Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

“Eu vos darei um coração novo!” (Ez 36, 26); Valeu a pena a sua profecia, Ezequiel?

21/08/2026

O texto sobre o qual vamos refletir hoje é sobre Ez 36,23-28. Trata-se da profecia de Ezequiel, um jovem de família sacerdotal, que conheceu a dor do Exílio na Babilônia, onde foi chamado por Deus para agir como profeta em 593 e atuando até 572 a.E.C, quando foi assassinado. É dele a profecia: “Eu vos darei um coração novo e porei um espírito novo dentro de vós. Arrancarei do vosso corpo o coração de pedra e vos darei um coração de carne” (Ez 36,26-27). Qual o significado dessa profecia para nós, hoje?

Cada profeta, uma denúncia, uma solução e uma esperança. Não é possível enquadrá-los em um mesmo esquema. Cada profeta, atento aos problemas da sua sociedade, o que lhes era peculiar, soube, com base nas propostas da aliança feita com Senhor, apresentar uma solução. Cada profeta bíblico vive um momento histórico diferenciado. Por isso, eles divergem na leitura da realidade e das soluções apresentadas. A história incorpora essa realidade. Todo projeto por eles apresentado analisa a realidade, critica-a e projeta uma esperança. Ao negar a esperança, paradoxalmente o profeta cria esperança. Essa nasce de uma realidade de morte e de injustiça. O povo toma consciência da situação e cria algo de novo. A esperança é, pois, realista e condicionada ao Deus que liberta. Onde não tem justiça, também não tem paz.

Ezequiel, filho do sacerdote Buzi, é considerado um profeta visionário. Ele era casado. Sua esposa faleceu no cativeiro da Babilônia (atual Iraque). Ali, Ezequiel viveu junto do rio Cobar (Ez 1,1), próximo à cidade de Nipur, entre os rios Tigre e Eufrates (Ez 3,23).  Ele recebeu o chamado para ser profeta, em 592 a.E.C., junto ao rio Cobar.

O exílio na Babilônia (597 a 536 a.E.C.) foi um dos períodos mais difíceis para o povo judeu. Foram quatro deportações do Reino de Judá para a Babilônia. Ezequiel, ainda que estivesse exilado, alimentava a esperança de poder voltar para a sua pátria. Entretanto, percebeu que isso não era mais possível, pois Jerusalém havia sido arrasada pelo rei Babilônia, Nabucodonor. 

Exilado com seu povo, Ezequiel sentiu o chamado para ser profeta. Ele fez várias denúncias, dentre elas, os tribunais com juízes que agem por suborno (Ez 22,12), promulgando sentenças criminosas (7,23); a idolatria (18,5); o roubo (18,7.12.16.18; 22,29); o luxo e riqueza como fruto da opressão do próximo (22,12); a ânsia por enriquecimento (33,31); os chefes (22,27), reis (34) e autoridades (22,6) etc. 

Para Ezequiel, o Senhor julgará o seu povo (39,21-29), no “Dia do Senhor” que será de ira (22,24). Para o seu povo, ele propõe e sonha com a purificação dele com consequente recebimento de um novo coração e um novo espírito (11,19). Ezequiel acredita que a intervenção do Senhor criará novo céu e uma nova terra, pois dará ao ser humano um coração novo, e porá o seu Espírito no íntimo de cada um. Uma “Nova Aliança” será feita com o povo (36, 26-28). Nisso está a sua esperança: um coração novo para novas relações!

Na Bíblia há várias citações do substantivo coração. Ele aparece 853 vezes. A Bíblia diz que o povo tinha o coração indócil (J 5,23); o Faraó do Egito era de coração duro (Ex 7,14); mudar de vida é rasgar o coração (Jl 2,13); o judeu é chamado a ter um coração puro (Sl 51,12); Jesus é manso e humilde de coração (Mt 11,24-30). 

Coração é, na Bíblia, a sede da razão, da decisão, mais do que sentimento. Deus, fonte de conhecimento, colocou a lei no nosso coração (Jr 31, 3.33) para que possamos decifrá-la e vivê-la. A falta de razão das lideranças judaicas e romanas crucificaram Jesus na cruz. Nela, Jesus teve o coração dilacerados por anônimos soldados que representavam o poderoso Pilatos, de coração duro e mãos impuras, as quais foram lavadas com o sangue de Jesus.  

Olhando para a história do profetismo bíblico poderíamos nos perguntar pela validade da crítica profética. Valeu a pena profetizar? Por que tanta denúncia se nada mudou? As sociedades continuam injustas nas suas estruturas. Todos continuam o sonho de outro mundo possível! É, parece ser essa a sina do ser humano. Assim como nos tempos bíblicos, basta um grupo assumir o poder que ele acaba caindo também em corrupção. A esperança de um povo se vê traída.

A profecia valeu a pena porque a palavra profética deu fruto ao longo da história. A profecia continua sempre atual. A esperança profética não pode morrer. A esperança é a gasolina de todo e qualquer ser humano. Quem perde a esperança deixa de viver. Mesmo que as estruturas não mudem, não podemos deixar de esperar num outro mundo possível. Homens e mulheres novas renascem a cada dia. E mesmo que eles envelhecem e voltem para o nada, há de se esperar sempre.  

A palavra e força se unem na ação profética.  O sonho de um coração de carne, razão e sentimento integrados, não pode morrer. Uma palavra bem-dita derruba barreiras, alimenta sonhos, impulsiona a esperança. Ela não dá a casa pronta, o pão, mas ensina com buscá-lo. Uma palavra maldita põe tudo a perder. Ela destrói esperanças. A palavra profética é sempre bem-dita. Por isso, ela é eterna, no sonho e na conquista. Já dizia, o eterno profeta Dom Helder Câmara, morto em agosto de 1999, “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista”. Temos que esperar sempre! Temos que ser profetas sempre, mesmo que o tempo não seja para tanto. 


Frei Jacir de Freitas Faria é Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (PIB). Professor de Exegese Bíblica há três décadas. Presidente da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Professor de exegese bíblica EaD e no Seminário Sagrado Coração de Jesus. Referência no Brasil na pesquisa da literatura apócrifa do Segundo Testamento. Autor de treze livros e coautor de dezessete. Oferece curso on-line sobre a Bíblia Apócrifa. Disponível em: www.bibliaapocrifa.com Última publicação: Bíblia Apócrifa: Segundo Testamento (Vozes, 2025). São 784 páginas com a tradução de 67 apócrifos do Novo Testamento. Canal no Youtube: Frei Jacir Bíblia e Apócrifos. https://www.youtube.com/channel/UCwbSE97jnR6jQwHRigX1KlQ  No Instagram e Tiktok @freijacir.
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