Rezar com os pés para construir a paz em movimento: o grande desafio da Romaria dos Homens em 2026
12/04/2026

Vila Velha (ES) – Rezar com os pés significa tê-los bem plantados no chão da realidade, na consciência que o céu é uma meta do amanhã e do hoje, do alto e daqui de baixo, das virtudes e habilidades mais elevadas às necessidades e limites mais evidentes. Significa abraçar com generosidade pascal tudo que compõe o caminhar humano na vida. Rezam com os pés é peregrinar, é pôr-se a caminho na coragem de quem sabe que não vai caminhar sozinho.
Para a Romaria dos Homens de 2026, além de ter seu Filho nos braços e, n’Ele, as centenas de milhares de filhos e filhas que a acompanhavam, Maria convidou Francisco de Assis, intitulado não por si próprio, e provavelmente contra a própria vontade, como o “Outro Cristo”, tal a similaridade que alcançou em seu coração apaixonado com o Filho de Deus. Com Cristo, Francisco e a multidão que os acompanha, Maria também reza com os pés. A Mãe das Alegrias assume o cetro de Rainha da Paz e revela que a paz tão sonhada, desarmada e desarmante, conforme propõe o Papa Leão XIV, só será construída à custa de muito empenho e movimento.

Fazei-nos instrumentos de vossa paz
Instrumento é meio para se alcançar um fim. Não é o mais importante, mas se torna essencial. Sem instrumento adequado, o fim acaba comprometido. A soma das centenas de milhares de fiéis e devotos formou a multidão caminheira concentrada em frente à Catedral de Nossa Senhora das Vitórias, disposta a ser instrumento de paz. Agradecimentos, pedidos, alegrias, dores, sonhos e aflições, conduzidos nos 14 km de percurso junto às velas acesas, coloriram e iluminaram a noite das irmãs e vizinhas Vitória e Vila Velha. Ninguém veio para encontrar desconhecidos, concorrentes ou apenas uma multidão anônima que se comprime para caminhar no cansaço e no calor. Os peregrinos vieram para encontrar irmãs e irmãs, para dar um testemunho de que a paz não é uma construção solitária, mas fruto do esforço de milhares, milhões, que se dispõem a ouvir os apelos de Deus na realidade do dia a dia, dando seu melhor, buscando contribuir para que a vida seja mais simples, fácil e feliz.

Onde houver ódio que eu leve o amor
Numa caminhada tão extensa com número imenso de fiéis, é comum que ocorram alguns esbarrões, pisadas no pé, pequenas quedas, “sapecadas de vela no cabelo ou no braço”, bolhas e dores e alguns outros contratempos. Imprevistos que poderiam levar o peregrino a sair do sério, a olhar feio, a xingar, ainda que no pensamento, também podem ser ocasião de expressar o amor que se traduz em tolerância e empatia. Um contato que, princípio poderia ser hostil pode terminar num abraço de quem passa a conhecer um irmão de sangue (o de Cristo!), filho da mesma mãe. Levar amor tem sido o desafio para uma sociedade acelerada e individualista, capaz de chegar cada vez mais longe no espaço sideral e ainda incapaz de construir relações mais justas e solidárias entre aqueles que dividem o mesmo solo, o mesmo planeta.

Onde houver ofensa, que eu leve o perdão
Palavras, gestos, posturas e atitudes podem ofender, machucar o coração. Se os esbarrões e pisadas são inevitáveis numa caminhada tão cheia de gente, as feridas interiores também se fazem comuns nos relacionamentos humanos. Nascem em decepções e se alimentam de expectativas quebradas. Caminhado com a Mãe, em companhia de Cristo e Francisco, certamente os peregrinos puderam beber da fonte de onde nasce o mais puro perdão: o Coração de Deus. Ter a sensibilidade e o cuidado com as palavras e ações para não ofender e praticar sem reservas o perdão, a si mesmo e ao outro, são estratégias infalíveis para o coração estar sempre saudável, sem mágoas ou ressentimentos que acabam alimentando a tristeza e o desejo de vingança. Perdoar sempre, com generosidade e sem medida, é sempre a melhor escolha.

Onde houver discórdia, que eu leve a união
Rezar com os pés é oportunidade de treinar e fortalecer o coração. Se a palavra discórdia tem em sua a raiz a dificuldade de coração que não conseguem se entender e bater no mesmo ritmo, mantendo-se afastados e distantes, a unidade proposta por Cristo não é um chamado perder a própria essência diluída na grandeza da multidão. Ao contrário, é prova de que, nas diferenças, o ser humano pode e deve caminhar em sintonia, naquilo que se chama unidade na diversidade. Homens e mulheres, de todas as idades, classes sociais, origens e raças se põem a caminho guiados pela Mãe das Alegrias. Sozinhos, talvez não conseguissem vencer todo o percurso. Mas juntos, um dando força ao outro, chegam ao fim, que também é começo, no caminho da fé e da alegria.

Onde houver dúvida, que eu leve a fé
A dúvida não pode ser considerada um vício nem um defeito. Nasce do raciocínio e do próprio limite humano, que não pode conhecer tudo sobre todas as coisas. Pode, inclusive, ter um viés positivo, inspirando humildade e bom senso nas pessoas. Todo mundo sabe o quanto é desagradável a convivência com quem nunca admite uma dúvida e se acha sempre o dono da verdade. Uma dúvida que pode vir à mente do peregrino, especialmente depois do cansaço, de possíveis dores e da sede, é a de se ele dará conta de chegar ao destino. E, nesta hora, a fé se concretiza em ações muito práticas, desde uma palavra de incentivo, do tipo “estamos juntos”, “falta pouco”, ao copo de água e a banana entregue pelos voluntários no caminho. A fé encarnada nestes pequenos “carinhos de Deus” é a força de que o fiel estava precisando para seguir em frente. Com muita frequência, levar a fé onde há dúvida é muito mais fácil do que parece.

Onde houver erro que eu leve a verdade
Se duvidar é humano, errar é também. O erro normalmente é cometido por quem deseja acertar, por aquele que possui alguma meta ou direção. Os caminheiros de Nossa Senhora da Penha têm rumo e direção. Desejam seguir os passos de Jesus Cristo que, ainda menino, no colo, são os passos da Mãe. Dependendo do que acontece, os olhos de quem caminha podem ter alguma dificuldade de enxergar as pegadas por onde o fiel deseja seguir. Aí mora a vantagem de não se caminhar sozinho. Mesmo com a visão embotada, ao olhar tantos irmãos e irmãs que seguem caminhando na mesma direção, o peregrino reencontra a rota, escapa do desvio e continua seguindo, firme e forte, Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida.

Onde houver desespero, que eu leve a esperança
Esperança: eis um item em falta no mundo atual. O desespero mais dolorido é aquele silencioso e disfarçado, que às vezes até se esconde numa aparente euforia ou ilusão de sucesso. É aquele que já se transformou em desalento, em absoluta capacidade de se esperar algo diferente ou melhor. De quem abre a geladeira e nada encontra a não ser luz e água; de quem nem mais geladeira tem; de quem possui freezer e despensa cheios, mas não encontra um sentido para viver. O discípulo-caminheiro-devoto-filho de Nossa Senhora da Penha precisa trazer consigo um grande reservatório de esperança colhida no coração da Mãe e do Filho, para si e para que possa levar, com abundância, onde houver desespero, a esperança.

Onde houver tristeza, que eu leve a alegria
Aqui está o centro de toda a Festa. O “penha-móvel”, veículo improvisado que conduz a Imagem bem no meio da multidão durante toda a romaria, traz a Senhora da Penha envolta por um arranjo que recorda uma coroa. Tudo muito florido, iluminado e decorado, com exímio bom gosto. A Alegria não é inimiga da tristeza. Nascida do próprio Ressuscitado, Ela não se impõe, mas chega humilde e discreta, ocupando os espaços no coração que a Ela se abre. A fonte luminosa e florida expressa na beleza da composição dos arranjos e da imagem é ilustração do coração da Mãe de Deus, que não retém para si a Alegria recebida do seu Filho Ressuscitado, mas a dispensa com generosidade nos corações de todos os seus filhos e filhas. O convite da caminhada é que os corações tristes e pesados se abram, com fé e coragem, à ação da Alegria, que é o próprio Cristo.

Onde houver trevas, que eu leve a luz
Muitas velas acesas, diversas apagadas pela chuva, que começou fraca e foi se intensificando. A chuva começou pelas 20h no Parque da Prainha, caindo sobre os peregrinos a partir do final da travessia da 2ª Ponte. As velas são sinal da luz divina, capaz de iluminar as dobras do coração humano. A escuridão é lugar do medo, da desconfiança, do receio de seguir adiante. Consolador perceber que, à semelhança das velas apagadas pela chuva, a luz pessoal de cada um pode ser sempre re-acesa. Basta aproximar-se novamente do Espírito Santo, Luz que aquece e ilumina. Bonito perceber que, nesta hora, aquele que mantém a vela interior acesa, pode se aproximar de um irmão ou irmã que esteja com ela apagada. E, neste caso, com a Luz de Cristo, apresentada e oferecida pela Mãe da Luz, cada discípulo adquire a força e o poder de levar luz onde houver trevas.

Chegou? Já? Passou rápido!
Com o relógio já tendo passado das 23h, a Imagem chega à Prainha, para a Missa de encerramento da Romaria, presidida pelo Arcebispo Metropolitano, Dom Ângelo Mezzari. Na luz das velas e na água da chuva, a multidão iluminou e lavou a alma e o coração. Tendo concluído o percurso, a lição aprendida deixou claro que aquele não era um ponto de chegada, mas de partida. Assim como a Oração de São Francisco que inspirou este relato prossegue, a vida continua e a missão permanece, com o compromisso de que cada um cresça na habilidade de pensar mais no outro do que em si, preparando-se integralmente para o encontro definitivo com o Altíssimo, descrito e expresso no fim da prece que conduziu este percurso: “É morrendo que se vive para a vida eterna”.

Equipe de Comunicação da Festa da Penha: Frei Augusto Luiz Gabriel, Frei Gustavo Medella, Frei Roger Strapazzon e Marcos Souza (Grupo Celinauta)


