Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

O diálogo como experiência ética

10/06/2019

Frei Vagner Sassi, ofm

“Tu te lembras, Pai Francisco? Este indigno que pega hoje a pena a fim de narrar a tua crônica era humilde e feio mendigo no dia de nosso primeiro encontro. Cabeludo da nuca às sobrancelhas, tinha a fisionomia coberta de pelos e o olhar amedrontado. Em vez de falar, balia feito carneiro, e tu, para ridicularizar minha feiura e humildade, me apelidaste de Irmão Leão. Porém, quando te contei a minha vida, começaste a chorar e, acolhendo-me em teus braços, disseste: – Perdoa-me a zombaria. Agora vejo que és realmente um leão, pois só um leão ousaria pretender o que pretendes”.

Com essa fala, tem início a narrativa do Pobre de Deus tal como concebida por Nikos Kazantzakis. Nesta obra, escrita na primeira pessoa, Frei Leão recorda suas experiências dialogando com Francisco de Assis. Uma obra ditada pelo coração, onde vê-se não dois personagens inventados, mas duas pessoas reais que se encontram na partilha da palavra, da vida e do pão.

A narrativa cativa crentes e ateus por sua simplicidade e humanidade. Nela tem-se a impressão de que tudo fala e de que nos sentimos conosco Leão e Francisco. De imediato, nos sentimos em casa. Isso em uma época onde se multiplicam discursos e escritos sobre diálogo e comunicação que até comunicam muito mas, na realidade, pouco ou nada falam.

Liberto de pretensões idealistas, vamos descobrindo, na finitude de nossa própria vida, que é a experiência, e não a verdade, o que dá sentido ao diálogo. Dialogamos para transformar o que somos e não para defender ou transmitir ideias que sabemos. Se algo nos anima a dialogar é a possibilidade de que essa experiência nos aproxime e nos liberte, humanizando a todos.

Porém, não obstante simples, tal prática se mostra hoje para nós como a mais difícil. Isso porque, por muito tempo, fomos educados a partir de outros pressupostos que não a liberdade e a humanidade. Rigorosa na guarda e na observância de normas e mandamentos, nossa formação moral fez de nós pessoas corretas e obedientes sim, mas insensíveis ao outro e muito pouco abertas ao diálogo.

As raízes dessa dificuldade são históricas. Verifica-se que, na aurora do Ocidente, o termo grego ethos, do qual provém a nossa palavra ética, se escrevia de duas formas diferentes. Quando se utilizava no início a letra grega éta (“e” longo), ele significava casa e morada. Mas se utilizava a letra épsilon (“e” curto), estava se referindo a hábitos e costumes.

A compreensão da ética em termos de hábitos e costumes aponta para uma dimensão institucional que, por sua vez, é sempre resultante do acordo e do consenso de um grupo. Essa apreensão permitiu aos romanos traduzirem a palavra grega ethos pelo termo latino mos, moris; de onde se originou o seu significado moral.

Por sua própria condição, os seres humanos nascem já inseridos em uma comunidade que se expressa em hábitos e costumes recolhidos em códigos morais. Estabelecendo o que pode ou não ser feito, o que se deve ou não fazer, estes são utilizados como referências para a avaliação e o julgamento de indivíduos e grupos.

Já a compreensão da ética em termos de casa e morada aponta para uma dimensão existencial que, por sua vez, diz do modo como, frente à coletividade, o homem constrói sua própria vida. É próprio do existir humano nunca ser dado pronto e acabado, mas ter que ser forjado mediante experiência e empenho pessoais.

Ainda que receba toda uma herança biológica e cultural, o ser humano é livre para construir sua própria identidade, edificar a sua morada, ser ético. Desta compreensão de ética, comum a toda humanidade, independente do coletivo e anterior a quaisquer considerações morais, depreende-se a liberdade e a história.

Ainda que complementares, essas compreensões da ética são radicalmente diferentes. E cumpre reconhecer que a prevalência da dimensão institucional-moral (“hábitos e costumes”), sobre a existencial-pessoal (“casa e morada”), ainda que garantia de “progresso” e “ordem”, nunca é isenta de desumanidades.

Isso porque a redução do ethos a uma compreensão meramente moral é justamente o que instaura o predomínio da razão instrumental. Tendo como referência a predicação e o juízo, a linguagem se reduz a “meio de comunicação” e o diálogo a uma “discussão entre dois ou mais indivíduos em vista de um consenso”.

Nesse sentido, o diálogo é sempre tomado como um meio para um fim dentro de uma relação de poder. Existe a comunicação, mas esta não é propriamente humana, ainda que racional. E justamente porque meramente técnica, não acontece nenhuma experiência e nenhum encontro real entre pessoas.

A considerarmos a narrativa do Pobre de Deus, no dia do primeiro encontro, Francisco ridiculariza Irmão Leão a partir de um julgamento. A feiura e a humildade de Irmão Leão, ainda que reais, são vistas tão somente a partir de um padrão institucional que a todos impõe uma medida única de estética e comportamento.

Porém, o reconhecimento dos limites dessa compreensão reducionista do ethos, e de seus efeitos nocivos à humanidade, pode levar o ser humano a instaurar a primazia da dimensão existencial. Tendo como referência a compreensão e a compaixão, a linguagem pode surgir como “mostração” e o diálogo como “encontro”.

Recuperado no seu sentido ético originário, o diálogo, mais do que meio de comunicação ou de dominação, é vivenciado como experiência propriamente humana. Despido de todo e qualquer anseio de poder e julgamento, o ser humano se dispõe a acolher o outro na sua diferença e a partir de sua própria história.

Na narrativa do diálogo do Pobre de Deus, quando Irmão Leão conta a sua vida, Francisco começa a chorar e o acolhe nos braços. Ainda que diferentes, sentem-se em casa e não como estranhos. E o que os une é uma experiência a partir da qual se compreendem, não uma verdade a partir da qual se julgam.

Neste ano, ao recordarmos o aniversário do encontro de São Francisco e o Sultão Al-Malik Al-Kamil, tal compreensão do diálogo como experiência ética surge como provocação. Ela nos convoca a repensarmos o modo como vamos ao encontro de cada irmão e de cada irmã na sua história e diferença. Em louvor de Cristo. Amém!


Frei Vagner Sassi, professor e doutor em Filosofia.

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