Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

A fúria soberanista contra Francisco

14/10/2019

Os lugares falam. Luxuosos, discretos, com o constante chamado à Europa das armas e dos cavaleiros. Prédios elegantes, conventos medievais e castelos encastoados no interior da província francesa, onde você respira o ar da guerra da Vendeia. O mundo da facção anti-Bergoglio faz questão dessa aparência de Ancien régime. Uma frente onde a riqueza se torna uma força de propaganda, com doações – confidenciais – prontas para serem investidas em ouro e imóveis. Eles têm cardeais de referência, como Raymond Leo Burke, estadunidense vindo da província que sempre esteve na vanguarda do mundo teocon próximo de Donald Trump. Os lugares, portanto.

O comentário é de Andrea Palladino, publicado por L’Espresso, 06-10-2019. A tradução é de Luisa Rabolini (http://www.ihu.unisinos.br).

Existe um triângulo geopolítico a partir do qual começar a entender a guerra que o mundo reacionário e soberanista está liderando contra a Igreja do Papa Francisco. Um vértice está na Itália, com Roma como evidente epicentro. Não apenas a Cidade do Vaticano, mas uma série de fundações, associações, grupos desconhecidos para a maioria – mas em condições de mobilizar nomes que contam – espalhados entre o Aventino e os palácios Liberty do bairro Trieste.

Há os Estados Unidos, onde Trump é o último chegado naquela estranha aliança que La Civiltà Cattolica – a revista da Companhia de Jesus – definiu de “ecumenismo do ódio”. Redes de TV, rádios, escolas exclusivas, sites de sucesso, onde o verbo do catolicismo integralista se une e se funde com a infinita série de igrejas evangélicas. Aqui, em primeiro lugar, o que conta é a riqueza, o sucesso pessoal, o american way of life completo. Você é o que você ganha.

E por fim, o terceiro vértice, o Brasil de Jair Bolsonaro, hoje no centro das atenções. O Sínodo Pan-Amazônico (6 a 27 de outubro) é o local do confronto final. Aparentemente, por algumas passagens contidas no documento preparatório, o Instrumentum laboris, que lembra algumas teses defendidas pela parte progressista da conferência episcopal alemã (a possibilidade de ordenar padres idosos com família, reconhecidos pelas comunidades indígenas locais e uma maior abertura às mulheres). Mas o cerne, a questão-chave é outra completamente diferente. Diz respeito à proteção integral do meio ambiente – que na visão do Sínodo se une ao desenvolvimento humano – a luta pela democracia, a guerra contra a corrupção. E a opção preferencial pelos pobres. Uma visão “progressista” – na verdade evangélica – que se torna insuportável e perigosa para a frente hiper liberal mundial. Entre Europa, EUA e América Latina.

Tradição, família e propriedade
“O Cardeal Burke esteve nesta sede nem sei quantas vezes, celebrou Missa aqui, não sei se viu o altar ali atrás …”. Julio Loredo mostra a pequena capela escondida atrás de duas portas de correr na sede da associação Luci sull’Est, no coração de Roma. Nascido no Peru, cidadão espanhol, chegou à Itália em 1994, Loredo é o presidente da seção italiana da poderosa e antiga fundação Tradição, Família e Propriedade – TFP. Fundada em 1960 no Brasil por Plinio Corrêa de Oliveira, a TFP foi o principal lobby a inspirar o golpe militar em Brasília e no Rio, em 1964. Tem uma verdadeira obsessão: a defesa dos grandes latifúndios e a luta incansável contra as reformas agrárias. Os membros da TFP gostam de se definir a maior rede anticomunista e antissocialista do mundo. Coisas sérias e certas. Quando, em 1987, a Constituinte brasileira, eleita após os vinte anos de ditadura militar, estava elaborando a carta fundamental atualmente em vigor, a Tradição, Família e Propriedade conseguiu – com um intenso trabalho de pressão – bloquear o princípio da redistribuição de terras.

O vínculo com o cardeal Burke é antigo, Loredo assegura: “Nós o conhecemos desde que ele era bispo de La Crosse, somos amigos desde sempre”. Também intimamente ligado à associação é o bispo de Astana Athanasius Schneider, que com Burke assinou a carta contra o Sínodo pan-amazônico publicada em 24 de setembro passado, onde acusam o atual pontificado de “confusão doutrinal”: “Também o conhecemos desde quando ele era um seminarista, nós o vimos se formar”.

Ouro e castelos. Com o rosário nas mãos
A Tradição, Família e Propriedade do Brasil ampliou o campo de influência e recrutamento – principalmente entre os muito jovens – em 28 países. Não objetiva ter um número elevado de seguidores, mas criar redes de influência sobre os governos para temas típicos da internacional soberanista. Família tradicional, luta contra gênero e aborto, é claro. Mas também um programa político claro: “Nossas batalhas foram contra a linha do presidente Carter em favor dos direitos humanos, contra a teologia da libertação, contra o ambientalismo e o pacifismo”, declara o site estadunidense. E hoje em Washington, a TFP tem sessenta funcionários, setenta e cinco voluntários em tempo integral e US $ 14 milhões em doações, que quase dobraram nos últimos cinco anos. Dinheiro que em parte investe na compra de ouro, como consta nos balanços dos últimos anos. E em uma quantidade industrial de rosários a serem mostrados – no estilo Salvini – em manifestações públicas: um lote de um milhão de dólares chegou de Giussano, na província de Monza e Brianza. Na Europa, podem contar com um tesouro acumulado graças a doações discretas e confidenciais.

Na região de Moselle, na França, na pequena cidade de Creutzwald, localiza-se a luxuosa vila La Clarière, que hospedou as conferências do cardeal Walter Brandmüller, outro ponto de referência da frente que se opõe ao papa Francisco. Adquirida em 2003 e completamente restaurada, foi inaugurada em 2006 pelo cardeal Jorge Arturo Estévez Medina, conhecido como “cardeal Pinochet”, devido à sua proximidade com o ditador chileno (“rezo por ele todos os dias”, declarou ele no final dos anos 1990). Aqui tem sede da Federação para a Civilização Cristã, um think tank fundado em 2010 que por alguns anos atuou como um lobby em Bruxelas, o centro de uma densa rede de associações, da Itália à Polônia, da Alemanha à Bélgica.

A influência russa no nome do Congresso de Viena
Na Itália, um importante papel dessa área é desempenhado por Roberto de Mattei, historiador do cristianismo que tem laços antigos com o mundo da Tradição, Família e Propriedade. Antievolucionista, antigays, convicto de que os “desastres naturais são, eventualmente, exigência da justiça de Deus”, é um dos protagonistas da guerra contra Bergoglio, na linha de frente ao antissínodo. Em 28 de setembro, ele organizou um flash mob em Castel Sant’Angelo, chamado “Acies ordinata”, propondo uma oração contra “os maus espíritos da Amazônia”. Ele é líder da Fundação Lepanto, com sede em Roma, no complexo medieval de Santa Balbina, de propriedade do Ipab Santa Margherita. Mas ele também tem um endereço em Washington, sinal de laços estreitos com os teocon: “Mais do que uma sede, temos muitos amigos nos Estados Unidos”.

Então fé atlântica, é claro. Mas em maio de 2014, de Mattei também foi convidado a Viena para uma reunião, destinada a permanecer em segredo, organizada pelo oligarca russo Konstantin Malofeev. Entre outros, estavam presentes Marion Maréchal-Le Pen, então líder do Partido da Liberdade Austríaco Heinz-Christian Strache e sempre presente filósofo Aleksandr Dugin, o mais amado pelos soberanistas: “Estavam presentes também parlamentares italianos, mas foi um encontro confidencial e eu não gostaria de violar a privacidade deles”, diz ele. Ele foi convidado como historiador, o tema era o bicentenário do Congresso de Viena: “Mas imediatamente me senti desconfortável, minhas ideias são antitéticas às de Dugin”. Segundo de Mattei, aquele encontro tinha um objetivo claro: “Na minha opinião, há uma manobra da Rússia de infiltração no mundo tradicional e conservador europeu. Em relação a alguns partidos políticos, começando pela Liga, e os movimentos pró-vida. Parece-me que a Rússia está desempenhando o papel que a CIA teve nas décadas anteriores”.

E a influência atlântica hoje? “Nos Estados Unidos, são os movimentos pró-vida que condicionam a política, enquanto na Rússia acontece o contrário, é a política que condiciona”. A antiga cortina de ferro tornou-se fluida. Mas o objetivo é o mesmo: parar o impulso reformador do papa Francisco.

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