Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Com a clericalização, perda da centralidade da comunidade

14/08/2018

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A urgência da consolidação do binômio comunidade-carismas/ministérios para a emergência de sujeitos eclesiais

Frei João Reinert, ofm

A Igreja nascente estava estruturada, sociológica e teologicamente a partir daquilo que Yves Congar, seguido por Bruno Forte, irá mais tarde classificar com o binômio comunidade-carismas/ministérios. Ainda nos primeiros séculos do cristianismo essa estrutura eclesiológica deu lugar, progressivamente, a outra, distanciando-se, assim, do espírito que animava as comunidades primitivas. Trata-se do binômio, também elaborado por Congar, clero-leigo.

O Concílio Vaticano II se coloca no caminho da volta às fontes da vida cristã. Nesta perspectiva, muito significativo é o esquema da constituição dogmática Lumen Gentium, em que o capítulo sobre o Povo de Deus antecede o dos leigos e o da hierarquia, evidenciando, dessa forma, que antes de quaisquer vocações, ministérios, serviços, consagrações, todos somos Povo de Deus, sujeitos e protagonistas eclesiais. Não obstante tamanha inovação do último Concílio, consolidar o paradigma comunidades-carismas/ministérios é missão ainda não concluída, que requer um longo caminho de conversão eclesiológica, estrutural e, sobretudo, mental.

A primeira observação a ser feita em relação aos dois paradigmas em questão é que não está em discussão o uso ou não uso dessas terminologias, embora a linguagem nunca seja neutra. Não se trata de abolir os termos clero e leigo, o que seria combater as consequências e não as causas das desigualdades eclesiais. O problema é, antes, de pressuposto e não de vocabulário, de mentalidade e não de linguagem. Os dois paradigmas apontam para duas eclesiologias distintas, com perspectivas opostas, com olhares diferentes, em muitos aspectos inconciliáveis entre si. Os enfoques são distintos, o lugar a partir de onde se vê a Igreja, de onde se vê o padre, o religioso, o leigo e onde esses se veem, também são distintos nesses dois paradigmas.

O Concílio Vaticano II foi feliz ao pensar os fiéis não a partir da oposição ou daquilo que distingue, mas a partir do que é comum à totalidade do povo de Deus, ou seja, o batismo, o sacerdócio comum, situação bastante diferente daquela desenhada a partir do século III em que as duas classes, clero e leigo, até então inexistentes, foram entendidas a partir da negação e subordinação, ou seja, o leigo é o não clero. Enquanto que o binômio clero-leigo, síntese da eclesiologia de toda a cristandade, parte do que distingue o binômio comunidade-carismas/ministérios tem como ponto de partida o que é comum a todos, portanto, a igual dignidade de cada fiel, de onde emerge a valorização das diferenças.

Importante é perceber as consequências eclesiológicas e pastorais desses dois paradigmas que acompanham a organização eclesial, o ser e o fazer da Igreja ao longo de sua história. Discutir esses dois modelos de ser Igreja é premente. Apontar os obstáculos de um e as potencialidade de outro é fundamental para uma Igreja toda ela edificada por sujeitos/protagonistas eclesiais. São duas eclesiologias, dois modos de ser Igreja, presentes nas opções pastorais, nos relacionamentos eclesiais, no exercício da autoridade, no administrar, no coordenar, na compreensão de obediência eclesial, no jeito de ser frade, no modo de viver a vocação cristã e franciscana. Enfim, estão presentes, ou um ou outro paradigma, no pensar e no agir da evangelização.

O paradigma clero-leigo concebe as relações eclesiais a partir da distinção, e não da igualdade, conforme anteriormente já mencionado, e nessa distinção sobressai o sujeito-clero. Em última instância, é ele que age ‘in persona Christi’, é visto como ‘alter Christus’, tem o poder sacramental. Ordenado pela imposição das mãos para o serviço, não poucos se servem dessa prerrogativa para sustentar o poder, e o que é pior, o poder arbitrário, fortalecendo um perfil de Igreja imperial.

Trata-se, portanto, de um paradigma, de um jeito de conceber a Igreja, que reforça a passividade do leigo, que não raro se entende como mero receptor da ação sacramental do clero. Esse modo de compreender o leigo e o padre, e de se autocompreenderem, influenciou a qualidade das comunidades cristãs desde tempos remotos, gerando relações de desiguais. Nessa estrutura mental, os leigos são incapazes de ensinar, de gerir, de discernir, de conduzir os assuntos eclesiais.
O paradigma pré-conciliar é dualista, pois à medida que distingue por demais clero-leigo, dificultando uma visão comunitária orgânica, se dá margem ao dualismo sagrado-profano, céu-terra, temporal-espiritual. Clero são os ministros sagrados, vida religiosa é o estado de perfeição evangélica. E os leigos, qual seria sua real identidade teologal? Não seriam cristãos de segunda categoria, nessa supervalorização da vida monacal, religiosa e sacerdotal?

Conceber o laicato a partir da eclesiologia clero-leigo significa entrar pelos caminhos da delegação, e não da co-responsabilidade, da permissão, não da complementaridade, da suplência, não de parceria, da deliberação, não da colegialidade.

Oprocesso de construção de sujeitos/protagonistas eclesiais tem passagem obrigatória no avanço das instâncias de planejamento, participação, comunhão e decisão da vida e missão da Igreja. Antes de ser uma estratégia em vista da eficácia pastoral ou administrativa, as instâncias participativas são expressões de uma igreja sinodal, que caminha junto, evangeliza junto, reflete junto e, por que não, que decide junto? Tornam-se cada vez mais insustentáveis diante da atual cultura sedenta de democracia e participação, as decisões da paróquia ou da diocese dependerem de uma só ou de poucas pessoas, que pretensiosamente julgam possuir todas as habilidades ou informações necessárias para tomar as decisões. Não se pode subestimar o fato de outras pessoas verem com mais clareza certos desafios e ‘soluções’ por estarem mais próximas dos problemas reais.

Enquanto a eclesiologia clero-leigo gera comunidade de desiguais, comunidade hierarcológica, isto é, valorização incisiva na hierarquia (Congar), o paradigma comunidade-carismas/ministérios é o espaço teologal que cria as condições para o protagonismo de todos, para o surgimento de novos carismas, novos ministérios, novas espiritualidades, novos atores e sujeitos. Subjaz, portanto, no paradigma das origens da fé cristã outra compreensão de ministros e ministérios, sejam ordenados ou não. Do ministério ordenado emerge uma visão mais comunional, chamado a ser ‘ministério de síntese e não síntese dos ministérios’. O centro não é a hierarquia ou os ministros, mas a comunidade toda ministerial.

Comunidade é o sujeito eclesial coletivo; é comunidade de dons, carismas, ministérios e serviços.

Quando se consegue pensar o sacerdócio ministerial a partir da pluriministerialidade não haverá maiores dificuldades para o laicato sentir-se igualmente protagonista da missão. Por outro lado, enquanto se pensarem os ministérios laicais a partir do clero, não se superará a submissão eclesial ainda reinante. Como exemplo dessa problemática, citemos os assim chamados ministérios de suplência (extraordinários): não há dúvida de que eles são estruturados a partir da estrutura paradigmática clero-leigo. Trata-se de uma relação eclesiológica mais de substituição do que de co-responsabilidade. Na cabeça de muitos cristãos, os diversos serviços da Igreja situam-se no horizonte da ajuda ao padre que humanamente é incapaz de fazer tudo. A fundamentação da ministerialidade não pode ser a ausência/escassez do clero, mas o Espírito Santo que suscita pessoas e dons a serviço do Reino. Outro perigo de conceber os ministérios, dons, carismas e serviços a partir da expressão sacerdotal-sacramentalista é a clericalização desses mesmos ministérios e carismas.

Somente a consolidação do paradigma comunidade-ministérios-carismas será capaz de acolher e promover novas concretizações ministeriais, de acordo com a realidade cultural e como resposta às necessidades locais e contemporâneas. Esse paradigma remete à coragem de pensar em novas formas de atuação dos batizados, sem medo de distinguir o que é cultural e o que é teológico, como, por exemplo, a questão do celibato, a presença da mulher nas decisões da igreja, o diaconato feminino. Esses exemplos mostram que a Igreja do primeiro milênio não teve dificuldades de se organizar de acordo com as necessidades do tempo, quando ainda não estava presa ao paradigma clero-leigo.

O clericalismo, portanto, se converte em pecado eclesial estrutural à medida que, não somente centraliza a ação eclesial nas mãos de uma casta, sobretudo porque impede as manifestações do Espírito que sopra onde e como quer. Enquanto que na eclesiologia clero-leigo sobressai a hierarquia, gerando no grande corpo eclesial passividade e expectadores, na eclesiologia comunidade-carismas/ministérios sobressai aquilo que de melhor cada um tem a serviço da comunidade e do Reino. A história do cristianismo testemunha o prejuízo comunitário diante da clericalização em que a Igreja entrou, sobretudo a partir do segundo milênio. Com a clericalização veio a perda da centralidade da comunidade. Importa perceber que esse binômio não está introjetado apenas na mente de um considerável grupo de padres e bispos. Faz-se presente na vida religiosa, nas novas comunidades, nos vocacionados, nos leigos. São muitas e fortes as expressões do neoclericalismo.

Na vida religiosa, a qualidade da vida fraterna está em estreita relação com desclericalização. Aí está também a fidelidade ao carisma franciscano. Não é difícil perceber que a eclesiologia e a vida franciscana fundamentam-se no paradigma comunidade-carismas/ministérios, ou então fraternidade-irmãos/menores. Fraternidade é, para Francisco, uma das marcas essenciais dos irmãos. Que os irmãos vivam em fraternidade é seu desejo. A palavra irmão aparece 242 vezes em seus escritos. Ele não quis fundar uma Ordem, mas uma fraternidade de irmãos menores. O paradigma comunidade-carisma/ministérios da igreja primitiva, e resgatada pelo Vaticano II, e o paradigma de Francisco fraternidade-irmaos/menores são dois lados de uma mesma eclesiologia, de uma mesma forma de vida cristã, o que significa que os franciscanos de todos os tempos e lugares têm muito a oferecer para a superação da eclesiologia clero-leigo.

Enfim, repensar o paradigma clero-leigo não significa mudar a nomeclatura, mas superar alguns obstáculos para a construção de novos canais de relacionamentos eclesiais, centrados na pluriministerialidade e na colegialidade, sem as quais não haverá uma Igreja de sujeitos/protagonistas. A partir desse processo de ressignificação das relações, dos enfoques e dos pressupostos eclesiológicos os termos leigo e clero terão outra entonação e renovada identidade. O leigo não será o não padre, mas homens e mulheres de fé, cientes de sua missão e de seu protagonismo na Igreja e na sociedade.


Frei João Reinert é mestre e doutor em Teologia pela PUC-Rio. Natural de Gaspar (SC), é pároco na paróquia Santa Clara de Assis, em Duque de Caxias (RJ); faz parte do corpo docente do Instituto Teológico Franciscano (Petrópolis) e é autor de “Pode hoje a paróquia ser uma comunidade eclesial? Repensando a paróquia em diálogo com a religiosidade pós-moderna” (Vozes) e “Paróquia e iniciação cristã” e “Inspiração catecumenal e conversão pastoral” (Paulus).

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