Notícias - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Postulantado: tempo de rupturas

30/01/2019

Notícias

Moacir Beggo

Guaratinguetá (SP) – Mais do que a celebração de Admissão dos 14 postulantes nesta etapa da Formação inicial da Província Franciscana da Imaculada Conceição, o Ministro Provincial, Frei César Külkamp, brindou esses jovens com uma reflexão que servirá de base para todo o ano. Esse momento se deu durante a Oração das Laudes, nesta quarta-feira, às 7h30, no Seminário Frei Galvão, em Guaratinguetá (SP).

Os novos postulantes – Bruno Almeida de Mello, Bruno Dias de Deus, Fábio Charleaux Luzia dos Santos, Felipe Antonio Nascimento da Silva, Fernando Gois da Costa, Gabriel Paz de Oliveira Silva, Gilberto Silveira da Costa Júnior, Gustavo Henrique da Silva Toratti, Matheus Hoffmann de Oliveira, Paulo André de Moura Filho, Paulo Vítor da Silva, Vinicius de Oliveira Betim, Vinícius José Aparecido Lopes Silva e Vicícius Ramon Brand – foram chamados, um a um, pelo guardião da Fraternidade, Frei João Francisco da Silva, e apresentados ao Ministro Provincial.

Em círculo, diante do Ministro Provincial, eles fizeram o pedido de admissão para viverem, neste ano de 2019, uma rotina de oração, trabalho, estudo, pastoral, vida em fraternidade e lazer, tudo em vista de se aprofundarem no conhecimento de todos os elementos que são próprios da Vida Franciscana. Depois, de joelhos, recitaram a oração que São Francisco de Assis fez diante do Crucifixo de São Damião após a sua conversão e receberam o Tau como “sinal de recordação do amor de Cristo”. Foram abençoados pelo Ministro Provincial: “Concedei a eles, que nos procuram, a generosidade de responder ao vosso chamado de perfeição”, recitou.

Frei César explicou que o Postulantado é um tempo privilegiado, dado a cada um dos candidatos à vida religiosa em vista de um objetivo maior, que é justamente descobrir o Cristo pobre, humilde e crucificado.

Esse caminhar com o Cristo, segundo o Ministro Provincial, não aconteceu quando o jovem rico do Evangelho ouviu de Jesus que precisava deixar para trás suas propriedades e seus bens. “Hoje, o Cristo convida vocês também a caminharem, a seguirem um caminho que não sabem onde vai dar, mas sentem a segurança de estar com o próprio Cristo. E para fazerem este caminho, será necessário dar uma guinada na vida, o que o jovem rico não fez. Essa guinada nesse tempo do Postulantado chama-se conversão. Isso não significa que vocês, antes de virem para cá, não estavam se convertendo, transformando-se, e não significa também que vão estar plenamente convertidos até o final desse ano. Mas significa colocar-se nesse caminho, nesse processo”, enfatizou Frei César, confortando-os, pois  não estarão sozinhos, mas com Cristo, com a Fraternidade Formadora, com os irmãos da própria caminhada e com o povo de Deus, sempre muito próximo desta casa da Província.

Frei César, contudo, voltou ao jovem rico para lembrar que esse tempo de conversão pede rupturas, aquilo que o jovem rico do Evangelho não conseguiu fazer porque tinha muitos bens. “Quais são os nossos bens e o que temos que deixar?”, questionou Frei César, ressalvando que não dizia isso apenas em um plano piedoso. “É preciso fazer rupturas muito maiores, estruturais, para que a nossa conversão, como bem lembra o Papa Francisco, seja efetiva e não apenas um desvio que ele chama de idolátrico”, explicou, detalhando essas rupturas:

  1. É preciso romper com a nossa autorreferencialidade, quando nós nos colocamos simplesmente no centro e não a pessoa de Jesus Cristo, a pessoa do irmão, a pessoa que mais necessita. E, por isso, romper com o individualismo próprio do nosso tempo.
  1. É preciso romper com a indiferença e com o medo, que nos congelam e nos deixam parados. Talvez foi o que esteve muito presente na vida daquele jovem do Evangelho. Deixar as suas propriedades significava ficar na insegurança. E esse medo congela e não deixa a gente caminhar, como alerta também o nosso Papa.
  1. É preciso romper com o materialismo de um mundo sem a transcendência, um materialismo que leva a uma situação de infidelidade com a própria Palavra, com o próprio Cristo, que coloca valores materiais acima de tudo. Frei César lembrou a tragédia, também chamada de crime ambiental, em Brumadinho, onde esses bens materiais estão acima da vida humana e da criação de Deus. É preciso romper não apenas com os nossos bens pessoais para empreender uma caminhada formativa, mas com a consciência materialista.
  1. É preciso romper com os fundamentalismos presentes ao nos apegamos a uma ideia, a um dogmatismo, que impedem o diálogo e reforçam atitudes de preconceito.
  1. É preciso romper com a cultura de morte, de ódio, de exclusão, também na nossa economia, na nossa política.
  1. É preciso romper com o mundo afetivo desordenado que se traduz em atitudes de narcisismo, presentes no culto da imagem, em viver o presente sem responsabilidade com o futuro, com a própria criação e sem envolvimento com o bem comum.

“Porque queremos ser religiosos, não caímos prontos do céu. Nós viemos do mundo e estamos no mundo. Por isso, todas essas situações penetram a nossa própria vida e, mais do que isso, a nossa consciência”, explicou.

“Deixar emprego, relações afetivas e o convívio da família ainda não sejam os bens mais difíceis de abandonar. O Papa Francisco nos convoca a rompermos com tantas outras situações presentes no nosso tempo. E são situações do mundo que levam a uma visão distorcida da realidade, da própria criação, do ser humano, de si mesmo e até do próprio Deus”, acrescentou.

Sem conversão, enfatizou o celebrante, ficamos paralisados e não caminhamos. “Caímos em outros desvios que o Santo Padre chama de idolátricos. É quando a gente presta culto mais aos meios do que aos fins; é quando somos mais apegados às instituições do que às suas intuições – e a própria Igreja, a Ordem e a Província podem ser também instituições que nos paralisam; é quando estamos mais presos aos poderosos do nosso tempo, ao culto a essa elite, aos mais ricos de nossa sociedade do que aos últimos; é quando estamos mais presos aos ritos, às rubricas do que ao mistério celebrado; é quando estamos mais congelados pelas próprias leis. E tudo isso torna muito difícil uma verdadeira conversão. E caímos novamente nos fundamentalismos e não nos abrimos ao Único, Necessário e Absoluto. Não nos abrimos à paixão por Deus e pelo seu reino”, ressaltou Frei César.

“O nosso modelo de conversão é São Francisco de Assis. Ele teve um encontro muito pessoal com Cristo e deixou a própria vida aberta à transformação que foi acontecendo no encontro com o leproso, com os irmãos, com o Crucificado de São Damião. Ele não se prendeu às instituições do seu tempo. Não segue o Deus pregado e anunciado pelos modelos eclesiais, sociais, políticos do seu tempo. Ele se abre ao Cristo pobre, humilde e crucificado. Um Cristo transbordante de amor, que o fez enxergar sua presença naquele leproso, no mais pobre, nos últimos da sociedade”, indicou.

“Assim, o nosso desafio hoje, para uma verdadeira conversão é também o de purificar a nossa visão do mundo, a nossa visão da própria vida consagrada franciscana. Aquilo que pode iluminar a nossa visão é justamente o Cristo crucificado”, insistiu.

Daí podem brotar atitudes novas e realmente transformadoras, como:

– Abrir-se verdadeiramente à ação do Espírito, que nos permite ser uma pessoa nova. Acolher este amor que nos possibilita crescer na paixão por Ele e por sua Igreja.

–  A integrar nossa vida no mistério do Cristo Crucificado (a nossa história, os nossos pecados).

– Desenvolver relações de profundidade, não fundadas no individualismo, no narcisismo, mas naquilo que estamos celebrando neste ano do Jubileu de 800 anos do encontro de São Francisco com o sultão: a sua atitude de diálogo, de encontro com o diferente.

– A conversão nos leva à vivência plena do amor, que não é retorno a si mesmo, mas chegar à condição de homens consagrados, com atitude de doação, de altruísmo.

Frei César lembrou que no ano do Postulantado alguns exercícios muito concretos e fundados nas dimensões centrais da vida franciscana são verdadeiros exercícios de conversão:

 O Espírito de Oração e devoção – Amadurecer a própria experiência de fé,  libertar-se dos fundamentalismos, dogmatismos exagerados, e possibilitar o encontro com Cristo, através da  Palavra e da Eucaristia.

 Comunhão de vida em Fraternidade – A fraternidade é o lugar da nossa conversão, é o espaço do diálogo, de acolher o diferente presente nos irmãos, é o lugar de  crescer na cordialidade.

Minoridade, pobreza e solidariedade – Acabamos de celebrar o Capítulo Provincial, com a temática “Minoridade, lugar de encontro e comunhão” e, nas palavras do Santo Padre, minoridade é aquilo que qualifica a nossa fraternidade. Nós somos uma fraternidade de Menores. Por isso queremos buscar a alegria de quem se despoja, de quem se liberta.

Evangelização e Missão – Para isso Deus nos chamou e nos enviou. Para dar testemunho da descoberta que fizemos na nossa vida, na nossa vida fraterna e na nossa minoridade.

“Caros postulantes, acima de tudo, com essas dimensões da nossa vida e com a Palavra de Deus, o que nós queremos como conversão é a transformação do nosso coração, para que ele deixe de ser um coração de pedra, ditado pelas tendências do nosso tempo, e se torne um coração que ama com o amor transbordante do nosso Deus. Nesses exercícios de conversão, cada um de vocês confirme e reafirme sua decisão vocacional no seguimento de Jesus Cristo, pobre, humilde e crucificado. Deus vos conceda perseverança! Ele está com vocês! As Fraternidades Local e Provincial também”, garantiu.

No final da celebração, Frei César chamou à frente a Fraternidade do Postulantado, formado pelo guardião Frei João Francisco da Silva e pelo mestre dos postulantes Frei Jeâ Paulo Andrade. Já Frei Edvaldo Batista Soares e Frei José Raimundo de Souza vêm somar com Frei Claudino Dal’Mago, Frei Walter Hugo de Almeida e Frei Leonir Ansolin, que já faziam parte da Fraternidade. Frei César lembrou com carinho que Frei Walter Hugo foi seu mestre quando estava no Postulantado.


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