Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Pedro não é pedra! Paulo é fé! Histórias de vida e de morte!

26/06/2026

As leituras bíblicas da missa da vigília em honra de São Pedro e São Paulo recordam a importância desses dois grandes personagens que tiveram um papel fundamental na formação da primeira hora do cristianismo. São considerados pela tradição como colunas da Igreja. Ao celebrarmos São Pedro e São Paulo, entramos em sintonia com a imagem simbólica do Papa na continuidade da missão apostólica deles. 

Atos 3,1-10 conta o milagre operado por Pedro em favor de um homem coxo de nascença que pedia esmola numa das portas do Templo de Jerusalém, a Formosa. Pedro não oferece dinheiro, mas a cura em nome de Jesus. Já a leitura de Gálatas 1,11-20 é uma autodefesa de Paulo que, humildemente reconhece a sua vida pregressa de perseguidor dos cristãos e sua adesão incondicional a Jesus e aos irmãos do evangelho, sobretudo Pedro, a quem ele havia conhecido, em Jerusalém. O texto do evangelho de Jo 21,15-19 relata como Jesus pergunta três vezes a Pedro se ele o amava. Jesus pergunta utilizando o verbo amar em grego, ágape, o qual fala do amor de Deus, sem interesse e gratuito. Pedro, não entendendo a profundidade do tipo de amor exigido por Jesus, responde com outro substantivo para amor, em grego, Philia, isto é, amor de amizade, de filhos. Jesus, mesmo sabendo da limitação de Pedro, lhe pede para apascentar seus seguidores, na comunidade eclesial que surgiu depois de sua morte. 

Pedro foi uma liderança apostólica de incontestável valor no início do cristianismo. Devemos a ele a herança de uma fé inabalável como uma ‘pedra’ em Jesus. Discípulo e apóstolo, humano e santo, Pedro tornou-se o modelo do seguidor fiel do mestre Jesus. A Bíblia nos legou muitas informações sobre o seu perfil desse apóstolo. Afora as duas Cartas que levam o seu nome, os Evangelhos, as epístolas e Atos dos Apóstolos o mencionam. Por outro lado, temos também uma vasta literatura alternativa apócrifa, traduzida na nossa Bíblia Apóicrifa, que narram histórias e fatos sobre a vida Pedro, na qual se destacam: Evangelho de Pedro, A filha de Pedro, Apocalipse de Pedro, A pregação de Pedro, Atos de Pedro e os doze Apóstolos, Epístola de Pedro e Epístola de Pedro a Filipe. No rol desses livros, devemos também acrescentar os apócrifos atribuídos ao Pseudo-Clemente

Pedro era casado e morava com a sogra (Lc 4, 38-39). A primeira carta aos Coríntios, capítulo 9, versículo 25, menciona uma mulher que acompanhava Pedro em suas viagens missionárias, a qual poderia ser a sua esposa. A tradição cristã conservou a memória de que a mulher de Pedro se tornou mártir. O apócrifo A filha de Pedro conta a história de sua filha, Petronília, e menciona também a sua esposa.   

As informações contidas nos apócrifos, à primeira vista, parecem contraditórias, mas, analisadas em conjunto, elas podem ser iluminadoras na compreensão do perfil desse homem que carrega nos ombros o ‘alicerce’ da Igreja Cristã: “Tu és Pedro e sobre essa Pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16, 18). 

O evangelho de João conservou a memória da chamada vocacional de Pedro do seguinte modo: Jesus, fitando-o nos olhos, lhe diz: “Tu és Simão, o filho de João; chamar-te-ás Kephas” (Jo 1,42). O substantivo Simão, na sua variação, Simeão, é um diminutivo do hebraico Samuel, e significa “Deus ouviu”. O nome Simão, dado a uma pessoa, expressava o desejo do judeu em ser um seguidor da Torá. O fato de Jesus ter-lhe dado um nome (Kephas) equivale a conferir-lhe autoridade divina para o ministério. Kephas era o nome dado aos buracos formados nas rochas, nas quais o povo tirava pedras para a construção civil. Os pobres e refugiados moravam nessas grutas escavadas nas rochas. Desse modo, Pedro sendo chamado de Kephas muda completamente a tradicional interpretação do “Tu  és Pedro, e sobre essa Pedra edificarei a minha Igreja” para “sob, debaixo dessa gruta, onde moram os pobres edificarei a minha igreja (comunidade).” Essa foi a intuição do saudoso Papa Francisco quando convocou a Igreja para estar em saída. Proposta continuada, a seu modo, pelo Papa Leão XIV.

São Pedro, segundo a Bíblia Apócrifa, depois da morte de Jesus, viveu ainda doze anos em Jerusalém e um ano em Roma. Atos apócrifos de Pedro conta como foi a morte de Pedro. Por causa da perseguição do prefeito de Roma, Agripa, Pedro fugiu disfarçado e sozinho de Roma. Mas, eis que na porta da cidade, o Senhor lhe apareceu. Pedro lhe perguntou: “Aonde vais, Senhor?” O Senhor lhe respondeu: “Vou a Roma para ser crucificado”. Pedro caiu em si e viu Jesus voltando para o céu. Pedro, então, voltou a Roma com a consciência de que seria morto. No momento de sua crucifixão, Pedro rezou e pediu aos carrascos que o crucificasse de cabeça para baixo, pois não se julgava digno de morrer como Jesus. 

Marcelo, o senador romano que havia se convertido ao cristianismo por obra de Pedro, vendo que Pedro havia expirado, o tirou da cruz, preparou seu corpo com aromas e perfumes e o enterrou com dignidade. Pedro morreu sob o governo do imperador Nero, no circo de Nero, perto do atual Vaticano. A tradição conservou duas datas possíveis: fim de 67 da E.C ou a 13 de outubro de 64.

Sobre o apóstolo Paulo, nome que significa “de baixa estatura”, era chamado de Saulo, antes de sua conversão, que é a forma grecizada de Saul, e significa “o implorado”. Paulo lutou fervorosamente contra o cristianismo e a favor dele. De perseguidor, tornou-se o maior missionário no anúncio de Jesus ressuscitado. “Em vão seria a nossa fé se Cristo não tivesse ressuscitado” (1Cor 15,17), pregava com ardor, mesmo não tendo conhecido Jesus de Nazaré. Comumente se diz que Pedro pensou a igreja internamente, e Paulo, externamente. 

O fim da vida de São Paulo foi também marcado pelas ações do cruel e sanguinário imperador de Roma, Nero Cláudio César, que reinou de outubro de 54 a junho de 68 E.C. Nero sempre mandava matar e torturar as pessoas que ele amava. Condenou à morte a sua própria mãe, Agripina, e duas de suas esposas, assim como o filósofo Sêneca, seu tutor e conselheiro. 

Atos apócrifos de Paulo, traduzido na nossa Bíblia Apócrifa, narra que entre muitos outros cristãos, Paulo também foi acorrentado e levado, a mando de Nero, para ser martirizado. Nero disse a Paulo: “Homem do grande rei, agora meu prisioneiro, o que te incitou a entrar furtivamente no Império Romano e a recrutar soldados no meu território?” Paulo, cheio do Espírito Santo, disse, na presença de todos: “César, nós alistamos soldados não apenas no teu território, mas em todos os países da terra. Pois recebemos a ordem de a ninguém excluir dos que querem lutar por meu rei. Se te parecer justo, serve-o, pois nem a riqueza, nem as coisas preciosas desta vida te poderão salvar, mas somente se te tornares sujeito dele e o suplicar, serás salvo. Pois num dia, ele fará guerra, destruirá o mundo”. Tendo ouvido aquilo, Nero mandou queimar todos os prisioneiros, e degolar Paulo segundo a lei dos romanos. Paulo não ficou calado e comunicou a palavra ao prefeito Longo e a Cesto, o centurião. Nero instigado pelo demônio, ficou enraivado e executou muitos cristãos sem julgamento.

Paulo foi levado, novamente, perante Nero e este insistiu que ele fosse executado por decapitação. Paulo disse: “César, vivo não apenas por curto tempo para o meu rei; e se tu me executares, farei o seguinte: ressuscitarei e te aparecerei, porque não estarei morto, mas vivo para o meu rei, o Cristo Jesus que virá para julgar a terra”.

Quando estava para ser degolado, Paulo, virando-se para o leste, levantou suas mãos para o céu e orou longamente depois de ter conversado em hebraico com os antepassados. Na sua oração, ele apresentou a sua cabeça sem falar mais nada. Quando a espada o decepou, em vez de sangue, jorrou leite a tal ponto que uma golfada de leite impregnou a mão direita do carrasco. O soldado e os outros que estavam por perto ficaram atônitos quando viram isso e glorificaram a Deus que honrou Paulo dessa maneira. Foram-se embora e relataram a César o que havia acontecido.

Quando César ouviu isso, ficou perplexo e não soube o que dizer. Enquanto muitos filósofos e o centurião estavam reunidos ao redor do Imperador, Paulo veio pelas quinze horas e, na presença de todos, disse: “César, vê aqui Paulo, o soldado de Deus. Não estou morto, mas vivo no meu Deus, mas sobre ti, miserável, muitos males e castigos cairão, porque faz poucos dias, derramaste iniquamente o sangue de muitos justos”. Depois de ter assim falado, Paulo partiu. Mas quando Nero ouviu aquilo, ele ficou profundamente perturbado e ordenou libertar os prisioneiros, inclusive Pátroclo, Barsabás e seus companheiros.

Como ele lhes tinha ordenado, Longo, Cesto centurião foram muito cedo ao túmulo de Paulo. E como se aproximassem, acharam dois homens em oração e Paulo com eles. Ficaram gelados quando viram esse milagre inesperado, mas Tito e Lucas ficaram apavorados quando viram Longo e Cesto e fugiram. Mas eles correram atrás deles e lhes disseram: “Não estamos vos perseguindo para vos matar, como pensais, vós bem-aventurados homens de Deus, mas para a vida que podeis nos dar, como Paulo nos prometeu. Acabamos de vê-lo em oração convosco”. Ouvindo isso Tito e Lucas lhes conferiram alegremente a crisma no Senhor, glorificando a Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, a quem a glória para todo sempre. Amém.

Paulo foi degolado, por causa de seu privilégio de cidadão romano, segundo tradições no dia 3 de julho, no ano de 64 ou 67 E.C., no local onde hoje está construída a Igreja de São Paulo Extramuros, em Roma. Há testemunhos também de que isso tenho acontecido na Abadia das Três Fontes, em Roma, sendo a primeira hipótese a mais aceita.

Séculos depois, quando o cristianismo foi assumido pelo império romano como religião imperial, o bispo Dâmaso, de Roma, entre 366 a 384, institui o culto anual a Pedro e Paulo, que passou a ser celebrado no dia 29 de junho como padroeiros da capital do império.  Com isso, o império, de perseguidor passou a tê-los como padroeiros do cristianismo, agora católico (universal) e romano. Por isso, o bispo de Roma, que é o papa, passou a ser referência para todo o mundo cristão. Igualmente, hoje celebramos o dia do papa.

Pedro, Paulo e Papa descortinam em nós a humanidade que mora dentro de cada um de nós. Somos bons e menos bons. Por ser humano, o humano é sujeito a erros. São Pedro Pedra, poder e serviço. Somos papa no pastoreio. Somos Paulo na missão fora da Igreja. Somos Pedro Gruta chamados a evangelizar nas periferias do mundo sendo de paz e bem! São Pedro e São Paulo, rogai por nós!


Frei Jacir de Freitas Faria

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