Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

O livro de Daniel e sua relação com as apocalípticas judaica e cristã

17/09/2026

O livro de Daniel e sua relação com as apocalípticas judaica e cristã

Introdução

O livro de Daniel, ainda que contenha textos mais antigos, teve sua redação final entre os anos de 174 e 164 a.E.C, época da perseguição de Antíoco IV Epífanes e insurreição dos Macabeus. Na lista dos livros inspirados dos judeus, Daniel não é contado entre os profetas. 

Otimista, sábio e intérprete de sonhos, Daniel pertencia a uma família importante de Judá. Segundo o autor de Daniel, ele foi deportado para a Babilônia e aí, com o nome fictício de Baltasar, tornou-se membro da Corte. Daniel denunciou as infidelidades do povo (9,7), a não observância da Lei (9,11) e a cruel e sangrenta perseguição de Antíoco IV Epífanes (11,21-40).

Compreender Daniel na perspectiva da apocalíptica judaica é um desafio para a interpretação bíblica, visto que há discordância entre os estudiosos sobre a datação do livro, séculos sexto ou segundo antes da era comum.

Daniel e apocalíptica judaica

O livro de Daniel faz parte do gênero literário apocalíptica, que surgiu em Israel no séc. II a.E.C. e fins do séc. I E.C. A apocalíptica nasce quando já não há mais profetas. Com seu estilo próprio de anunciar a intervenção de Deus na história, ela resgata a esperança profética, a confiança em Deus, o interesse pela história e o destino dos impérios. O estilo apocalíptico é sapiencial, narrativo, fictício, fantasioso e visionário.

Contrário ao que pensava outros, para Daniel a luta armada dos Macabeus não era a solução (11,34) para Israel. Deus interviria e acabaria com o opressor (11,40–12,3). Ele acreditava que o Reino de Deus era eterno (4,32). Os reinos humanos dariam lugar ao reinado de Deus e do seu povo eleito, conforme a apocalíptica judaica.

O autor de Daniel era um otimista. O que ele pregou, de fato, não aconteceu. A luta armada dos Macabeus foi vitoriosa e o reino humano não deu lugar ao de Deus. Por outro lado, o exemplo da personagem Daniel, que se manteve fiel a Deus e às suas leis diante das atrocidades do perseguidor, foi motivo de fé e esperança para os judeus do séc. II, que esperavam por um tempo de paz e liberdade.

Quem era Daniel no apócrifo Vida dos Profetas?

O livro de Daniel tem como figura central uma personalidade religiosa do passado. Quem seria ele? Vida dos Profetas, um dos sessenta apócrifos do Primeiro Testamento, foi escrito em hebraico por um judeu do primeiro século do Era Comum. Ele foi traduzido, ao longo dos séculos, para o grego, latim, siríaco e árabe. 

Com acentuada influência cristã, o livro narra histórias de profetas conservadas pela religiosidade popular judaica, as quais complementam os textos bíblicos. De Isaías, por exemplo, é dito que ele morreu serrado ao meio. Já sobre Daniel, que ele era franzino e que teria jejuado em favor do rei Nabucodonosor, da Babilônia. 

Assim descreve autor de Vida dos Profetas 4,1-22: “Daniel era da tribo de Judá, duma família ligada ao serviço do rei. Ainda criança, foi levado da terra de Judá para o país dos caldeus. Havia nascido em Bet Horon Superior. Era um homem justo, a ponto de os judeus pensarem que ele fosse eunuco. Daniel lamentou e fez grande luto pela cidade, jejuou e se absteve de qualquer alimento saboroso. Era um homem de aparência frágil, mas bonito pela graça do Altíssimo. Rezou muito por Nabucodonosor, a pedido de seu filho Baltasar, quando esse se tornou um animal selvagem dos campos, ainda que não perecesse. Sua parte traseira e os seus pés eram de um leão. A respeito desse mistério, foi revelado ao santo homem que (Nabucodonosor) havia se tornado um animal selvagem por causa de sua busca dos prazeres e de sua obstinação, e porque os que pertencem a Beliar se tornam como boi debaixo do jugo. Os tiranos têm esses vícios na sua juventude, e no final tornam-se monstros, sequestrando, destruindo, matando e batendo. Por revelação divina, o santo soube que o rei estava comendo capim, como um boi. Assim (o capim) tornou-se alimento para a natureza humana. Foi por esse motivo que Nabucodonosor recuperou um coração humano depois da digestão: costumava chorar e honrar o Senhor, orando 40 vezes de dia e de noite. Beemot investiu contra ele; queria fazê-lo esquecer que havia sido um homem. Sua língua lhe foi tirada, para que não pudesse falar. Quando percebeu isso, começou logo a chorar, seus olhos se tornaram carne viva de tanto chorar. Muitos saíram da cidade para olhá-lo. Somente Daniel não quis vê-lo, porque estava em oração por ele, todo o tempo de sua metamorfose. Continuava afirmando: ‘Ele vai se tornar homem novamente’, mas não acreditavam nele. Daniel fez com que os sete anos – que ele chamava de ‘sete tempos’ – se tornassem sete meses. O mistério dos sete tempos se cumpriu no rei, pois ele foi restabelecido em sete meses. Durante os seis anos e seis meses (restantes), ele se prostrou perante o Senhor, confessando sua impiedade; depois do perdão de sua iniquidade, Deus lhe devolveu seu Reino. Durante o tempo de sua confissão, ele não comeu pão nem bebeu vinho; pois Daniel lhe havia ordenado reconciliar-se com o Senhor por um jejum, comendo somente verdura e legumes. Nabucodonosor chamava-o de Baltasar, porque queria fazer dele seu herdeiro, juntamente com seus filhos. Mas o santo homem disse: ‘Longe de mim abandonar a herança de meus pais, para me envolver na herança dos incircuncisos’. Para muitos outros reis dos persas, realizou muitos prodígios, que não estão (aqui) relatados. Então, Daniel morreu e foi enterrado com grandes honras no túmulo dos reis. Havia dado um sinal a respeito das montanhas que rodeiam a Babilônia: ‘Quando a montanha do Norte fumegar, o fim da Babilônia estará chegando; quando incendiar-se, será fim da terra inteira. Se a montanha do Sul derramar água, o povo (de Israel) voltará para sua terra; se derramar sangue, a matança de Beliar assolará a terra inteira.’ E santo homem adormeceu em paz.”

Apocalíptica judaica

Os apócrifos do Primeiro Testamento tratam de questões judaicas como a predestinação, o destino dos pagãos, a salvação, o juízo de Deus em relação ao ser humano etc. Alguns deles recebem influências, releituras cristãs de temáticas judaicas. 

Os apocalipses judaicos narram visões, revelações de viagens de personagens aos céus ou aos infernos, onde se encontram com anjos, com Deus, com as almas de mortos e até o anticristo. O objetivo dessas revelações, visões é mostrar que a justiça de Deus vai salvar a história humana que está em crise. A partir de um fim catastrófico do mundo, determinado por Deus, um novo tempo de salvação paradisíaca há de chegar para os israelitas justos sobreviventes e pela ressurreição para os demais. Deus inaugurará uma história única, a terrestre e a celeste, sem as estruturas sociais e políticas. 

Vários são os apócrifos apocalípticos judaicos. São eles: Apocalipse de Abraão; Apocalipse de Adão; Apocalipse siríaco de Baruc (II Baruc); Apocalipse grego de Baruc (III Baruc); Apocalipse siríaco de Daniel; Apocalipse de Elias (I Elias); Apocalipse de Elias (II Elias ou Livro de Elias); Apocalipse de Esdras; Apocalipse de Sadrach; Visão de Esdras; Apocalipse de Sofonias; Apocalipse de Ezequiel; I Enoque (Livro de Enoque – Enoque – Segredos de Enoque); II Enoque (Livro eslavo); III Enoque (Apocalipse hebraico de Enoque; Oráculos Sibilinos (Pseudo-Sibilinos); Livro IV de Esdras; Apocalipse de Moisés (Vida de Adão e Eva – versão grega); Apocalipse de Esdras (II Esdras para evangélicos e IV Esdras para católicos).

Aspectos da apocalíptica judaica no livro de Daniel

Como vimos acima, o livro de Daniel surge num período de crise de fé judaica, liderada pelos Macabeus, os quais resistiam ao domínio helenista. O livro convoca seus leitores e ouvintes a resistirem e acreditarem na soberania de Deus sobre os impérios opressores. 

No livro de Daniel, simbologias surgem em linguagem apocalíptica, a saber:

  1. Besta. Como na literatura apocalíptica, surge a figura da Besta. Daniel 7,1-8 relata a visão de Daniel referente a quatro bestas (animais) saindo do mar – leão, urso, leopardo, animal feroz –, as quais, respectivamente, representavam os reinos da Babilônia, Medo, Persa e Grécia. Sendo a última besta a mais feroz e destrutiva, com seus enormes dentes de ferro e dez chifres, dentre os quais estava um pequeno chifre, o qual representava o opressor Antíoco IV Epífanes (175-163 a.E.C.).
  2. Filho do homem. Dn 7,13-14 fala da figura messiânica do Filho do Homem, em hebraico ben ‘adam, isto, ser humano. Trata-se de um ser que ultrapassa a condição humana e assume a condição de libertador escatológico, apocalíptico. A literatura apócrifa judaica, nos livros de Henoc e IV Esdras, buscam inspiração nessa visão apocalíptica de Daniel. O livro de Henoc (capítulos 7 a 71) apresenta o Filho Homem como Messias escatológico, divino e pré-existente antes da criação. Já o livro de IV Esdras 13 apresenta o Filho Homem como ser transcendente que julga, a partir das nuvens. Da sua boca saem fogo, vento e tempestade. Jesus bem conhecia esse imaginário e, portanto, atribuiu a si a expressão Filho do Homem. 
  3. Tempo. O livro de Daniel, assim como o Apocalipse (11,2-3; 12,14), fala de tempo, tempos e metade de um tempo (Dn 7,25) para indicar o tempo limitado do sofrimento, da perseguição de Antíoco IV Epífanes, isto é, 1260 dias. Deus permite esse tempo, mas tudo será diferente nos novos tempos de Deus. Daniel também fala de 2300 tardes e manhãs (8,14); 1290 e 1335 dias (12,11-12); 70 semanas (9). Cada um desses tempos tem ligação com um evento, a saber, respectivamente: governo de Antíoco, início do juízo final, fim dos tempos e da profecia e 70 semanas (9).
  4. Fim dos tempos e a ressurreição. Em Dn 12, 1-4 diz que no fim dos tempos, todos que estão escritos no livro da Vida, também citado em Apocalipse 22,19, viverão eternamente: “E muitos dos que dormem no solo poeirento acordarão, uns para a vida eterna e outros para o opróbio, para o horror eterno. Os que são esclarecidos resplandecerão, como o resplendor do firmamento; e os que ensinam a muitos a justiça hão de ser como as estrelas, por toda a eternidade”.  Daniel é chamado a guardar esse segredo até o tempo do fim, quando o bem e o mal serão julgados. 

Apocalipse Siríaco de Daniel e a Parusia

Dentre apócrifos apocalípticos, destaque para o apócrifo siríaco de Daniel. Datado no século VII de Era Comum e conservado em um manuscrito do séc. XV E.C., esse apócrifo conta as histórias de Daniel na corte a partir de visões do povo do Norte sobre o fim dos tempos. 

Os judeus do Norte (Israel) se revoltam, liderados por Gog e Mogog, no fim dos tempos. São descritos o julgamento final e o banquete messiânico na Nova Jerusalém, a partir de uma visão de Daniel sobre a chegada do Messias. Essa visão apocalíptica tem relação com os livros de Apocalipse e Daniel canônicos. 

As figuras do Anticristo e do Messias são utilizadas em meio às perseguições e desolação do povo. O fim dos impérios estaria próximo. O Anticristo é um opressor, mas o Messias salvará. O Anticristo, no livro, é um oponente escatológico. 

Apocalipse Siríaco de Daniel é uma tentativa de ressignificar a apocalíptica de Daniel canônica na perspectiva cristã, muitos séculos depois. A demora da Parusia levou muitos cristãos a repensarem o fim dos tempos, o que proporcionou o surgimento de uma nova apocalíptica cristã a partir do século segundo, não desconsiderando a apocalíptica judaica, mas em um novo cenário de fim dos tempos. Nessa visão apocalíptica, a figura do Anticristo é valorizada, da qual viriam o milenarismo, a Parusia aconteceria no fim dos mil anos. 

Vale ressaltar que a Igreja, na Idade Média, retoma essa mesma metodologia com a imagens do Inferno, para onde iriam os condenados que não estivessem seguindo os passos da cristandade, visto que a Parusia não aconteceu no ano mil, conforme previu Ap 20,1-3, mas ainda se realizaria nos séculos vindouros. 

Variante do aramaico, o siríaco foi fundamental na transmissão da fé cristã a partir do século IV. O siríaco utilizado na obra era a língua de comunicação entre povos do Oriente Médio, para além do mundo cristão ocidental. Os cristãos de fala aramaica, localizados ao leste do Império Romano, eram pouco valorizados. 

Conclusão

O livro de Daniel influenciou a apocalíptica judaica, como nos livros de Enoc e Esdra, bem como o Apocalipse de João. O livro está situado no período da apocaliptica judaica dos séculos terceiro e segundo antes da Era Comum. Ele traz elemento que justificam essa afirmativa: sua autoria é atribuída a um utor fictício (Daniel), está permeado de visões, sonhos, figuras apocalípticas etc. A estrutura apocalíptica está clara no livro de Daniel: visões celestiais, intervenção de Deus na história com julgamento.

Os reinos humanos vêm do mar, mas o Filho do Homem vem do alto, do céu para inaugurar um novo tempo de Deus. Somente Ele é o Senhor do mundo. Os reinos são animais, mas o que vem de Deus tem forma humana, é divino. Foi nessa perspectriva apocaliptica que Jesus atribuiu a si a imagem de Filho do Homem que deveria sofrer, mas que ressuscitaria e voltaria para Deus. Com a morte e ressurreição de Jesus, o sonho da Parusia, da volta de Jesus acalentou o sonho dos cristãos da primeira hora. 

Quanto mais o tempo da Parusia se alargava, o apocalipse siríaco de Daniel procurou, em língua siríaca, ressignificar a apocalíptica de Daniel canônica na perspectiva cristã, no lado oriental do cristianismo. A demora da Parusia, no século IV E.C, levou os cristãos do Oriente Médio a repensar o fim dos tempos, com isso, a apocaliptica permaneceu nos imaginários judaicos e cristãos para sempre. 

Referencias bibliográficas

FARIA, Jacir de Freitas. Bíblia Apócrifa: Segundo Testamento, Petrópolis: Vozes, 2025. 

FARIA, Jacir de Freitas. Profetas e profetisas na Bíblia. História e teologia profética na denúncia, solução, esperança, perdão e nova aliança. Teologias bíblica, 5. São Paulo: Paulinas, 2006. 


Frei Jacir de Freitas Faria é Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (PIB). Professor de Exegese Bíblica há três décadas. Presidente da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Professor de exegese bíblica EaD e no Seminário Sagrado Coração de Jesus. Referência no Brasil na pesquisa da literatura apócrifa do Segundo Testamento. Autor de treze livros e coautor de dezessete. Oferece curso on-line sobre a Bíblia Apócrifa. Disponível em: www.bibliaapocrifa.com Última publicação: Bíblia Apócrifa: Segundo Testamento (Vozes, 2025). São 784 páginas com a tradução de 67 apócrifos do Novo Testamento. Canal no Youtube: Frei Jacir Bíblia e Apócrifos. https://www.youtube.com/channel/UCwbSE97jnR6jQwHRigX1KlQ  No Instagram e Tiktok @freijacir.
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