, Vós sois nossa caridade, Vós sois toda nossa doçura, Vós sois nossa vida eterna: grande e admirável Senhor, Deus onipotente, misericordioso salvador” (São Francisco de Assis)

♦ Ao dirigir-se ao Senhor, Francisco de Assis mostrava desmedida admiração. Não encontrava palavras que fossem capazes de descrever esse Mistério insondável de amor que é a Trindade: altíssimo, onipotente, bom, ternura, paz… Aproximamo-nos sempre de Deus com imenso respeito. Pedimos que ele se digne nos olhar com complacência. Temos certeza do amor dessa Trindade. Não receamos nos lançar em seu abismo de caridade. Festa de Deus, insondável abismo de Deus. Um Deus em Três pessoas. Uma fornalha de dom entre as Pessoas.

♦ Nosso coração anseia pelo Numinoso. Vivemos irrequietos enquanto nele não descansarmos. Deus está para além do que podemos ver, ouvir, alcançar. Chamamo-lo de Tu, numinoso, simplesmente Deus. Pena que a palavra parece gasta e já não nos fala às entranhas. Altíssimo e Bom Senhor, sempre buscado e nunca alcançado. Chama a nos atrair.

♦ Moisés estava diante de um arbusto que ardia e não se consumia. Calor, fogo que cega, queima e aquece. Ele é convidado a tirar as sandálias dos pés porque santa era a terra em que estava pisando.

♦ Isaías tem uma visão no templo. O três vezes santo está num trono elevado, circundado pelos anjos que o adoram. O profeta sente todo o peso de sua indignidade. Tem certeza de seu pecado. Um serafim toma um brasa e queima os lábios do profeta para que possa dizer com candura e limpeza interior: Santo, Santo, Santo.

♦ Elias está desanimado com tanta oposição que lhe é feita. Retira-se do campo de batalha, de sua pregação e de suas exortações. Entra numa caverna. O Senhor não estava na tempestade, nem no fogaréu. Quando sopra uma brisa suave reconhece a passagem do Senhor e com o manto cobre o semblante.

♦ Jesus, expressão humana de Deus, Deus mesmo vivendo entre nós, procura nos levar ao Mistério. Fala de um Pai que é amor, que o estreita, que o cerca. Fala de um envolvimento todo especial dele com Pai. Fala mesmo que ele e o Pai são um. Quem o vê, vê o Pai. Todo poder recebe do Pai. Ele e o Pai não deixarão órfãos os homens, mas enviarão o Paráclito que procede do Pai e do Filho. Fornalha de amor: Pai, Filho e Espirito.

♦ O Pai não é gerado, é eternamente Pai. O Filho, o Verbo, a Palavra também eternamente gerado. Consubstancial ao Pai. Na plenitude dos tempos o Verbo se fez carne e habitou entre nós. O “segundo” da Trindade se revestiu da natureza humana. O amor, o liame, o laço entre o Pai e o Verbo é o Sopro, o Vento, o Espírito. Como o Verbo, também o Espírito tem uma missão “ad extra”. Belamente esse abismo é expresso na antífona ao Magnificat da Solenidade da Trindade: “Deus Pai não gerado, Deus Filho Unigênito, Deus Espírito Santo, divino Paráclito, ó Santa, indivisa e una Trindade: com todas as fibras da alma e da voz, vos louvamos, cantando, na fé confessando: Glória a vos pelos séculos”.

♦ Estamos mergulhados e envoltos na Trindade: fazemos o sinal da cruz invocando a Trindade, nela somos batizados, nela absolvidos. Todas as orações dirigidas ao céu se dirigem à Trindade. Morremos com a bênção da Trindade.


Texto para reflexão

É necessário crer na Trindade? É possível? Serve para algo? Não é uma construção intelectual desnecessária? Vai mudar algo em nossa fé, se não crermos no Deus trinitário? Há dois séculos o célebre filósofo Immanuel Kant escrevia estas palavras: “Do ponto de vista prático, a doutrina da Trindade é perfeitamente inútil”. Esta afirmação é certamente falsa. A fé na Trindade muda não só nossa visão de Deus, mas também nossa maneira de entender a vida. Confessar a Trindade de Deus é crer que Deus é um mistério de comunhão e de amor. Não um ser fechado e impenetrável, imóvel e indiferente. Sua intimidade misteriosa é só amor e comunicação. Consequência: no fundo último da realidade, dando sentido e existência a tudo, não há senão Amor. Tudo o que existe vem do Amor.

O Pai é amor, a fonte de todo amor. Ele começa o amor. “Só ele começa a amar sem motivos; mais ainda, é ele que desde sempre começou a amar” (Eberhard Junge). O Pai ama desde sempre e para sempre, sem ser obrigado ou motivado de fora. É o “eterno Amante”. Ama e continuará amando sempre. Nunca vai retirar de nós seu amor e fidelidade. Dele só brota amor. Consequência: criados à sua imagem, fomos feitos para amar. Só amando acertamos na vida.

O ser do Filho consiste em receber o amor do Pai. Ele é o “Amado eternamente”, antes da criação do mundo. O Filho é o amor que acolhe, a resposta eterna ao amor do Pai. O mistério de Deus consiste, pois, em dar e também em receber amor. Em Deus, deixar-se amar não é menos que amar. Receber amor é também divino! Consequência: criados à imagem desse Deus fomos feitos não só para amar, mas para sermos amados.

O Espírito Santo é a comunhão do Pai e do Filho. Ele é o Amor eterno entre o Pai Amante e o Filho Amado, aquele que revela que o amor divino não é possessão ciumenta do Pai nem açambarcamento egoísta do Filho. O amor verdadeiro é sempre abertura, dom, comunicação transbordante. Por isso, o amor de Deus não se detém em si mesmo, mas se comunica e se estende até suas criaturas. “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). Consequência: criados à imagem desse Deus, fomos feitos para amar-nos, sem açambarcar e sem encerrar-nos em amores fictícios e egoístas” (Mateus, Pagola, p.349).


Oração
Tu, Senhor, me conheces.
Conheces minha vida e minhas entranhas,
minhas veredas e meus rodeios, minhas dúvidas de sempre.
Tu és, apesar dos meus erros,
o Senhor de minhas alegrias e de minhas penas,
Deixa-me estar em tua presença.
Traquiliza-me. Serena meu espírito.
Abre meus sentidos.
Lava-me com água fresca.

F. Ulíbarri


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Deus é de todos

José Antonio Pagola

Poucas frases terão sido tão citadas como esta que o Evangelho de João coloca nos lábios de Jesus. Os autores veem nela um resumo do essencial da fé, tal como era vivida entre os poucos cristãos nos começos do século II: “Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho único”.

Deus ama o mundo inteiro, não só aquelas comunidades cristãs às quais chegou a mensagem de Jesus. Deus ama todo gênero humano, não só a Igreja. Deus não é propriedade dos cristãos. Não deve ser monopolizado por nenhuma religião. Não cabe em nenhuma catedral, mesquita ou sinagoga.

Deus habita em todo ser humano acompanhando cada pessoa em suas alegrias e desgraças. Não deixa ninguém abandonado, pois tem seus caminhos para encontrar-se com cada qual, sem que tenha que seguir necessariamente os caminhos que nós lhe indicamos. Jesus o via cada manhã “fazendo surgir o Sol sobre bons e maus”.

Deus não sabe nem quer, nem pode fazer outra coisa senão amar, pois, no mais íntimo de seu ser, Ele é amor. Por isso diz o Evangelho que Ele enviou seu Filho único, não para “condenar o mundo”, mas para que “o mundo se salve por meio dele”. Deus ama o corpo tanto como a alma, e o sexo tanto como a inteligência. O que Ele deseja unicamente é ver já, desde agora e para sempre, a humanidade inteira desfrutando de sua criação.

Este Deus sofre na carne dos famintos e humilhados da Terra; está nos oprimidos defendendo sua dignidade e nos que lutam contra a opressão dando ânimo a seu esforço. Está sempre em nós para “buscar e salvar” o que nós deturpamos e deixamos se perder.

Deus é assim. Nosso maior erro seria esquecê-lo. Mais ainda, fechar-nos em nossos preconceitos, condenações e mediocridade religiosa, impedindo as pessoas de cultivar esta fé primeira e essencial. Para que servem os discursos dos teólogos, dos moralistas, dos pregadores e dos catequistas, se não despertam o louvor ao Criador, se não fazem crescer no mundo a amizade e o amor, se não tornam a vida mais bela e luminosa, lembrando que o mundo está envolto nos quatro lados pelo amor de Deus?


Imagem no alto: Coluna da Santíssima Trindade, localizada no centro de uma praça com o mesmo nome em Budapeste. Por volta do ano de 1700, foi construída para comemorar o fim de uma epidemia de peste.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

Três pessoas em um só Deus

Pe. Johan Konings

Para muitas pessoas, inclusive cristãs, a SS. Trindade não passa de um problema de matemática: como pode haver três pessoas divinas em um só Deus? Parece que nada tem a ver com sua vida.

Se a Trindade fosse um problema matemático, deveríamos procurar uma “solução”. Mas, na realidade, não se trata de uma fórmula matemática, mas de um resumo de duas certezas de nossa fé: 1) Deus é um só; 2) o Pai, o Filho e o Espírito Santo são Deus. Isso nos convida à “contemplação” do mistério de Deus. Pois um mistério não é para a gente colocá-lo dentro da cabeça, mas para colocar a cabeça nele…

Na 1ª Leitura, Moisés invoca o nome de Deus: “O Senhor (Javé), Deus misericordioso e clemente, lento para a ira, rico em amor e fidelidade…”. São essas as primeiras qualidades de Deus. Deus é um Deus que ama. Segundo o evangelho, Jesus revela em que consiste a manifestação maior do amor de Deus para com o mundo: ele deu o seu Filho, que quis morrer por amor a nós. O Pai e o Filho estão unidos num mesmo amor por nós. Em sua carta, João retoma o mesmo ensinamento: “Foi assim que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus enviou o seu filho único ao mundo, para que tenhamos a vida por ele” (1 Jo 4,9)

Assim, tanto no Antigo Testamento como no Novo, Deus é conhecido como sendo “amor e fidelidade”. Estas são as qualidades que se manifestam com toda a clareza em Cristo (a “graça e verdade” de que fala Jo 1,14). Em Jesus, Deus aparece como comunhão de amor: o Pai, Jesus e o Espírito que age no mundo, esses três estão unidos no mesmo amor por nós. Um solitário não ama. Deus não é um ancião solitário. Deus é amor (1Jo 4,8), pois ele é comunidade em si mesmo, amor que transborda até nós.

Se Deus é comunidade de amor, também nós devemos sê-lo, nele. Se tanto ele nos amou, a ponto de enviar seu Filho, que deu sua vida por nós, nós também devemos dar a vida pelos irmãos, amando-os com ações e de verdade (cf. 1Jo 3,16-18). No amor que nos une, realizamos a “imagem e semelhança de Deus”, a vocação de nossa criação (Gn 1,26).

O conceito clássico do homem é individualista. Isso não é cristão… Se Deus é comunidade, e nós também devemos sê-lo, não realizaremos nossa vocação vivendo só para nosso sucesso individual, propriedade privada e liberdade particular. A Trindade serve de modelo para o homem novo, que é comunhão. Devemos cultivar os traços pelos quais o povo se assemelha ao Deus-Trindade: bondade, fidelidade, comunicação, espírito comunitário etc.

Como pode haver três pessoas em um só Deus? Pelo mistério do amor, que faz de diversas pessoas um só ser. Deus é comunidade, e nós também devemos sê-lo.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella