“Não somos nós quem fazemos a Festa da Penha. É ela quem nos faz”, afirma Frei Gabriel em entrevista
08/04/2026

A Festa da Penha 2026 segue reunindo milhares de devotos no Convento da Penha, consolidando-se como um dos maiores eventos de fé do Brasil. Neste contexto, o guardião e reitor do santuário, Frei Gabriel Dellandrea, concedeu entrevista à Equipe de Comunicação, refletindo sobre o significado espiritual da festa, o carisma franciscano presente nesta edição e os desafios de acolher multidões com o coração preparado. Ao longo da conversa, o frei destaca que a festa vai além da organização humana, sendo uma experiência que transforma não apenas os fiéis, mas também aqueles que a constroem diariamente. Ele também evidencia a força missionária da Penha Peregrina, o valor das romarias e o convite a viver intensamente cada momento, seja presencialmente ou pelos meios de comunicação. A seguir, confira a entrevista na íntegra.
Equipe de Comunicação da Festa da Penha: A Festa da Penha é um dos maiores momentos de fé do povo capixaba. Como o senhor, enquanto guardião do convento, percebe o significado espiritual desta edição de 2026?
Frei Gabriel Dellandrea: A Igreja com muita sabedoria convida os fiéis para tempos fortes. A quaresma, o advento, o Tempo Pascal… porém, a maior parte do tempo é “verde”. É Tempo Comum. É ordinário. E a rotina é sagrada, pois é nela que cunhamos a fidelidade aos propósitos, a intencionalidade das nossas ações. Mas nem só de ordinário vivemos. O extraordinário tem um papel fundamental: reencantar o dia a dia. E é isso que uma Festa se propõe: um momento de extravasar as emoções, sair da rotina e mergulhar numa atmosfera especial e toda nova. É claro que é um período passageiro, pois se for festa todo dia, vamos clamar por um “arroz com feijão”. Mas enquanto acontece, eterniza a motivação para o ordinário.
E ter sob o olhar próximo da nossa fraternidade o maior evento religioso do estado do Espírito Santo é, sem sombra de dúvidas, uma grande honra e responsabilidade. E sabe que como guardião sinto a espiritualidade desse momento? Pois muitos são os desafios, mas em todos, aparece uma resposta. De fato, uma festa de 456 anos não depende de mãos humanas. Há um Maior que a movimenta.
Equipe de Comunicação da Festa da Penha: O tema deste ano convida a sermos “instrumentos da paz”, com uma inspiração franciscana. Como essa proposta dialoga com o carisma franciscano vivido todos os dias no convento?
Frei Gabriel Dellandrea: Muitas pessoas que visitam o Convento da Penha perguntam onde estão as freiras. Porque pensam que a palavra “convento” é apenas utilizada para a residência de mulheres religiosas. Nós, que somos “de Igreja”, sabemos que não. Evidenciar o carisma franciscano nesta Festa, além de honrar a memória de nosso Pai São Francisco nos 800 anos de sua passagem neste Ano Jubilar Franciscano, também é uma oportunidade de dizer: no Convento da Penha moram os freis franciscanos. Homens empenhados em sua missão, pecadores como todos, mas ardorosos por anunciar o Cristo. Assim, na Festa da Penha muitos frades de outras fraternidades também compõem a lista dos “Freis da Festa”. Graças a Deus a fraternidade aumenta, não apenas para tirar fotos com os devotos e distribuir as bênçãos tão solicitadas. São irmãos certos, que evangelizam pela disponibilidade, que vem não para serem ajudantes, mas de fato, membros de um lugar sagrado que tem como essência ser uma casa franciscana, onde todo frade deve se sentir tão bem que possa abrir a geladeira, como fazemos na nossa casa. E esse tempo é propício para o estreitamento dos laços, a alegria dos convívios, e isso tudo extravasa da porta do Convento para a Festa, contagiando os fiéis com o carisma franciscano vivido na “casa sobre a rocha”.

Equipe de Comunicação da Festa da Penha: A festa reúne milhões de fiéis ao longo dos dias. Como o Convento se prepara, não apenas estruturalmente, mas espiritualmente, para acolher essa multidão?
Frei Gabriel Dellandrea: Nós respiramos Festa da Penha muito antes do terço subir nas palmeiras. E sabe, a sua pergunta é excelente: a Festa não acontece nas planilhas e programações, mas no coração. E é um desafio pois sempre queremos dedicar o melhor tempo para deixar tudo ajeitado, mas é o coração que precisa estar “redondinho”.
Na última semana a fraternidade fez a Leitura Orante da Palavra. Frei Evaldo pediu que lêssemos a Narrativa da Paixão. Depois de lermos e refletirmos juntos, ele lembrou: nesse tempo de pré-Festa é preciso parar um pouco e encher o coração daquilo que vamos anunciar na Festa. Essa frase me tocou profundamente. Embora atento aos sinais de Deus, lembrei dessa importância! Graças a Deus a fraternidade é esse solo fecundo de preparação!
Mas eu diria que o momento mais marcante da preparação espiritual da Festa foi a missa de envio dos voluntários e colaboradores das diversas empresas que trabalharão na Festa da Penha. No dia 31, “apagando as luzes” de março, “abrindo as portas” de abril, o mês da Festa, rezamos por todos os trabalhadores da Festa. E sabe qual era o Evangelho? O da traição de Judas. Foi muito marcante pois eu me perguntei: como falar de Judas para um povo que vai estar tão próximo da Festa? E me lembrei: Judas foi próximo de Jesus. E mesmo assim se perdeu! A proximidade nem sempre significa “estar por dentro”. Então sentimos aquele alerta profundo e bonito: não somos nós quem fazemos a Festa da Penha. É ELA QUEM NOS FAZ. É pela Festa que somos transformados porque em cada momento, previsto ou não, o Senhor tem algo a nos falar!

Equipe de Comunicação da Festa da Penha: As romarias são uma marca muito forte da Festa da Penha. Na sua visão, o que esse movimento do povo revela sobre a fé e a devoção a Nossa Senhora da Penha?
Frei Gabriel Dellandrea: Eu acredito que Maria coloca todo mundo para andar porque ela foi missionária e peregrina. Ao saber da sua gestação, vai ao encontro de Isabel para servi-la. Aí é a primeira romaria. Ela vai ao encontro. Romaria é caminho, mas também destino: o Convento é fixo, mas todo romeiro “leva um pouco” da sacralidade do Convento que, paradoxalmente, se refaz em cada visita de cada romeiro. Ele leva bênção e traz bênção.
Equipe de Comunicação da Festa da Penha: Pelo segundo ano consecutivo, a programação da Festa destaca a iniciativa da “Penha Peregrina”. Qual é a importância dessa proposta missionária?
Frei Gabriel Dellandrea: A Penha Peregrina é um capítulo especial da Festa da Penha. Momento em que cumprimos um anseio do nosso amado Papa Francisco: sermos uma Igreja em saída. Comunidade eclesial missionária esta que também está sendo amparada pela sabedoria de Leão XIV. Desta forma, o peregrinar da imagem lava a alma daqueles que, distantes da Festa, não conseguem experimentar a energia do Convento.
Ano passado, no último dia da Penha Peregrina, eu confesso que bateu muito forte o cansaço. Já estávamos no sexto dia de Festa. Eu estava esgotado. Acordei pela graça. Quando entrei no carro para ir, vi o cansaço no rosto dos meus confrades. E eu pensei: “é o último dia. Está tudo lindo, mas confesso que não dou mais conta”. O local que visitamos era o Presídio Feminino de Bubu. Quando começamos a percorrer os corredores da unidade prisional com a imagem de Nossa Senhora, eu senti que as minhas forças foram renovadas. As irmãs que lá encontrei, me pedindo bênçãos, me agradecendo pela oportunidade de receber a visita de Nossa Senhora, foi um grande combustível. De repente, eleas entregam para nós uma imagem de crochê de Nossa Senhora da Penha. Quem eu fui levar, na verdade, já estava lá, e tinha ido ali justamente para cuidar de mim e dos outros freis que estavam comigo. Pois na volta, no carro, tivemos a conclusão de que se fosse para começar tudo novamente, faríamos. A Penha Peregrina até poderia ser uma iniciativa para animar os distantes. Mas, em sua generosidade, Deus também tocou a nós!

Equipe de Comunicação da Festa da Penha: Em meio à programação intensa, qual momento o senhor destacaria como essencial?
Frei Gabriel Dellandrea: Ah, essa pergunta me complica rsrs. Tudo é lindo. Mas de fato, é preciso evidenciar que um momento é o mais importante: o devocional franciscano. Ele é um caminho feito antes de cada missa do Oitavário, contando a história do Convento e da coragem e missão de Frei Pedro Palácios. Eu confesso que é extremamente animador ouvir os vivas, as Ave-Marias, os cantos e contemplar o silêncio orante dos peregrinos. Para cada dia, uma surpresa de fé. Então, acredito que essa ocasião é essencial para entrar no “clima” da Festa.
Equipe de Comunicação da Festa da Penha: Para aqueles que acompanham a festa à distância, que mensagem o senhor gostaria de deixar?
Frei Gabriel Dellandrea: Suba ao Convento. E isso não é apenas um trajeto físico. No ano de 2021, durante a pademia, do meu quarto em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, eu assisti a Festa. Rezei, me emocionei muito, cantei e sorri. Foi uma Festa linda, do jeito que foi possível. Quem quiser acompanhar a Festa, abra o coração. E com certeza você sentirá o momento de céu na terra que é a Festa da Penha!
Equipe de Comunicação da Festa da Penha: Frei Augusto Luiz Gabriel, Frei Roger Strapazzon e Marcos Souza (Grupo Celinauta)



