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Carta do Ministro geral e do Definitório para a Solenidade de São Francisco

24/09/2026

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Carta do Ministro geral e do Definitório para a Solenidade de São Francisco

Foi publicada a carta do Ministro geral da Ordem dos Frades Menores e do Definitório por ocasião da Solenidade de São Francisco de Assis de 2026. Intitulada “A Páscoa de Francisco”, a mensagem recorda os 800 anos da morte do Santo de Assis e convida toda a Família Franciscana a viver este momento como uma celebração de sua passagem deste mundo para o Pai.

A carta retoma o caminho dos quatro anos de celebrações dos Centenários Franciscanos, desde a aprovação da Regra e o Natal de Greccio, passando pelos Estigmas e pelo Cântico das Criaturas, até chegar, neste ano, ao Trânsito de São Francisco, compreendido à luz de sua união com Cristo e com o mistério pascal. O texto também destaca os frutos desse percurso, entre eles a colaboração entre os diferentes membros da Família Franciscana e a redescoberta de Francisco como vínculo de unidade do único carisma.

Confira, abaixo, o texto da carta na íntegra


A todos os Frades Menores da Ordem
Às Irmãs contemplativas da nossa Família
Às Irmãs da TOR e aos irmãos e irmãs ligados à nossa Ordem 

Roma, 24 de setembro de 2026 

Caros irmãos e irmãs,

o Senhor vos dê a paz! 

Escrevemos-vos ao aproximar-se a festa de São Francisco, que este ano realça o importante aniversário dos oitocentos anos desde sua morte. 

O centenário que estamos celebrando 

Há quatro anos estamos preparando-nos para esta data: como todos se recordam, começamos em 2023, celebrando o Centenário da aprovação da nossa Regra e do Natal de Greccio. No ano seguinte, no Centenário do evento dos estigmas, contemplamos essas singulares feridas do amor e em 2025 nos dedicamos à meditação do Cântico do irmão sol, descobrindo ainda mais a riqueza deste texto simples e sábio. Este ano concentramo-nos na celebração do Trânsito, que quisemos chamar de a Páscoa de São Francisco, para ressaltar que o trânsito significa passagem, ou seja,  Páscoa, e que Francisco vivenciou-a em união íntima com Cristo e com o seu mistério pascal. 

Ao longo destes quatro anos, também vivenciamos em todo o mundo a admirável colaboração entre todos nós, membros da Família franciscana: redescobrimos que São Francisco é precisamente o vínculo que nos une no único carisma, e podemos dizer com alegria que esta colaboração entre nós foi um primeiro,  fecundo fruto dos Centenários! 

Durante os primeiros meses deste ano, também participamos no evento excepcional da exposição dos restos mortais de Francisco: naqueles pobres restos ósseos, mais uma vez reconhecemos aquele que escolheu ser verdadeiramente menor, isto é, mais ínfimo, neste mundo. Neste ano, a Mãe Igreja  quis também vir ao encontro com particular desvelo de toda a nossa Família Franciscana, com a concessão de uma indulgência plenária para todas as nossas igrejas, o que torna este Centenário ainda mais especial. 

A Páscoa de Francisco 

E assim chegamos à celebração da Páscoa de São Francisco, aqueles dias de 3 e 4 de outubro que marcam o coração deste oitavo centenário. 

Vamos reviver nas nossas celebrações o momento em que Francisco completou a sua Páscoa, isto é, a sua passagem deste mundo para o Pai. Nos últimos dias de sua vida, ele quis, mais uma vez, seguir os passos de Cristo, como tinha feito toda a sua vida. Antes de morrer, ele quis ouvir o Evangelho de João a partir do capítulo 13, onde o episódio do lava-pés dá início à narração da última ceia ceia e da paixão e morte de Cristo, e quis partir o pão para seus irmãos, para se conformar aos gestos de Jesus quando se aproximava de sua morte. Como Jesus rezou ao Pai pelos seus, assim Francisco suplicou por seus irmãos ao Pai, com uma bênção que inclui também os frades que iriam vir e, portanto, nos alcança também. Finalmente, assim como Cristo morreu nu na cruz, assim também ele quis ser colocado nu sobre a terra nua. Francisco, portanto, quis fazer de sua própria morte uma Páscoa, semelhante à de Jesus. 

O mesmo desejo de conformidade a Cristo e ao seu mistério pascal marcou toda a vida de Francisco: começou com o encontro com os leprosos, onde «o amargo que se converte em doçura de alma e de corpo» (Test 3) remete precisamente para a experiência pascal da morte que doa a vida. Um passo ulterior foi o “dom dos irmãos” (Test 14), que levou Francisco a experimentar certamente a alegria da fraternidade, mas também as duras dificuldades da própria vida fraterna, que se acentuaram ao longo dos anos em uma sucessão de mortes e ressurreições. 

A presença constante do mistério da Páscoa na vida de Francisco encontrou um ponto culminante no Alverne, onde nos estigmas faz-se carne a sua conformidade com o Cristo crucificado e ressuscitado, encontrado sob o aspecto do Cristo seráfico. Finalmente, a sua morte na Porciúncula consumou esta presença do mistério pascal na vida de Francisco. 

Em sua vida, ele não percorreu um caminho especial, mas simplesmente viveu o sentido batismal da vida cristã, que consiste nesta participação no mistério pascal de Cristo. O que há de extraordinário em Francisco é a sua absoluta fidelidade a esta comum e fundamental vocação cristã, que é também a nossa vocação. 

Com efeito, também nós podemos reconhecer que em diferentes etapas da vida somos chamados a viver a Páscoa, isto é, a passar com fé através das dificuldades e tribulações para encontrar a paz que vem de Deus. Assim como Francisco teve que “viver a Páscoa” muitas vezes, até o fim, assim também nós. Esta mensagem refere-se ao coração do Evangelho, onde Jesus diz: «Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e  siga-me. Pois aquele que quiser salvar sua vida, há de perdê-la, mas aquele que perder sua vida por amor de mim e do Evangelho, há de salvá-la» (Mc 8, 34-35). Esta palavra, que se refere ao coração da mensagem cristã e que Francisco viveu plenamente, oferece-nos também uma chave para compreender o tempo em que vivemos. 

O contexto contemporâneo 

Vivemos hoje num mundo marcado por um profundo desejo de paz, mas que parece precipitar-se cada vez mais em escolhas de guerra. A nossa sociedade é muitas vezes polarizada e dividida, mas manifesta no entanto uma necessidade aguda de diálogo e de comunhão. Há uma crescente consciência entre nós da urgência de cuidar da criação, e também neste âmbito a tecnologia poderia oferecer muitas possibilidades positivas, mas somos testemunhas de que os recursos da ciência e da tecnologia são frequentemente utilizados por um consumismo destrutivo. Vivemos em um mundo onde as pessoas buscam relações autênticas e têm necessidade de comunicar-se com sinceridade, mas os recursos tecnológicos, que poderiam promover tais relações, são frequentemente usados de maneira negativa e o ritmo frenético do mundo da comunicação corre o risco de tornar as nossas relações cada vez mais impessoais ou até conflituosas.  

Páscoa: sinal de esperança 

É precisamente neste mundo, que é aquele no qual vivemos, que celebramos este oitavo Centenário da Páscoa de Francisco. Como já dissemos, essa nos indica ainda hoje a Páscoa de Cristo, que por si só tem a força para transformar também as nossas vidas e é o sinal autêntico de esperança para discernir o futuro que Deus pensou para cada um e para o mundo inteiro. 

Jesus nos disse: «Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, que cai na terra, não morrer, fica só; mas se morrer, produz muito fruto. Quem ama  sua vida a perde e quem odeia sua vida neste mundo guardá-la-á para a vida eterna» (Jo 12, 24-25). 

A morte de Francisco indica-nos como ele, até o fim, queria ser uma semente que caiu na terra e aceita morrer para produzir frutos. Francisco confiou totalmente na promessa do Senhor, aceitou perder a própria vida, na lógica da Páscoa de morte e ressurreição, e Deus fez dele a semente fecunda de vida para uma grande família, que somos todos nós.  

O que foi realizado em Francisco manifesta a força vivificante da Páscoa de Cristo, e queremos que seja realizado também em todos nós, que seguimos o Senhor Jesus inspirando-nos no modo como Francisco o fez. 

O olhar para o futuro 

Aproximando-se de sua morte, Francisco disse uma frase que também nos diz respeito, a nós que celebramos este Centenário: «Eu fiz o que é meu dever; que Cristo vos ensine o que é o vosso!» (2Cel 214). É um convite claro para nos voltarmos a Cristo: olhando para a Páscoa de Francisco somos enviados por ele a àquela de Cristo e ao mistério pascal que somos chamados a viver na nossa vida. A celebração deste evento de oitocentos anos atrás não só nos faz olhar para trás, mas sem dúvida nos envia ao futuro que nos espera e que Deus nos prepara. 

Por este motivo, a Família Franciscana optou por não realizar uma celebração de encerramento do Centenário: esse deve permanecer aberto ao futuro, continuar dentro de nós, no nosso testemunho, na nossa credibilidade evangélica e – se Deus quiser! – em nossa santidade. 

No mundo contemporâneo, marcado pelas tensões e contradições que recordamos, queremos ser um sinal de esperança. Onde sopram os ventos de guerra, queremos ser um sopro calmo de paz; num mundo polarizado e dividido, queremos testemunhar que a fraternidade é possível; num contexto tecnológico e consumista, queremos ser um apelo à sobriedade e ao cuidado pela criação; em uma sociedade onde as relações correm o risco de se tornarem cada vez mais impessoais, queremos salvaguardar, entre nós e com todos,  verdadeiras relações humanas; em um mundo onde a verdade é frequentemente inclinada para interesses e estratégias comunicativas, queremos promover uma ecologia da comunicação (MH 137). 

Até mesmo o Capítulo Geral que nós, Frades Menores, celebraremos no próximo ano no Vietnã – onde também os leigos participarão pela primeira vez – quer estar aberto ao futuro de Deus, àquele Reino que Jesus veio inaugurar e que Deus está misteriosamente preparando, mesmo na atormentada história do nosso tempo. A palavra de Jesus “Eis que estou convosco todos os dias até ao fim do mundo” (Mt 28, 20) sustenta-nos nesta esperança. 

Comecemos, irmãos… 

Olhando para Francisco, possamos neste Centenário ainda contemplar o seu grande testemunho: aceitando o seu convite, queiramos aprender de Cristo o que nós devemos fazer. E como ele disse nos últimos dias da sua vida: «Comecemos, irmãos, a servir ao Senhor Deus, porque até agora apenas pouco ou em nada progredimos!» (1Cel 103). 

Desejamos que vivais com especial alegria a festa de São Francisco neste ano centenário: olhando para ele que, como Jesus, fez da sua morte um dom de amor ao Pai e aos irmãos, assim também todos vós possais transformar a vossa vida num cântico de louvor e de ação de graças ao Senhor! 

Fraternalmente, 

Fr. Massimo Fusarelli, OFM
Ministro geral
e os irmãos do Definitório geral

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