Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Espiritualidade em Cuidados Paliativos como parte do tratamento da dor total

16/09/2019

João Batista Alves de Oliveira (*)

No segundo sábado de outubro, que este ano é o dia 12 comemora-se o Dia Mundial dos Cuidados Paliativos, cuja finalidade é um esforço conjunto para conscientização sobre a necessidade de cuidados a todo aquele com doença grave e incurável e especialmente em final de vida. E este artigo tem a finalidade de cumprir esse objetivo, dar destaque a essa área do conhecimento, atrelando-a a importante necessidade da espiritualidade que se mostra essencial àquele que sofre, independente de questões religiosas.

Comecemos com a definição de Cuidados Paliativos dada pela Organização Mundial da Saúde (OMS, 2002) que diz ser “uma abordagem que aprimora a qualidade de vida dos pacientes e famílias que enfrentam problemas associados com doenças ameaçadoras da vida, através da prevenção e alívio do sofrimento, por meio da identificação precoce, avaliação correta e tratamento da dor e outros problemas de ordem física, psicossocial e espiritual”.(1)

Seus objetivos principais são: aliviar o sofrimento, melhorar a qualidade de vida, cuidado integral à pessoa e apoio para a família.

Os princípios dos Cuidados Paliativos são: controle da dor e sintomas de sofrimento; afirmam a vida e consideram a morte como um processo normal; não acelerar a morte (eutanásia) nem prolongar o processo de morte (distanásia), mas permitir que ocorra no tempo próprio e com o sofrimento amparado (ortatanásia); integrar os aspectos da dor total (físico, psíquico, social e espiritual) na assistência; oferecer um apoio para ajudar os pacientes a viveram o tão ativamente quanto possível até a morte; oferecer apoio e ajudar a família em sua adaptação durante a enfermidade do paciente e se estendendo à fase do luto pós morte; servir-se de um equipe interdisciplinar para que possa abarcar as necessidades múltiplas dos pacientes e familiares; melhorar a qualidade de vida; iniciar de forma precoce os Cuidados Paliativos com isso não só resgatando a identidade e o valor pessoal como evitando sofrimento desnecessário.

O mundo todo carece da ampliação dos Cuidados Paliativos e uma boa forma de favorecer esse acontecimento é um pequeno ato de conscientização como esse para que, tomando conhecimento de sua existência, filosofia e benefício, progressivamente possa ser um cuidado incorporado à assistência em todas as fases da atenção médica e aqui vamos explicitar um cuidado além da técnica.

Citando Boff, entendemos a importância da inserção do conceito de auxílio espiritual já na definição da OMS porque “o ser humano não possui apenas a exterioridade que é a sua expressão corporal. Nem só interioridade, que é seu universo psíquico interior. Ele vem dotado também de profundidade que é sua dimensão espiritual”. (2)

Comecemos revisando os evangelhos de Lucas, Marcos, Mateus e João. (3)

Diante do sofrimento do outro, um samaritano … estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele. Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele. No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e lhe disse: cuide dele. Quando eu voltar, pagarei todas as despesas que você tiver. (Lucas, 10:30-37)

Diante do próprio sofrimento Jesus suplicou àquele que poderia salvá-lo da morte… Pai, todas as coisas são possíveis para ti; afasta de mim esse cálice. (Marcos 14:36) … Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? (Mateus 27:46) … Tudo está consumado (João 19:30) … Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito. (Lucas 23:46)

Por estas citações já podemos entender a importância da espiritualidade desde a fase do início do sofrimento, até a morte. O que também nos explicita o Papa Francisco quando diz “porque próximo da morte a angústia existe. É o momento do desprendimento, da separação. Quando vamos nos aproximando, sentimos. O desprendimento não é fácil, mas acredito que Deus segura nossa mão quando estamos prontos para dar o salto. É preciso abandonar-se nas mãos do Senhor, sozinhos não conseguimos”. (4)

Com isso, podemos concordar com Mendes quando diz que “os Cuidados Paliativos, sem a dimensão espiritual, seriam os cuidados incompletos ou parciais, não contemplando a visão holística da pessoa, na atenção integral que deverá estar presente na prestação destes cuidados especializados”. (5)

Repensando as citações dos evangelhos acima entendemos que “precisamos falar de espiritualidade em Cuidados Paliativos, com um enfoque em compaixão que se constitui na prática da hospitalidade onde assenta a ética do cuidar do outro”,(5) que “a espiritualidade é algo que dá sentido à vida, que nos satisfaz e encoraja no dia a dia a encarar contratempos e vicissitudes terrenas(6), que “ajuda a reconhecer a possibilidade de morte e assumi-la como parte integrante da existência”. (6). E repensando as falas de Cristo durante o seu sofrimento temos certeza que “O Cristo não nos salva por seus sofrimentos. Ele nos salva pela consciência e pelo amor que Ele introduz em seus sofrimentos”. (7)

Há que se trabalhar sobre as necessidades espirituais do enfermo, o que pode variar entre pessoas e talvez especialmente em decorrência do apoio que receba nesta fase de doença ou proximidade da morte e da coesão familiar em seu apoio. Essas necessidades são: encontrar significado e propósito para a vida, esperança/optimismo, perdão, conforto e segurança, relacionamento, crenças e práticas religiosas ou espirituais, revisão de vida e conclusão de assuntos pendentes, amor, garantirem o bem-estar familiar, preparação do corpo para a morte. (8)

Viver a espiritualidade é dar a capacidade de ter esperança realista a qual não promete ou almeja a cura, mas o cuidar, o não desamparo, o acolhimento. Porém, há que se tomar cuidado com os fatores desagregadores, ou seja, os inibidores de esperança que são: perda e sofrimento prévios, informações desajustadas às necessidades, cuidados despersonalizados, descontrole sintomático, angústia espiritual, sentir-se um fardo, medo e solidão. (8)

E terminamos voltando novamente a um evangelho …Pois eu estava com fome e vocês me deram comida; estava com sede e me deram água. Era estrangeiro e me receberam em suas casas; estava sem roupa, e me vestiram; estava doente, e cuidaram de mim; estava na prisão, e foram-me visitar. (Mateus 25:35) pensando que a missão de cuidado à todo aquele que sofre uma doença grave e incurável ou que está próximo da morte é esta, a de acolhimento envolto em compaixão (não ter medo do sofrimento do outro e o assumindo dentro de si) e de misericórdia (colocar o nosso coração na miséria do outro) quando então, seja pela assistência profissional ou de qualquer pessoa que se mantenha como acompanhante em doação  para aquele que sofre, possamos reconhecer o outro como estando numa dimensão de altura, de ideal, do divino, relação  com o outro que nos leva a uma relação com Deus.(9) … Eu afirmo que quando fizeram isso ao mais humilde dos meus irmãos, de fato, foi a mim que fizeram. (Mateus 35:40)

Estar aberto à espiritualidade é poder ouvir: Vou morrer. E poder dizer-lhe: Não é a minha hora, mas a sua. Mas eu estou e continuarei aqui. Com isso nos aproximaremos ao pensamento de Madre Teresa de Calcutá “não sei ao certo como é o paraíso, mas sei que quando morrermos e chegar o tempo de Deus julgar Ele não perguntará: Quantas coisas boas você fez na sua vida. Antes Ele perguntará: Quanto amor você colocou naquilo que fez? (10)

Promover o acolhimento espiritual é essencial como fonte de esperança para superar as dificuldades, dando um significado ao sofrimento humano, favorecendo a ligação com algo superior, é ser responsável pelo outro e por fim, através da compaixão para com o outro,  descobrir a própria espiritualidade … eu o instruirei e o ensinarei o caminho que você deve seguir; eu o aconselharei e cuidarei de você. (Salmos 32:8)


Texto escrito em comemoração ao Dia Mundial dos Cuidados Paliativos em 2019 cujo tema é: “Meu cuidado. Meu direito”


(1) OMS (2) Boff (3) Bíblia Sagrada (4) Papa Franscico (5) Mendes (6) Azevedo

(7) Leloup (8) Pinto (9) Pelizolli citado em Rodrigues (10) Madre Teresa de Calcutá


(*) João Batista Alves de OliveiraMédico Paliativista pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica/Associação Médica Brasileira. Mestre em Gerontologia pela PUC-SP. Atuante em Caçapava/SP

paliativo2015@gmail.com

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