As Chagas de Francisco e os desafios da vida franciscana hoje
15/09/2026

A Festa da Impressão das Chagas de São Francisco de Assis, celebrada no dia 17 de setembro, recorda um dos episódios mais marcantes da vida do Santo de Assis: a experiência vivida no Monte Alverne, em 1224, quando, durante um período de intensa oração e contemplação, Francisco recebeu em seu corpo os sinais da Paixão de Cristo.
O acontecimento, porém, não pode ser compreendido como um episódio isolado. Para Frei Paulo Roberto Pereira, Ministro provincial da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, as Chagas do Alverne foram precedidas por outras marcas que Francisco foi acumulando ao longo de sua trajetória de conversão.
Entre essas experiências, o Ministro provincial recorda as feridas da batalha de Collestrada, a incompreensão do pai, o encontro com os leprosos, os conflitos vividos entre os irmãos e o reconhecimento das próprias fragilidades. Havia ainda uma ferida que atravessava profundamente a experiência de Francisco: a percepção de que “o amor não era amado”.
Antes de serem visíveis no corpo, portanto, as marcas da Cruz já haviam alcançado o coração de Francisco. Sua vida foi sendo configurada pelas escolhas que o aproximavam de Cristo: o encontro com o Crucificado de São Damião, a escuta do Evangelho, o serviço aos leprosos, o trabalho, a vida fraterna, a oração, o jejum e a contemplação da criação. Em outras palavras, as Chagas do Alverne aparecem, assim, como expressão de um caminho que já vinha sendo percorrido.
Essa perspectiva também ajuda a compreender o que significa celebrar os Estigmas hoje. Para Frei Paulo, a identificação com Francisco passa pela disposição de deixar que o Evangelho também marque a existência de quem assume o caminho franciscano.
“Desta maneira, os irmãos e irmãs do Pobrezinho de Assis, no intuito de conhecer mais profundamente sua vida, são convidados a cultivar no seu quotidiano a fidelidade ao santo evangelho”, reflete.

Deixar-se tocar pelas feridas do mundo
Nesse contexto, se as Chagas de Francisco são inseparáveis de sua identificação com Cristo, elas também apontam para uma maneira de olhar a realidade. A fidelidade ao Evangelho, segundo o Ministro provincial, conduz a um olhar atento às dores humanas e às situações que produzem sofrimento e morte. Ou seja: não permanecer indiferente diante daquilo que fere a vida.
“Tal fidelidade servirá de referência para o olhar compassivo diante das dores e sofrimentos do ser humano e de todo ser criado. A insensibilidade, a indiferença diante das dores e das situações geradoras de morte, são os grandes pecados que corroem nosso relacionamento com Deus e com os irmãos e irmãs”, explica. Em contraposição à indiferença, ele aponta atitudes como o compadecimento, o cuidado solidário e a partilha como elementos que fortalecem a experiência da fraternidade.
Essa disposição ganha ainda mais importância em uma sociedade marcada pela velocidade das informações. O sofrimento humano pode ser visto diariamente em telas, notícias e redes sociais, muitas vezes em uma sucessão tão rápida que corre o risco de deixar de provocar reação.
“Para encontrar as marcas da cruz de Nosso Senhor e se deixar identificar por elas, o franciscano deverá mergulhar, sem reservas, na experiência dos chagados pelo abandono, pelo descaso, pela cultura do descarte; deverá escolher estar ao lado dos sem vez e sem voz; deverá evidenciar sua predileção pelos pobres e desterrados, assim como fez Jesus de Nazaré.”
A experiência do Alverne também coloca em evidência uma dimensão pouco compatível com os valores predominantes da sociedade contemporânea: a vulnerabilidade. Em um contexto que valoriza desempenho, produtividade, segurança, autonomia e capacidade de controle, reconhecer-se limitado pode parecer sinal de fracasso. Para o franciscanismo, contudo, essa experiência pode assumir outro significado.
Frei Paulo relaciona a vulnerabilidade diretamente a dois elementos fundamentais da identidade franciscana: a fraternidade e a minoridade.
“Nossa sociedade potencializa a segurança dos maiorais e promove a vulnerabilidade dos menores. Sob esse ponto de vista, quando escolhemos a minoridade, fazemos um contraponto a esse modelo de organização da sociedade e, ao mesmo tempo, nos acercamos da vulnerabilidade”, observa o Ministro provincial.
“A finitude, a fragilidade, a morte, são vistas por muitos como as maiores inimigas do ser humano. Entretanto, na proporção em que nos dedicamos a refletir acerca da grandeza da natureza humana, podemos entender, como São Paulo: ‘Pois, quando sou fraco, então é que sou forte’”, complementa.

Uma fé que se traduz em escolhas
A atualidade das Chagas também passa por uma questão fundamental: o que acontece depois da celebração? É possível admirar Francisco, venerar suas Chagas e, ao mesmo tempo, permanecer distante das escolhas que deram forma à sua vida?
“A relação do cristão católico com os santos é repleta de elementos positivos e carrega também alguns riscos. São Francisco, inclusive, alertava para os danos causados pelo comportamento de quem procura promover e exaltar os atos e virtudes dos santos, mas não faz o mínimo esforço para praticar as mesmas virtuosas ações. Uma outra abordagem a ser evitada, é aquela que atribui aos santos virtudes excelentíssimas, sem levar em conta a fragilidade humana com a qual todo santo teve que conviver. Ao ‘superexaltar’ os méritos dos santos, a devoção e a piedade podem torná-los inalcançáveis pelos ‘mortais comuns’, que somos todos nós”, explica Frei Paulo.
É justamente nessa humanidade, marcada por limites e fragilidades, que a figura de Francisco permanece próxima de quem busca viver a fé no presente, explica ele. Em seu caminho, o santo de Assis encontrou o Senhor no diálogo com o Crucificado, em São Damião; nas palavras da Escritura que indicaram o discipulado; no serviço aos leprosos; no trabalho com as próprias mãos; na convivência e nos serviços fraternos; nos momentos de jejum e oração; e na contemplação da natureza. Em todas essas experiências, procurou manter os “olhos fixos no Senhor”, confirma o Ministro Provincial.
“A perseverança nesse itinerário, antes de torná-lo um super-humano, fez dele uma pessoa apta a reconhecer suas próprias fragilidades e, ao mesmo tempo, entregar-se à infinita bondade do Senhor. Portanto, ao celebrar São Francisco das Chagas, podemos nos emocionar, devemos deixar crescer a admiração pelas virtudes do santo, mas, antes de tudo, somos convidados a empenhar nossos esforços e criatividade para fazer o que ele fez e, assim, alcançar tão alto grau de identificação com o Senhor”, observa.
A celebração das Chagas, nesse sentido, ultrapassa a dimensão devocional e se torna um convite a olhar para a realidade. Quando Francisco foi marcado pela experiência do Crucificado, a experiência não o afastou do mundo e de suas dores; ao contrário, levou-o para mais perto daqueles que carregavam as marcas da exclusão, do abandono e do sofrimento. “A festa das Chagas, necessariamente, deve nos levar ao encontro dos chagados do nosso tempo”, ressalta Frei Paulo.
Por fim, Frei Paulo explica que o Alverne não precisa ser compreendido apenas como um lugar geográfico, mas como um espaço de encontro com Deus capaz de renovar a maneira de viver a missão. Para ele, os “Alvernes” que a Província precisa encontrar hoje estão justamente nas realidades em que o Evangelho exige proximidade, serviço, justiça e esperança.
O compromisso começa pela presença junto aos pobres, tanto nas periferias das grandes cidades quanto em comunidades rurais marcadas pelo abandono e pela falta de acesso aos recursos necessários para uma vida digna. Também estão nesse horizonte os migrantes que, por razões diversas, foram obrigados a deixarem suas terras.
“Temos consciência de que os tempos atuais impõem inúmeros obstáculos ao anúncio e vivência da boa nova do Reino. Por isso, a fidelidade ao Evangelho exige de nós coragem e profecia. Ao reconhecer as fragilidades que portamos, abrimos maior espaço para que a Graça possa agir em nós e através de nós. No caminho poderá haver cruzes, mas estamos destinados à ressurreição”, finaliza o Ministro provincial.
Guilherme Coutinho


