Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Não se esqueça do outro

08/02/2019

 

Pe. Ademir Guedes Azevedo, cp

Nós vivemos um período histórico marcado por grandes tribulações. A tendência é cair no pessimismo e pensar que devemos esperar o “passar do tempo” para as coisas melhorarem. Não acredito que tal opção seja a mais adequada. Recentemente, o Papa Francisco publicou um livro, Lettere della tribolazione (Cartas da tribulação), no qual nos propõe um rico princípio para enfrentarmos os problemas: “As ideias são discutidas, mas as situações são discernidas” (p. 20). Com certeza, esta mesma proposta está ligada a sua famosa máxima encontrada em Evangelii Gaudium n. 231: “A realidade é superior à ideia”. O que o Papa alerta é sobre o risco de não cairmos na tentação das divagações abstratas que justificam as ideologias. Precisamos assumir a realidade e encontrarmos as soluções para os problemas, com serenidade, lucidez e sabedoria. Nada de fuga mundi.

Para isso, penso que seja oportuna a análise do filósofo coreano, Byung-Chul Han. Em A sociedade do cansaço, ele nos adverte acerca da escravidão psicológica que nós criamos para nós mesmos. O problema é o excesso de positividade. Criamos pressão sobre nós mesmos para provar aos outros que somos produtivos. Aquele pároco faz tudo para não vacilar porque almeja ser promovido. O funcionário perde suas noites de repouso pensando em estratégias para ser o melhor na empresa onde trabalha. O estudante devora livros para ser o número um na escola ou na universidade, etc. Nesta sociedade da positividade não existe pressão externa porque é a própria pessoa que se cobra. O resultado é o infarto psíquico, ou a depressão, fruto da positividade que colocamos sobre os nossos ombros.

Em A salvação do belo, o filósofo continua falando do excesso de positividade, dessa vez promovido pelas redes sociais. Ali, o espaço é preenchido pelos momentos de glória e conquistas pessoais. O culto da autoimagem nunca foi tão valorizado como se vê hoje na internet. Se um internauta, que não pertence ao meu ciclo de positividade, me critica, eu o bloqueio imediatamente, porque é visto como negatividade de minha imagem. A consequência é: a alteridade não é respeitada nem acolhida pelo fato de interromper o meu ciclo de positividade.

Em meio a este cenário de confusão e guerra fragmentada, talvez é relevante retomar a proposta de outro filósofo, Emmanuel Levinas, como caminho alternativo. A lição que extraímos dele é: nós temos uma existência para o outro, não somos uma mônada, fechados em nós mesmos. No entanto, para amadurecermos uma consciência de abertura e transcendência precisamos da solidão. Deixarmos de lado o excesso de coisas que nos distanciam de nós mesmos. O ato de existir é acolhido em plenitude quando encontro-me comigo mesmo na solidão. Isso não é fuga mundi, é encontro com o nosso próprio ser. Tal encontro, me abre ao outro, fazendo-me responsável por ele. Para Levinas esta descoberta se dá no face a face, ou seja, diante do rosto do outro. O rosto me revela a concretude da pessoa, tal como ela é. No mundo virtual, a existência é sem um existente, ou seja, não posso ter um rosto concreto. Por isso, estamos assistindo a falta de ética nos conteúdos publicados nas redes. Infelizmente, testemunhamos esta triste realidade em nosso país nos últimos meses. Tudo indica que as relações virtuais se desenvolvem assim: um ao lado do outro (o que gera também o anonimato virtual). Levinas, ao invés, propõe assim: um de frente ao outro. Aqui entra a responsabilidade e a ética para com o meu próximo.

Vejamos o modo de relacionar-se de Jesus de Nazaré. Foi o mais autêntico na relação face a face. No poço de Sicar, colocou-se diante do rosto da samaritana, de frente, não ao lado. Pedro, no episódio da Paixão, fugia do rosto de Jesus, colocava-se ao lado, ou seja, sentia vergonha e medo de declarar-se seu seguidor. Mas Jesus não foge do rosto de Pedro, o olha com profundidade, fazendo-o chorar.

O tempo da tribulação será interrompido se olharmos no rosto do outro. Precisamos abandonar o “lado a lado” e migrarmos para o “face a face”. Isso nos ajuda a assumirmos a nossa existência com a ética da responsabilidade e, sobretudo, a nunca esquecermos do outro.


Pe. Ademir Guedes Azevedo é missionário passionista e mestrando em teologia fundamental na Pontifícia Universidade Gregoriana.

Premium WordPress Themes Download
Download Best WordPress Themes Free Download
Premium WordPress Themes Download
Download WordPress Themes
online free course
download lenevo firmware
Free Download WordPress Themes
free download udemy paid course

Conteúdo Relacionado