Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Cruz e cruzes

03/01/2022

                                                                                     Imagem: Igreja da Diocese de Lund, na Suécia (Wikipedia, domínio público)

Pe. Ademir Guedes Azevedo

A história humana é, inegavelmente, marcada pela Cruz e pelas cruzes. A Cruz remete para a existência de Alguém que oferece o caminho da humanização. Alguém que viveu com intensidade, fiel a uma causa. Apesar de ter se confrontado com a normalidade da violência de um império, não desistiu de levar a cabo a sua missão, aquela de sarar as feridas, de aliviar os fardos e de mostrar o caminho de uma vida plena. E a Cruz Dele tornou-se um lugar-experiência irrenunciável para quem almeja assumir o seu estilo de vida. A Cruz de Jesus é a fonte inesgotável do poder-serviço, do perdão imerecido, de uma humanidade plena e de um amor universal. Essa Cruz pode, sim, restaurar o mundo e dar sentido ao desespero humano que busca um sentido.

No entanto, existem as cruzes. São responsáveis pela injustiça, a perseguição, o poder irresponsável: se inserem no mistério do sofrimento e se enraízam lá onde o mau pode se alastrar como erva daninha. As cruzes são causadas devido à ganância do ser humano e por causa de desejo mal-intencionado de pôr-se no centro de tudo à custa das vidas inocentes. Estão espalhadas e fincadas em todas as partes: sob os viadutos, nas ruas, periferias, na dor existencial da classe média, no fechamento das fronteiras, na irresponsabilidade com a política. Enfim, o lugar privilegiado onde as cruzes são plantadas sem qualquer escrúpulo é o porão da humanidade, onde está o resto indesejado, a massa podre e o escuro da solidão. Daqui ecoam os gritos sufocados, sem articulação de palavras, sem uma verbalização da dor, pois a muito se perdeu a capacidade de usar a linguagem para sinalizar o socorro que tanto imploram.

As cruzes são, sem dúvida, a criação que geme e grita por dias melhores. Sem a Palavra que penetra as inteligências, as vítimas das cruzes da história, representam a estética do feio que não atrai por suas belas formas, mas geram repulsa e escárnio. Mas vivem, na própria carne, a Paixão do Senhor e se transformam numa parábola que narra o lado obscuro do ser humano, ou seja, mostram – sem nada dizer – até onde o ser humano pode aflorar sua bestialidade e perder sua dignidade. As cruzes são, portanto, o ser corrompido, a carência do bem, o irracional, tudo aquilo desprovido de verdade e de belo.

No entanto, as cruzes adquirem um novo significado na Cruz de Jesus. Todo o sofrimento causado é combatido com resiliência e esperança. As noites frias do porão são aquecidas com uma presença compassiva, marcada por mãos e rostos concretos. A Cruz de Jesus é a mensagem mais perigosa e subversiva de toda a história. É perigosa: revela os mecanismos que estão por trás das formas desumanas. Desmonta a máquina de produção daqueles que vivem à custa de sangue inocente. Põe em crise as seguranças, a sede de poder tirano, a rotina de bem-estar dos que se acostumaram a viver sufocando vidas inocentes. A Cruz de Cristo é tão perigosa que, mesmo aqueles que a usam como símbolo religioso, são atormentados à noite no reclinar da cabeça sobre o travesseiro, quando a consciência deles acusa que não cumpriram o dever de modo justo, quando sabem que mentiram para ganhar proveito à custa de gente simples e ignorante. Por isso, o perigo da Cruz tem alcance moral cada vez que penetra o profundo da consciência e a corrige, convidando-a a tomar o caminho da verdade.

Mas a Cruz de Cristo, ao combater as cruzes, também é subversiva. Jesus trouxe ao palco aquela camada da sociedade que não tinha o direito a desfrutar de uma vida mínima, ou seja, trouxe à luz aqueles que acreditavam que viver não valia a pena. Para Jesus, a Cruz não confirma a política e a religião reinantes, era claro para ele que estas não eram fiéis à vontade de seu Deus. Por isso, Ele dá um aspecto messiânico à existência, ou seja, debruça-se sobre o sofrimento alheio e combate-o a partir de gestos e ações de compaixão e misericórdia. Esta atitude messiânica de Jesus diante das vidas anônimas e ocultas que foram relegadas ao esquecimento, não aprimora nem aperfeiçoa a política de César nem a religião de Caifás e Anás, mas as destrói pela raiz!

Hoje, num tempo de inúmeras cruzes, onde somos obrigados a ouvir constantemente a melodia de gritos sufocados e a contemplar uma paisagem de sofrimento humano que nos causa horror e vergonha do que nos tornamos, seria bom retomarmos a Cruz de Cristo em seus aspectos de perigo e subversão, pois é só assim que Deus poderá nos resgatar do inferno que entramos.

Pela Cruz, a vida!


Pe. Ademir Guedes Azevedocp, é missionário passionista e mestre em Teologia Fundamental na Pontifícia Universidade Gregoriana. Atualmente reside em Camaragibe – PE, no Seminário para a etapa do Postulantado dos Passionistas.

Download Premium WordPress Themes Free
Download Nulled WordPress Themes
Premium WordPress Themes Download
Premium WordPress Themes Download
udemy course download free
download redmi firmware
Download WordPress Themes
online free course

Conteúdo Relacionado