Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

30 anos de Caminhada Penitencial Frei Bruno

Caminhada Penitencial chega à 30ª edição

Pela 30ª vez, no próximo domingo, dia 8 de março, os devotos de Frei Bruno Linden sairão às ruas de Joaçaba para a Caminhada Penitencial Frei Bruno, numa demonstração de fé e penitência como já se tornou tradição nesta cidade, sempre no segundo domingo da Quaresma. A Caminhada tem início às 8 horas e os penitentes percorrerão cerca de 3,5 quilômetros até o Cemitério Frei Edgar, onde está o túmulo do frade desta Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil.

Esta Caminhada será um momento forte de Ação de Graças: 30 anos da Caminhada, 60 anos da morte de Frei Bruno e a aprovação dos documentos da Causa de Frei Bruno  pela Congregação para as Causas dos Santos, presidida atualmente por Dom Giovanni Angelo Becciu. Devido a essas celebrações, espera-se uma das maiores concentrações de peregrinos nesta Caminhada Penitencial.

A concentração para a Romaria acontece em frente à Catedral Santa Terezinha e depois segue pela rua 15 de Novembro e  pela rua Caetano Branco até chegar no Cemitério Municipal Frei Edgar, onde está o jazigo do frade. Ali será celebrada a Santa Missa.  O frade peregrino, que viveu e pregou a penitência, continua sua missão depois de morto, repetindo à multidão a admoestação de Jesus: ‘Convertei-vos e crede no Evangelho!’ (cf. Mc 1,15).

A Romaria  começou por iniciativa popular. Segundo o então deputado estadual Iraí Zílio,  depois que Frei Bruno morreu muito se falava dos fatos e milagres que eram a ele atribuídos. “Isso aumentou a minha fé e minha admiração. Então, comecei a pensar que algo precisava ser feito por ele, para aquela alma tão bondosa. Pensava que precisava ser feita uma capela, uma romaria, e eu associava isso ao povo”. Com ajuda do seu primo, da família Weiss e apoio de amigos, Zílio viu nascer a primeira romaria, que contou com a participação de cerca de 10 mil pessoas em fevereiro de 87.

A Romaria, contudo, não continuou no ano seguinte porque o Vigário da Paróquia de Joaçaba entendia que ela não deveria ser realizada todos os anos. “O povo aderiu e foi uma manifestação espontânea de fé. Não saiu de mim. Passaram-se dois anos e voltou-se a fazer as romarias ao jazigo de Frei Bruno,  agora dentro do calendário religioso da comunidade”, explica Zílio.

O processo da Causa de Frei Bruno recebeu o “nihil obstat” (nada contrário) no dia 7 de maio de 2013, quando o Cardeal Angelo Amato, então prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, enviou documento a D. Mário Marquez informando não existir impedimento para iniciar oficialmente o processo de beatificação do frade franciscano da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil. No mesmo ano, no dia 30 de outubro, foi instalado o Tribunal Eclesiástico da Diocese, formado por: Pe. Davi Lenor Ribeiro dos Santos, delegado do bispo, Pe. Clair José Lovera, promotor de justiça; Michelle Selig, notária (secretária); e Cláudio Orço, notário auxiliar. Trabalhou neste processo também uma Comissão histórica formada por Frei Clarêncio Neotti e a historiadora Iraci Lopes, que teve a missão de recolher toda a documentação sobre Frei Bruno, tudo o que se escreveu sobre ele e todas as referências à vida e santidade de Frei Bruno. Também é vice-postulador desta causa Frei Alex Sandro Ciarnoscki, hoje residindo na Fraternidade de Pato Branco (PR).

A Romaria de 2013 contou com a participação do bispo diocesano Dom Frei Mário Marques, do então Vigário Provincial Frei Estêvão Ottenbreit e do postulador franciscano da causa dos santos que reside em Roma, Frei Giovangiuseppe Califano, que pôde testemunhar essa devoção popular em vista da Causa de Frei Bruno.


O PROCESSO ESTÁ NA FASE ROMANA

A Congregação para as Causas dos Santos, presidida atualmente por Dom Giovanni Angelo Becciu, deu parecer  positivo  à causa de Frei Bruno em dezembro do ano passado. Esse parecer está sendo submetido a votações de uma comissão teológica e, depois, passará por uma comissão dos bispos e cardeais membros da Congregação. Se eles decidirem pela continuidade da causa, enviarão ao Papa o pedido para um decreto de reconhecimento das virtudes heroicas. Se o Papa aceitar a solicitação, o candidato passará a ser chamado “venerável”.

Para ser beato, ou bem-aventurado, que significa representar um modelo de vida para a comunidade, será necessário o reconhecimento de um milagre realizado por intercessão do Servo de Deus. No caso de Frei Bruno, já existem relatos de graças e eventuais curas que serão analisadas pelo Tribunal da Diocese de Joaçaba. “Deve-se, portanto, incentivar o povo cristão a pedir um milagre pela intercessão de Frei Bruno”, enfatiza o vice-postulador Frei Estêvão Ottenbreit, que é guardião na Fraternidade do Antonianum em Roma.

Depois, ainda é preciso passar por mais uma fase: a canonização. Para ser proclamado santo é imprescindível a comprovação de outro milagre, que deve ocorrer após seu reconhecimento como beato.

Frei Estêvão lembra que é importante rezar e comunicar  as graças alcançadas. Além disso, destaca a importância de se documentar o antes, o durante e depois desse momento. “A nossa esperança é muito grande.  Frei Bruno, na pobreza e na simplicidade em que viveu, visitando as famílias, como um incansável missionário, é exatamente o que o Papa Francisco quer: uma Igreja que não fica dentro da sacristia mas que sai para as ruas, visita as famílias, tem contato com o povo. E isso dá uma grande esperança quando tomar tomar conhecimento. Ele vai se reconhecer em Frei Bruno”, acredita.

Outro ponto que Frei Estêvão lembra são os custos de todo o processo. “Até agora, vamos a dizer assim, a Diocese, a Província da Imaculada e a Paróquia de Xaxim custearam as despesas, mas chegou o momento de pedir ao povo por essa ajuda”, avalia.

 

Moacir Beggo

Xaxim fez a oitava Festa de Frei Bruno

Em Xaxim, cidade do Oeste Catarinense, um frade franciscano deixou sua marca de santidade. Por isso é muito comum encontrar seu nome na praça, no hospital, no comércio e no bairro. Na praça da Matriz São Luiz Gonzaga, seu busto está num cantinho muito procurado, assim como a imagem do lado da igreja. Frei Bruno Linden é esse frade venerado, um missionário alemão que chegou ao Brasil em 1894 e que hoje também ganhou a principal festa religiosa em sua memória. “Hoje é a maior festa religiosa da Paróquia”, explica o pároco Frei Gilson Kammer, lembrando que no ano outras duas festas são realizadas: a do Padroeiro e de Nossa Senhora da Saúde.

Neste ano, os paroquianos e os frades se desdobraram para garantir as festividades que começaram com as Missões Franciscanas da Juventude, no início de fevereiro, e continuaram com a Festa de Frei Bruno e com a ordenação presbiteral de Frei Evaldo Ludwig, de 13 a 16 de fevereiro na Matriz São Luiz Gonzaga.

“A festa e todas as grandes ações de evangelização deste ano estão no contexto do ano jubilar, nesse espírito de júbilo e gratidão, mas também de celebração e perspectiva de continuidade da evangelização na caminhada”, diz Frei Gilson, recordando que a Paróquia São Luiz Gonzaga celebra 80 anos de sua criação. Segundo o pároco, a oitava edição da festa de Frei Bruno também vem a ser um acontecimento importante neste jubileu para rememorar e partilhar esse carinho que todo o povo tem por Frei Bruno. “É muito comum a gente ouvir as famílias, principalmente as pessoas de mais idade, dizendo que fizeram a primeira Eucaristia, foram batizadas ou foram casadas por Frei Bruno. Além da grande festa social, vamos dizer assim, um dos objetivos da equipe organizadora é o de dar um enfoque à parte religiosa. Então, quando a parte religiosa é bem celebrada, a social e a financeira vêm como consequência disso”, avalia o frade.

Frei Gilson lembra também que este ano a memória de Frei Bruno terá dupla celebração: Os 60 anos da morte de Frei Bruno (ele faleceu no dia 25 de fevereiro de 1960) e os 30 anos da Caminhada Penitencial de Frei Bruno, em Joaçaba, onde foi sepultado o Servo de Deus. “Aqui, o Frei Bruno é lembrado pelas famílias como homem de oração, como homem que levou o Evangelho, viveu o Evangelho na sua própria vida e se tornou modelo para as famílias, para os paroquianos. As pessoas ainda guardam com muito carinho essa recordação. Falam de sua presença com muita gratidão. Nessa sintonia com Frei Bruno, a gente recorda todo o trabalho, toda a missão de tantos frades que passaram nesses oitenta anos da Paróquia. Com Frei Bruno e Frei Plácido, talvez os personagens principais dessa história, e que iniciaram essa caminhada, tantos frades vieram atrás. Então, queremos com esta festa lembrar isso e, para os mais novos, apresentar aquilo que talvez os seus pais e avós vivenciaram e continuam animando a vida de fé dessas pessoas”, acredita Frei Gilson.

TESTEMUNHOS

O sr. Adelino Zanchet rezava diante da imagem de Frei Bruno na praça da Matriz no sábado de manhã (08/2). Aos 96 anos, lúcido, seu Adelino tem dificuldades de locomoção e a filha Ivete o trouxe. Ele gosta de rezar para aquele que já é “santo”, por tudo o que fez para as pessoas e para a Igreja de Xaxim.

Ele lembra que Frei Bruno era incansável na visita às famílias, não importasse os rincões rurais do município. Sr. Adelino gosta de ilustrar essa santidade de Frei Bruno com histórias, que correm de gerações em gerações. Segundo ele, antes de se casar, Frei Bruno curou uma jovem que estava possuída por um espírito mau. “Ela não deixava ele abençoá-la. Derrubava os bancos da igreja e não parava. Frei Bruno, então, foi para a sacristia, pediu que deixassem ela olhando para o sacrário e ele saiu da igreja para entrar por trás e chegar perto dela, podendo dar a bênção. A menina, que era de Rio Grande, ficou curada, casou-se e teve filhos”, recordou.

“Lembro sempre dele. Algumas vezes ele ia a cavalo, mas preferia mesmo caminhar”, recordou sr. Adelino. Segundo ele, uma vez, Frei Bruno precisava atravessar o rio para ir a uma comunidade e passou por um campo de futebol. “A ‘piazada’ disse para ele não chegar perto do rio porque estava cheio. Ele respondeu: ‘Eu vou ver se dá para passar, senão eu volto’. Ele foi lá e quando a ‘piazada’ olhou, ele estava do outro lado e nem tinha o sapato molhado”. Seu Adelino contou também que dois jagunços assaltaram Frei Bruno em uma de suas viagens. Ele pediu que não fizessem nada e que pegaria o dinheiro. Pegou um crucifixo do bolso e mostrou para os assaltantes, que saíram correndo”, disse com alegria. Frei Bruno casou seu Adelino, que viveu com sua esposa por 72 anos. Ela faleceu há sete meses, aos 94 anos. Para ele, o Vaticano vai “santificá-lo porque ele é santo”. E não tem dúvida.

Esse encontro de Frei Bruno com Xaxim começa em 1945, quando foi transferido para Esteves Junior. No final do mesmo ano, veio para Xaxim, onde, por 6 anos, foi superior e pároco. Ficou em Xaxim por mais 3 anos como coadjutor. Quando completou 80 anos, foi transferido para Joaçaba. Era o ano de 1956. O trabalho sem descanso, as longas caminhadas marcaram o velho frade e lhe deixaram sua saúde mais fragilizada. Por recomendação do provincial, foi para Luzerna para um repouso forçado. Jamais Frei Bruno pensou em descansar, estava sempre em busca de oportunidades de fazer o bem. Sentindo-se bem melhor, Frei Bruno retornou a Joaçaba, onde ficou seus últimos 4 anos de vida. Morreu com fama de santidade no dia 25 de fevereiro de 1960.

Traços marcantes do genuíno Frade Menor

Poucos são, de certo, os confrades da época que não chegaram a conhecer Frei Bruno. Quem o conheceu concordará comigo que sua personalidade foi uma reprodução fidelíssima das páginas mais inspiradoras dos “Fioretti” de São Francisco. Simples, pobre, humilde, zeloso, e caridoso em grau impressionante, retratando de maneira fiel os traços mais marcantes de genuíno frade menor segundo o modo de São Francisco. Falando em Frei Bruno, não cabem palavras difíceis. Nem pretendo expor todas as minúcias tão simpáticas quão edificantes de sua abençoada carreira. Dou, apenas, em rápidos e leves traços, os dados importantes do seu “curriculum vitae”, para logo em seguida condensar a impressão que ele nos deixou nestes últimos anos de íntimo convívio na residência dos frades de Joaçaba.

O Noviciado no navio

Filho de Humberto Linden e Cecília Goelden, nasceu Humberto Linden Jr. (mais tarde Frei Bruno) em Duesseldorf, na Alemanha, a 8 de setembro de 1876. Com quase 18 anos de idade, ingressou no Noviciado dos Franciscanos da Saxônia, em Harreveld, na Holanda. Tomou hábito em 13 de maio de 1894. O famoso padre-mestre Frei Osmundo Laumann deixou-lhe lembrança indelével nas poucas semanas que passou debaixo de sua tutela. Nem bem chegaram ao Noviciado, foram destinados para a “Missão Brasileira”, estando entre eles Frei Bruno. Trocaram o convento por um navio transatlântico que os levou à Bahia. Aportaram em Salvador aos 12 de julho de 1894. Em terras baianas, Frei Bruno completou o Noviciado, saiu-se ileso da febre amarela, estudou Filosofia e Teologia e fez a profissão solene no dia 19 de maio de 1898. Em seguida, na virada do século, foi enviado para Petrópolis (RJ), onde foi ordenado sacerdote em 1º de maio de 1901 e aprovado para a cura d’almas em fins do mesmo ano.

O jovem padre permaneceu ainda mais dois anos em Petrópolis. Em 1904 foi transferido para Gaspar, primeiro como superior e pároco até 1906, continuando no mesmo lugar mais três anos como coadjutor. A próxima transferência levou-o a São José, na modesta função de coadjutor e bibliotecário; mais tarde, isto é, desde 1914, como vigário da paróquia. Em 1917, tocou-lhe a incumbência de superior e vigário na residência riograndense de Não-Me-Toque.

Entre 1926 e 1945 teve uma prolongada estadia em Rodeio, convento do Noviciado, onde quase todo o tempo era guardião e vigário, enquanto o permitiam as constituições e intercalados os devidos interstícios de vacância de cargos. Durante quase 20 anos edificou sem cessar o povo de fora e os religiosos de dentro com seu exemplo de autêntico frade menor e arauto de Cristo. Este período mereceria um artigo à parte de quem com ele conviveu por mais tempo. Basta dizer aqui que dificilmente as instruções do Pe. Mestre aos noviços encontrariam ilustração concreta e exemplo vivo mais imponente que na pessoa do santo Frei Bruno.

A última morada terrestre

O Capítulo Provincial de 1945 destacou-o de Rodeio para Esteves Júnior. Lá permaneceu só poucos meses, pois no fim do mesmo ano foi designado superior e pároco de Xaxim. Completou dois triênios à frente da casa, continuando no mesmo lugar como coadjutor até 1956. Octogenário, acabado e encarquilhado foi parar em Joaçaba, sua última morada terrestre.

Depois do Capítulo Provincial de 1956, a conselho do Ministro Provincial, Frei Bruno foi para Luzerna a fim de passar uma temporada de repouso, ou, como ele mesmo entendia, preparar-se para a morte. Não era para menos. A velhice, as forças gastas e o corpo alquebrado pressagiaram o fim da jornada. Duas hérnias e, por conseguinte, duas cintas davam-lhe bastante que fazer e sofrer. Todavia pensava também em trabalhar, em continuar suas caminhadas para espalhar o bem a todos. Em pouco tempo escasseou o serviço em Luzerna e, a pedido dos confrades, foi passar uns dias em Joaçaba, onde descobriu novas oportunidades de apostolado. Voltou a Luzerna sem dizer nada, mas quatro dias depois apareceu outra vez em Joaçaba, disposto a ficar. Era o dia 2 de fevereiro de 1956.

A volta de Frei Bruno foi naturalmente uma grande alegria para nossa pequena comunidade. Todos nós apreciávamos a graça de ter um santo em casa, e um santo que trabalha sem dar trabalho. Os últimos quatro anos em Joaçaba não foram mais do que a continuação de um apostolado que Frei Bruno vinha praticando há muitos anos.

Quem conheceu Frei Bruno sabe de sua predileção irresistível por longas e continuadas caminhadas “pedibus apostolorum”. De fato, de manhã à noite, mantinha-se em movimento. Brincando com ele, chamamo-lo muitas vezes de cigano sem paradeiro nem sossego. Caminhava, visitando as famílias, benzendo as casas, descobrindo uniões a legalizar, consertando lares em desarmonia, visitando os doentes, sempre no mesmo ritmo incansável, morro-acima e morro-abaixo. Subindo pelas ladeiras, costumava andar em ziguezague a fim de aliviar o velho coração.

Nos primeiros meses ainda visitava as capelas de Santa Helena e de Nossa Senhora da Saúde, capelas por onde passa a linha de ônibus. Mais tarde, notando a nossa preocupação, desistiu espontaneamente. Em seguida ocupou o cargo de capelão do Ginásio Frei Rogério, a cargo dos Irmãos Maristas. Atendia às confissões dos irmãos e juvenistas. Terminada a Santa Missa, Frei Bruno dava as suas voltas, chegando à casa um pouco antes do meio-dia, quase sempre a pé, empunhando o guarda-chuva, seu fiel e inseparável companheiro. Depois do almoço “descansava” na igreja, apoiando a cabeça na mesa do altar de Nossa Senhora, rezando, ou, então na salinha da portaria, onde atendia às pessoas que o procuravam ou que ele havia chamado.

Interessou-se pelos detidos. “Pe. Praeses, será que posso pedir dinheiro a algumas pessoas para comprar uma bola”? – “Para quê”? – “Para os presos”. E lá vai ele: pede o dinheiro, compra a bola e a leva à cadeia, arrancando ainda do delegado a licença para os coitados jogarem futebol no pátio do presídio. “Pe. Praeses, posso tirar tintas para os presos pintarem a cadeia que está imunda”? “Pe. Praeses, na cadeia não tem luz. Posso levar uns maços de velas”?

Também tinha sempre em volta de si um grupo de crianças pobres, às quais dava a doutrina e às vezes também pão e outros petiscos que depois faziam falta à mesa.

Frei Bruno cuidava da água benta e conservava uma talha sempre cheia na igreja, ao lado do batistério. Aos sábados, vindo os pobres para receber os mantimentos, iam beber a água benta de Frei Bruno que não gostava desse modo de matar a sede. Porém, dizia: “Paciência! As criancinhas, coitadas, estão com sede”.

Frei Bruno, pedestre convicto, não se entusiasmava pelos meios de transporte modernos. “Frei Bruno, não gostaria de dar um passeio de avião”?

– Não, não, não! Imagine o que vai acontecer se faltar um parafuso”!

Os dias iam passando. O Ginásio Frei Rogério recebeu novo capelão, e Frei Bruno foi aposentado. Estava na hora. Pois caminhar se lhe tornava mais custoso e também a vista ia enfraquecendo casa vez mais. A partir de 1958, Frei Bruno celebrava sua Santa Missa às 5h30 no altar de Nossa Senhora. Aí, ele dava a comunhão às pessoas que madrugavam. Após a missa, no confessionário, era sempre procurado. O confessionário de Frei Bruno era uma armação muito simples com grade, de um lado a cadeira de confessor, do outro lado o banquinho de ajoelhar para o penitente. Terminando com as confissões, Frei Bruno costumava ajoelhar-se naquele banquinho.

Volumosa era a correspondência que Frei Bruno recebia. Uns pediam uma bênção, outros a saúde para um doente, outros ainda sorte nos negócios ou bênção contra ratos no paiol ou contra os bichos na roça. A princípio, Frei Bruno respondia religiosamente a todas estas cartas, mas à medida que se lhe ia enfraquecendo a vista, ia desistindo da correspondência.

Em 3 de julho de 1959 celebrou pela última vez a Santa Missa. A partir daquele dia comungava às 5h30, e depois ia ao confessionário. Já não saia mais à rua, mas continuava as audiências na salinha da portaria que, por brincadeira, apelidávamos de “conclave”.

Em 25 de outubro, na companhia de Frei Serafim, Frei Bruno deu o último passeio a Luzerna, a fim de tratar de assuntos da Pia União de Missas de Ingolstadt. Tanto em Luzerna como em Joaçaba, Frei Bruno exercia um belo apostolado em prol da dita União de Missas.

Em 20 de novembro, voltando da cidade, encontrei Frei Bruno na sala da portaria, desmaiado, pálido e frio. Eu estava certo de que a morte afinal viera buscá-lo. Levamo-lo à cela, e deitamo-lo na cama. Imediatamente veio o médico prestando a assistência indicada. Já ao meio-dia, nosso doente estava de pé, meio tonto ainda, mas animado. A partir daquela dia, Frei Bruno andava muito preocupado com a morte. Em curto prazo, por duas vezes, recebeu a Extrema-Unção.

Entrando em 1960, ouvíamos diariamente a mesma ladainha: “Hoje vou morrer”. Chamava o viático sua comunhão diária. Até deixava de se alimentar convenientemente e foi preciso, em nome da santa obediência, obrigá-lo a comer. Aí se normalizou a situação, pois Frei Bruno dizia sempre: “Quem não obedece aos superiores vai para o inferno”! A obediência cega do santo confrade deu também fim a uns tantos escrúpulos e complexos de consciência.

As sandálias lhe ficavam pesando muito e Frei Bruno calçou uns chinelos leves e caminhava que nem velho colono italiano. Achou pesado o rosário das sete alegrias e pediu licença para usar um rosário pequeno no cordão do hábito. Entretanto, dias depois apareceu outra vez com a grande coroa, dizendo: “Acho que é uma ofensa a Nossa Senhora andar sem o rosário”. No último mês teve que usar bengala para caminhar. Até o último dia atendeu as confissões e deu audiência na sua salinha.

A morte de Frei Bruno paralisa a cidade
No dia 25 de fevereiro, voltando do colégio das Irmãs, não encontrando Frei Bruno nem na sacristia, nem na portaria, nem no refeitório, fui ao quarto dele, onde o encontrei morto. Segundo o médico, que veio depois, a morte devia ter ocorrido umas duas horas antes.

Rapidamente se espalhou a notícia do falecimento. Escusado dizer que a consternação foi geral. As duas emissoras de Joaçaba, a todo o momento, repetiam a triste nova, dando também notícias biográficas acerca do confrade. Ao meio-dia, o corpo foi colocado na igreja e velado sem interrupção até o dia seguinte. Veio muita gente, e houve muitas lágrimas.

Dia 26 de fevereiro, o comércio e a indústria fecharam em sinal de luto. Às 8 horas houve missa de corpo presente.

A espaçosa matriz mostrou-se pequena para acolher tanta gente. Vieram para as exéquias os confrades de Luzerna, Jaborá e Xaxim. No enterro contaram-se 120 carros. Foi o maior enterro que já houve em Joaçaba. No dia seguinte, em sessão da Câmara Municipal, os vereadores lançaram em ata um voto unânime de pesar pela morte de Frei Bruno e, em sinal de luto, suspenderam em seguida os trabalhos.

Os motoristas de Joaçaba renderam homenagem particular à memória de Frei Bruno, organizando um grande cortejo, rumando, de noite, à matriz onde todos, ajoelhados na escadaria da Igreja rezaram pela alma de Frei Bruno, e em seguida prosseguiram na sua peregrinação. Já se preparava campanha pela praça e monumento de Frei Bruno em Joaçaba.

Por Frei Elzeário Schmitt ( 16.09.1911 †14.09.2010)

O longo caminho para se chegar à glória dos céus

FASE DIOCESANA

1. “Libellum Suplicem”

O início oficial é feito quando o bispo diocesano recebe o requerimento do Postulador. Este documento oficial tem o título de “Libellum Supplicem” e, assim que o bispo acolher o pedido, fará uma consulta aos bispos do Regional de Santa Catarina.

Depois o bispo vai se dirigir ao responsável da Congregação da Causa dos Santos, em Roma, para pedir o “Nihil obstat”, um decreto para mostrar que não existe um obstáculo que deponha contra a causa.

Com essas duas garantias, dos bispos do Regional e de Roma, o processo pode caminhar e o bispo diocesano dita o decreto de Introdução da Causa do agora Servo de Deus.

2. Tribunal Eclesiástico

Como existem pessoas que conheceram Frei Bruno em vida, o bispo pode imediatamente fazer a nomeação do Tribunal Eclesiástico, formado por um juiz, um delegado do bispo, um promotor de justiça e um (ou dois) secretário.

O Postulador ou vice apresenta ao bispo a relação dos testemunhos das pessoas que conheceram Frei Bruno, ao mesmo tempo em que o bispo vai nomear uma comissão histórica para recolher todos os documentos que têm a ver com a vida de Frei Bruno. Ou seja, Frei Clarêncio não vai trabalhar sozinho, mas terá apoio de uma comissão, formada por três peritos, que vão recolher: 1. Documentos pessoais; 2. Cartas, homilias, sermões e tudo que ele escreveu. É necessário fazer uma cópia autenticada de todos esses documentos antes de entregar para o tribunal. O original pode ficar com a família; e 3. Colher todo o material que foi escrito sobre ele em livros, revistas e jornais etc.

Terminada a coleta dos materiais, o dossiê será enviado pelo bispo diocesano à Congregação da Causa dos Santos, em Roma.

FASE ROMANA

Quando os autos do processo chegam a Roma, a Congregação da Causa dos Santos vai examinar se a documentação é válida.

A partir de seu parecer, nomeia um Relator que tem a missão de, com base neste dossiê, selecionar, escrever e sintetizar num documento chamado “Positio”. Pela “Positio”, ele vai comprovar as virtudes que se manifestaram no candidato, dividindo-a em três partes: 1. A vida; 2. As virtudes: e 3. A Fama de santidade.

1. A vida é a parte documentada que ficará a cargo de Frei Clarêncio e da comissão histórica.

2. As virtudes são as três virtudes teologais (fé, esperança e caridade), as quatro virtudes cardeais, a saber: prudência (sabedoria), fortaleza (coragem), temperança e justiça e as três virtudes da vida religiosa: pobreza, castidade e obediência. Para cada uma dessas virtudes tem que se apresentar exemplos ou se comprovar.

3. A Fama de santidade vai mostrar que Frei Bruno já era tido como santo enquanto vivia, foi visto assim depois da morte e essa fama continua até os dias de hoje.

Com a elaboração da “Positio”, passará por três níveis de julgamento:

1. Os consultores históricos vão dar um parecer porque é uma causa de 50 anos;

2. Os Consultores teólogos votarão sobre o mérito da causa. Esses, juntamente com o Promotor da Fé, estudarão a “Positio” de tal forma que, antes de a mesma passar ao Congresso especial, as diversas questões sejam examinadas em profundidade.

3. Os votos definitivos dos consultores teólogos, juntamente com as conclusões redigidas pelo Promotor da Fé, serão submetidas ao juízo dos Cardeais e Bispos.

Se a Congregação para a Causa dos Santos aprova a “Positio”, o Santo Padre pode promulgar o decreto das virtudes heroicas. O que era Servo de Deus passará a ser considerado Venerável.

O PROCESSO DO MILAGRE

Cumpridas essas fases, quando houver a certeza que se realizou algum milagre ou uma cura que não tem explicação, tem início outro processo, que vai repetir as fases diocesana e romana. Segundo o Postulador, a vantagem é que esse processo pode andar junto com o processo inicial, desde que já se tenha a notícia de milagres, o que deve acontecer na causa de Frei Bruno, pois já existem relatos de curas documentados.

Importante lembrar que o milagre poderá acontecer em qualquer lugar do mundo, desde que se faça a invocação de Deus através da intercessão de Frei Bruno. Segundo o Postulador, agora é importante divulgar a Oração a Frei Bruno.

O Postulador alertou também que curas obtidas de doenças psicológicas não têm valor para a Congregação, assim como câncer, que pode ter um diagnóstico equivocado, como aconteceu recentemente com a presidente da Argentina. No caso de curas realizadas há 20 anos, basta ter a documentação médica da época.

Acerca dos supostos milagres, a Congregação procederá do seguinte modo:

1º) Os presumíveis milagres, sobre os quais o Relator encarregado para o efeito prepara uma “Positio”, são examinados na reunião de peritos (no caso de curas, na reunião de médicos), cujos votos e conclusões serão expressos detalhadamente numa minuciosa relação.

2º) Posteriormente, os milagres são discutidos num Congresso especial de teólogos e, por fim, na Congregação dos Padres Cardeais e Bispos.

As opiniões dos Padres Cardeais e Bispos são comunicadas ao Santo Padre, a quem compete exclusivamente o direito de decretar o culto público eclesiástico que se pode tributar aos Servos de Deus.

Ou seja, depois do rigoroso processo romano, se o veredito for positivo, o Prefeito da Congregação ordena a confecção do Decreto de Beatificação para ser submetido à aprovação do Santo Padre.

Para o Bem-Aventurado ser santo, é preciso abrir um novo processo com o segundo milagre.

Frei Clarêncio: ‘Frei Bruno, tudo para todos’

O livro “Frei Bruno Linden, tudo para todos”, escrito pelo presidente da Comissão Histórica do Processo de Beatificação e Canonização de Frei Bruno Linden, Frei Clarêncio Neotti, foi lançado em 2014 durante a Caminhada Penitencial de Frei Bruno.

Nesta entrevista, Frei Clarêncio conta que teve dificuldades no início da pesquisa, mas seu faro histórico, que cresceu ao longo dos últimos anos escrevendo necrológios de confrades, o ajudou muito a concluir este primeiro trabalho, já que agora a Comissão terá como missão fotocopiar todos os escritos de Frei Bruno, enumerá-los e autenticá-los.

Frei Clarêncio, que reside em Vila Velha (ES), onde é Vigário Paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo, é jornalista e escritor. Atualmente edita e redige a revista “Vida Franciscana” e trabalhou na Editora Vozes de janeiro de 1966 a janeiro de 1986 e foi, durante todo esse tempo, redator da “Revista de Cultura Vozes”. É autor de “Ministério da Palavra” (3 volumes), “Santo Antônio, Mestre da Vida”, “Orar 15 dias com Santo Antônio”, “Santo Antônio: simpatia de Deus e simpatia dos homens”, “Santo Antônio, Luz do Mundo” (os 9 sermões do Padre Vieira sobre Santo Antônio, comentados), “Orar 15 dias com Frei Galvão”, “Comunicação e Igreja no Brasil”, “Imaculada Conceição de Maria”, “Frei Aurélio Stulzer, Pai, Irmão, Amigo” e “Animais no altar”.

Frei Clarêncio, ordenado padre franciscano em janeiro de 1961, chegou a conhecer Frei Bruno, mas confessa que ao concluir sua biografia chegou a se surpreender com ele. “Como digo no livro, eu o conheci. Mas nunca convivi com ele. Me surpreendeu pelo retrato que emergiu dos Livros de Tombo, retrato que coincide com os depoimentos dos que o conheceram mais de perto”, revelou. Nesta entrevista, Frei Clarêncio conta como foi o processo para escrever esta biografia de Frei Bruno. Acompanhe!

Site Franciscanos – Que balanço o sr. faz com a conclusão deste trabalho?

Frei Clarêncio Neotti – Quando, em fevereiro de 2012, em nome do Definitório, Frei Estêvão me convidou para escrever a biografia oficial de Frei Bruno e me disse que o convite vinha também em nome de Dom Mário Marquez, fui primeiro ao arquivo provincial ver o que havia sobre ele. Pouquíssima coisa. Nem mesmo os documentos essenciais, como batistério, profissão, ordenação lá encontrei. Não sou historiador, mas sempre tive faro histórico, que cresceu ao longo dos últimos anos pela experiência amorosa de escrever necrológios de Confrades. Esta experiência me ajudou muito. Saí à procura de folhetos, artigos e livretos publicados sobre ele. Vi que todos repetiam textualmente o belo necrológio escrito ainda em 1960 por Frei Edgar Loers, último guardião de Frei Bruno, em Joaçaba. Ora, nesse necrológio há imprecisões de datas e transferências, repetidas pelos copiadores. Em nenhum escrito sobre Frei Bruno encontrei, por exemplo, sua transferência de Gaspar para Petrópolis com o cargo de pároco em Cebolas. Isso me fez prestar muita atenção e checar com seriedade todas as informações correntes. Quando o livro estava em fase final, mandei os originais ao Padre José Artulino Besen, o historiador da Igreja em Santa Catarina que, por feliz acaso, é pároco em São José, sucessor, portanto de Frei Bruno. E também a Frei Ary E. Pintarelli, pedindo a ele um olho severo sobre a clareza do texto. Sou grato aos dois pelas correções e achegas.

Site Franciscanos – Quanto tempo de pesquisa demandou para fechar a linha do tempo de Frei Bruno?

Frei Clarêncio – Com a obediência do Definitório e a anuência compreensiva do meu guardião Frei Paulo Pereira, logo depois da Romaria de março de 2012, quando me encontrei com o Postulador Geral Frei Gianni, que me deu claras instruções de como fazer a coleta de dados, fui aos arquivos da Arquidiocese de Florianópolis, da diocese de Petrópolis, da diocese de Joinvile, da Casa Geral das Irmãs Catequistas, dos conventos de Rodeio e Xaxim. Fui aos arquivos das paróquias pastoreadas por Frei Bruno. Fotocopiei ou fotografei tudo o que encontrei. Antes de ir às paróquias de Não Me Toque, RS, e Xaxim, SC, passei pelo enfarto, que anulou muitos dias de possível trabalho. Quando, em outubro de 2013, foi constituído o Processo e eu fui oficialmente nomeado presidente da Comissão Histórica, eu já tinha recolhido os possíveis documentos em torno de Frei Bruno, sobretudo todos os Livros de Tombo escritos a mão por ele, alguns livros de Crônicas, quando ele foi o cronista da casa, e muitas cartas dele. A essa altura eu tinha lido tudo o que encontrara sobre as paróquias e Fraternidades onde ele trabalhara nas Vita Franciscana (em alemão, desde 1923 até 1942) e Vida Franciscana (desde 1942), as Crônicas de Frei Cleto Espey (em alemão), de Frei Pedro Sinzig (em alemão), de Frei Estanislau Schaette (em português). Vi, então, que havia farto material, com algumas lacunas, é verdade, mas suficiente para escrever a biografia de Frei Bruno dentro da Igreja e da sociedade de seu tempo. Escolhi como método a sequência temporal dos fatos. E percebi logo que os podia basear nos Tombos escritos por ele e nas Crônicas das Fraternidades. Em momento nenhum me esqueci de que a biografia era dirigida ao povo devoto. Por isso mesmo, procurei trabalhar com uma linguagem linear, de frases curtas. Daí também o acréscimo de uma centena de rodapés, ora para explicar ao povo o jargão religioso-curial, ora para pôr o leitor dentro da história da igreja local ou do município. Não podemos esquecer que Frei Bruno é da geração pioneira em todas as paróquias em que trabalhou. Estou de fato feliz de ter terminado esta biografia, item necessário para o processo de Beatificação e Canonização de Frei Bruno.

Site Franciscanos – Hoje, depois deste trabalho de pesquisa, como o sr. define Frei Bruno?

Frei Clarêncio – Frei Bruno me surpreendeu. Como digo no livro, eu o conheci. Mas nunca convivi com ele. Me surpreendeu pelo retrato que emergiu dos Livros de Tombo, retrato que coincide com os depoimentos dos que o conheceram mais de perto. Tive a ousadia de tentar fazer-lhe o retrato psicológico-espiritual-pastoral através de substantivos que ressaltam dos depoimentos. No livro aparecem apenas alguns depoimentos ou partes deles. No processo teremos a íntegra dos depoimentos, a íntegra das cartas que conseguimos, a íntegra dos Livros de Tombo e das Crônicas. Foi só no fim, quando o livro estava pronto, que fixei o subtítulo, uma expressão de São Paulo, “Tudo para todos”. Mas eu tinha posto numa folha à parte outros possíveis subtítulos, como: “O santo das famílias”, “O homem da misericórdia e da penitência”, “Quando bondade e bênção se encontram”, “O homem do bom senso”, “Deus olhou para a humildade de seu servo”. De fato, a família foi a maior preocupação pastoral de Frei Bruno. Num tempo de crise acentuada da família, como é o atual, o carinho pessoal e personalizado de um Frei Bruno talvez fosse a melhor medicina para o equilíbrio caseiro.

Site Franciscanos – O que mais te impressiona na vida dele?

Frei Clarêncio – Vou usar uma palavra desconhecida do mundo moderno. Impressiona-me Frei Bruno como asceta. Que pode ser sinônimo de penitente. Que pode ser sinônimo de disciplinado. Que pode ser sinônimo de congruente. Que pode ser sinônimo de rígido consigo e compreensivo com os outros. Que pode ser sinônimo de obediente sem glosa, mas com acentuado bom senso. Me impressionou muito o fato de nunca ter uma palavra negativa sobre confrades ou fatos acontecidos e por ele anotados nos Tombos e nas Crônicas. Também me impressionou seu conhecido desapego no vestir, no comer, no direito à sua vontade própria e no fato de ter renunciado por escrito ao direito de visitar seus parentes na Alemanha.

Site Franciscanos – Como falar de Frei Bruno para o mundo de hoje?

Frei Clarêncio – Se Frei Bruno fosse pároco em 2014, com seu modo de agir e sua visão de igreja e do mundo, estaria inteiramente deslocado. Como estaria qualquer santo canonizado. Os dons do Espírito Santo e as virtudes todas têm expressões diferentes na vida prática de cada tempo. Os dons são os mesmos. As virtudes são as mesmas. Mas o ambiente está inteiramente mudado. A grandeza humana de Frei Bruno está no fato de ele ter-se adaptado a paróquias rurais ainda em formação. A grandeza pastoral de Frei Bruno está no fato de ele ter levado àquele povo pioneiro e pobre o senso da fé e da piedade, o senso do amor fraterno e da comunidade, num jeito que todos compreendiam e, sobretudo, mostrando-lhes que ele vivia pessoalmente o que lhes ensinava. Muitos de nós não sabemos como levar ao povo de hoje o mesmo senso da fé e da piedade, o senso do amor fraterno e da comunidade. Falta-nos a adaptação e a congruência e nisto bem que Frei Bruno é mestre.

Site Franciscanos – Frei Bruno e Frei Galvão são frades que viveram em épocas distintas. Há aspectos comuns e diferenças. Quais o sr. aponta?

Frei Clarêncio – Cem ou cento e cinquenta anos separam os dois santos confrades. Tempos e lugares bem diferentes. Talvez Frei Galvão tenha vivido num tempo vocacionalmente mais difícil. Talvez Frei Bruno tenha vivido num tempo de maior liberdade e clareza pastoral. Mas os dois foram pastores de seu tempo. Os dois encarnaram, cada um em seu tempo, o carisma franciscano. Os dois foram visitadores assíduos das famílias. Os dois foram pacificadores, sobretudo de famílias brigadas. Os dois foram incansáveis confessores e prudentes conselheiros. Os dois passaram à história como homens de grande caridade e por causa da caridade até se bilocaram. Os dois foram homens de extrema confiança na Providência Divina. Os dois foram modelos de obediência sem tergiversação. Os dois foram conhecidos em vida por seu bom senso no julgamento e na tomada de decisões. Os dois eram conhecidos pelo povo como pessoas de muita oração e penitência. Os dois, ainda que muito observantes da clausura, eram incansáveis andantes a pé. Os dois, ordenados cedo, passaram dos 80 anos. Acrescentemos ainda que os dois são considerados pais de congregação feminina dedicada à catequese e ao ensino.

Site Franciscanos – O que representa para a Província este processo de beatificação?

Frei Clarêncio – Penso que em primeiro lugar é um dever de justiça para com toda uma geração de missionários franciscanos alemães, muitos deles mortos em fama de santidade e rodeados do carinho agradecido do povo. Pelo que sei, vários deles podiam ir para o altar com Frei Bruno. Lembraria Frei Januário Bauer, Frei Lucínio Korte, Frei Plácido Rohlf, Frei Rogério Neuhaus, Frei Solano Schmitt, Frei Zeno Wallbröhl, Frei Modesto Blöink, Frei Luís Reinke, Frei Policarpo Schuhen, Frei Domingos Schmitz, Frei Heriberto Behr, esquecendo outros mais novos.

Em segundo lugar, devemos reconhecer que a Província restaurada não fez grandes esforços em beatificar seus filhos. Frei Bruno foi um clamor do povo. Bendito clamor!

Em terceiro lugar, sempre a meu modo de ver, o processo de beatificação de Frei Bruno, que por 19 anos foi modelo do noviciado, pode significar um novo amanhecer vocacional ao lado de um profundo e sério agradecimento a Deus pelo nosso passado.

Em quarto, mas não último lugar, a beatificação de Frei Bruno poderá ou deverá rejuvenescer, aquecer e fortificar nossos compromissos com o carisma franciscano vivido em benefício do povo, sempre em estreitíssimos laços com a Igreja local.

Site Franciscanos – Quantas biografias o sr. já escreveu?

Frei Clarêncio – Se Você estiver pensando nos necrológios que publiquei na Vida Franciscana, acho até que já bati, e de longe, o recorde de eulogista de toda a Ordem. O necrológio do Frei José Luiz Prim, na minha contabilidade, leva o número 186. Escrevi também, a pedido insistente dos paroquianos de Vila Velha, uma biografia de Frei Aurélio Stulzer, que subtitulei “Pai, Irmão, Amigo” e que tem 170 páginas.

Site Franciscanos – A Comissão Histórica, que o Sr. preside, tem ainda outro trabalho?

Frei Clarêncio – Temos, sim, e é o mais delicado. O seguinte trabalho da nossa Comissão será fotocopiar todos os escritos de Frei Bruno, enumerá-los e autenticá-los; fotocopiar tudo o que tem referência a Frei Bruno, incluídas fotografias, enumerar e autenticar; entregar todo esse material ao Tribunal Eclesiástico do Processo, que o encaminhará à Comissão Teológica e à Promotoria. Uma cópia autenticada de todo esse material, que inclui também os depoimentos recolhidos e as atas das sessões realizadas, será encaminhada à Postulação Geral em Roma. Só então será escrita a Postulatio, ou seja, a biografia que será entregue aos respectivos dicastérios da Santa Sé. Esta Postulatio, no caso de Frei Bruno, poderá ser escrita em italiano ou português e tem normas próprias de redação.

Oração pela beatificação de Frei Bruno

Senhor Deus, Vós nos ensinais na Bíblia Sagrada que sejamos santos porque Vós sois Santo. Aqui estamos, ó Pai, felizes por conhecer a vida e as virtudes cristãs do franciscano Frei Bruno, servo de Deus, escolhido por Vós como missionário para revelar vossa ternura de Pai. Pelas pregações e testemunho cristão de Frei Bruno, Vós tocastes os corações. Pelos seus conselhos, pacificastes casais e famílias. Pelas suas cartas, esclarecestes a fé verdadeira de tantos leitores. Pelos seus pés de mensageiro e missionário, em longas e incansáveis caminhadas por vales e montanhas, dialogando com a mãe-natureza, levastes o conforto da palavra às pessoas e comunidades.

Espírito Santo de Deus, Vós sois a fonte da santidade que enriquece a Igreja com novos santos e bem-aventurados. Por isso vos pedimos cheios de confiança: “Dai-nos a alegria de celebrar a beatificação de Frei Bruno, nosso amigo e intercessor”.
Senhor Jesus, animados pela vossa palavra “pedi e recebereis”, e firmes na esperança da beatificação de Frei Bruno, invocamos, neste momento, a graça de que mais precisamos (PEDIR A GRAÇA). Amém!

Pai Nosso. Ave Maria. Glória ao Pai.

Com aprovação eclesiástica.
Dom Frei Mário Marquez, OFMcap
Bispo Diocesano de Joaçaba – SC

CÚRIA DIOCESANA DE JOAÇABA
Av. Santa Teresinha, 69 – 89600-000 – Joaçaba – SC
Fone: (49)35221294; (49)3522-0848
freibruno@franciscanos.org.br

Monumento a Frei Bruno já é marco turístico

O monumento a Frei Bruno foi inaugurado no dia 29 de novembro de 2008, no morro Panorâmico, no Bairro Flor da Serra, em Joaçaba. Com 37 metros de altura, está entre os maiores monumento das Américas. Só para se ter uma ideia, o Cristo Redentor do Rio de Janeiro tem 40 metros. O projeto começou a delinear-se em maio de 2001. Em janeiro de 2004 iniciou-se a montagem das peças.

A estátua foi feita com fibra de vidro, sendo o primeiro monumento a usar esta técnica segundo informações do coordenador do projeto Johnny Dario Bortoluzzi. Ela pesa cerca de 2 toneladas e meia. Durante três anos, o artista plástico Cláudio Silva esculpiu as 24 peças em isopor com base em fotografias de Frei Bruno. Em 2005, começou o trabalho de revestimento com jornal e fibra de vidro, tarefa que demorou cerca de seis meses. A estátua tem uma durabilidade de cerca de cem anos. Retoques de pintura serão necessários a cada cinco anos. A obra teve apoio do comércio local, do poder público municipal e estadual e a generosidade do povo. Do monumento faz parte um museu, um restaurante panorâmico, um mirante e uma loja de lembranças.

O terreno de 1.200 metros quadrados que circunda o monumento foi doado pela família Montenegro de Oliveira. Na imagem, Frei Bruno tem o báculo nas mãos. Ele lembra o pastor no meio do rebanho, figura altamente bíblica. Frei Bruno podia e pode dizer em voz alta e segura como o disse Jesus: “Eu sou o bom pastor e dei a minha vida por minhas ovelhas” (Jo 10,11). No báculo de Frei Bruno está o número 50, lembrando a celebração do jubileu de 50 anos de sacerdócio. O jubileu de 50 em 50 anos, no Antigo Testamento, segundo a ordem de Moisés (Lv 25,9), significava um ano santo, um ano de retorno a Deus, um ano de perdão de todas as dívidas, um ano de restituição de todas as propriedades, um ano de bênçãos especiais da parte de Deus. E era isto que Frei Bruno pregava: retorno consciente a Deus, perdão mútuo, restituição das coisas compradas por usura, bênçãos infinitas da parte de um Deus que ama a comunidade reconciliada.

Em outras palavras, Frei Bruno pregava a pacificação de todos entre si e a pacificação de cada um com Deus. Todos deviam se esforçar para voltarem a ser aquelas criaturas santas, saídas das mãos amorosas de Deus e criadas para serem santas como ele, Deus, é santo (cf. 1Pd 1,16). Então o número 50 no báculo de Frei Bruno, deixa de ser a celebração de um dia, para se tornar um símbolo rico de ensinamentos para todos os tempos.

Já em 1961, Frei Bruno ganhou um busto, fundido em bronze, feito no Liceu de Artes e Oficinas de São Paulo e colocado à direita da igreja matriz de Santa Teresinha, hoje catedral. Tempos depois o busto foi substituído pelo atual, de cimento pintado imitando bronze. A seus pés existe um velário.

Também junto à Catedral de Santa Teresinha pode-se visitar o Museu de Frei Bruno. Nele pode-se ver algumas peças pessoais de Frei Bruno: a boina, o relógio de cabeceira, a bengala (usada no último ano de vida), a cama de seu quarto em Xaxim, o selo comemorativo do cinquentenário da morte, originais de algumas cartas e alguns bilhetes escritos por ele, inúmeras cartas e fotografias de agradecimento recolhidas do túmulo. O Museu conserva também a certidão de nascimento e a certidão de batismo.

Depoimentos durante a Causa

FREI FIDÊNCIO VANBOEMMEL
Ministro Provincial que pediu a abertura da Causa

“Desde que escrevi o documento oficial ‘Libellum Supplicem’, pelo qual suplicava ao Bispo a possibilidade de conduzir a Causa de Frei Bruno, Dom Mário Marquez colocou-se por inteiro nessa causa. E assim que recebeu o ‘nada em contrário’ (“nihil obstat”) da Santa Sé, ele muito se empenhou pela instalação do Tribunal Eclesiástico da Diocese para a Causa do Frei Bruno, bem como acompanhou, qual pastor prudente, todo o trabalho feito nestes quase cinco anos”, agradeceu Frei Fidêncio rendendo graças a Deus por presenciar este momento onde são lacrados os documentos da primeira etapa da Causa do Frei Bruno e entregues aos vice-postuladores que, por sua vez, os encaminharão a Roma, aos cuidados do Postulador da Ordem dos Frades Menores, Frei Giuseppe Califano.

Frei Fidêncio não esconde sua satisfação com os intensos trabalhos do Tribunal Eclesiástico da Diocese de Joaçaba assim como a impecável dedicação da Comissão histórica. “Esta satisfação é maior ainda quando se pensa na história da Restauração da nossa Província. O processo Diocesano pela Causa de Frei Bruno resgatou a memória de um frade que sintetiza a itinerância, o apostolado zeloso, a piedade, o ardor missionário e, sem medo de errar, a santidade de tantos outros frades alemães que, a partir de 1891, restauraram a Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil”, recorda o Ministro Provincial, pedindo orações pela Causa que segue agora para a Congregação para as Causas dos Santos e continuar acalentando o sonho do povo de Deus de poder ver o Processo da Causa de Frei Bruno atingir a meta final, isto é, a proclamação da sua santidade.

“Nesse tempo, enquanto tramita em Roma a Causa do Frei Bruno precisamos orar e interceder a Deus e à sua Mãe Santíssima, a Imaculada Conceição de Maria, pelo bom êxito da Causa”, pediu o Ministro Provincial, que chamou a atenção para não esquecer uma verdade franciscana quando se trata da possibilidade do bom êxito da Causa de Frei Bruno. “São Francisco nos ensinou que os verdadeiros discípulos do Bom Pastor o seguiram em todas as situações: na tribulação, na perseguição, na fome, na sede, na enfermidade, no perigo, na espada e em tudo mais. Portanto, ‘é uma grande vergonha para nós outros servos de Deus, terem os santos praticado tais obras, e nós queremos receber honra e glória somente por contar e pregar o que eles fizeram’ (5ª Admoestação)”.


FREI CLARENCIO NEOTTI
Presidente da Comissão Histórica da Causa

Frei Clarêncio é um dos poucos frades da Província que teve o privilégio de conhecer Frei Bruno, frade franciscano que deixou suas marcas de santidade no estado de Santa Catarina, principalmente no Oeste e no Vale do Itajaí. “Criança de 10 anos ajudei a Missa de Frei Bruno, quando, na Quaresma de 1945 visitou as Irmãs Catequistas em Ribeirão Grande. Voltei a ver Frei Bruno durante o meu noviciado em 1955”, conta Frei Clarêncio, que, no entanto, lembra que conheceu a “grandeza de Frei Bruno” como presidente da Comissão Histórica. “Nessa qualidade, tive em mãos todos os documentos sobre ele ou produzidos por ele ou surgidos em torno dele e de sua fama de santo, depois de sua morte”, observou o frade.

“Eu sabia, pelo conhecimento da vida de São Francisco e de outros santos, que a simplicidade tem uma grandeza que não se mede por metro humano. Sabia também que São Francisco considerava a simplicidade irmã gêmea da sabedoria. Estas duas qualidades em Frei Bruno se destacam muito no levantamento histórico que fizemos. A simplicidade aparece em todos os depoimentos, ora destacada na pobreza de suas roupas ou na frugalidade de sua comida, ora no trato carinhoso e extremamente humano com as pessoas ou no modo de solucionar dificuldades administrativas”, revela Frei Clarêncio.

Quando Jesus começou a pregar na Sinagoga de Nazaré, o povo se perguntava: ‘De onde lhe vem essa sabedoria’ (Mc 6,2). O espanto vinha do fato de eles não entenderem que um homem de família e vida simples pudesse ser tão sábio nas palavras e ensinamentos. Com Frei Bruno aconteceu exatamente a mesma coisa. Não fizera cursos extraordinários, não tinha títulos acadêmicos. Mas tinha simplicidade em abundância, por isso era sábio na opinião e no aconselhamento. De fato, o cultivo da simplicidade gera a sabedoria que, por sua vez, produz o santo”, acrescenta Frei Clarêncio.

Segundo o frade, ao longo do processo se perguntou se Frei Bruno demonstrou em grau heroico a fé, a esperança e a caridade. “Diante de todos os documentos que recolhemos, e tendo-os lido inúmeras vezes, me convenci de que as três virtudes só crescem, se plantadas no canteiro da simplicidade, que também se chama humildade. Duvido que haja alguma santidade que não tenha as raízes na simplicidade”, afirmou Frei Clarêncio.

Como presidente da Comissão Histórica, Frei Clarêncio é autor do livro “Frei Bruno Linden, tudo para todos”, lançado em 2014 por ocasião da Romaria Penitencial de Frei Bruno. Frei Clarêncio, que reside em Vila Velha (ES), onde é Vigário Paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo, é jornalista e escritor.


MICHELLE SELIG
Secretária do Tribunal Eclesiástico

A notária Michelle Selig, de Xaxim, teve essa oportunidade única de conhecer todos os detalhes sobre a vida, as virtudes e a fama de santidade do Servo de Deus Frei Bruno no decorrer do processo diocesano.

“Vivenciei relatos emocionantes sobre a fé de pessoas de diferentes idades, diferentes locais e diferentes etnias que tiveram a oportunidade de conhecer ainda em vida esse sacerdote franciscano que passou pelo mundo fazendo o bem. Fazer o bem e anunciar o Evangelho era o alimento de vida de Frei Bruno. Chorei muitas vezes ouvindo e depois redigindo as falas dos fiéis sobre o espírito de oração presente intensamente na vida de Frei Bruno, a justiça para o próximo sem nunca ter feito alguma forma de distinção e muito presente ainda a caridade para os menos favorecidos, chegando muitas vezes em dar sua própria refeição e seus alimentos para quem estava com fome”, revelou Michelle.

Para ela, presenciar esses momentos de fé, oração, esperança, santidade e simplicidade durante a ‘caminhada do processo’ nestes últimos anos foi um presente de Deus para a sua vida e de muitas outras pessoas. “O trabalho foi árduo, com muitas etapas e procedimentos que deveriam ser vencidos e muitas vezes bateu uma dúvida sobre continuar na caminhada. Todas as vezes que senti esse desânimo rezei para Frei Bruno me iluminar e dar forças para vencermos os desafios. Sempre busquei e busco seu exemplo de vida para me motivar. Pude conhecer seu incansável exemplo de vitalidade, pois mesmo idoso continuava firme e perseverante nas atividades que lhe foram confiadas quando disse sim para o chamado de Jesus Cristo, seguindo o exemplo de São Francisco de Assis e dedicando toda sua vida aos que mais precisavam”, revelou Michelle.

Michelle é graduada em Agronomia pela Universidade do Oeste de Santa Catarina (1998) e fez especialização em gestão escolar pelas Faculdades de Ciências Sociais Aplicadas (2008). Atualmente é secretária acadêmica, pesquisadora e professora da Faculdades de Ciências Sociais Aplicadas (Celer).


IRACI LOPES
Integrante da Comissão Histórica da Causa

Nesses quase cinco anos de trabalho no processo diocesano da Causa Frei Bruno Linden, a historiadora Iraci Lopes conheceu melhor este frade franciscano que deixou suas marcas de santidade no estado de Santa Catarina, principalmente no Oeste e no Vale do Itajaí. Ela fez parte com Frei Clarêncio Neotti da Comissão Histórica.

“O contato com os escritos de Frei Bruno, com os escritos sobre Frei Bruno e com os depoimentos das pessoas que conviveram com ele, foram me dando uma compreensão mais profunda da grandeza da vida deste servo de Deus e da razão porque tantas pessoas o denominam de ‘santo’”, revelou Iraci. “A aproximação com uma vida tão entregue a vontade de Deus, tão dedicada aos mais necessitados e tão empenhada a evangelizar as pessoas e despertar a fé nos corações, dia após dia foi contagiando minha vida despertando em mim o desejo de também trilhar o caminho da santidade, de uma forma simples como ele, sem ostentações, transformando meu jeito de ser e de viver”, acrescentou.

Segundo Iraci, nesse trabalho para trazer viva a memória de Frei Bruno, sentiu que ele continua evangelizando, convertendo e animando através de seu testemunho de vida, a viver as virtudes da fé, da esperança, da caridade e tantas outras como a prática da oração, a humildade, a misericórdia, o perdão, a alegria, a bondade e a fraternidade.

Nesse envolvimento, confessa Iraci, deu para ver a atualidade da vida de Frei Bruno nos nossos dias. “Numa sociedade que presa pelas aparências, ele nos ensina a virtude da simplicidade e da humildade como jeito de ser, de evangelizar, de amar e ser amado pelas pessoas. Todos sentiam-se bem em sua presença, pois ele não se colocava como melhor ou maior do que ninguém, mas sempre a serviço, doando-se sem limites”, constatou.

Para ela, o seu jeito missionário de evangelizar, visitando as famílias, abençoando pessoas, plantações e animais, torna-se muito atual conforme as recomendações do Papa Francisco, que “nos pede que sejamos uma Igreja em saída, que vá ao encontro das necessidades do povo sofrido levando o conforto, a esperança e a fé. Isto nos compromete como agentes de pastoral a rever nossas práticas, nossos métodos e nossas relações em nossas atividades evangelizadoras”.

Segundo a historiadora, foi gratificante e enriquecedor participar da Comissão Histórica e, como tantas outras pessoas, que, com a graça de Deus, Frei Bruno seja beatificado.

Aos 69 anos, a professora aposentada Iraci Lopes exala disposição e contagia os próximos com tamanha disposição. “Nenhuma frente de trabalho parece ser suficiente para cessar o entusiasmo dela em contribuir com o desenvolvimento e bem-estar da comunidade. Na educação, na política, na Igreja e nos movimentos sociais o nome da xaxinense é sempre lembrado como figura valente e de índole inquestionável”, escreveu a jornalista Janquieli Ceruti, do jornal Lê Notícias.

Testemunho de Alcione Weiss

Durante mais de 25 anos, Alcione Weiss trabalhou pela causa de Frei Bruno na hoje extinta Associação Frei Bruno. Natural de Herval d’Oeste, Alcione sempre morou em Joaçaba, onde se tornou devota de Frei Bruno, uma herança que recebeu da família de seu marido, já falecido. Mãe de seis filhos (5 homens e uma menina), Alcione fala da devoção a este franciscano: “A família de minha sogra, Leda Valéria Weiss, conviveu muito com Frei Bruno. O pai dela era alemão e, devido a um derrame, ficou paralítico. Frei Bruno o visitava sempre e também tinha a oportunidade de conversar na língua original deles. Depois que Frei Bruno faleceu, minha sogra passou a divulgar o nome dele. Ela tinha uma oração de Frei Bruno e começou a distribuí-la para as pessoas. Hoje, esse gesto se multiplicou e a devoção cresceu na minha família. Às segundas-feiras, minha sogra e as mulheres do Apostolado da Oração e da Pia de Santo Antônio, que conviveram com Frei Bruno, iam rezar o terço no túmulo do frade. Essa devoção continua até hoje”, conta.

A ex-presidente da Associação Amigos de Frei Bruno participou de todas as Caminhadas. Alcione não quer saber de férias quando se trata de divulgar aquele que para ela e sua família é um santo.

Apresentação da 30ª Caminhada em vídeo