
São Francisco de Assis, ao falar da Irmã Morte, no Poema das Criaturas, ou Cântico do Irmão Sol, assim descreve: “Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã nossa, a morte corporal, da qual nenhum ser vivente pode escapar. Ai daqueles que morrerem em pecado mortal e bem-aventurados os que ela encontrar na tua santíssima vontade, porque a morte segunda não lhes fará mal”.
Estamos celebrando os 800 anos da morte de São Francisco de Assis neste mês de outubro de 2026. São Francisco continua vivo e presente mais hoje do que em seu tempo. São Francisco hoje se faz presente, não apenas no mundo cristão, mas em todas as religiões e crenças. São Francisco se tornou um símbolo da paz, da ecologia e da ecosofia. Em Francisco se deu a morte, mas não a finitude. Porque Francisco acolheu a morte como irmã: “Louvado seja a minha irmã morte”.
A morte e a ressurreição são temas proclamados por escritores, músicos, poetas e em muitas reflexões teológicas de todas as religiões. Como dizia a poetisa Maria Helena da Silveira, aos vinte e dois anos: “eu espero a morte como se espera o Bem-Amado, não sei quando virá, nem como virá. Mas eu espero. E não há medo nesta expectativa, porque a morte é bela. Porque a morte é a Ressurreição. É a Libertação e a Comunicação total com o Amor total”. Diríamos que é o nosso encontro definitivo, com a origem da vida, Deus.
Jesus, ao ressuscitar Lázaro, nos mostra de maneira antecipada a sua própria Ressurreição. Marta, ao saber da presença de Jesus na cidade de Betânia, vai ao encontro de Jesus e O desafia: “se estivesse aqui o meu irmão não teria morrido”. Quantas pessoas já disseram: “se esta pessoa da minha família fosse atendida como deveria ela não teria morrido?”. A atitude de Marta de ir ao encontro de Jesus é um ato de fé: “Sim, eu creio Senhor”. Na fé se dá a Ressurreição e o sentido da vida.
Paulo em sua Carta aos Romanos nos fortalece dizendo que “os sofrimentos da vida presente não merecem ser comparados com a glória futura”, porque somos Filhos de Deus, criados à sua imagem e semelhança, e somos herdeiros do Reino dos Céus. Nisto consiste a nossa vida para além da morte: a Ressurreição. A vida não nos é tirada, mas transformada. O tempo da colheita chegou. Vamos apresentar os frutos, os talentos que nos foram dados. À semelhança de Paulo, o Apóstolo: “combati o bom combate, guardei a fé, só me resta a coroa da eternidade”.
Por meio de Cristo, Deus preparou-nos para a vida eterna, porque não é um Deus dos mortos, mas dos vivos. De Deus viemos e a Ele retornaremos. Ele nos criou e por amor nos salvou. Somos criados para a vida e não para a morte. A morte biológica é a passagem para a vida eterna. Se cremos que Cristo morreu e ressuscitou, cremos que existe vida para além da morte: vida eterna. Tal é a fé da Igreja: “espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir”.
Crer é acreditar e ter esperança de que a minha origem e meu destino é Deus. A esperança na ressurreição deve tornar-se realidade na prática das bem-aventuranças, ou seja, pela conduta e pelo testemunho dos que perdoam porque amam o irmão. O verdadeiro frade carrega o Cristo vivo e encarnado no coração. Ter fé na vida eterna se traduz em atitudes de respeito e caridade pelo confrade que Deus colocou em meu caminho.
A afirmação de Cristo cumpriu-se: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica sozinho, mas se morre, dá muito fruto”. Assim foi São Francisco de Assis: produziu milhares de frutos ao longo dos oitocentos anos de história. Aquele que foi batizado em Cristo tem a semente da eternidade: “este é o meu filho amado”. Passamos a ter além da vida biológica, a vida eterna, porque nos tornamos filhos de Deus pelo batismo.
Em outubro, os Franciscanos, a Igreja e o mundo celebram os 800 anos de Vida de São Francisco. Para nós Franciscanos, Francisco vive. O Dia de Finados o povo celebra o Dia dos Mortos, mas a liturgia fala da vida, de modo que podemos afirmar, com certeza, que morrer é viver, como São Francisco vive em cada Franciscano. A razão desta verdade é Jesus Cristo, morto e ressuscitado. O amor é mais forte que a morte, porque o Amor é Deus. Todos os seres humanos buscam a vida para além da morte. Os cristãos têm certeza de que existe a ressurreição ao proclamar: “eu creio na ressurreição e na vida eterna”.
Para muitos a morte é um enigma: filósofos, cientistas e em especial os ateus. Muitos buscam respostas nas ciências, nas histórias das religiões e se perguntam: a morte é um fim ou um princípio?
No fim do caminho está Deus ou um vazio absoluto? A morte para a maioria é um enigma e causa medo. Pergunta-se sobre o sentido da vida e porque tem que haver morte. Como será a vida para além da morte? A resposta para todas as perguntas é a fé.
Cristo Ressuscitado é a melhor e única resposta válida à pergunta sobre a morte. O frade, à semelhança de São Francisco, responde que Jesus é a razão última do nosso viver, morrer e esperar como filhos. O Pai preparou a morada definitiva, segundo o próprio Filho: “para que eu não perca nenhum daqueles que o Pai me deu”.
Cristo responde todas as nossas perguntas: “Eu sou a ressurreição e a Vida, aquele que crê em Mim, ainda que tenha morrido, viverá, e aquele que vive e crê em Mim, nunca morrerá” (Jo 11,25). Bendizemos a Deus na fé porque graças a Cristo Ressuscitado não somos seres para a morte, mas para a vida. Afirma Jesus: o nosso Deus não é dos mortos, mas sim dos vivos. Proclamamos no Credo: “Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir”.
Queremos reverenciar e agradecer a cada frade que fez parte da nossa jornada, que nos mostrou o caminho de São Francisco para sermos melhores e mais fraternos, e que agora vivem para sempre com São Francisco de Assis. Se muitos somos, muitos são os que, nesses oitocentos anos, vivem agora a Paz definitiva.
Frei Sérgio Pagan


