Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

12º Domingo do Tempo Comum

12º Domingo do Tempo Comum

Uma resposta dada mais com as ações do que com as palavras

 

Frei Gustavo Medella

“Senhor, quem sois vós? E quem sou eu?” São Francisco trazia esta pergunta no coração como um refrão orante sempre repetido a partir de dentro. O santo sabia que a resposta a estas indagações brotaria no mais profundo do seu coração e que seria uma construção a ser erguida dia após dia, “pedra por pedra”. Tinha convicção de que respondê-la não era questão apenas do uso acertado de palavras, mas de uma postura a ser cultivada na perseverança, a ponto de conformá-lo cada vez mais ao Senhor.

Dirigindo-se a seus seguidores mais próximos, perguntando primeiro “Quem dizem os homens que eu sou?”, e, sem seguida, “E vós, quem dizeis que eu sou?”, certamente Jesus não pretendia fazer uma sondagem sobre sua popularidade como se estivesse preocupado com o que os outros estariam pensando sobre ele. Também não parece que o Mestre desejasse promover uma prova oral a fim de conceder uma nota de 0 a 10 para compor o ranking de seus melhores alunos.

O foco da pergunta não era Jesus, mas os discípulos. Seu desejo, tudo indica, era chamar a atenção deles sobre a natureza processual do discipulado, realidade diante da qual as possíveis respostas precisam ser revisadas no decorrer da caminhada. Nesta direção, torna-se muito inspiradora uma prece que faz parte da Oração das Vésperas da Liturgia das Horas, que diz assim: “Fazei com que todos aqueles que se dedicam à busca da verdade possam encontrá-la, – e, encontrando-a, se esforcem por buscá-la sempre mais”.

Mais uma vez recorrendo à sabedoria franciscana, deste 12º Domingo do Tempo Comum, podemos levar como lição a frase proferida pelo Seráfico Pai a seus confrades pouco antes de sua partida deste mundo: “Irmãos, comecemos, porque até agora pouco ou nada fizemos”.

Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: Zc 12,10-11;13,1

Assim diz o Senhor: 10“Derramarei sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém um espírito de graça e de oração; eles olharão para mim. Ao que eles feriram de morte, hão de chorá-lo, como se chora a perda de um filho único, e hão de sentir por ele a dor que se sente pela morte de um primogênito. 11Naquele dia, haverá um grande pranto em Jerusalém, como foi o de Adadremon, no campo de Magedo.

13,1Naquele dia, haverá uma fonte acessível à casa de Davi e aos habitantes de Jerusalém, para ablução e purificação”.


Responsório: Sl 62

— A minh’alma tem sede de vós, como a terra sedenta, ó meu Deus!

— A minh’alma tem sede de vós, como a terra sedenta, ó meu Deus!

— Sois vós, ó Senhor, o meu Deus!/ Desde a aurora ansioso vos busco!/ A minh’alma tem sede de vós,/ minha carne também vos deseja.

— Como terra sedenta e sem água,/ venho, assim, contemplar-vos no templo,/ para ver vossa glória e poder./ Vosso amor vale mais do que a vida:/ e por isso meus lábios vos louvam.

— Quero, pois, vos louvar pela vida,/ e elevar para vós minhas mãos!/ A minh’alma será saciada,/ como em grande banquete de festa;/ cantará a alegria em meus lábios,/ ao cantar para vós meu louvor!

— Para mim fostes sempre um socorro;/ de vossas asas à sombra eu exulto!/ Minha alma se agarra em vós;/ com poder vossa mão me sustenta.


Segunda Leitura: Gl 3,26-29

Irmãos: 26Vós todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo. 27Vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo.

28O que vale não é mais ser judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um só, em Jesus Cristo.

29Sendo de Cristo, sois então descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa.


Jesus é o Messias

Evangelho: Lc 9, 18-24

-* 18 Certo dia, Jesus estava rezando num lugar retirado, e os discípulos estavam com ele. Então Jesus perguntou: «Quem dizem as multidões que eu sou?» 19 Eles responderam: «Alguns dizem que tu és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que tu és algum dos antigos profetas que ressuscitou.» 20 Jesus perguntou: «E vocês, quem dizem que eu sou?» Pedro respondeu: «O Messias de Deus.» 21 Então, Jesus proibiu severamente que eles contassem isso a alguém. 22 E acrescentou: «O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto, e ressuscitar no terceiro dia.» 23 Depois Jesus disse a todos: «Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga. 24 Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim, esse a salvará.

* 18-27: Não basta declarar e aceitar que Jesus é o Messias; é preciso rever a ideia a respeito do Messias, o qual, para construir a nova história, enfrenta os que não querem transformações. Por isso, ele vai sofrer, ser rejeitado e morto. Sua ressurreição será a sua vitória. E quem quiser acompanhar Jesus na sua ação messiânica e participar da sua vitória, terá que percorrer caminho semelhante: renunciar a si mesmo e às glórias do poder e da riqueza.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Comentários do exegeta Frei Ludovico Garmus

12º Domingo do Tempo Comum, ano C

Oração: “Senhor, nosso Deus, dai-nos por toda a vida a graça de vos amar e temer, pois nunca cessais de conduzir os que firmais no vosso amor”.

  1. Primeira leitura: Zc 12,10-11; 13,1

Contemplarão aquele a quem transpassaram.

A primeira leitura começa com uma promessa à casa real de Davi e aos habitantes de Jerusalém. Trata-se da promessa do nascimento de um filho, descendente da família do rei Davi que, no futuro, ocupará o trono real: Deus derramará um espírito de graça e oração/súplica, de modo que a casa de Davi e o povo voltarão seu olhar suplicante para Deus. Surge logo a figura misteriosa de alguém ferido de morte, o “traspassado”. O espírito de graça e de súplica será seguido de pranto pelo que foi por eles ferido de morte. Haverá por ele um lamento como se fosse por um filho único. Por fim, promete-se à casa de Davi e aos habitantes de Jerusalém que no futuro haverá uma fonte acessível para a purificação. Para Isaías Deus é a fonte de vida e salvação: “Tirareis água das fontes de salvação” (Is 12,3). Jeremias acusa os habitantes de Jerusalém de abandonarem ao Senhor, “a fonte de água viva” (Jr 17,13). Ezequiel promete que Deus derramará água viva e o povo será purificado (36,25). Esta água viva brotará debaixo do Templo (47,1). Para João, nascer da água e do Espírito Santo é condição para entrar no Reino de Deus (3,5; 4,1). E Jesus diz para a Samaritana: “Quem beber da água que eu lhe der jamais terá sede. A água que eu lhe der será nele uma fonte que jorra para a vida eterna” (4,14). Muitos profetas que, no passado, falaram em nome de Deus foram rejeitados e assassinados. Por fim, Deus quis manifestar seu amor em Jesus de Nazaré, Filho de Deus (Evangelho), que também foi “traspassado” pela lança, quando pendia morto da cruz e de seu lado aberto saía sangue e água (Jo 19,34-37). Paulo identifica a rocha da qual Moisés fez sair água no deserto com o próprio Cristo. A água purificadora nos lembra o batismo e nossa vida em Cristo (2ª leitura).

Salmo responsorial: Sl 62

A minh’alma tem sede de vós, como terra sedenta e sem água.

  1. Segunda leitura: Gl 3,26-29

Vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo.

Paulo nos lembra a essência da vida cristã. Pela fé em Jesus Cristo nos tornamos filhos de Deus. Ser batizado em Cristo – diz ele – é revestir-se de Cristo (veste branca do batismo). Isto é, assumir a vida de Cristo como norma de nossa própria vida cristã. O que Paulo escreve também vive: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). Por isso, pelo batismo e pela fé em Cristo – diz Paulo – nos tornamos um só em Jesus Cristo e assim acabam as divisões, judeu e grego, escravo e livre, homem e mulher.

Aclamação ao Evangelho: Jo 10,27

                Minhas ovelhas escutam minha voz, minha voz elas estão a escutar.

                Eu conheço, então, minhas ovelhas, que me seguem comigo a caminhar.

  1. Evangelho: Lc 9,18-24

Tu és o Cristo de Deus. O Filho do Homem deve sofrer muito.

O Evangelho que acabamos de ouvir é do evangelista Lucas. Antes deste texto, Lucas conta o milagre da divisão dos cinco pães e dois peixes para cinco mil pessoas. Depois disso, Jesus se retira com os discípulos para orar, como costumava fazer, especialmente antes de tomar decisões importantes. Na intimidade com Deus, Jesus certamente se questionava qual era a vontade do Pai a respeito de sua missão. A pregação e os milagres que Jesus fazia levavam também o povo a se perguntar quem era este homem de Nazaré. O próprio Herodes dizia que era João Batista, o profeta que ele mandou executar, que teria ressuscitado dos mortos; outros diziam que era Elias, cuja volta era esperada antes da vinda do Messias; outros ainda, que era um dos profetas que ressuscitou (cf. Lc 9,7-9). Neste clima, também Jesus pergunta aos discípulos: “quem as multidões dizem que eu sou”? A resposta dos discípulos confirma o que se dizia entre o povo a respeito de Jesus. Quando Jesus pergunta “e vós quem dizeis que eu sou”? – Pedro responde: “O Cristo de Deus”, isto é, o Messias, o Ungido do Senhor, prometido no passado e que agora Deus estava enviando. Jesus, porém, proíbe aos discípulos de falar disso ao povo, porque havia diferentes expectativas do Messias/Cristo. A partir de então Jesus começa a esclarecer aos discípulos que Ele era o Messias, Servo do Senhor. É muito provável que Pedro, os discípulos e muita gente do povo pensavam num Messias que iria tomar o poder em Jerusalém, expulsar os romanos e reformar o culto no Templo. Até mesmo antes da ascensão de Jesus ao céu alguns discípulos ainda perguntavam: “Senhor, é agora que vais restabelecer o reino de Israel”? Na Última Ceia Jesus diz aos discípulos: “Vós sois os que permanecestes comigo nas minhas tentações” (Lc 22,28). Não foram apenas as “tentações” no deserto. O próprio Pedro foi um dos tentadores que tentava desviar Jesus de seu propósito de ser o Messias Servo Sofredor, que deu a vida por nós (cf. Mt 16,21-23). Para falar de sua missão, Jesus se apresenta como o “Filho do Homem”, alguém que assumiu nossa condição humana de limitação e sofrimento, esquecendo sua condição divina (cf. Fl 2,5-11): “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar ao terceiro dia”. Quem viveu assim pode dizer, em seguida, a todos (a nós também): “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia, e siga-me”. Quem deu a sua vida por nós também pode dizer a nós que o seguimos: “Quem perder a sua vida por mim, esse a salvará”. Seguir a Jesus Cristo, renunciar-se a si mesmo e tomar a cruz de cada dia, – a nossa e a de nossos irmãos a quem servimos – é perder sua vida para salvar a dos irmãos. – João expressa a mesma mensagem com outras palavras: “Na verdade eu vos digo: se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, ficará só; mas se morrer, produzirá muito fruto” (Jo 12,24).

Que tipo de Cristo nós seguimos? Não podemos seguir o Cristo glorioso que triunfou sobre a morte, sem abraçar o caminho do Cristo Servo Sofredor. Logo mais, na consagração, ouviremos as palavras: “Fazei isto em memória de mim”. Não é apenas ordem de celebrar a Eucaristia, mas também o que Jesus fez em sua vida, até à morte na Cruz.

Cristo: ungido de Deus

Frei Clarêncio Neotti

Na verdade, seu comportamento era o de um profeta, enviado de Deus, cercado de mistério, que falava da presença de Deus entre os homens e da conversão do coração ao Criador. Comparavam-no a Elias, que vivera 800 anos antes e cuja memória permanecia por causa de seu empenho em levar o povo de volta ao verdadeiro Deus. Jesus manifestava muitas qualidades de Elias e tinha semelhanças com João Batista. Não fosse o Batista ou Elias retornado do céu, certamente seria alguém com a têmpera e a força dos antigos profetas (v. 19).

Os Apóstolos, que conviviam com ele, sabiam que ele era homem como eles, mas envolto em mistério. E o mistério tinha a ver com o divino. Todos conheciam sua família (Me 6,3), mas sua palavra era maior que a doutrina dos rabinos (Jo 7,16). Pedro expressou o que eles pensavam: era o Cristo, o enviado de Deus. Mas eles ainda pensavam num Cristo restaurador do Reino de Davi (At 1,6). Era preciso que eles se convencessem de que o Cristo, o ungido de Deus, viera para restaurar a integridade das criaturas, manchadas e fragmentadas pelo pecado. Era o “Cordeiro de Deus que viera tirar o pecado do mundo” (Jo 1,29) e cumpriria essa missão, deixando-se pregar numa cruz. Sua morte, longe de ser um fim, tornar-se-ia fonte de graça. Era a luz do mundo (Jo 9,12), o Filho de Deus vivo (Mt 16,16) com poder de dar a vida divina a quantos nele acreditassem (Ja 3,36).

Voltar a Jesus de verdade

Frei Almir Guimarães

Jesus, Jesus Cristo! Quanto se fala dele! Quantas vezes pronunciamos esse nome!!! Sua cruz está suspensa em paredes, suas imagens presentes em muitos espaços, suas palavras ainda repetidas. Mas quem é ele, de fato, para cada um de nós e para esse mundo do século XXI?  Muitos ficam com ele, mas não querem a religião.Lá se foi uma cristandade, um tempo em que estava sempre presente, nem sempre corretamente presente. Talvez muitos tenhamo-nos acostumado com ele, ele que não admite “acostumações”. Jesus tem como marca registrada inquietar os que dele se aproximam. Pode ser que ao longo dos tempos e dos séculos fomos nos construindo caricaturas do Cristo. Impossível pintar seu retrato numa tela.  Faltam-nos as melhores cores. Talvez não tenhamos acertado a receita para o encontro com ele. Quem é ele, afinal de contas?

♦  Antes de tudo devemos dizer que ele vive. Não mais esse gênero de existência que vivemos. Esse que veio o Mistério da Trindade, da comunhão eterna de amor entre o Pai, o Verbo e o Sopro, esse que ganhou corpo, braços, pernas, voz, olhos, veio até nós revestido da fragilidade e das promessas de menininho deitado nas palhas. Terminou seus dias morrendo de amor no alto do madeiro.  Veio do Mistério, falou-nos do Mistério. Morreu. Ressuscitou. Vive. Faz-se  presente na história da humanidade.  Cremos  que ele vive.

♦ A primeira e basilar afirmação é esta: Ele vive, de uma vida nova, ele mesmo com seu corpo, diferente é verdade, junto do Pai e perto de nós com sua insinuante presença na Palavra, nos símbolos dos sacramentos e seus segredos, nos espaço de amor sem limites e no rosto  dos mais sofridos.

♦  Ele veio como Mestre. Quer discípulos. Convocou ontem e convoca hoje pessoas para seu seguimento. Pessoas que vão, aos poucos, configurando seu semblante  com os traços de um Mestre que buscam e amam. Vive a nos dizer: “Vinde e vede”.

♦ Insinua-se me nossas vidas de várias maneiras e modos: uma parábola que mexe com nossas entranhas, nas cruzes que podem se elevar diante de nós, no convite a que sejamos construtores de um mundo diferente, mundo de justiça de atenção para o que frágil, que tentemos custe o custar não deixar  as pessoas jogadas à beira do caminho.

♦ Ele é pão, luz, pastor, caminho, verdade e nos leva ao modo diferente de viver que se chama conversão: o amargo pode ser doce. Quer que nos desvencilhemos de nós mesmos. Ele nos convoca, nos chama. Quer que adotemos um certo estilo de viver:

♦ “Para entrar pelo caminho aberto por  Jesus é necessário entender muito bem  que os evangelhos são relatos de conversão. Foram escritos para produzir  fé em Jesus Cristo, para suscitar discípulos e seguidores. São relatos que convidam a entrar num processo de mutação, de mudança de identidade, de seguimento de Jesus, de identificação com sua causa, de colaboração com seu projeto do reino de Deus. Nesta atitude de conversão é que os evangelhos devem ser lidos, meditados, compartilhados, acolhidos e transmitido nos grupos.  A primeira coisa que se aprende de Jesus nos evangelhos não é uma doutrina, mas um estilo de vida: uma maneira de estar na vida, uma forma de habitar o mundo, de interpreta-lo, de construí-lo; uma maneira de tornar a vida mais humana. O característico deste estilo de viver é que ele se inspira em Jesus. Nasce da relação com ele. É-nos transmitido seu Espirito. Aprendemos sua maneira de pensar, sentir, amar, orar, sofrer, criar, confiar e morrer. Pouco a pouco vamos convertendo-nos em discípulos e discípulas de Jesus” (Pagola, Voltar a Jesus,  Vozes, p. 65).


Oração

Senhor, Tu és nossa luz.
Senhor, Tu és a verdade.
Senhor, Tu és a nossa paz.
Querendo acompanhar-nos te fizeste peregrino;
compartilhas nossa vida, nos mostras o caminho.
Não basta rezar a ti,
dizendo que te amamos;
devemos imitar-te,
amar-te nos irmãos.
Tu pedes que tenhamos  humilde confiança;
Teu amor saberá encher-nos de vida e esperança.

 

O que fizemos de Jesus?

 José Antonio Pagola

ÀS vezes é perigoso sentir-se cristão “por toda a vida”, porque corremos o risco de não revisar nunca nossa fé e não entender que, definitivamente, a vida cristã não é senão um contínuo processo de passar da incredulidade para a fé no Deus vivo de Jesus Cristo.

Muitas vezes acreditamos ter uma fé inabalável em Jesus, porque o temos perfeitamente definido com fórmulas precisas, e não nos damos conta de que, na vida diária, o estamos desfigurando continuamente com nossos interesses e covardias.

Confessamo-lo abertamente como Deus e Senhor nosso, mas às vezes Ele não significa quase nada nas atitudes que inspiram nossa vida. Por isso, é bom ouvir sinceramente sua pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Na realidade, quem é Jesus para nós? Que lugar ocupa Ele em nossa vida diária?

Quando, em momentos de verdadeira graça, alguém se aproxima sinceramente do Jesus do Evangelho, encontra-se com alguém vivo e palpitante. Alguém que não é possível esquecer. Alguém que continua atraindo-nos apesar de nossas covardias e mediocridade.

Jesus, “o Messias de Deus”, nos coloca diante de nossa última verdade e se transforma, para cada um de nós, em convite prazeroso à mudança, à conversão constante, à busca humilde, mas apaixonada, de um mundo melhor para todos.

Jesus é perigoso. Nele descobrimos uma entrega incondicional aos necessitados, entrega esta que põe a descoberto nosso radical egoísmo. Uma paixão pela justiça que sacode nossas seguranças, covardias e servidões. Uma fé no Pai que nos convida a sair de nossa incredulidade e desconfiança.

Jesus é a coisa maior que nós cristãos temos. Ele infunde outro sentido e abre outro horizonte à nossa vida. Ele nos transmite outra lucidez e outra generosidade. Ele nos comunica outro amor e outra liberdade. Ele é nossa esperança.

Em Cristo, todos são iguais

Pe. Johan Konings

Todo mundo sabe que existem distinções e, muitas vezes, discriminações no tratamento social. O que fazemos com isso na Igreja, na comunidade de Cristo? Paulo, na 2ª leitura, anuncia a igualdade de todos no sistema do “Senhor Jesus”. Acabou o regime da lei judaica, que considerava o ser judeu um privilégio, por causa da antiga Aliança com Abraão e Moisés. A crucificação de Jesus, em nome desse regime antigo (cf. evangelho), marcou a chegada de um regime novo.

Simplesmente observar a lei de Moisés já não é salvação para quem conhece Jesus, para quem sabe o que ele pregou e como ele deu sua vida por sua nova mensagem e por aqueles que nela acreditassem. Estes constituem o povo da Nova Aliança. São todos iguais para Deus, como filhos queridos e irmãos de Jesus – filhos com o Filho e co-herdeiros de seu Reino, continuadores do projeto que ele iniciou.

Neste novo sistema não importa ser judeu ou não-judeu, escravo ou livre, homem ou mulher (branco ou negro, patrão ou operário, rico ou pobre). Mesmo não tendo chances iguais em termos de competição econômica e ascensão social, todos têm chances iguais no amor de Deus. Ora, este amor deve encarnar-se na comunidade inspirada pelo evangelho de Jesus, eliminando desigualdade e discriminação. Provocada pelas diferenças econômicas, sociais, culturais etc., a comunidade que está “em Cristo” testemunhará igual e indiscriminado carinho e fraternidade a todos, antecipando a plenitude da “paz” celeste para todos os destinatários do amor do Pai. Programa impossível, utopia? Talvez seja. Mas nem por isso podemos desistir dele, pois é a certeza que nos conduz! Na “caridade em Cristo”, o capital já não servirá para uma classe dominar a outra, mas para estar à disposição de todos que trabalham e produzem. A influência e o saber estarão a serviço do povo. O marido não terá mais “liberdades” que a mulher, mas competirá com ela no carinho e dedicação.

É preciso perder sua vida para a encontrar (evangelho). Quem se apega aos seus privilégios não vai encontrar a vida em Cristo. Só quem coloca suas vantagens a serviço poderá participar da vida igual à de Cristo, na comunidade dos irmãos.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella