Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Especial Campanha da Fraternidade

Introdução

Estamos nos aproximando da Quaresma, tempo em que a Igreja do Brasil aproveita para trabalhar de forma mais intensa a Campanha da Fraternidade.

Neste ano, o tema da CF é “Fraternidade e vida: dom e compromisso”, e o lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10, 33-34). Baseando-se na Parábola do Bom Samaritano, a CF deste ano não trabalhará um tema específico, mas “olhando transversalmente as diversas realidades, nos interpelará a respeito do sentido que estamos, na prática, atribuindo à vida nas suas diversas dimensões: pessoal, comunitária, social e ecológica” (Texto-base).

Os três verbos apontados no lema: “viu, sentiu e cuidou”, nos recordam o método ver, julgar e agir. O fato do samaritano ter cuidado daquele homem abandonado à beira do caminho nos revela que o Reino de Deus acontece através de ações, de gestos concretos. Os demais viram a situação daquele homem, até manifestaram algum sentimento, mas aquele que teve iniciativa foi o protagonista da parábola, pois através de sua ação, conseguiu transformar a realidade que se apresentava naquele momento.

O texto-base da CF afirma: “A postura inesperada do samaritano contém o centro do ensinamento de Jesus: o próximo não é apenas alguém com quem possuímos vínculos, mas todo aquele de quem nos aproximamos. É todo aquele que sofre diante de nós. Não é a lei que estabelece prioridades, mas a compaixão que impulsiona a fazer pelo outro aquilo que é possível, rompendo, dessa forma, com a indiferença. A fé leva necessariamente à ação, à fraternidade e à caridade” (nº 8).

Neste ano, o cartaz da CF e o texto-base apresentam Santa Dulce dos Pobres como um ícone de compaixão e caridade. Assim como ela, a CF deste ano convida os cristãos a despojarem-se e cultivarem em si o olhar do bom samaritano, que faz o bem sem olhar a quem.

Acompanhe neste Especial diversos textos sobre a CF e iniciativas promovidas para a divulgação da CF deste ano em nossa Província.

Mensagem da CNBB

A Campanha da Fraternidade é um modo privilegiado pelo qual a Igreja no Brasil vivencia a Quaresma. Há mais de cinco décadas, ela anuncia a importância de não separar a conversão do serviço aos irmãos e irmãs, à sociedade e ao planeta, nossa Casa Comum. A cada ano, um tema é destacado como sinal de que realmente necessitamos de conversão. Assim, a Campanha da Fraternidade já nos convidou a enfrentar realidades muito próximas dos brasileiros, por exemplo:
família, políticas públicas, saúde, trabalho, educação, moradia e violência, entre outros enfoques. Em cada um desses temas tão específicos, temos sido convidados a alargar nosso olhar e a perceber que o pecado ameaça a vida como um todo.

Neste ano, somos convidados a olhar, de modo mais atento e detalhado, para a vida. Longe de ser uma mera repetição de assunto exaustivamente abordado, o tema vida emerge em nossos dias como um clamor que brota de tantos corações que sofrem de inúmeras formas e da criação que se vê espoliada (LS, n. S3). Como nos indicou a Campanha da Fraternidade de 2019, que tratou das políticas públicas, esse clamor se depara com a insuficiência de ações efetivas para a superação dos problemas.

O olhar que se eleva para Deus, no mais profundo espírito quaresmal, volta-se também para os irmãos e irmãs, contempla o planeta, identificando a criação como presente amoroso do Senhor. Percebe-se também que não estamos cuidando como deveríamos desse amoroso presente divino. Constata-se que chegamos a um ponto em que até mesmo a nossa condição humana mais profunda esbarra em uma série de angustiantes indagações. O que aconteceu conosco? O que vem ocorrendo com a humanidade, que, embora percebendo o aumento dos números de sofrimentos, parece não mais sensibilizar-se com eles? Teríamos deixado se perder o sentido mais profundo da vida? Diante, por exemplo, de concepções de felicidade individualista e consumista, não estaríamos nos esquecendo do significado maior da existência? Por que vemos crescer tantas formas de violência, agressividade e destruição? Perdemos, de fato, o valor da fraternidade?

Em meio a tantas questões, a Campanha da Fraternidade deste ano nos convoca a refletir sobre o significado mais profundo da vida e a encontrar caminhos para que esse sentido seja fortalecido e, algumas vezes, até mesmo reencontrado. Não será uma Campanha que abordará apenas uma dentre tantas questões angustiantes, consequências do pecado. Será uma Campanha que, olhando transversalmente as diversas realidades, nos interpelará a respeito do sentido que estamos, na prática, atribuindo à vida nas suas diversas dimensões: pessoal, comunitária, social e ecológica.

Para nos ajudar, nunca será demasiado recordar o que o Papa Francisco conclamou, logo no início do seu pontificado, quando visitou a ilha de Lampedusa, sul da Itália, em julho de 2013. Aquela era a primeira viagem que ele fazia depois de assumir a missão de sucessor de Pedro. Da pequena ilha no Mar Mediterrâneo, o Papa nos convocou a vencer a “globalização da indiferença”. Se já não somos mais capazes de perceber a desumana dor ao nosso lado, também nós nos tornamos desumanizados.

É por isso que a Campanha da Fraternidade de 2020 proclama: a vida é Dom e Compromisso! Seu sentido consiste em ver, solidarizar-se e cuidar. A vida é essencialmente samaritana, tal qual o homem que interrompeu sua rotina para cuidar de quem estava caído à beira do caminho (Lc 10, 25-37). Não se pode viver a vida passando ao largo das dores dos irmãos e irmãs.

Para combater a autossuficiência, somos quaresmalmente convidados a redescobrir o dom de Deus (Jo 4,10). Vivendo a conversão e buscando assumir o espírito da Quaresma com toda a sua riqueza espiritual. Diante da inconsequência, somos interpelados a recuperar o valor do compromisso (Lc 14,25-33). Assustados pela indiferença, torna-se urgente testemunhar e estimular a solidariedade (Mt 25, 45). Em Jesus Cristo, vencedor do pecado e da morte, somos vocacionados ao intercâmbio do cuidar: cuidamos uns dos outros, cuidamos juntos da Casa Comum, porque Deus sempre cuida de todos nós (Sl 8, 4; Is 49, 15; 1Pd 5, 7).

Permita o Bom Deus que cada pessoa, grupo pastoral, movimento, associação, Igreja Particular, enfim, o Brasil inteiro, motivado pela Campanha da Fraternidade, possa ver fortalecida a revolução do cuidado, do zelo, da preocupação mútua e, portanto, da fraternidade. Ao final deste texto, como de costume, são apresentadas algumas sugestões para o agir. Muito mais pode ser feito quando o coração se abre para o intercâmbio do cuidado, e a criatividade se deixa conduzir pela
fraternidade e pela solidariedade.

Não nos acomodemos com a virulência do pecado. A Quaresma é um tempo para reforçarmos em nós a fé no Ressuscitado. Jesus venceu a morte. Jesus derrotou o pecado. Nele, com Ele e por Ele, também nós o faremos, reconstruindo os laços, unindo os corações, as mentes e a sociedade.

Não temamos se nos sentirmos pequenos diante dos problemas. Lembremo-nos de Santa Dulce dos Pobres, mulher frágil no corpo, mas fortaleza peregrinante pelas terras de São Salvador da Bahia de Todos os Santos. Dulce, presença inquestionável do amor de Deus pelos pobres e sofredores. Dulce, incansável peregrina da caridade e da fraternidade. Dulce, testemunho irrefutável de que a vida é dom e compromisso. Dulce que via, se compadecia e cuidava. Dulce que
intercede por nós no céu .

Brasília, 6 de agosto de 2019

Dom Walmor Oliveira de Azevedo                                    Dom Jaime Spengler, OFM 
Arcebispo de Belo Horizonte – MG                                       Arcebispo de Porto Alegre – RS
Presidente                                                                                  1º Vice-Presidente

Dom Mário Antônio da Silva                                               Dom Joel Portella Amado 
Bispo de Roraima – RR                                                           Bispo Auxiliar de São Sebastião do Rio de Janeiro – RJ
2º Vice-Presidente                                                                   Secretário- Geral

Objetivos

Objetivo Geral:

Conscientizar, à luz da Palavra de Deus, para o sentido da vida como Dom e Compromisso, que se traduz em relações de mútuo cuidado entre as pessoas, na família, na comunidade, na sociedade e
no planeta, nossa Casa Comum.

Objetivos Específicos:

  • Apresentar o sentido de vida proposto por Jesus nos Evangelhos;
  • Propor a compaixão, a ternura e o cuidado como exigências fundamentais da vida para relações sociais mais humanas;
  • Fortalecer a cultura do encontro, da fraternidade e a revolução do cuidado como caminhos de superação da indiferença e da violência;
  • Promover e defender a vida, desde a fecundação até o seu fim natural, rumo à plenitude;
  • Despertar as famílias para a beleza do amor que gera continuamente vida nova;
  • Preparar os cristãos e as comunidades para anunciar, com o testemunho e as ações de mútuo cuidado, a vida plena do Reino de Deus;
  • Criar espaços nas comunidades para que, pelo batismo, pela crisma e pela eucaristia, todos percebam, na fraternidade, a vida como Dom e Compromisso;
  • Despertar os jovens para o dom e a beleza da vida, motivando-lhes o engajamento em ações de cuidado mútuo, especialmente de outros jovens em situação de sofrimento e desesperança;
  • Valorizar, divulgar e fortalecer as inúmeras iniciativas já existentes em favor da vida;
  • Cuidar do planeta, nossa Casa Comum, comprometendo-se com a ecologia integral.

Podcasts

Para contribuir com a reflexão da Campanha da Fraternidade, a Província Franciscana da Imaculada Conceição, através da Frente de Evangelização da Comunicação, produziu uma série de entrevistas, disponibilizada em formato podcast.

Abordando diversos aspectos ligados à compaixão e à solidariedade, o podcast busca levar ao ouvinte a refletir sobre o tema deste ano, além de ajudar na formação dos agentes de pastoral.

O material teve produção do Departamento de Comunicação da Província e contou com a colaboração da Fundação Cultural Celinauta.

A cada semana serão disponibilizados novos episódios. Acompanhe abaixo os episódios:

CONFIRA OS EPISÓDIOS:

01. CF 2020 – Inspirações e provocações – Dom Jaime Spengler
1º Vice-Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e Arcebispo de Porto Alegre (RS).

02. A compaixão em lugar da competição – Frei Vitório Mazzuco
Mestre em Espiritualidade Franciscana, coordenador de Pastoral da Universidade São Francisco (USF).

03. Irmã Dulce: vida, história e exemplo – Karla Maria
Jornalista, autora dos livros Mulheres extraordinárias; Irmã Dulce – A Santa brasileira que fez dos pobres sua vida; e O peso do jumbo – Histórias de uma repórter de dentro e fora do cárcere (Editora Paulus). Ganhadora do Prêmio Dom Helder Câmara de Imprensa da CNBB (2012 e 2017).

04. A importância de sermos samaritanos da Casa Comum – Moema Miranda
Auditora do Sínodo para a Amazônia, doutoranda em Filosofia e a Questão Ambiental pela PUC Rio, leiga da Ordem Franciscana Secular (OFS) e membro da Comissão de Ecologia Integral e Mineração da CNBB.

05.  Os exercícios quaresmais como inspiração para o cuidado – Frei Fidêncio Vanboemmel
Moderador da Formação Permanente da Província Franciscana.

06. O cuidado com o ser humano como compromisso da Constituição Federal – Profº Volney Zamenhof de Oliveira Silva
Diretor do Câmpus Itatiba e Diretor da Área de Ciências Humanas e Sociais da Universidade São Francisco (USF)

07. Educar para o cuidado – Professor Mario Renato Longen
Coordenador de Ensino Religioso do Colégio Bom Jesus, em Curitiba (PR).

08. Compaixão e cuidado como prioridades pastorais – Frei Marx Rodrigues dos Reis
Coordenador do setor de formação do Sefras e vigário paroquial da Paróquia Santo Antônio do Pari

09. A Igreja nas periferias – Padre Kelder José Brandão Figueira
Pároco da Paróquia Santa Teresa de Calcutá, de Itararé, em Vitória e Vigário Episcopal para a ação social, política e ecumênica da Arquidiocese de Vitória (ES).

10. Justiça restaurativa e compaixão – Vera Lucia Dalzotto
Assessora Nacional da Pastoral Carcerária para a questão da Justiça Restaurativa e membro da coordenação da Pastoral Carcerária no Rio Grande do Sul (RS).

11.  Segurança Alimentar –  Profº Alison Douglas da Silva
Docente do curso de nutrição da Universidade São Francisco (USF) e doutorando em Saúde Coletiva pela Unicamp.

12. A experiência do Arsenal da Esperança como uma atualização da parábola do bom samaritano – Pe. Simone Bernardi
Membro do Sermig – Serviço Missionário Jovens – pertence ao Arsenal da Esperança, em São Paulo.

13. Evangelizar: gerar experiências de solidariedade e inclusão junto aos que sofrem – Frei Diego Melo
Coordenador do Serviço de Animação Vocacional (SAV) e animador provincial do JPIC (Comissão de Justiça, Paz e Integridade da Criação)

14. O diálogo inter-religioso e o cuidado com o ser humano e a casa comum – Pastora Marcia Romi Bencke
Secretária-Geral do Conic – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil

15. A compaixão e o cuidado a partir da compreensão Budista
Monja Coen, Fundadora primaz da Comunidade Zen Budista Zendo Brasil

A série também está disponível no Spotify / Anchor / Google Podcast / Deezer / Podtail e também no Apple Podcast.

Ouça no Soundcloud:


O Bom Samaritano como modelo de Ação Evangelizadora comprometida com o cuidado

Frei Gustavo Medella

CONTEXTUALIZANDO

A Campanha da Fraternidade 2020, que tem como tema “Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso”, foi buscar na Parábola do Bom Samaritano (Lc 10), o modelo de relação e encontro que deve nortear a Missão da Igreja e, consequentemente, da Província. Os três verbos que aparecem no versículo que serve de lema – Ver, sentir compaixão e cuidar – remetem ao consagrado método adotado na caminhada eclesial de modo muito frequente a partir do Pós-Concílio Vaticano II. No exemplo pedagógico que apresenta, Jesus deixa bem claro qual é o ponto de partida da proposta de discipulado que Ele vem apresentar: de que maneira o Amor a Deus e ao próximo transforma concretamente as pessoas, as relações e o mundo.

VIU (1)

Mais do que um ato fisiológico de percepção da luz, das imagens e das cores, olhar é uma postura que se assume diante dos apelos e estímulos que nascem da realidade. O olhar, assim como as outras habilidades humanas, também pode ser treinado, dirigido e orientado de acordo com uma série de interesses, prioridades e valores. Na parábola do Bom Samaritano, podem ser identificados três tipos de olhar:

1) O olhar dos assaltantes – Viram naquele homem que passava uma oportunidade de obter benefício imediato sem grande empenho. Bastava usar um pouco da força física e da vantagem numérica para subtrair da vítima tudo o que ela possuía e que atendesse a seus interesses. Não tinham a menor preocupação em saber quem era aquele que passava nem estavam preocupados com sua vida de maneira que o deixaram ferido, espoliado e quase morto à beira do caminho. Trata-se do olhar do egoísmo, da exploração, do ódio, totalmente alheio aos princípios da ética, da empatia e da compaixão. É um olhar que mata, fere e que rouba a dignidade das pessoas. Este tipo de olhar está no germe da corrupção, da violência, do autoritarismo, da devastação da natureza, das grandes guerras, das gritantes desigualdades sociais e demais mazelas que assolam o Brasil e o mundo.

2) O olhar do levita e do sacerdote – É o olhar da indiferença, da inversão dos valores da incompreensão do que é prioritário. É a postura de quem “dá de ombros” diante de situações urgentes, em que a vida encontra-se frontalmente ameaçada. É a postura cantada pelo Padre Zezinho na célebre canção: “Seu nome é Jesus Cristo e passa fome e grita pela boca dos famintos. E a gente quando vê passa adiante, às vezes pra chegar depressa à igreja”. Nasce do individualismo, da sede crescente pelo consumo, da cultura do descartável, opções de vida que vêm sendo profundamente criticadas pelo Papa Francisco em seus discursos, entrevistas e nos documentos papais.

3) O olhar do samaritano – É o olhar solidário, do serviço e do comprometimento. Na cena em que os assaltantes enxergaram uma oportunidade de lucro fácil, o levita e o sacerdote viram um possível “estorvo” a seus programas préestabelecidos, o samaritano viu um irmão que necessitava de um cuidado urgente e imediato. Assim como os personagens anteriores, o samaritano não esteve interessado, num primeiro momento, em saber quem era aquele que jazia quase morto. Não era importante naquele momento. O prioritário era socorrê-lo e garantir-lhe a sobrevivência. Ali encontrou uma oportunidade única e inédita de amar. É o olhar da disponibilidade, da doação gratuita e da identificação com o outro, especialmente com suas lutas e dores. É o modo de olhar adotado por Jesus (cf. p.ex. Mt 9,36) e que Ele convida seus discípulos a também assumir.

SENTIU COMPAIXÃO

Ao descrever a piedade que Francisco trazia no coração, São Boaventura escreveu na Legenda Maior:

A verdadeira piedade, que, na palavra do Apóstolo, é útil a todas as coisas, enchera o coração de Francisco, compenetrando-o tão intimamente, que parecia dominar totalmente a personalidade do homem de Deus. Nasciam daí a devoção que o elevava até Deus, a compaixão que fazia dele um outro Cristo, a amabilidade que o inclinava para o próximo, e uma amizade com cada uma das criaturas, que lembra nosso estado de inocência primitiva (2).

Sentir compaixão é aproximar-se de Cristo e, num mesmo movimento, inclinar-se para o próximo e construir uma relação de reverência e fraternidade com os bens da criação.

1) Compaixão e justiça – Na prática de Jesus, o senso de justiça ultrapassa o limite da retribuição baseado na máxima de premiar quem acerta e punir quem erra. Nesta direção aponta o trecho do Sermão da Montanha no qual o Filho descreve o modo de proceder do Pai: “Amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos.” Não se trata de assumir o caminho do comodismo, da ingenuidade nem da omissão, mas adotar uma postura restaurativa em relação à vida em suas diversas manifestações. Restauração, restituição, reconstrução e conversão são práticas intimamente relacionadas ao tempo Quaresmal e à Espiritualidade Franciscana, atitudes que exigem empenho individual e comunitário, além de organização, corresponsabilidade e empenho.

2) Compaixão e misericórdia (3) – Misericórdia é o movimento do coração que se dispõe ao encontro. É iniciativa que parte de Deus e se manifesta em Jesus Cristo, quando a Onipotência Divina toca a fragilidade humana a partir de dentro da História e do interior de cada coração humano chamado a tornar-se manso e humilde tal qual o Coração de Jesus. Explica o Papa Francisco, na Bula Misericordiae Vultus:

A missão, que Jesus recebeu do Pai, foi a de revelar o mistério do amor divino na sua plenitude. « Deus é amor » (1 Jo 4, 8.16): afirma-o, pela primeira e única vez em toda a Escritura, o evangelista João. Agora este amor tornou-se visível e palpável em toda a vida de Jesus. A sua pessoa não é senão amor, um amor que se dá gratuitamente. O seu relacionamento com as pessoas, que se abeiram d’Ele, manifesta algo de único e irrepetível. Os sinais que realiza, sobretudo para com os pecadores, as pessoas pobres, marginalizadas, doentes e atribuladas, decorrem sob o signo da misericórdia. Tudo n’Ele fala de misericórdia. N’Ele, nada há que seja desprovido de compaixão.

No mesmo Documento, o Santo Padre descreve como a Misericórdia se concretiza na prática de Jesus e quais são os destinatários preferenciais dela: a multidão cansada e abatida (Mt 9,36), os doentes que se lhe apresentavam (Mt 15,37), a multidão faminta no milagre da multiplicação dos pães (Mt 15,37), o endemoniado de Gerasa (Mc 5,19), a viúva de Naim, quando sepultava seu único filho (Lc 7,15), entre tantos outros.

3) Compaixão e caridade – Baseando-se na Doutrina Social da Igreja, o Texto-Base da CF 2020 chama atenção para a dimensão social e comunitária da caridade, como elemento de transformação da sociedade. Além de ser compromisso individual do cristão, também se espera que seja uma “força capaz de suscitar novas vias de enfrentamento dos problemas do mundo de hoje renovando estruturas, organizações pessoais e ordenamentos jurídicos” (Texto-Base CF 2020, n. 117). Nesta direção, tendo em vista a prevalência do viés econômico na determinação dos rumos da sociedade, merece nota de destaque a iniciativa do Papa Francisco em convocar para este ano, na cidade de Assis, entre os dias 26 e 28 de março, o encontro “A Economia de Francisco: os jovens, um pacto, o futuro”, voltado a jovens que atuam e militam no campo econômico. O motivo que levou o Santo Padre a escolher Assis como sede deste encontro serve também de convocação à Família Franciscana e a contribuição que ela pode dar para o cultivo de novas relações econômicas baseadas no respeito e na solidariedade:

Com efeito, ali [em Assis] Francisco despojou-se de toda a mundanidade para escolher Deus como Estrela polar da sua vida, fazendo-se pobre com os pobres, irmão universal. Da sua escolha de pobreza brotou também uma visão da economia que permanece extremamente atual. Ela pode dar esperança ao nosso amanhã, não apenas em benefício dos mais pobres, mas da humanidade inteira. Aliás, ela é necessária para o destino de todo o planeta, a nossa casa comum, «a nossa irmã Terra Mãe», como Francisco a chama no seu Cântico do Irmão Sol. (4)

CUIDOU DELE

A dimensão do cuidado remete à prática transformadora da compaixão que é despertada por um olhar que se deixa tocar pelos apelos da realidade. No Texto-Base, podem ser encontradas 57 sugestões de ações concretas que têm no cuidado seu ponto de partida. Elas estão compreendidas entre os números 214 e 216 do documento. Tais sugestões são convergentes em relação a diversas ações propostas no Plano de Evangelização da Província (2016-2021), especialmente quando vêm expressas as prioridades do sexênio, entre elas a de “Reforçar ações em direção a uma ‘Província em saída’ e articulada em suas cinco frentes de evangelização”. Também estão em consonância com os quatro pilares da comunidade descritos nas DGAE: Palavra (Iniciação Cristã e animação bíblica da vida e da pastoral), Pão (liturgia e espiritualidade), Caridade (serviço da vida) e Ação Missionária (estado permanente de missão). Ao tratar de cada um deles, o documento traz uma série de sugestões de encaminhamentos práticos que dão concretude à dimensão do cuidado.

CONCLUINDO

Não faltam documentos e reflexões para nortear o percurso pessoal e comunitário que a Igreja do Brasil sugere para a Quaresma deste ano de 2020. O próprio Magistério do Papa Francisco é pródigo em oferecer caminhos de ousadia, coragem e desprendimento a todos aqueles que desejam se aprofundar na radicalidade cuidadosa proposta no Evangelho. Mais do que oferecer novidades, esta breve reflexão teve como objetivo principal aguçar o entusiasmo dos confrades e dos demais leitores para viverem de forma comprometida e encarnada as provocações que Jesus apresenta ao contar a Parábola do Bom Samaritano.


1 – Além do Texto-Base da CF 2020, ficam como sugestão para aprofundamento neste item do VER a Parte III de nosso Plano de Evangelização (Apelos da Realidade, da Igreja e da Ordem – p. 13-27) e o Capítulo II das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2019-2023 (Olhar de discípulos-missionários).
2 – LM VIII,1
3 – Excelente possibilidade de aprofundamento teológico-pastoral neste tema está na Bula Misericordiae Vultus, na qual o Papa Francisco proclama o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, publicada em 11 de abril de 2015.
4 – PAPA FRANCISCO. Carta para o evento “Economy of Francesco”. Roma, 01 de maio de 2019.

Histórico

Frei Luiz Iakovacz

A Campanha da Fraternidade (CF) teve um início modesto na cidade de Natal (RN), em 1962. Três padres que trabalhavam na Cáritas Brasileira idealizaram um trabalho de conjunto em duas dimensões: evangelizar e arrecadar fundos para a própria instituição a fim de atender melhor suas obras assistenciais e promocionais. Assim, aos poucos, poderia caminhar com as “próprias pernas”, sem depender da Cáritas Internacional.

Em combinação com as dioceses e paróquias, as pregações quaresmais daquele ano (1962) seriam sobre “Conversão”. Não só a pessoal, mas também social, isto é, que se fizesse uma coleta em dinheiro. A este trabalho deu-se o nome de Campanha da Fraternidade.

No ano seguinte (1963), dezesseis dioceses do nordeste fizeram o mesmo. O êxito financeiro foi fraco, mas a sementinha estava plantada.

Neste espaço de tempo, estava acontecendo o Concílio Vaticano II (1962 – 1965). Os Bispos brasileiros, entusiasmados com o espírito renovador do Concílio e vendo que esta iniciativa pastoral traria bons frutos, estabeleceu que a CF fosse implantada em todas as Dioceses e Paróquias, a partir da Quaresma de 1964. Desde então e de maneira paulatina, isto foi acontecendo.

Com o tempo, foram sendo confeccionados subsídios para círculos bíblicos e catequese, programas radiofônicos e televisivos, concursos para cartazes e hinos, e outros.

Ao seu término, cada paróquia faz uma avaliação, sugerindo, inclusive, que temas poderiam ser abordados nas próximas Campanhas. Órgãos Públicos e ONGs também o fazem. O Conselho Episcopal de Pastoral (Consep), órgão da CNBB, escolhe qual é o mais oportuno para cada ano.

Inicialmente (1964 – 1972), os temas estavam relacionados com a renovação interna da própria Igreja, como por exemplo, “Lembre-se: você também é Igreja”/1964.

Nos anos 1973 – 1984, a Campanha se preocupou com a realidade social do povo: “Repartir o Pão”/1975, “Saúde para Todos”/1981.

A partir de 1985, o tema gira em torno de situações existenciais do povo brasileiro. Ano passado foi sobre a violência e, neste, Fraternidade e Políticas Públicas (cf. Texto-Base pp. 103 a 106).

No transcorrer dos 56 anos de CF, dois fatos merecem destaque: a partir de 1970, na Quarta-Feira de Cinzas – a abertura oficial é transmitida em cadeia nacional de rádio e televisão, com a mensagem do Papa. E, desde o ano 2000, ela é ecumênica, com a participação de outros credos religiosos. De cinco em cindo anos, isto se repete.

Por fim, uma palavra sobre Gesto Concreto. Desde o início, faz parte da CF a “Coleta da Solidariedade”. Esta tem duas dimensões. Primeiramente, é algo pessoal, isto é, o dinheiro ofertado é fruto das renúncias quaresmais. A importância economizada, o fiel a traz, com alegria (cf. 2Cor 9,7), na Coleta Solidária. Não é um simples colocar a “mão no bolso”, mas fruto do sacrifício que cada um faz, livre e espontaneamente. Uma coleta, feita com este espírito, é meritória e ajuda na conversão. É claro que, se alguém “sob o impulso de seu coração” (2Cor 9,7), fizer algum acréscimo, nada o impede e é louvável.

O outro aspecto é o seu destino. Ninguém pode “botar a mão” porque ela é aplicada, integralmente, nas pastorais e/ou trabalhos afins ao tema de cada ano. 60% das quase onze mil paróquias ficam na própria Diocese e 40% é enviado ao Fundo Nacional da Solidariedade (FNS).

Desta última, uma parte fica para subsidiar a própria Campanha e o restante é aplicado nos projetos que lhe são enviados de todo o Brasil. Cada ano, o FNS publica a prestação de contas. Em 2018, foram arrecadados R$6.844.022, 56, destinados a 179 projetos. Em 2017, por exemplo, sobre os biomas brasileiros, auxiliou 237 projetos, num total de R$ 6.815.265,38. Em 2016, foram 209 projetos, somando R$ 6.594.378,91 (cf. Texto-Base, pp. 102).

Vamos nos converter e “Crer com as Mãos”, como diz o lema CF/1968.

Cartaz

Os elementos que compõem a identidade visual da Campanha da Fraternidade buscam transmitir sua mensagem como oferta de diálogo da Igreja com a sociedade, buscando debater assuntos de relevante interesse dos brasileiros.

A proposta para este ano foi inspirada pelo lema “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34 ). O trecho, extraído da Parábola do Bom Samaritano, nos encoraja, a partir de Jesus Cristo, a servir com espírito de humanidade, cuidado e amor para com o próximo, sementes de fraternidade.

Estender a mão ao próximo é missão dos discípulos e discípulas de Cristo. Foi essa marca que várias testemunhas da fé nos deixaram como lega­do. É o caso de Santa Dulce dos Pobres, o Anjo Bom da Bahia. Ela é uma das representações do “bom samaritano dos nossos tempos”. Por isso, sua imagem é apresentada em perspectiva de destaque no cartaz.

Na ilustração, as pessoas que a cercam simbolizam uma população vulnerável, que clama por vida em plenitude. É possível perceber também a pluralidade que engloba diferentes faixas etárias, etnias e outras particularidades típicas de uma população multicultural, em um país com dimensões continentais como o Brasil.

O cenário escolhido para a composição do desenho foi o bairro do Pelourinho, localizado na capital do estado da Bahia, Salvador, berço de nascimento de Santa Dulce, representação de um Brasil de tantos lugares e culturas. As pessoas estão na rua, área comum de encontro e convívio, mas também onde se vivenciam dores e angústias. Assim, contemplamos uma Igreja em saída, que está nas ruas e vai ao encontro das pessoas.

Na arte, foi aplicada a técnica de mosaico. Nela, cada peça desempenha um importante papel para a formação completa do desenho. De modo mais evidente, a composição expressa a viva unidade na diversidade de dons e servi­ços que nos animam a construir uma sociedade mais sensível e comprometida com as necessidades de nossos irmãos e irmãs e de todo o planeta.

Hino e oração

Hino da Campanha da Fraternidade 2020
Autor: José Antonio de Oliveira

1) Deus de amor e de ternura, contemplamos
este mundo tão bonito que nos deste. (Cf. Gn 1,2-15; 2,1-25)
Desse Dom, fonte da vida, recordamos: (Cf. SI 36, 10)
Cuidadores, guardiões tu nos fizeste. ( Cf. Gn 2,15)

Peregrinos, aprendemos nesta estrada
o que o “bom samaritano” ensinou:
Ao passar por uma vida ameaçada,
Ele a viu, compadeceu e cuidou. (Cf. Lc 10, 33-34)

2) Toda vida é um presente e é sagrada,
seja humana, vegetal ou animal. ( Cf. LS, esp. Cap. IV)
É pra sempre ser cuidada e respeitada,
desde o início até seu termo natural.

3) Tua glória é o homem vivo, Deus da Vida; (Cf. Santo Irineu)
ver felizes os teus filhos, tuas filhas;
é a justiça para todos, sem medida; (Cf. Am 5, 24)
É formarmos, no amor, bela Família.

4) Mata a vida o vírus torpe da ganância,
da violência, da mentira e da ambição.
Mas também o preconceito, a intolerância.
O caminho é a justiça e conversão. (Cf. 2Tm 2, 22-26)


Oração da Campanha da Fraternidade 2020

Deus, nosso Pai, fonte da vida e princípio do bem viver,
criastes o ser humano e lhe confiastes o mundo
como um jardim a ser cultivado com amor.

Dai-nos um coração acolhedor para assumir
a vida como dom e compromisso.

Abri nossos olhos para ver
as necessidades dos nossos irmãos e irmãs,
sobretudo dos mais pobres e marginalizados.

Ensinai-nos a sentir a verdadeira compaixão
expressa no cuidado fraterno,
próprio de quem reconhece no próximo
o rosto do vosso Filho.

Inspirai-nos palavras e ações para sermos
construtores de uma nova sociedade,
reconciliada no amor.

Dai-nos a graça de vivermos
em comunidades eclesiais missionárias
que, compadecidas,
vejam, se aproximem e cuidem
daqueles que sofrem,
a exemplo de Maria, a Senhora da Conceição Aparecida,
e de Santa Dulce dos Pobres, Anjo Bom do Brasil.

Por Jesus, o Filho amado,
no Espírito, Senhor que dá a vida.
Amém!

Coleta da Solidaridade

O gesto concreto – Coleta da Solidariedade

A Campanha da Fraternidade se expressa concretamente pela oferta de doações em dinheiro na coleta da solidariedade, realizada no Domingo de Ramos. É um gesto concreto de fraternidade, partilha e solidariedade, feito em âmbito nacional, em todas as comunidades cristãs, paróquias e dioceses. A Coleta da Solidariedade é parte integrante da Campanha de Fraternidade.

DIA NACIONAL DA COLETA DA SOLIDARIEDADE
Domingos de Ramos, 5 de abril de 2020
Bispo, padres, religiosos (as), lideranças leigas, agentes de pastoral, colégios católicos e movimentos eclesiais são os principais motivadores e animadores da Campanha da Fraternidade. A Igreja espera que com essa motivação todos participem, oferecendo sua solidariedade em favor das pessoas, grupos e comunidades, pois: ”Ao longo de uma história de solidariedade e compromisso com as incontáveis vítimas das inúmeras formas de destruição da vida, a Igreja se reconhece servidora do Deus da Vida” (DGAE 2011-2015, n. 66). O gesto fraterno da oferta tem um caráter de conversão quaresmal, condição para que advenha um novo tempo marcado pelo amor e pela valorização da vida.

Temas e lemas