Os Franciscanos e Nossa Senhora Aparecida: uma ligação não muito conhecida
07/10/2026

A imagem de Nossa Senhora “Aparecida” nas águas do rio Paraíba do Sul em 1717, na Vila de Guaratinguetá (SP), não foi encontrada por um franciscano, mas a existência dessa imagem só ocorreu, muito provavelmente, graças aos franciscanos! Sabemos bem a história: três humildes pescadores — João Alves, Domingos Garcia e Filipe Pedroso — lançavam suas redes em busca de peixes. Depois de sucessivas tentativas, encontraram o corpo de uma imagem de Nossa Senhora, sem a cabeça; pouco depois, encontraram também a parte que faltava.
Uma série de sinais se desenrolou em torno dessa imagem, e popularizou-se o nome de “Aparecida” porque foi a imagem de Nossa Senhora que “apareceu” nas águas do rio. A imagem escurecida de terracota, no entanto, trata-se da representação da Imaculada Conceição — e é aí que precisamos lembrar dos franciscanos!
A Imaculada Conceição da Virgem Maria é uma tradição antiga na Igreja. Remontam ao século VIII os primeiros vestígios de sua celebração entre os cristãos. Mas foi só com os franciscanos que essa devoção mariana se difundiu por muitas regiões do mundo e se tornou popular. Desde 1263, a Ordem Franciscana celebra com muita solenidade a Imaculada Conceição da Virgem Maria no dia 8 de dezembro, nove meses exatos antes de 8 de setembro, dia da Festa da Natividade de Maria. É também com a ajuda dos frades que começa a se popularizar nas igrejas a memória da Virgem Maria aos sábados.
A difusão da devoção à Imaculada Conceição, no entanto, não foi unânime no meio católico. Para alguns, não era crível defender que ela fosse, desde a sua concepção, pura e sem pecado. Coube ao franciscano João Duns Scotus (1266-1308), um dos maiores teólogos da Escolástica, fazer uma refinada e eloquente defesa do dogma da Imaculada. Seu argumento parte do princípio de que “Deus podia fazer isso, convinha que o fizesse, logo o fez.” Maria não está livre da redenção de seu Filho; foi preservada do pecado para, assim, ser sinal sublime da aplicação dessa mesma redenção. Era digno e conveniente que a Mãe do Filho de Deus, templo vivo do Verbo Encarnado, fosse pura e sem mancha. O frade defende que tal privilégio não teve origem em méritos próprios de Maria, mas nos méritos salvíficos de Jesus Cristo, antecipadamente concedidos àquela que seria sua Mãe. Por isso, desde sua origem, ela possui a plenitude da Graça santificante, sendo venerada como a “cheia de Graça” e modelo da humanidade redimida.
Com esse pensamento, Duns Scotus deu aos seus frades base teológica sólida para algo que já estava no coração e na piedade dos franciscanos. A difusão dessa devoção e a defesa do dogma da Imaculada tornaram-se uma grande “bandeira” dos frades. Em 1476, o Papa Sisto IV, frade menor, instituiu para toda a Igreja a celebração litúrgica da Imaculada Conceição. Em Portugal e na Espanha, os frades foram incansáveis na propagação da Imaculada. Em 1484, na cidade espanhola de Toledo, com o apoio dos frades, Beatriz da Silva, hoje santa da Igreja, fundou a “Ordem da Imaculada Conceição”, popularmente conhecida como “Irmãs Concepcionistas”. Em 1646, Dom João IV, Rei de Portugal, declarou Nossa Senhora da Conceição padroeira do país ibérico e consagrou toda a nação à Imaculada Conceição.
Da devoção ao dogma, da popularização à causa de uma nação, assim os frades, em suas missões aos quatro cantos do mundo, levaram e difundiram a Imaculada Conceição. Não era ainda um dogma oficial para a Igreja, mas já era amplamente difundida e celebrada por todo o povo católico. Eis que, em 1659, é fundada no litoral sul da colônia — hoje região sudeste do Brasil — a “Custódia Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil”, elevada à condição de Província alguns anos depois, em 1675. É nesse território, já profundamente marcado pela presença missionária dos franciscanos, que “aparece” nas águas do Rio Paraíba do Sul a representação da causa e defesa dos frades há séculos: a Imaculada Conceição.
O resto sabemos… Diversos sinais e prodígios ocorreram; ela veio com a cor do povo dessa terra. Ganhou o coração e a devoção da gente simples. Tornou-se símbolo da fé deste país, que traz a devoção popular católica como uma riqueza ímpar. Tornou-se símbolo materno e de amparo aos incansáveis sofrimentos dos mais necessitados. Pequena e simples, é sinal da graça divina que confunde os poderosos e se faz presente na vida dos que a ela acorrem!
Em 1854, o Papa Pio IX declarou solenemente o dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria para toda a Igreja com a bula “Ineffabilis Deus”. Mas, para os fiéis da “Senhora da Conceição Aparecida”, essa verdade de fé já estava bem estabelecida. Não podemos deixar, portanto, de pensar que aquela imagem “aparecida” nas águas não tenha relação com a popularização de uma devoção muito devida aos franciscanos. Antes que ela aparecesse nesta terra brasileira, muitos filhos de São Francisco já haviam percorrido o mundo a recordar o amor salvífico de um Deus que, na “Virgem feita Igreja”, realizou seu plano de redenção. E, ao nos voltarmos a esse mistério, somos convidados a participar da mesma graça redentora. Aquela que foi envolvida pela salvação de seu Filho deseja o mesmo a todos os filhos e filhas desta pátria: “Vim para que tenham vida e a tenham em abundância.”
Neste dia 12 de outubro, dia da fé sincera e eloquente do povo brasileiro, cantemos uma vez mais a prece e o hino: “Viva a Mãe de Deus e nossa, sem pecado concebida! Salve, Virgem Imaculada, ó Senhora Aparecida!”

Frei João Manoel Zechinatto, OFM


