Carisma - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

O calvário franciscano: Plena identificação com o seu Senhor

O lugar onde Francisco mostrou sua grande amizade por Frei Leão foi no Monte Alverne. No verão de 1224, o Poverello realizou mais uma vez seu grande desejo de retirar-se para aquela alta, rochosa e selvática solidão que lhe tinha dado o Conde Orlando, onde o próprio doador também construíra um eremitério, com um oratório e pequenas celas, tudo muito simples e pobre, como agradava a Francisco. Levou consigo os discípulos mais amados, entre os quais o de maior confiança, seu secretário e confessor, Frei Leão.

Um fato aconteceu logo nos primeiros dias. Aproximava-se a festa da Assunção da Virgem e Francisco procurava um lugar mais solitário e secreto no qual iniciar a “Quaresma de São Miguel Arcanjo”. Começou, assim, o jogo de esconde-esconde com Frei Leão:

– Vai e fica acima da porta do oratório dos irmãos, e quando te chamar vem a mim.

Foi Frei Leão e ficou acima da porta, e São Francisco se afasta um pouco e chama forte. Frei Leão, ouvindo-se chamar, vai a ele e São Francisco lhe diz:

– Filho, procuremos outro lugar mais secreto onde não me possas ouvir quando te chamar.

E, procurando, viram no flanco do monte, na parte sul, um lugar secreto e muito bem adaptado conforme a intenção dele. Mas aí ninguém podia ir, porque tinha na frente uma abertura de rochedo muito horrível e pavorosa: pelo que, com grande fadiga, puseram por cima um pau à maneira de ponte e atravessaram. Então São Francisco chamou os outros irmãos e lhes disse como pretendia fazer a Quaresma de São Miguel naquele lugar solitário, e para isso lhes pede que ali lhe façam uma pequena cela, de sorte que nenhum grito seu pudesse ser ouvido por eles… e lhes disse:

– Ide ao vosso eremitério e deixai-me aqui sozinho; porque com a ajuda de Deus, pretendo fazer aqui esta Quaresma sem estrépito ou perturbação da mente, e, por isso, nenhum de vós me venha ver. Mas tu, Frei Leão, somente uma vez por dia virás a mim com um pouco de pão e de água, e de noite uma outra vez, na hora de Matinas. Então virás em silêncio; e quando estiveres no começo da ponte, dirás: Abri, Senhor, os meus lábios!; e se eu te responder, passa e vem à cela e diremos juntos Matinas; e se eu não te responder, parte imediatamente.

E isto dizia São Francisco porque algumas vezes estava tão arroubado em Deus que não ouvia nem sentia nada com os sentidos do corpo.

Daquele momento em diante, todo o milagre do Alverne foi também uma excepcional troca de experiências entre São Francisco e Frei Leão. Não só pelo privilégio de ser ele o único que o atendia e com ele rezava, mas, sobretudo, porque Frei Ovelhinha de Deus, na sua férvida simplicidade e pureza, não se contentava com isso. E aconteceu que uma vez São Francisco não respondeu à saudação de Frei Leão, e este não voltou atrás como lhe havia sido ordenado…

         “…mas com intenção boa e santa, passou a ponte e entrou devagarinho na cela dele; e não o encontrando, pensou que ele estivesse na floresta em algum lugar em oração. Pelo que saiu, pois, e ao lume da lua o foi procurando docemente pela floresta: e finalmente ouviu a voz de São Francisco, e aproximando-se, o viu ajoelhado com a face e com as mãos erguidas para o céu, e em fervor de espírito dizia:

– Quem és tu, dulcíssimo Deus meu, e quem sou eu, vilíssimo verme e teu inútil servo?

E estas mesmas palavras sempre repetia e não dizia nenhuma outra coisa. Pela qual coisa Frei Leão, maravilhando-se muitíssimo, levantou os olhos e olhou o céu, e olhando viu vir do céu uma chama de fogo belíssima e esplendíssima, a qual, descendo, pousou na cabeça de São Francisco, e da dita chama ouviu sair uma voz a qual falava com São Francisco; mas Frei Leão não entendia as palavras. Vendo isto e reputando-se indigno de estar assim perto daquele lugar santo onde estava aquela admirável aparição, e temendo ainda ofender São Francisco ou perturbá-lo em sua consolação, se dele fosse pressentido, recuou devagarinho e ficando de longe esperava para ver o fim.

E olhando fixamente, viu São Francisco estender três vezes as mãos para a chama; e finalmente, apôs grande espaço de tempo, viu a chama voltar para o céu. Pelo que se retirou tranquilo e alegre da visão e voltava à sua cela. E andando tranquilamente, São Francisco o sentiu pelo estropício dos pés sobre as folhas e ordenou-lhe que o esperasse e não se movesse. Então Frei Leão, obediente, ficou firme e esperou-o com tanto medo que, conforme em seguida narrou aos companheiros, naquela ocasião teria preferido que a terra o engolisse a esperar São Francisco, que pensava estar irritado contra ele; porque com suma diligência ele se guardava de ofender sua paternidade, a fim de que, pela sua culpa, São Francisco não o privasse de sua companhia.

Aproximando-se, pois, dele, São Francisco perguntou-lhe: 

– Quem és tu?

E Frei Leão todo a tremer respondeu:

– Eu sou Frei Leão, pai meu.

E São Francisco lhe disse:

– Por que vieste aqui, irmão Ovelhinha? Não te disse que não me ficasses a observar? Dize-me, pela santa obediência, se viste ou ouviste alguma coisa.

Respondeu Frei Leão:

– Pai, eu te ouvi falar e dizer muitas vezes: “Quem és tu, ó dulcíssimo Deus? E quem sou eu, verme vilíssimo, inútil servo teu?”

E então, ajoelhando-se Frei Leão diante de São Francisco, declarou-se culpado da desobediência que tinha cometido contra o seu mandamento e pediu-lhe perdão com muitas lágrimas. E depois pediu-lhe devotamente que lhe explicasse aquelas palavras que tinha ouvido e não havia entendido. Então vendo São Francisco que Deus ao humilde Frei Leão, pela sua simplicidade e pureza, tinha revelado ou concedido de ver alguma coisa, consentiu revelar-lhe e explicar-lhe o que pedia”.

Nesse ponto, porém, o confessor de Francisco era impenitente, e graças a isso, conhecemos mais alguns segredos místicos que precederam e que seguiram o milagre das chagas. Mas o prodígio em si, que aconteceu na festa da Exaltação da Santa Cruz, ficou sempre um segredo entre Cristo, o Serafim alado e crucificado, e o Serafim de Assis. Daquele momento em diante, a vida mudou não só para Francisco, mas também para Frei Leão.

E, coincidência ou não, exatamente naqueles dias, Frei Leão passava por um de seus angustiantes momentos de crise. E foi novamente Francisco que lhe veio em socorro, aliviando-o e inebriando-o com sua união mística cristificante. Pediu carta e papel e com mão trêmula pela emoção escreveu os Louvores a Deus Altíssimo, uma explosão vulcânica de um coração crucificado:

Tu és o santo Senhor Deus único, que fazes maravilhas.

Tu és o forte, Tu és o grande, Tu és o altíssimo,

Tu és o rei onipotente, Tu, Pai santo, o rei do céu e da terra.

Tu és o trino e uno, Senhor Deus dos deuses;

Tu és o bem, todo o bem, o sumo bem,

Senhor Deus vivo e verdadeiro.

Tu és o amor, a caridade; Tu és a sabedoria, Tu és a humildade,

Tu és a paciência, Tu és a beleza, Tu és a mansidão;

Tu és a segurança, Tu és a quietude, Tu és o gáudio,

Tu és a nossa esperança e alegria,

Tu és a justiça, Tu és a temperança, Tu és toda a nossa riqueza à saciedade.

Tu és a beleza, Tu és a mansidão, Tu és o protetor,

Tu és o guarda e nosso defensor; Tu és a força, Tu és o refrigério.

Tu és a nossa esperança, Tu és a nossa fé, Tu és a nossa caridade,

Tu és toda a nossa doçura, Tu és a nossa vida eterna:

Grande e admirável Senhor, Deus onipotente, Misericordioso Salvador.

Francisco compôs este seu poema místico e confiou o escrito a Frei Leão, para que sua angústia se transformasse em serenidade e júbilo no Senhor. E não só. Dedicou-o a ele, acrescentando a conhecidíssima bênção que, por ordem do Senhor, Moisés e Aarão davam ao povo de Israel (Nm 6,24-26):

«O Senhor te abençoe e te guarde;

te mostre a sua face

e tenha misericórdia de ti.

Volva para ti o seu rosto

e te dê a paz.

O Senhor te abençoe, frei Leão»

Não sabemos, mas podemos imaginar, com que emoção Frei Ovelhinha recebeu o escrito. Enrolou-o e guardou-o diligentemente, levando-o consigo até o fim da vida.

O escrito da bênção de São Francisco a Frei Leão ainda existe, como grande relíquia, guardada no Sacro Convento de Assis. É um pergaminho pequeno, de 10×14 centímetros apenas, no qual se notam ainda as dobras em quatro partes, com bordas gastas, puídas pelo contínuo manuseio e, certamente, por ter sido guardado em algum bolso interno do surrado hábito.

Mas não terminou aqui a mística epopéia do Alverne. Antes de partir do seu Calvário transformado em Tabor, Francisco ainda chamou Frei Leão, mostrou-lhe uma grande pedra e lhe ordenou:

– Frei Ovelhinha, lava esta pedra com água!

Frei Leão, lavou-a com água. E Francisco continuou:

– Frei Ovelhinha, lava-a com vinho!

E Frei Leão lavou-a com vinho. E Francisco prosseguiu:

– Frei Ovelhinha, agora lava-a com óleo!

Frei Leão procurou óleo e a ungiu. Mas Francisco não estava satisfeito:

– Frei Leão, deves ainda lavá-la com um fino perfume.

Despertou novamente o leão, e Frei Ovelhinha não resistiu:

– Mas onde vou encontrar perfume, nesta solidão?

E Francisco justificou:

– Saiba, Frei Ovelhinha de Deus, que foi nessa pedra que o Senhor sentou quando me apareceu.

Pouco depois, Francisco despediu-se de Frei Ângelo, Silvestre, Masseu e Iluminado, que ficaram no Alverne, tomou como companheiro Frei Leão e iniciou sua última viagem do santo monte para o berço da Ordem, Nossa Senhora dos Anjos da Porciúncula. Um devoto aldeão emprestara-lhe um burrinho, pois Francisco, por causa dos cravos nos pés, não podia caminhar. Enfim, chegaram a Assis. Frei Ovelhinha permaneceu sempre a seu lado, até o fim.

(Do livro: Cavaleiros da Dona Pobreza, Frei Leão – a pureza, Ed. Vozes, 1997, p. 166-171).


Frei Marco Antonio dos Santos, ofm

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