Notícias - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Ir. Vicentina Monteiro: “Convento das Graças, uma dádiva de Deus”

01/03/2013

Entrevistas, Notícias

Por Moacir Beggo

O redimensionamento das frentes de evangelização da Província da Imaculada levou a transferir os frades do Convento Nossa Senhora das Graças, em Guaratinguetá (SP), mas a presença franciscana vai continuar com o trabalho apostólico e pastoral das Irmãs Franciscanas da Terceira Ordem Seráfica. Nesta entrevista, a Ministra Provincial Irmã Vicentina Monteiro fala deste novo desafio da jovem Província do Brasil como um “grande presente de Natal”.

 Natural de Lagoinha (SP), na Arquidiocese de Aparecida, Ir. Vicentina é um “poço de simpatia”, como dizem no interior. Foi assim que ela me recebeu na sede em Pindamongaba (SP) e falou da alegria da Congregação com a nova comunidade das Graças, do trabalho pastoral nas sete comunidades onde estão presentes as irmãs, da crise de vocações que hoje atinge a vida religiosa consagrada, do serviço como Ministra Provincial e de como se deu o seu discernimento vocacional. Acompanhe!

Comunicações – Como a Congregação das Irmãs Franciscanas da Terceira Ordem Seráfica recebeu o convite para ser presença franciscana no Convento de Nossa Senhora das Graças, em Guaratinguetá?

Ir. Vicentina – Recebemos o convite de Frei Fidêncio Vanboemmel no final do ano passado. Num primeiro momento, aproveitando a presença da nossa Madre Geral no Brasil, Ir. Dominica Eisenberger, nos reunimos para conversar sobre a proposta. Natural que fomos tomadas de alegria e receios diante dos desafios desta nova missão. Depois, tivemos a visita de Frei Fidêncio, que veio até nós, em Pindamonhangaba, onde a maioria das irmãs estava presente, para apresentar, de forma muito aberta, a proposta da sua Província feita a nós. Em meio às interrogações, alegrias e esperança, confesso que foi também um grande momento do Espírito Santo entre nós. Depois de esclarecidas as dúvidas, chegamos à conclusão de que só tínhamos de agradecer a Deus e aos frades pelo grande presente de Natal e pela confiança e amor para conosco. Hoje, confiamos tudo sob a proteção da Virgem das Graças e temos certeza de que ela sabe como conduzir tudo para que nossa presença evangelizadora dê muitos frutos, e que eles permaneçam.

Comunicações – Quais as suas expectativas e desafios desse novo trabalho?

Ir. Vicentina – Esperamos que, realmente, junto ao povo possamos caminhar e buscar uma comunidade de fé e que, nesta fé, possamos encontrar o bem de todos através da doação de si, porque só assim o Reino de Deus pode crescer no amor e na paz ao modo de Francisco de Assis. Sabemos que somos cheias de limites, mas também carregamos muita esperança de que, com união, vamos vencer, pouco a pouco, aquilo que nos parece ser grandes desafios neste novo trabalho.

Comunicações – Fale um pouco da história da Congregação no Brasil?

Sede da Província em Pindamonhangaba – SP

Ir. Vicentina – Nossa história no Brasil começou com a vinda  de quatro corajosas irmãs alemãs – Ir. Benedicta Tafelmeier, Ir. Bonifatia Vordermayer, Ir. Ludmilla Schropp e Ir. Willibalda Mayer – que, em 1921, animadas pelo Espírito Santo que as impulsionava para a vida missionária, tudo deixaram e vieram dar início a um grande e árduo trabalho no Brasil. Depois de dois anos, chegaram outras quatro irmãs e assim, em 1924, atendendo ao convite do Pe. João José de Azevedo, pároco da igreja Nossa Senhora do Bom Sucesso de Pindamonhangaba, chegaram a esta cidade mais quatro irmãs com o objetivo de abrir uma escola. Foi assim que fundaram o Externato São José, inaugurado no dia 2 de julho de 1924. Mais tarde, em 1973, foi fundada a Faculdade de Música Santa Cecília pela professora Cynira Novaes Braga, a nossa querida Ir. Cecília, que foi para todas nós um grande exemplo de fidelidade à Igreja e à Congregação. Lutadora e vencedora, ela nos deixou no ano passado, partindo para junto Daquele que tanto amou e dedicou toda a sua vida. Faleceu aos 87 anos de idade.

Comunicações – Como é a presença da Congregação no Brasil hoje?

Ir. Vicentina – Apesar de sermos uma Província pequena, nossa presença é marcante nas regiões que temos comunidades. Estamos presentes no Brasil apenas no Estado de São Paulo e Pernambuco (2 comunidades em Pindamonhangaba-SP, 1 em Guaratinguetá-SP, 1 em Lagoinha-SP, 1 em São Paulo, capital, 2 em Pernambuco, nas cidades de Buique e Jataúba). Somos uma Província pequena, com 27 irmãs, lutadoras e dedicadas, e sempre somos convidadas por alguns bispos para abrir comunidades em suas dioceses. Sinto que Deus nos acompanha sempre e nos conduziu com muito amor nestes 158 anos de história da Congregação. Francisco disse aos seus irmãos: “Não tenham medo por sermos um pequeno rebanho…” Assim digo também para nossas irmãs: “Não temamos por sermos um pequeno rebanho, pois Deus caminha conosco e cuida de nós!”

 

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Irmãs na tomada de posse no Convento das Graças

Comunicações – E no mundo, onde as irmãs estão presentes?

Ir. Vicentina – A congregação se faz presente apenas no Brasil e na Alemanha. Foi fundada na Alemanha no dia 2 de maio de 1854. Foi neste dia que partiram do Convento das Irmãs Franciscanas na cidade de Dillingen, na Alemanha, quatro Irmãs – Maria Ludovika Wille, Maria Adelheid Dollinger, Maria Pia Spar e Maria Hedwig Bader -, com destino a Au am Inn, na Baviera, a fim de fundarem a nova Congregação e uma escola de educação para meninas. Depois de escalarem altas montanhas, em meio a orações e medo, foram recebidas carinhosamente pelo pároco da pequena Cidade de Au, Monsenhor Joseph Rödle e diversas autoridades religiosas e civis, inclusive o representante do Rei Ludoviko, dando início à Congregação das Irmãs Franciscanas da Terceira Ordem Seráfica. Neste início, elas tiveram como residência o antigo Convento dos Agostinianos, que devido à guerra estava fechado por mais de 50 anos. Ainda hoje a Congregação tem como sede este local.

Comunicações – Qual a linha pastoral e de evangelização da Congregação?

Ir. Vicentina – Atuamos em várias frentes de evangelização, como a educação, a pastoral, o trabalho social, o atendimento a romeiros e à missão, como são nossas fraternidades em Pernambuco.

Comunicações – Como está a Congregação de vocações?

Ir. Vicentina – A situação vocacional não é diferente de tantas congregações, principalmente no ramo feminino, que sofrem com a falta de vocações. Mas não desanimamos e temos que continuar lançando as redes e suplicando ao Senhor da Messe que nos envie santas e generosas vocações para o serviço da Igreja em nossa e em outras congregações.

Comunicações – Qual o carisma da Congregação?

Ir. Vicentina – Como o próprio nome diz, o Amor Seráfico é cerne de nosso modo de vida. Como irmã franciscana seráfica, por onde passarmos ou estarmos presentes, somos convidadas a deixar as marcas do Amor de Deus através dos nossos gestos e testemunho de vida evangélica.

 

Ir. Vicentina e as irmãs da comunidade da Sede Provincial

Comunicações – Como se deu o seu discernimento vocacional?

Ir. Vicentina – Venho de uma família muito religiosa. Sou a caçula de cinco irmãos (três homens e duas mulheres). Na verdade, aos 8 anos tive o desejo muito forte de morar com as freiras. Nem sabia como era a vida no convento, mas eu via muitas fotos de freiras no “Ecos Marianos” e aquilo me despertou e resolvi falar com meus pais. Me lembro como se fosse hoje que meu pai me disse assim: “O que essa ‘negrinha’ vai fazer lá no meio das freiras? Só para dar dor de cabeça!” Depois disso, nunca mais toquei no assunto. Quando tinha 17 anos, aquele desejo voltou e não sabia o que fazer. Nesse tempo, minha mãe faleceu e eu já estava com 19 anos. Só sabia rezar é pedir a Nossa Senhora que mostrasse um caminho. Eu era a única mulher, a dona da casa, cuidando do meu pai e de um irmão. Os outros já moravam fora. Mas resolvi falar com o pároco da cidade, Pe. Osmar, e ele disse: “Olha, minha filha, vamos preparar o terreno. Sem pressa. Você terá acompanhamento vocacional durante um ano, mas tendo vida normal. Enquanto isso, vou fazer contato com algumas congregações que conheço”. Aquele ano de acompanhamento parecia não terminar, tamanha era a ansiedade. No final do ano, disse ao Pe. Osmar que estava preparada, mas não sabia como falar com meu pai. Ele, então, me disse que falaria por mim, como fez depois de uma Missa chamando-o na sacristia. Dois dias depois, meu pai falou comigo: “O padre Osmar me chamou e falou do seu desejo de ir para o convento”. Disse que era tudo o que queria e ouvi dele o seguinte conselho: “Olha minha filha, escuta bem o que vou lhe falar. Não posso te impedir, de jeito nenhum de ir em busca do seu sonho. Mas quero que você saiba que a vida religiosa é tal qual o matrimônio. Não é uma brincadeira. Ou se assume pra valer, ou nem entra. Você vai, mas se sentir que não é a sua vocação, as portas estão abertas para você voltar”. Naquele momento, subi ao céu e desci à terra num segundo. Chorei muito naquele momento.

Comunicações – Era um choro de alegria ou era também de medo?

Ir. Vicentina – De alegria, porque achava impossível esta resposta. Claro que depois, veio o medo, porque pensava que não teria coragem de deixar o pai, que já tinha idade avançada. Mas superei isso, não olhei para trás e, com o apoio do meu irmão João, sai de casa. Minha ida para o Convento estava marcada para o dia 10 de fevereiro de 1978. Mais uma vez meu pai me surpreendeu ao me dizer: “Vicentina, vou te falar uma coisa. Não tenho coragem de ver você sair de casa. Vou sair um dia antes e vou te esperar em Taubaté”. Morávamos em um sítio e meu irmão me levou de bicicleta até o ônibus. Naquela época, não havia malas como hoje, mas caixas de papelão. Ao passar pela praça de Lagoinha, em frente da Igreja da Imaculada Conceição, fiz um pedido à Nossa Senhora que me ajudasse a nunca mais voltar a Lagoinha como leiga, mas como religiosa. Nunca me esquecerei da acolhida que tive das irmãs ao me receber no  Externato São José. A Ir. Cecilia e Ir. Áurea, a superiora do Externato, me aguardavam com muita alegria. Eu tinha 23 anos.

 Comunicações – E como foi esse período de formação?

Ir. Vicentina – Primeiro como postulante, trabalhei na escola como vigilante no recreio das crianças. Tudo era muito pobre e simples. Foi uma época inesquecível para mim. A Congregação era muito pobre e a Ir. Cecilia sustentava onze irmãs com o seu salário de professora. A Província ainda estava em formação no Brasil. Então, foi um período de muita pobreza, mas também de muita alegria. No Noviciado, à nossa frente, havia um grupinho de 6 noviças. Depois, fiz o noviciado e como juniorista a Ir. Cecilia convidou a ser sua assistente.  Mais tarde fui mestra de noviças e também atuei em todas as etapas de formação.

Comunicações – Quando entrou, você conhecia outras Congregações?

Ir. Vicentina – Nem sabia que existiam congregações com carismas diferentes, mas eu pedia a Deus que me arrumasse uma congregação que fosse pobre e simples, por causa do estilo de família que eu vinha. Com isso me adaptaria mais facilmente. E não tive dúvidas de que foi essa Congregação que Deus preparou para mim.

Comunicações – Como foi a sua primeira eleição para Ministra Provincial?

Ir. Vicentina – Em 1999, era Vigária Provincial de Ir. Inês Camargo. No ano seguinte, no final de julho,  fui fazer uma experiência de três anos na Fazenda Esperança que estava sendo aberta em Berlim, na Alemanha. Mas no Capítulo Geral, acabei sendo eleita Conselheira. Depois de morar oito anos na Alemanha, ao voltar ao Brasil, em 2008, fui eleita Ministra Provincial. Para mim não foi fácil dizer sim, pois estava acabando de chegar de uma realidade totalmente diferente. Eu vinha sempre ao Brasil, mas não vivia o dia a dia da Província. Mas senti que não poderia dizer não. Conversei muito com Frei Fidêncio e ele disse: “Irmã, não tenha medo. Coloca a sua situação para as irmãs e deixa a vida seguir em frente”. Então foi isso que aconteceu.

Comunicações – Como se sente como Ministra Provincial?

Ir. Vicentina –  É um serviço que exige muito, mas a gente conta com a graça de Deus. Temos um Conselho muito bom, as irmãs são muito unidas. Também temos o apoio da Madre Geral, que hoje tem apenas 52 anos, e tem um carinho muito grande pelo Brasil. O Frei Fidêncio é um irmão que está sempre conosco, apoiando-nos e incentivando. Como lhe disse, é um serviço que ninguém almeja, mas com a graça de Deus reunimos forças e muita esperança para fazê-lo da melhor forma possível.