CF 2026: mais que um teto, um direito e um compromisso de fraternidade
04/03/2026

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), ao propor a Campanha da Fraternidade 2026 com o tema “Fraternidade e Moradia”, amplia o olhar sobre um problema que vai muito além da ausência de um teto. A discussão central não se restringe às pessoas em situação de rua – embora elas expressem de forma dramática essa realidade -, mas aborda o conceito de moradia digna como direito humano fundamental e condição básica para uma vida plena.
Segundo a Fundação João Pinheiro, cerca de 6 milhões de famílias brasileiras enfrentam déficit habitacional – seja por viverem em moradias precárias, em coabitação forçada ou com aluguel excessivamente caro. Outras 26 milhões residem em condições inadequadas, em áreas de risco, sem infraestrutura suficiente ou longe de serviços essenciais. Soma-se a isso o crescimento da população em situação de rua, que já ultrapassa 300 mil pessoas no país (UFMG, 2024).
Para o padre Antônio Naves, assessor arquidiocesano da CF 2026 e atuante na Pastoral da Moradia, falar em moradia digna exige ir à raiz do problema. “A terra e a casa devem ser repartidas entre as pessoas. Não é possível, à luz do Evangelho, admitir que alguns tenham tudo enquanto a maioria não tem nada”, comenta. Ele recorda que o Ensino Social da Igreja está em sintonia com o Evangelho de Jesus e que os últimos pontífices – com destaque para o Papa Francisco – têm insistido na moradia como pilar fundamental para a dignidade humana.
“Falar em moradia digna significa falar em terra, e falar em terra revela uma concentração fundiária que ainda marca o Brasil”, observa o sacerdote.
Naves explica que a raiz do problema remonta à própria formação histórica do país, especialmente à Lei de Terras de 1850, que consolidou a propriedade privada e impediu que ex-escravizados se tornassem pequenos proprietários. Ao longo do século XX, o intenso processo de urbanização (especialmente entre as décadas de 1940 e 1980) agravou o cenário, com milhões de pessoas migrando para cidades sem infraestrutura e habitação adequadas.
Hoje, a moradia tornou-se também uma das mercadorias mais caras da economia. É um bem de consumo, mas seu acesso depende de renda, crédito e, principalmente, de um pedaço de terra bem localizado, próximo a serviços e infraestrutura. “Precisamos quebrar o conceito de casa como negócio, para enfrentar esse grande monstro chamado especulação imobiliária”, defende o padre. Ele recorda que, tanto na Constituição Federal quanto no Ensino Social da Igreja, está presente o princípio da função social da propriedade: a terra, no campo e na cidade, deve servir ao bem comum.

Nesse contexto, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a moradia digna é aquela que oferece habitabilidade, segurança de posse, acesso a água, esgoto, energia, transporte, serviços públicos e acessibilidade. Ou seja, a localização urbana, marcada por desigualdades de renda, cor da pele e acesso a oportunidades, acaba determinando quem vive com qualidade e quem sobrevive em condições precárias.
“Alguém comentou que essa campanha deveria ser só para quem tem problema de moradia. Mas não faz sentido. A campanha fala de Fraternidade e Moradia. Deus veio morar entre nós. Quem tem uma boa moradia precisa ser solidário com quem não tem. É um chamado para todos nós. Quem ama Deus, ama o próximo. E quem ama o próximo, ama Deus. A fraternidade não é apenas um conceito, mas uma atitude, uma decisão concreta de ser irmão, de cuidar uns dos outros”, complementa Naves.
“Para ser a Igreja de Jesus Cristo, é preciso estar onde Ele estaria: no meio dos pobres, nas áreas de moradia precária, junto de quem sofre despejos ou paga 30%, 40% da renda em aluguel. A Campanha é um desejo para que haja uma reconquista da terra no Brasil”, finaliza.
Campanha da Fraternidade 2026
Todos os anos, somos chamados a viver a Quaresma como um tempo de conversão pessoal e comunitária através da Campanha da Fraternidade (CF). Mais do que uma ação pontual, a CF é expressão viva da missão evangelizadora da Igreja, comprometendo-se com a transformação social, especialmente em favor dos mais vulneráveis.
Em 2026, a Campanha da Fraternidade traz como tema “Fraternidade e Moradia” e como lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). Inspirada no mistério da Encarnação, a campanha convida toda a sociedade a refletir sobre a realidade da moradia no Brasil, marcada por profundas desigualdades. A falta de um teto digno não é apenas uma carência material, mas um sinal da exclusão social que atinge milhões de pessoas.
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Guilherme Coutinho


