Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Instituições e pessoas

16/10/2026

Instituições e pessoas

Ouve-se muito dizer que a democracia e o Estado precisam de instituições fortes, com musculatura para impulsionar funcionamentos e o cumprimento de metas. De modo geral, as instituições se consolidam a partir da tradição, de uma identidade consistente e de lastro na história, contando, de modo especial, com a competência de seus agentes para ajudar a sociedade. Torna-se, por isso, preocupante a atual realidade de desempenhos pífios e eivados de mediocridades. Um contexto agravado pela escassez de nomes com envergadura técnica e moral capazes de contribuir para progressos institucionais. A consequência é a redução do potencial das instituições, prejudicadas pela falta de gente com capacidade para corresponder às muitas demandas. Eis, pois, um desafio a ser superado para que seja possível manter as instituições fortes, correspondendo ao que delas se espera. 

Acostuma-se com muitas narrativas que, de modo geral, apenas buscam encobrir mediocridades. Vive-se dos dividendos da história institucional, sem assumir a responsabilidade de se buscar novas conquistas. Um contexto que favorece escolhas indevidas, resultados irrelevantes. Não há abertura de novos horizontes e crescimento possibilitados pela atuação de lideranças. A situação é tão grave que se perde até mesmo o sentido de limite: não raramente entrega-se à responsabilidade de medíocres o que merece a atenção de pessoas mais qualificadas. Ocorre ainda o fenômeno da falta de autocritica, com pessoas que validam, lamentavelmente, a ocupação de cargos e cadeiras por indivíduos sem a mínima condição necessária. Ao mesmo tempo, verifica-se que muitos possuem uma autoconsciência inadequada, que não consegue identificar os próprios limites e os desafios do contexto institucional que representa. Trata-se de fenômeno que parece ser mais frequente nos âmbitos da política e da religião.  

Nessas circunstâncias, o enfraquecimento institucional é inevitável com consequências para o presente e para o futuro. A incapacidade para reconhecer limites pessoais é acentuada ainda mais pela percepção ilusória que se alimenta a partir das redes sociais. Essas redes estimulam a necessidade de exposição, de angariar “seguidores”, uma forma de se obter reconhecimento. Essa necessidade de exposição mata a interioridade, lugar essencial para amadurecer a autopercepção e a consciência sobre as próprias responsabilidades. Sem interioridade, a pessoa cultiva um entendimento sobre seu “eu” que não pode ser comprovado na realidade. Trata-se de uma cegueira provocada pelo fenômeno contemporâneo da perda de autocrítica, que alcança um patamar perigoso, particularmente, quando a moralidade é rifada e os valores são camuflados em favor de interesses particulares. Passa-se a ignorar, ainda mais, o bem de todos e o desenvolvimento integral. 

Fantasias, manipulações e interesses egoístas presidem atuações que enfraquecem as instituições e as consequências são terríveis para a sociedade. Acentua-se a tendência do personalismo que vem cortejado pelas paixões irracionais, levando à perda de oportunidades para que sejam encontradas respostas adequadas e esperadas para os graves problemas sociais. Verifica-se, pois, a necessidade e a urgência do despertar de uma nova consciência acerca de responsabilidades e dos próprios desempenhos. Além da indispensável competência técnica inerente a cada área de atuação, é preciso cultivar o consistente alicerce da moralidade, imprescindível na sustentação de processos e escolhas. É preciso resgatar valores fundamentais da vida social, emoldurando a competência técnica, para garantir desempenhos qualificados também, especialmente, no âmbito das instituições. Ao invés disso, o que se assiste, em muitos campos, é a ascensão de incompetentes, “marinheiros de primeira viagem”, responsáveis por desempenhos institucionais abaixo do esperado. Pessoas que infringem um terrível castigo de fracasso à instituição. 

Aliar competência técnica e valores sociais é o ponto de partida para garantir desempenhos que fortaleçam as instituições. O mérito pessoal, quando ancorado no exercício de virtudes e atitudes morais, se desdobra em ganhos para a instituição. Quando a dimensão moral é relativizada, trilha-se na direção das manipulações institucionais, impondo prejuízos à sociedade. Quando se cai no relativismo, o valor moral da verdade é o primeiro a ser sacrificado, desobrigando os cidadãos de buscá-la continuamente, respeitá-la e testemunhá-la responsavelmente. Há de se investir, educativamente, para que a verdade seja efetivamente respeitada em todos os âmbitos, particularmente nos campos da comunicação e da economia. Abandonar o investimento educativo que fortalece o compromisso com a verdade é retardar mudanças substanciais urgentes, capazes de colocar o Estado, a Nação, nos trilhos que levam às mudanças almejadas. 

Investir para que haja compromisso com a verdade é caminho distinto das atitudes preconceituosas, dos discursos de ódio, das polarizações, das corrupções e mesmo de ideologias partidárias. Significa valorizar e priorizar a competência das pessoas nas instituições, para que o contexto institucional, de fato, esteja a serviço da sociedade, alicerçando a democracia e o desenvolvimento integral.


Dom Walmor Oliveira de Azevedo – Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

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