Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

São Francisco 800 anos depois

13/10/2026

O Senhor vos dê a paz.

A festa de São Francisco, jubilosamente celebrada neste ano, coincidiu com o primeiro turno das eleições gerais no Brasil, obrigando-nos a promover a adaptação das atividades celebrativas, festas, bênçãos e outros tais. Mesmo assim, as redes sociais e a página da Província na Internet registraram muitas imagens e notícias do movimento pelas fraternidades. Gente reunida para louvar e bendizer a Deus por uma vida tão santa; gente disposta a se deixar encantar com a proposta de fidelidade ao Evangelho que é o fundamento da experiência de Francisco de Assis e identidade da nossa Ordem. 

Quando o domingo terminava a atenção de todos se voltou para o resultado das eleições. Os números expostos nas telas dos celulares e das TVs revelavam, mais uma vez, dois projetos de país em flagrante conflito. Frades inseridos no mundo, como convém, não estamos isentados das consequências desse clima beligerante. Com tristeza constato que fica cada vez mais distante de todos nós a convicção manifesta pela Igreja de que “a política é uma das formas mais altas da caridade”, assim já falava o Papa Pio XI, ainda em 1920. Anos mais tarde, Paulo VI repetiu e, mais recentemente, a mesma ideia foi apresentada pelo saudoso Papa Francisco.

Ao nos afastar, irremediavelmente, deste horizonte corremos o risco do alinhamento com ideias e pessoas, projetos e grupos que, ao invés de promover o diálogo transformam os oponentes em inimigos a serem vencidos, mais ainda, destruídos, eliminados. Para piorar, muitos movimentos e agentes religiosos apresentam valores inapeláveis, tais como a defesa da vida, a proteção da família, como plataformas a partir das quais são justificadas a violência, a incapacidade de dialogar, a crueldade dos juízos, a ofensa à honra de pessoas e instituições. Vivemos tempos sombrios e o que se anuncia pode ser ainda pior.

Não nos cabe induzir quem quer que seja, povo fiel que presidimos como presbíteros, trabalhadores das nossas casas, pessoas envolvidas nas nossas obras e missões, irmãos e irmãs que nos aceitam como frades e companheiros de caminhada, a fazer delas as escolhas pessoais que cada um de nós faz; não podemos também obrigar que elas elejam as prioridades que nossa escolha evangélica nos obriga a eleger. Tal dirigismo flerta com a sujeição criminosa que muitos patrões, algumas vezes maridos e até líderes religiosos, acostumados ao coronelismo, ao machismo e à opressão, ainda hoje repetem e que deve repelida e denunciada com todas as nossas forças.

Da mesma maneira que não devemos nos manifestar em relação às escolhas alheias, e assim agimos sob a égide do respeito às consciências, temos obrigação de orientar as pessoas que trabalham conosco e aquelas a quem servimos a ter o mesmo cuidado, para que possam agir a partir da mesma referência. Sinto que algumas vezes abrimos mão da profecia, do posicionamento crítico mais contumaz e, em nome de uma frágil harmonia e pretendida boa convivência, passamos a flertar com um “bom-mocismo” estéril que pode nos dar a falsa sensação de segurança, mas pode também ser lido como omissão ou fraqueza. 

Dias atrás, os gritos histéricos de um autoproclamado “influenciador católico”, carregados de ofensas impublicáveis aos bispos e à CNBB, preocupantemente, receberam apoio e republicação por muitas pessoas ligadas a nós, ligadas às nossas obras e presenças, ligadas à nossa Igreja. Não raro, surgem comentários agressivos e cruéis julgamentos, a respeito de posicionamentos, opiniões ou postagens feitas por alguns confrades que, claramente, não têm nada de partidárias, apenas ressoam nossa opção pelo Evangelho. Esse estado de coisas chega a ser assustador, gerador de medo e angústia. Mais uma vez estamos envolvidos numa atmosfera criada para ampliar os conflitos, diabolicamente disseminar a desinformação e alimentar o ódio. Nessas horas é preciso ter convicções claras, firmeza de propósito, compromisso com as orientações da Igreja e, sobretudo, fidelidade ao Evangelho. 

Em contraponto, apresento uma experiência vivida na sexta-feira, dia 02, véspera do Trânsito de São Francisco. Quando íamos saindo da garagem do Convento São Francisco aqui em São Paulo, um homem em situação de rua, sem que ninguém pedisse, interrompeu o fluxo dos carros que desciam a Rua Riachuelo para que nós pudéssemos avançar e seguir até o destino, a celebração do Jubileu Franciscano na Vila Dionísia. Um outro irmão, na mesma situação, ao constatar que os ocupantes da Kombi éramos frades, exclamou com voz forte “eles são dos nossos”. Muito provavelmente, estes dois irmãos são frequentadores do “Chá do padre”, projeto que garante comida, banho, convivência e proteção aos que vivem em situação de rua no centro da maior metrópole brasileira. De uma boca improvável, se anuncia o reconhecimento da missão e da opção evangélica e franciscana pelos pobres.

A agressividade e confusão nos relacionamentos interpessoais, o julgamento ácido e a condenação cruel das redes sociais, ao lado do episódio da Riachuelo nos trazem inquietantes questionamentos: quem, de fato, nos conhece? Por quais obras, por quais opções somos identificados? A quem devemos servir?

O tempo presente exige de nós clareza de opções. 

Nunca nos falte o “Espírito do Senhor e seu santo modo de operar”.

Viva São Francisco.

Paz e Bem.
Frei Paulo Pereira, Ministro.

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