Notícias - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Carta do Ministro Geral para a Páscoa de 2026

30/03/2026

Notícias

Aos Frades da Ordem,
Às Irmãs Clarissas e Concepcionistas,
Às Irmãs Franciscanas filiadas à Ordem,
Aos leigos e leigas Franciscanos.

 

Roma, 29 de março de 2026,
Domingo de Ramos

Irmãos e irmãs caríssimos,

Que o Senhor vos dê a paz!

Este ano marca o oitavo centenário da morte de São Francisco. Neste contexto, celebramos a Páscoa do Senhor com uma renovada consciência: Francisco, embora tenha morrido em 3 de outubro de 1226, longe do tempo litúrgico pascal, experimentou sua morte como uma verdadeira Páscoa, a ponto de chamar a morte de “irmã”. 

Um gesto eloquente dá testemunho disso: Francisco quis ouvir o cap. 13 do Evangelho de João, o relato do lava-pés, que fala de serviço e humildade. Naquele momento supremo, ele já havia ultrapassado o limiar da morte, habitando o próprio coração do mistério pascal de Cristo. Vivemos hoje num tempo carregado de incertezas: as mudanças geopolíticas, as guerras que dilaceram povos e nações, e as crises em nossas sociedades nos põem à prova. É fácil buscar consolações superficiais diante de tais dificuldades. No entanto, Francisco nos mostra outro caminho. 

Nosso Irmão aprendeu a não fugir da morte desde o início de sua conversão. Encontrou os leprosos e começou a entregar-se a Deus, superando o medo. Enfrentou sua condição de criatura e aceitou o limite que lhe pertence. Aqui viu o que era amargo transformar-se em doçura. Em quantos pequenos, pobres e em seus próprios irmãos fez esta viagem! 

Assim foi preparado para o encontro final: escolheu morrer nu sobre a terra nua, seguindo seu Mestre. Não negou suas próprias fragilidades – os estigmas, a doença, a cegueira, os conflitos com os frades e na Ordem – e desejou não o desaparecimento de suas misérias e das alheias, mas a graça que as transfigura (Simone Weil). 

O evento da Transfiguração, que marca o itinerário quaresmal, não interrompe o percurso rumo à cruz. Não elimina o conflito, nem suspende a história, mas revela seu significado profundo. Assim Francisco, no monte Alverne e morrendo na Porciúncula, descobriu a luz através das feridas, cantou a vida enquanto morria com as palavras do Cântico, transformando a própria morte num ato de amor e serviço.

Hoje, numa convulsão da história que se assemelha às dores de parto de um nascimento, somos chamados a reconhecer que as trevas não têm a última palavra. Nelas podemos descobrir os sinais de ressurreição que o Senhor semeia. Como Francisco, podemos tornar-nos testemunhas de uma esperança que supera o otimismo superficial, porque atravessa a escuridão graças a uma luz que nos alcança e muda o nosso olhar. 

A escolha de Francisco de ouvir o relato do lava-pés no momento de sua morte nos interpela profundamente. Mostra-nos que a Páscoa não é um simples período do ano, mas uma forma de existência. Viver em chave pascal significa abraçar cada momento da vida, desde a alegria até a fragilidade e à morte. É aqui que aprendemos a sair de nós mesmos, a abaixar-nos para lavar os pés de nossos irmãos, especialmente aqueles mais sujos e feridos: esta é a chave para atravessar cada treva. 

Nossas fragilidades, as crises em nossas comunidades e as contradições de nosso tempo não são obstáculos à Páscoa; são o lugar onde ela se cumpre. Francisco nos faz tocar com as mãos que cada morte pode tornar-se irmã se vivida com o coração e as mãos de Cristo, Servo e Senhor. 

Neste ano centenário, enquanto recordamos a morte pascal de são Francisco, imploramos a graça de viver nossa Páscoa cotidiana com liberdade e abandono. Pedimos para saber reconhecer, nos sinais dos tempos que nos assustam, as dores de parto de um mundo novo que está nascendo. Oramos para poder finalmente entregar nossa vida ao Pai e aos homens que Ele ama e deseja felizes. 

Que o Senhor crucificado e ressuscitado, a quem Francisco amou e seguiu, nos ilumine e no Espírito transforme nossos medos em confiança, nossas feridas em aberturas de luz. 

Feliz e santa Páscoa a todos com meu abraço fraterno!

Fr. Massimo Fusarelli, OFM
Ministro Geral 

Prot. 115046/MG-028-2026

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