Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

O Filho Amado do Pai

04/03/2020

Frei Almir Guimarães

Amor, amar, amado… palavras que foram se desgastando com seu uso sem a força que delas devem emanar. Sempre de novo somos convidados a reacender nosso amor ao Senhor Jesus que se tornou dom para conosco desde que foi imaginado como homem no seio do Pai. Amor que quer dizer: “Dar a vida pelo outro, por todos outros, numa entrega irrestrita e incondicional”. No momento do Batismo de Jesus no Jordão, o Pai declarou: “Este é meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado”. Jesus é puro dom, amor incondicional, entrega de Deus “aos homens por ele amados”.

O Sermão sobre a Teofania, atribuído a Santo Hipólito (sec.III) assim descreve o Filho amado do Pai: “Este é meu Filho amado. Tem fome e alimenta multidões inumeráveis; afadiga-se e alivia os fatigados; não tem onde reclinar a cabeça e tudo sustenta com suas mãos; sofre e dá remédio a todos os sofrimentos; é esbofeteado e dá liberdade ao mundo; transpassam seu lado e ele cura o lado de Adão”.

O amor de Jesus, amor de verdade, dom da vida chega ao auge de acolher a morte dolorida no alto do madeiro. Os que procuram acolher esse gesto de entrega sabem que estão a beber vida. Ainda o Sermão da Santa Teofania: “Prestai-me atenção: quero acorrer ao manancial da vida e contemplar a fonte de jorram a fonte dos remédios da salvação”.

Um estudioso da espiritualidade franciscana, Frei David Azevedo, frade menor português, num texto de grande profundidade, “Francisco Fé e Vida”, afirma que o Pobrezinho de Assis, para além de qualidades que nele os séculos souberam reconhecer, é antes de tudo um enamorado de Cristo. “Diante da pessoa de Jesus, a atitude de Francisco é toda de amor. Poderia ser de curiosidade, de interesse, de temor. Mas não. É toda gratidão, assombro, encanto. Quando depois da proeza e beijar o leproso, Cristo lhe aparece na capelinha de São Damião, crucificado, mendigo, pedindo ajuda, a alma de Francisco fica verdadeiramente e para sempre “colada” à pessoa de Jesus. Toda a sua vida foi um processo de enamoramento. Progressivo em intensidade, mas a qualidade da relação, essa ficou definida desde aquele momento: era amor, só amor. Não queremos dizer que não entrassem nele outros sentimentos; o queremos acentuar é que nunca houve uma involução egoísta sobre si mesmo, nem uma diversão distrativa para áreas laterais que desfocasse o seu olhar. A pessoa de Jesus, como ponto de mira, e o enamoramento, como relação, definem a sua atitude. Esta referência enamorada à pessoa de Jesus pertence ao cerne da espiritualidade franciscana”.

O Filho Amado do Pai se torna nosso amor e não temos outra coisa a fazer, até o fim de nossos dias, que o Amor precisa ser amado.

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