Carisma - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

800 Anos de Noviciado na Ordem dos Frades Menores

                                                                                                    Cena do filme de Roberto Rossellini

Frei Marco Antonio dos Santos

No dia 22 de setembro de 1220, com a Bula Cum secundum Concilium do Papa Honório III, ficou estabelecido que, a partir de então, nenhum dos irmãos poderia ser admitido à Profissão em nossa Ordem sem antes ter feito o Ano de Provação.

Por Ano de Provação, entenda-se o que hoje chamamos de Noviciado.

Inspirados pela “graça da origem”, celebramos também este jubileu, no qual queremos render graças por tantos benefícios que nos têm Deus concedido e, neste espírito, para melhor incorporarmos esta graça recebida, vejamos um pouco da nossa história e espiritualidade.

Narra-nos a Legenda dos Três Companheiros que: “Tornando-se conhecida de muitos a verdade de tão simples ensinamento, bem como da vida do Bem-aventurado Francisco, após dois anos de sua conversão, por seu exemplo, alguns homens começaram a animar-se para a penitência e, abandonando todas as coisas, a unir-se a ele pelo hábito e pela vida,…” (27,1).

O modo como estes primeiros irmãos foram acolhidos por Francisco e, em seguida, a maneira como também eles acolheram os que começaram a vir a nós, marcou um novo jeito de ser e de estar na Igreja de então. De forma que, tomados por esta consciência e de coração aberto para a graça recebida, os que “por inspiração divina, querendo aceitar esta vida” viessem ao encontro dos irmãos, deveriam ser ”recebidos benignamente por eles” (cf. RegNB II,1; Test 16). A palavra “receber” tem aqui, por intuição de Francisco, o sentido da graça, do dom da vocação que nos vem de Deus. E, portanto, quem move, inspira e dá vocação para “receber” esta vida é o Espírito do Senhor (cf. 1Cel 26-28;31; AnPer 18; Leg3Com 36; 2Cel 40; LegM lIl,4).

Deste modo, aos que por inspiração divina vêm a nós, Francisco nunca usa o termo “entrar” para acolhê-los, pois, para ele não se “entra” para formar parte de uma Fraternidade ou de uma Província, nem tão pouco se deve impor sobre eles uma determinada forma de vida, mas, sim, os que vêm a nós, por gratuidade divina, “recebem” um modo de vida já existente e o assumem e o abraçam de livre e espontânea vontade; e, concretamente, este modo de vida é a nossa Regra, cujo teor e espírito nos movem em Fraternidade. E, por isto mesmo, a Fraternidade não deve pôr a prova o candidato que vem, mas, simplesmente acolhê-lo e lhe apresentar o que para ela é a sua “vida”, de modo que a decisão de aderir ou não a ela é daquele que vem ao nosso encontro.

E é neste senso, que a Regra Bulada e Não Bulada nos dizem: “Se alguns quiserem aceitar esta vida e vierem aos nossos irmãos,…” (RegNB II,1; RegB II,1). Vejam que os verbos querer e vir supõem aqui uma decisão própria e não uma imposição interna ou externa (cf. Frei Fernando Uribe, ofm). E, é partindo desta concepção, que Francisco depois irá escrever em seu Testamento: “E depois que o Senhor me deu irmãos,…” (14).

Movidos então, por este espírito, o modo como Francisco e os primeiros irmãos acolhem os que vêm a nós difere da prática daquele tempo. A Regra de São Bento, por exemplo, diz expressamente aos que desejam fazerem-se monges que “não é fácil ser admitido”, e estabelece que devem perseverar quatro ou cinco dias às portas do mosteiro sofrendo com paciência as injurias e a espera antes de serem admitidos (cf. Regra Beneditina, capítulo 58). E muito mais rígidas eram as normas de Cassiano e dos chamados “Quatro Padres” (cf. DELAITE, Commentaire sur la Règle de Saint Benoît par l’abbé de Solesmes, 424-425; A. DE VOGÜE, La Règle de Saint Benoît, 1313).

Com este jeito de ser e apresentando para a Igreja daquele período, um novo modo de acolher e vivenciar o apostolado, ou seja, como itinerantes, Francisco e os nossos primeiros irmãos abrem uma nova perspectiva de experienciar e testemunhar o Evangelho, onde o “claustro” passa a ser o mundo e, para acompanhá-los, era preciso evangelizar-se para evangelizar, assumindo assim uma vida apostólica-eremítica.

Não foram poucos os que se sentiram atraídos por este modo de vida. Tanto que, em pouco tempo, o número dos irmãos cresceu consideravelmente (em 1220 éramos mais de 3.000 frades). Juntos, buscavam “seguir os vestígios de Cristo” como fundamento da vocação a que foram chamados. E foi assim, movido por este espírito, que Francisco depois escreveu na Regra: “Os irmãos de nada se apropriem, nem de casa, nem de lugar, nem de coisa alguma. E, como peregrinos e estrangeiros (Cf. 1Pd 2,11) neste século, sirvam ao Senhor na pobreza e na humildade” (RegB VI,1-2). E os exorta que, em sua itinerância como menores, fossem “brandos, pacíficos e modestos, mansos e humildes, falando honestamente com todos como convém” (RegB III,11). E exortou-os ainda: “É para isto que o Senhor vos enviou pelo mundo inteiro para testemunhardes a sua voz pela palavra e pela obra e façais saber a todos que não há outro onipotente além d’Ele” (CtOrd 9).

A vida santa e simples dos frades menores nesta itinerância toca o coração de muitas pessoas. Isto num tempo em que o movimento minorítico começa a crescer dentro da Igreja e em meio à sociedade. Contudo, sem querer aprofundar esta questão, basta-nos agora a consciência de que neste tempo crescem também os movimentos heréticos. E, com a perseguição da Igreja a estes movimentos heréticos-pauperísticos, os frades, vivendo sem nada de próprio e como itinerantes, passam pelas mais variadas experiências. Isto porque o nosso carisma era ainda uma novidade para a Vida Religiosa dentro da Igreja e, deste modo, éramos pouco conhecidos. Consequentemente, para que não fôssemos mais confundidos com os contestadores dos movimentos heréticos, será a partir do jeito de viver a penitência, de se vestir e no apoio que recebemos dos Papas que nos será dada uma identidade dentro da Igreja e no convívio com o povo.

O fato é que a Ordem está crescendo e já não pode ser acompanhada de um modo, vamos dizer assim, “caseiro”, como vinha sendo feito até então. Outro fator é que estamos aqui num tempo de transição entre a “intuição” e a “instituição”. Dizendo de um jeito muito simplório e sintético, se até então os que vinham a nós eram acolhidos benignamente pelos irmãos e faziam com eles um itinerário formativo, sendo depois oficialmente recebidos por Francisco na Fraternidade, a nova realidade que estávamos vivendo exigia naquele momento novas atitudes. Dentro de um conceito mais amplo e não abordado aqui, podemos então supor que, entre os “recebidos”, havia os que, vindos de movimentos heréticos, simplesmente eram acolhidos na Ordem, tanto que, em 1223 Francisco deixará prescrito na Regra Bulada que: “Os ministros, porém, os examinem diligentemente sobre a fé católica e os sacramentos eclesiásticos” (II,2). Um outro fator, é que entre os que entravam havia também os que já não tinham mais a consciência do espírito que moveu os primeiros frades. Em vista disto, o acolhimento inicial já não tinha mais o mesmo efeito. E, se não bastasse, havia ainda os girovagos que não se assentavam na experiência concreta de vida dos frades. Fatos estes que vários conflitos vieram a criar na Ordem nascente que trazia em si, como vimos, uma grande novidade pelo seu jeito de ser e de estar na Igreja e no mundo.

Por conseguinte, há uma interferência que parte tanto da vida interna da Ordem quanto da própria Igreja no modo de acolher e acompanhar os que vêm a nós. Exemplo disto se vê na Regra Bulada quando, num tom jurídico, Francisco também prescreve aos que quiserem vir a nós, que sejam enviados “aos ministros provinciais, aos quais somente e não a outros se conceda a licença de ‘receber’ irmãos”. “É possível que o deslocamento desta espontânea e calorosa acolhida de sabor evangélico para um rígido procedimento jurídico esteja indicando tacitamente a intenção de subsanar alguns abusos que puderam ter ocorrido nos primeiros anos da Fraternidade, aos que em grande parte tratou de sair-lhe, então, ao encontro a bula pontifícia Cum secundum Concilium de 1220” (cf. Frei Fernando Uribe, ofm).

“Portanto, a ideia original de Francisco, como dita, pouco a pouco está sendo submetida aos sistemas organizativos da Igreja. Outro que, além da Igreja estar saturada de problemas criados por grupos de contestação, pelo baixo nível de formação do clero e da presença dos giróvagos que não assumiam compromisso com nenhuma Ordem, ajudando a piorar a situação, a Ordem também não se vê alheia a este problema da formação e dos giróvagos. E é então com a finalidade de resolver estes problemas que, no dia 22 de setembro de 1220, o Papa Honório III publicou a bula Cum secundum Concilium, que implantava a obrigatoriedade do Ano de Provação” (Frei Sandro Roberto da Costa, ofm; cf. De Paris, Histoire de la fondation et de l’évolution de l’O.F.M., 71-75).

Este procedimento começou a firmar os passos formativos da Ordem Franciscana e assentou entre os frades menores uma experiência, não sem suas crises, mas, certamente, provocada e iluminada pela consciência do saber se estamos ou não sendo movidos pelo Espírito do Senhor.

E, é neste espírito que hoje a Igreja e a Ordem, segundo o tempo que estamos vivendo, possuem seu modo próprio de receber e encaminhar os irmãos que vêm a nós em sua Formação Inicial.
A gratuidade e a benignidade no modo de acolher e receber permanecem sempre iluminadas pelo Espírito do Senhor que continua chamando e enviando irmãos. Assim como a intuição de São Francisco, que nos diz: “se ele estiver firme para aceitar a nossa vida,… O ministro, na verdade, receba-o benignamente, conforte-o e exponha-lhe diligentemente o teor da nossa vida” (RegB II 2-3). Ou seja, o discernimento feito junto aos irmãos que recebemos, deve partir do “teor da nossa vida” que terá, segundo o tempo que vivemos, as suas próprias exigências. Tanto que nos é dado hoje obedecer ao que nos prescreve, neste senso, não somente a Igreja, como igualmente, as nossas Constituições Gerais e a nossa Ratio Formationis Franciscanae que, em relação à Formação Inicial, dentre outros, nos orienta que:

1. A formação franciscana tem seu fundamento no encontro pessoal com o Senhor e inicia com o chamado de Deus e a decisão de cada um de seguir com São Francisco as pegadas de Cristo pobre e crucificado, como discípulo seu, sob a ação do Espírito Santo.

2. A formação franciscana é um processo contínuo de crescimento e de conversão que compromete toda a vida da pessoa (cf. VC 65), chamada a desenvolver a própria dimensão humana, cristã e franciscana, vivendo radicalmente o santo Evangelho, em espírito de oração e devoção, em fraternidade e minoridade.

173. A formação inicial é o tempo privilegiado em que os candidatos, com um especial acompanhamento do Mestre e da Fraternidade formativa, são iniciados no seguimento de Cristo, segundo a forma de São Francisco e a sã tradição da Ordem, assumindo e integrando progressivamente seus particulares dons pessoais com os valores autênticos e característicos da vocação evangélica do frade menor.

179. O Postulantado é uma etapa necessária para a adequada preparação ao Noviciado (cf. CDC 597 §2), durante a qual o postulante confirma a própria determinação de converter-se através de uma progressiva passagem da vida secular para a forma de vida franciscana.

190. O Noviciado é o tempo em que o noviço começa a vida na Ordem, continua o discernimento e o aprofundamento da própria decisão de seguir a Jesus Cristo na Igreja e no mundo de hoje segundo o espírito de São Francisco, conhece e experimenta mais profundamente a forma de vida franciscana (cf. CCGG 152).

204. O tempo da Profissão temporária aperfeiçoa a formação inicial franciscana nos seus diversos aspectos, teóricos e práticos, a fim de tornar o Frade apto a viver mais integralmente a vida e a missão própria da Ordem no mundo de hoje, e a preparar-se para emitir a Profissão solene (cf. CCGG 157; 158 §1).

215. No exame da idoneidade do Frade para a Profissão solene, alguns critérios que deveriam ser levados em conta são: maturidade afetiva; sinais evidentes de um adequado e maduro relacionamento com Deus pela oração; iniciativa pessoal e responsabilidade pela própria vida religiosa; capacidade de vida e de trabalho com a Fraternidade; capacidade de ser ativo e orientado para servir os outros, especialmente os mais pobres; sentido de justiça, paz e respeito pela criação; espírito de misericórdia e de reconciliação; capacidade de assumir um compromisso definitivo, observando os conselhos evangélicos; disponibilidade para testemunhar e anunciar o santo Evangelho; suficiente liberdade interior e prática da pobreza; sentido de pertença à Fraternidade, à Província, à Ordem e à Igreja.

Como temos visto, a graça da vocação religiosa foi e sempre será inspiração de Deus e, é a partir desta inspiração, que os que vêm a nós “recebem” um modo de vida já existente e o assumem e o abraçam de livre e espontânea vontade, não querendo assim inserir ou impor outro jeito de ser e de estar conosco, mas, sim, por querer vir e aceitar este modo de vida, assumem a Regra e a Constituição própria dos frades menores. Portanto, a decisão de aderir ou não ao nosso modo de vida foi e será sempre, em primeiro lugar, daquele que, por inspiração divina vem ao nosso encontro, e é para isto que o seu tempo de Formação Inicial tem a duração de dez anos, tempo suficiente para ele ter uma decisão madura, responsável e de adesão à Fraternidade, além, claro, de ser um tempo justo para que também a Fraternidade possa ter, em relação a ele, a consciência da sua intenção e do seu firme propósito no seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo como frade menor e assim receber os Votos Solenes.

E depois que o Senhor me deu irmãos,…” (Test 14).

Bendito e louvado seja Deus pelo dom de nossa vocação franciscana!
Em São Francisco e Santa Clara: Paz e Bem!

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