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Francisco e as perguntas que atravessam os séculos

30/09/2026

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Francisco e as perguntas que atravessam os séculos

Francisco de Assis viveu em uma sociedade marcada por fortes hierarquias, concentração de riquezas, conflitos armados e relações de poder profundamente desiguais. O século XIII estava distante de muitos dos valores que hoje associamos à democracia, à defesa da paz, à igualdade e à valorização dos mais pobres. Ainda assim, algumas escolhas do santo de Assis parecem atravessar facilmente esses oito séculos e dialogar com questões que permanecem atuais.

Não se trata, porém, de transformar Francisco em um personagem moderno ou atribuir-lhe conceitos que pertencem a outro período histórico. Sua novidade estava justamente na decisão de levar o Evangelho às “últimas consequências”, que o levou a questionar, na prática, formas de poder e riqueza que pareciam naturais em seu tempo.

Nesse contexto, a historiadora italiana Chiara Frugoni, considerada uma das principais estudiosas de sua vida, resume essa característica ao afirmar que Francisco “não inventou nada, mesmo quando suas decisões tinham alcance revolucionário”. Para ela, o santo simplesmente decidiu “aplicar o Evangelho ao pé da letra e seguir a vida de Cristo”, colocando no centro o amor, a paz e a relação com o outro.

Especialista em Idade Média e da história da Igreja, Frugoni é autora de diversos livros publicados sobre o Santo de Assis, entre eles: Vita di un uomo – Francesco d’Assisi, com prefácio de Jacques Le Goff; Storia di Francesco, il santo che sapeva ridere; Il cammino di Francesco. Natura e incanto nella Valle Santa Reatina; Storia de Chiara e Francesco; entre outros. 

“Francisco queria viver como os animais, sem possuir nada, como as aves do céu, livres para voarem com total liberdade. Dessas referências vê-se o quanto ele estava longe da ideologia eclesiástica do seu tempo. Com seu modo característico de tratar os problemas, nunca expressou desacordo com o Papa ou com a hierarquia. Não acusou, nem repreendeu quem agia de maneira oposta ao seu modo de entender, mas bastava-lhe mostrar seu agir diferente”, explica a historiadora.

Essa compreensão de não se enxergar como alguém de posses também se estende ao seu pensamento sobre a ecologia e a natureza em uma atitude que, segundo a historiadora, o levava a não considerar que o ser humano tivesse “direito, enquanto homem, de explorar e destruir”.  Dentro desse contexto histórico, Frugoni exemplifica algumas das diferenças entre São Francisco e outros religiosos do seu tempo.

“Os monges cistercienses e camaldulenses, além da oração e da penitência, cuidavam de comercializar madeira. Por isso, sua relação com a floresta era, embora numa escala minúscula, próxima à nossa (contemporânea). As árvores eram vistas como recursos para explorar. Por isso, os monges intervinham na natureza, não só desmatando, mas privilegiando as espécies mais adequadas à construção de edifícios, com a monocultura do carvalho, faias e pinheiros”.

“É diferente da relação dos franciscanos que extraíam da floresta apenas o suficiente para o consumo próprio. Não só isso: Francisco queria os troncos serrados de maneira que as árvores pudessem reflorescer. Também queria uma parte da horta não cultivada, para que as “irmãs” flores silvestres se mostrassem com toda sua beleza e ‘convidassem’ qualquer um que as olhasse a louvar a Deus!”, esclarece. 

Um santo que não coube inteiramente em seu tempo

Essa compreensão também se refletiu na organização da fraternidade, que procurou fugir da “exaltação de sua própria autoridade”. A historiadora Maria Pia Alberzoni observa que, até a aprovação da Regra, “não há uma verdadeira hierarquia na Ordem” e que Francisco reiterava o desejo de ser “apenas um simples irmão”.

Professora titular de História Medieval na Universidade Católica do Sagrado Coração, em Milão, e especializada nos movimentos religiosos dos séculos XII e XIII, com destaque para franciscanos, clarissas, cartuxos, valombrosanos e humiliati, Alberzoni afirma que “Francisco compromete toda a vida para alcançar um objetivo, convencido de que tem que fazer o que o próprio Jesus lhe dissera na ‘Revelação do Altíssimo’”. 

Inclusive, a própria linguagem utilizada pelos franciscanos carregava essa compreensão. Os ministros, responsáveis pela comunidade, são vistos como aqueles que servem, e os guardiães aqueles que cuidam. Assim, a lógica da “autoridade” como privilégio é subvertida, tendo o serviço à fraternidade como princípio.

Em sua leitura, Alberzoni destaca que nesse ponto a figura de Francisco continua “provocadora” nos dias atuais. Ainda que não tenha “antecipado a democracia moderna” ou os movimentos sociais dos séculos seguintes, sua visão de mundo contestou diversos elementos que atravessam a história: a concentração do poder; a busca pela riqueza; a violência para resolução de conflitos; a “promoção” das desigualdades, entre outros. 

Maria Pia Alberzoni chama atenção para essa dimensão ao afirmar que, quando se deixa de lado uma leitura apenas hagiográfica, emerge “um São Francisco aprofundado”: um homem que, por meio da humildade e perseverança, foi capaz de sustentar sua proposta mesmo diante de autoridades que pensavam diferente.

Sua experiência religiosa, marcada por uma escolha radical de vida, acabou encontrando diferentes formas de ressonância ao longo dos séculos, em campos que vão da paz e da espiritualidade à relação com a natureza e à crítica aos modelos de poder e de riqueza. Nesse sentido, sua figura não se reduz a uma única dimensão, sendo reinterpretada a partir das perguntas de cada época.

“Em Francisco, parece haver algo para todos: o pacifista, o asceta, o pedreiro, o ambientalista, o minimalista, o amante dos animais que também é amado por eles, o diplomata, o místico, o radical, o artista performático e até o modelo de uma forma diferente de masculinidade”, observa a historiadora cultural Amanda Minervini.

É justamente essa capacidade de atravessar contextos históricos e culturais tão distintos que Daniel P. Horan procura compreender. Teólogo e diretor do Centro de Estudos da Espiritualidade do Saint Mary’s College (EUA), Horan observa que a própria história de conversão de Francisco e seu desejo de manter uma relação positiva com todos os seres vivos ajuda a explicar a força do santo de Assis em “atravessar diferentes épocas e culturas”. 

Horan afirma ainda que “São Francisco de Assis não era tão diferente de nós, apesar dos séculos que separam sua vida da nossa. Em vez de imaginá-lo como uma espécie de super-herói medieval, faríamos bem em lembrar sua plena humanidade, incluindo os inevitáveis ​​tropeços e erros que cometeu pelo caminho”.

“Também acredito que, em uma época de profunda polarização e desigualdade econômica, São Francisco oferece outro modo de estar no mundo, que prioriza as relações humanas e a comunidade em vez do ganho individual e do poder”, conclui.

Este texto integra uma série de matérias e artigos especiais preparados para a semana que antecede a celebração de São Francisco de Assis, em 4 de outubro. Ao longo dos próximos dias, a série propõe diferentes olhares sobre a vida, a espiritualidade e o legado do santo, percorrendo aspectos de sua trajetória que ajudam a compreender a atualidade de sua mensagem.


Guilherme Coutinho