Carisma - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Menores – Na teoria e na prática

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Esta é uma rubrica de assuntos franciscanos. Estamos, de alguma forma, refletindo sobre o tema do Capítulo Geral da Ordem do Menores: “Irmãos e menores no mundo de hoje”. Em três reflexões passadas já nos debruçamos sobre o terma do “irmão”. Desta vez queremos nos ocupar da expressão “menor”, ou seja, ao substantivo irmão se acrescenta o adjetivo “menor”. Somos, com efeito, irmãos menores.

Frei Almir Ribeiro Guimarães

1. A palavra “minorismo”, sem dúvida alguma, faz parte da mais lídima herança franciscana. Sinal evidente disso é a própria sigla: OFM (Ordem dos Frades Menores). Não se deve confundir minorismo com minoridade (que se opõe a maioridade). A ouvidos menos afeitos ao nosso modo de falar, menor, pode evocar infantilidade, falta de maturidade humana, pessoa sem coragem de agir, incapaz, ingênua. O minorismo evangélico-franciscano também não se refere apenas às conhecidas minorias étnicas, sociais e outras, embora tenha muito a ver com elas. São Francisco dá um nome muito preciso àqueles que optaram pelo seguimento de Cristo em sua companhia: “Quero que esta fraternidade se chame Ordem dos Frades Menores” (1Cel 38). Esse nome nos define. Não somos irmãos pobres, irmãos humildes, irmãos pequenos, mas irmãos menores.

2. Vejamos como Eloi Leclerc situa o tema: “Mobilidade apostólica, pobreza, fraternidade, inserção nas cidades, todas estas notas distintivas da nova forma de vida evangélica ainda não são suficientes para definir a comunidade franciscana primitiva. Todas elas estão presentes, com algumas diferenças, nos movimentos evangélicos da época. Se quisermos caracterizar a experiência franciscana primitiva em sua singularidade é necessário acrescentar outro traço essencial. Tomás de Celano relata o seguinte: “Quando Francisco estava escrevendo a Regra: ‘e sejam menores’, ao pronunciar estas palavras disse: Eu quero que esta fraternidade seja chamada de Ordem dos Frades Menores. “Frades menores”, essa designação vem iluminar e precisar a ideia que Francisco faz da vida dos irmãos e de sua vocação evangélica na sociedade e na Igreja” (Eloi Leclerc, Francisco de Assis. O retorno ao Evangelho, VOZES/CEFEPAL, p.61).

3. Leclerc lembra, no mesmo texto, que a expressão minores, embora inspirada no Evangelho, na época, tinha conotação de distinção de classes. Em oposição aos “maiores”, aos ricos burgueses que detinham o poder econômico e político na nova sociedade das comunas designava-se de “minores” o povo simples das oficinas e dos porões. “Minores” englobava todos os que, na nova sociedade, não ocupavam os primeiros lugares e, que algumas vezes, não tinham lugar nenhum.

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MINORISMO EVANGÉLICO-FRANCISCANO

Frei Ludovico Profili, OFM, escreveu um texto denso comentando o Testamento de São Francisco (Francesco pura trasparenza do Cristo, Rifelssioni e attualizazzioni sul testamento di S. Francesco, Ed. Porziuncola. Assisi 1986). Num determinado momento da obra reflete a respeito do minorismo evangélico-franciscano a partir das palavras do Testamento: E éramos iletrados e submissos a todos (Test 19). O autor procura atualizar as palavras de Francisco:

“Entre as lições que nos dá uma releitura do Testamento de São Francisco sem dúvida uma das mais importantes e atuais é a do minorismo. Este se faz necessário em vista da cura de dois males que, como as drogas, intoxicam mortalmente a atual sociedade tão calcada no bem-estar: o orgulho do poder e a avidez pelo saber.

O orgulho do poder “dopou” de tal homem que, para afirmar-se a si mesmo, busca com todos os meios – lícios e ilícitos – de colocar-se acima dos ouros, dominá-los e submetê-los às suas próprias ambições. Isto acontece em todos os setores da vida, passando pelos absolutismos ditatoriais – seja de esquerda ou de direita, culminando com o culto da personalidade. De sua parte, os que não aceitam esta subserviência, reagem com luta, violenta ou não violenta, com a insurreição ativa ou passiva; com a guerra quente ou fria: o mundo fica dividido e a divisão à ruina.

A avidez pelo saber sob as aparência da busca de cultura, faz-se árbitro da verdade, coloca-se acima da fé e da moral, descarta as leis humanas e divinas. Com suas ideologias, com a descoberta de segredo da natureza com a tecnologia, se afirma que podem ser resolvidos todos os problemas da vida. Como a droga física, cria uma euforia ilusória que em vez de curar os males os torna mais graves reduzindo o homem a um pequeno resto. Assim esta dupla droga moral, depois de uma momentânea exaltação, leva inexoravelmente o homem à depressão, à perda, ao medo.

Que remédio? Aquele proposto or São Francisco: desintoxicar a consciência humana com o antídoto do minorismo evangélico. Reconhecer que os dons da vontade e da inteligência nos foram dados por Deus para serem colocados a serviço dos irmãos e de todas as criaturas. Como consequência o Poverello recomenda: vocês, poderosos, se não quiserem se desumanizar, acreditem no Evangelho, usem o poder em beneficio dos outros; vocês ricos para não submergir na lama do lucro, guardem o necessário e o resto seja dado o que lhe pertence; homens cultos não façam do saber instrumento de suas ambições, mas dom de sabedoria em prol do verdade, do bem e do belo. Da mesma maneira, vocês, fracos, tomem consciência da força de seus direitos com determinação e coragem, sem a pretensão de explorar os ricos e cair no mesmo erro deles; você, pobres, lutem com a força da não violência a fim de obterem os bens necessários para a vida familiar e social; os que são iletrados busquem a sabedoria que edifica, não a ciência quem incha” (p. 131-133).

4.Precisamos sempre nos voltar para o texto da Regra não Bulada: “Nenhum irmão exerça qualquer poder ou domínio, mormente entre si. Pois, como diz o Senhor no Evangelho: Os príncipes das nações as dominam, e os que são maiores exercem poder sobre elas (Mt 20,25); não será assim entre os irmãos (cf. Mt 20, 26); e quem quiser tornar-se o maior entre eles seja o ministro ( cf. Mt 20,26) e servo deles; e quem é o maior entre eles faça-se como o menor (cf.Lc 22,16)” (Regra não Bulada 5, 9-12). Francisco enraíza seu desejo de “minorismo” na própria pessoa do Senhor e no ensinamento do Cristo- servo. Sua intuição é cristológica. Na Regra, Francisco refere-se às palavras dos evangelhos (Mt 20,25-26 e Lc 22, 24-27). Cristo orienta os discípulos a respeito do modo como devem ser tecidos os relacionamentos e a maneira como exercerão as responsabilidades no seio da comunidade nova que ele acaba de instaurar. Será uma atitude oposta à dos príncipes e grandes deste mundo. Trata-se de uma revolução no seio daquela sociedade. A fraternidade evangélica não se apoia no poder e na dominação. Francisco insiste em palavras como ministro e servo e que o maior se faça o menor. Desnecessário dizer que ministro nos lábios de Francisco quer dizer empregado, servo, servidor.

5. Quando no capítulo 7 da Regra não bulada fala do trabalho dos frades feito em espírito de serviço, transparece novamente o minorismo: que trabalhem sem serem tesoureiros ou despenseiros, que não aceitem trabalho que provoque escândalo, sejam menores e submissos a todos os que estão na mesma casa. O mesmo espírito aparece em texto da Carta aos Fiéis quando fala dos que são ministros: “Aquele a quem foi confiada a obediência e que é tido como o maior seja o menor e servo dos outros irmãos. E faça e tenha misericórdia para cada um dos irmãos, como gostaria que se lhe fizesse, se estivesse em caso semelhante. Não se ire contra o irmão por causa do pecado dele, mas, com toda paciência e humildade, admoeste-o benignamente e o apoie”.

6. O frade menor enraíza seu minorismo/serviço no coração desse Deus “que não veio para ser servido, mas para servir”. Compreendemos assim porque nesta lógica de amor Francisco fará do minorismo/serviço um dos termos-chaves de sua espiritualidade. “Servo” é o único título que ele se atribui mesmo em seus escritos. No seu modo de ver as coisas, a conversão evangélica nos faz passar do instinto de dominação à vontade de servir.

7. Insistimos nos termos menores e servos. “O nome de “frades menores” que usamos exprime uma exigência de fraternidade e ao mesmo tempo dum serviço humilde (minorismo). A começar pelo interior de nosso grupo, nós somos convidados a deixar de lado qualquer domínio ou vontade de poder e prestar os mais humildes serviços. Em relação a todos, submissos a qualquer criatura devemos apresentar-nos, em comunidade e individualmente como pequeninos, como servos que ninguém teme, porque os servos esforçam-se por servir e não por dominar ou por se impor, sobretudo no campo espiritual. Uma semelhante atitude exige o espírito de infância, pequenez a simplicidade, um otimismo decidido perante os homens e os acontecimentos. Há que aceitar a insegurança no plano das instituições e das ideias, a incerteza com relação ao futuro. Há que reconhecer que somos fracos e vulneráveis, “servos inúteis” e que ninguém é forte, senão Deus. Contribuiremos assim, por nossa parte, em fazer resplandecer o rosto da comunidade cristã, que é também o rosto do seu Senhor, o qual veio para servir e não para ser servido (A vocação da Ordem hoje, Documento OFM. 2005, p. 21).

8. Sois chamados à liberdade. A formação permanente na Ordem dos Frades Menores (Roma, 2008) aborda a evangelização com a conotação do minorismo: “Deus nosso Pai nos criou livres; Jesus Cristo, nosso irmão, nos redimiu e enviou-nos ao mundo para anunciar o Reino de Deus, fermento de libertação para todos os que são oprimidos. A Fraternidade franciscana proclama o advento desse Reino com sua presença silenciosa e quando, movida pelo Espirito, anuncia a boa nova, reconhecendo o rosto de Cristo sobretudo nos pobres que são nossos mestres. Vivendo entre ele e como eles, descobre-se novamente o sabor do Evangelho. Cristo é o paradigma da minoridade, ele que esvaziou-se de si mesmo, assumindo a condição de escravo, tornando-se solidário com os seres humanos, e apresentando-se como simples homem. Animados deste mesmo espírito de fé, os Frades aprendem a compartilhar as alegrias e as esperanças , as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo escolhendo viver, por amor de Cristo que doou-se a si mesmo inteiramente, entre aqueles que superlotam os “lugares de ruptura” (p. 39).

9. A Ordem fez publicar em 2009 um subsídio para a formação permanente a respeito do Cap IV das CCGG da OFM intitulado Peregrinos e estrangeiros neste mundo. Dele colhemos os seguintes tópicos:

>> A minoridade é para nós, “irmãos menores”, uma forma de seguir a Jesus pobre e humilde, isto significa que afeta a nossa relação com Deus Pai, os relacionamentos interpessoais e nossos modo de estar entre os homens e mulheres.

>> Minorismo e vida com Deus: minorismo tem tudo a ver com o natal , paixão e eucaristia, um Deus que nasce, vive e morre pobre e simples se faz presente na singeleza do pão e do vinho. Diante da beleza e grandeza do Senhor o homem se sente “menor”, humilde. Francisco dizia: Por que a mim? Como pode orar um frade menor se não encontra sua própria verdade no ser “menor”.

>> Minorismo e vida de fraternidade: não é possível ser irmão, quando alguém se coloca acima dos outros; o amor fraterno só é espiritual quando é desinteressado; dentro da fraternidade todos os irmãos precisam ser valorizados; não podemos enterrar talentos e dons dos irmãos porque se tem medo de sua sombra; sinal de minorismo é a obediência fraterna; na fraternidade se haverá de preferir os menores delas: enfermos e idosos; quem é servidor dos irmãos há de ser o menor.

>> Estilo cotidiano de viver: partilha das atividades domésticas, opção por trabalhos socialmente considerados de baixo perfil, pobreza de bens materiais não somente como questão de austeridade pessoal, mas também de solidariedade com os desfavorecidos; colocar à disposição dos outros o que recebem como Dom de Deus.

>>  Minorismo e missão: as fraternidades nos meios carentes não deveriam ser uma exceção; redimensionar nossa atividade tendo em vista os simples, constante empenho de procurar dar dignidade aos excluídos.

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