Mês das mulheres: Conheça o projeto Respeita as Mina, do Sefras
25/03/2025
Na zona norte de São Paulo, um território marcado por desigualdades, nasceu um espaço de potência, resistência e transformação: o coletivo Respeita as Mina, iniciativa da Casa Perfeita Alegria do Peri, projeto do Sefras (Ação Social Franciscana) que atua no Jardim Peri Alto, fortalece meninas e adolescentes por meio da educação em direitos humanos e da luta contra a violência de gênero.
Criado em 2018, o grupo surgiu como espaço seguro para escuta, acolhimento e fortalecimento coletivo, com foco em meninas e adolescentes da região. Desde o início, promoveu rodas de conversa, formações, atividades culturais e momentos de lazer, mas esbarrava na falta de recursos financeiros, o que limitava seu alcance.
Em 2022, o coletivo ganhou novo fôlego ao conquistar financiamento via FUMCAD, o que possibilitou a realização de um ano intenso de ações, atividades e a produção de uma cartilha sobre os direitos das meninas e das mulheres. No entanto, com o encerramento do recurso, as ações se tornaram pontuais e o grupo sofreu dispersão.
A retomada veio em 2024, com força renovada: uma emenda parlamentar do vereador Hélio Rodrigues (PT) possibilitou a continuidade do trabalho com um novo projeto estruturado, focado na educação em direitos humanos com ênfase em gênero e direitos das mulheres. O projeto atende atualmente adolescentes entre 14 e 18 anos e tem como principais objetivos:
- Fortalecer o conhecimento sobre direitos humanos, com foco em gênero e direitos das mulheres;
- Promover campanhas comunitárias, levando informação sobre os direitos das mulheres e formas de enfrentamento à violência;
- Multiplicar saberes, estimulando que as participantes compartilhem com outras meninas os conteúdos aprendidos.
Educação popular e protagonismo feminino
As temáticas são trabalhadas a partir da educação popular, valorizando as vivências das adolescentes e promovendo uma construção coletiva do conhecimento. Os encontros incluem rodas de conversa, oficinas sobre autocuidado, autoestima, saúde menstrual, direitos sexuais e reprodutivos, cidadania, arte, lazer e ações de mobilização territorial.
“O coletivo nasceu da escuta das meninas. Ele é feito por elas e para elas. É um espaço de cuidado, fortalecimento e protagonismo. Quando damos oportunidade para que as meninas se expressem, estamos ajudando a transformar toda a comunidade”, destaca Bruna Simões, coordenadora do projeto.
Para Ana Beatriz que fez parte da primeira turma do grupo: “Esse é um espaço muito importante para as minas da comunidade porque é um lugar onde nos sentimos livres e à vontade para falar sobre nossas questões pessoais. Fazer parte do coletivo me deu outro modo de ver as coisas. Nós ganhamos muita experiência nesse acolhimento, além do suporte do Sefras a partir dos serviços que são oferecidos aqui.”
O carnaval também é educativo: meninas reconhecem o assédio e se fortalecem
Durante uma das atividades, o grupo refletiu sobre o assédio no carnaval — um tema muitas vezes silenciado. A partir disso, construíram uma produção audiovisual autoral, com linguagem acessível e direta, explicando o que é assédio, como identificá-lo e formas de buscar ajuda.
Resistência periférica com força feminina
De acordo com o Mapa da Desigualdade da Rede Nossa São Paulo, no distrito da Cachoeirinha, o coeficiente de mulheres que sofreram violência em 2018 foi de 208,5 por mil notificações, e a taxa de gravidez na adolescência chega a 12,4%, superando a média da cidade de São Paulo.
- O Respeita as Minas esteve presente na marcha do dia 8 de março
Esses dados reafirmam a importância de ações como o Respeita as Mina, que se torna uma resposta concreta e estruturante para os desafios enfrentados por meninas e mulheres da periferia.
“Como mulher preta, periférica, pedagoga e militante dos direitos humanos de crianças, adolescentes e mulheres, vejo esse projeto como uma estratégia fundamental para enfrentar as violações vividas diariamente no território, conforme apontam diversos diagnósticos e pesquisas”, afirma Bruna Simões.
Multiplicando saberes, construindo futuros
Hoje, mais do que um grupo de adolescentes, o Respeita as Mina é uma semente de transformação comunitária. As participantes ganham voz, ampliam repertórios e tornam-se agentes de mudança em suas casas, escolas e territórios, levando informações e fortalecendo redes de apoio.
Com o apoio do Sefras esse coletivo reafirma que garantir direitos às meninas é investir em uma sociedade mais justa, igualitária e segura para todas as pessoas.
Melissa Galdino — Comunicação Sefras