Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Permanecer humanos

11/06/2026

Permanecer humanos

O Papa Leão XIV, em sua primeira Carta Encíclica, interpela a humanidade apresentando a decisiva escolha que o mundo contemporâneo precisa fazer: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos. O desafio é a tarefa própria deste tempo, e todos são chamados a cumpri-la respeitando a herança recebida de antepassados que, à sua época, contribuíram com o avanço da história, promovendo a fraternidade, a salvaguarda da dignidade de cada pessoa e a justiça. Especialmente na atualidade, acentua-se o contraste entre o desenvolvimento tecnológico-científico e retrocessos civilizacionais, um mundo cada vez mais desumano e injusto. O apelo forte deste tempo é justamente o de permanecer mais humano, de reconhecer a magnífica humanidade, criada por Deus.

Partir da compreensão de que a humanidade é obra de Deus ajuda a refletir sobre a relação do homem com a técnica e a revolução digital. O Papa Leão XIV afirma que a tecnologia pode curar, conectar, educar, cuidar da Casa comum; mas pode também dividir, descartar e gerar novas injustiças. Pode a tecnologia ser solução para problemas da humanidade, contudo preste-se atenção: ela não é neutra, tem o rosto daqueles que a engendram, financiam, regulam e utilizam. Relevante no processo de discernimento, sublinha o Papa, não é apenas um “sim” ou um “não” ao desenvolvimento tecnológico, mas saber reconhecer o que leva, ou não, a uma nova Babel. Seguir na direção da Babel é arriscar-se a cultivar um poderio que simplesmente rifa, facilmente, a convivência fraterna. Essa escolha perigosa é induzida pela idolatria do lucro que impõe sacrifícios aos mais fracos. São ainda sinais de que se caminha para uma Babel a imposição de uma uniformidade que anula as diferenças, a pretensão de uma linguagem única, mesmo em âmbito digital. Esses processos de desumanização evidenciam o distanciamento de Deus e a redução do semelhante a um simples meio para se conquistar alguma coisa.

Reconhecer o valor do trabalho, valorizando a cooperação de cada pessoa, é a escolha acertada para garantir segurança a todos. De modo especial, os cristãos são convocados a orientar, sempre mais, as suas ações a partir de Deus, garantia de que o pluralismo não se dispersa na desordem. Assim, os cristãos testemunham a corresponsabilidade essencial às relações, ajudando a humanidade a encontrar seus sólidos alicerces e a sua verdadeira finalidade. O ensinamento da Igreja Católica aponta, pois, para o compromisso com a construção do bem comum, edificado sobre a “rocha” da relação com Deus. É o caminho que permite reconhecer as fragilidades e os limites da humanidade. Assim, evitar o risco de se buscar metas enganadoras, dentre as quais a possibilidade de superar toda fragilidade humana apenas com o avanço tecnológico, ou ambicionar formas de bem-estar que exijam a imposição de sacrifícios a povos inteiros.

A necessidade de se construir um mundo onde todos possam florescer, fruto de corajosa corresponsabilidade, é sublinhada pelo Papa Leão: todas as pessoas, das mais fortes às mais frágeis, são chamadas a contribuir com essa construção, pois a corresponsabilidade é o principal caminho para fazer crescer a estabilidade, a prosperidade e a paz. Os processos de crescimento e as muitas conquistas possíveis devem contribuir para que todos permaneçam humanos, salvaguardando com amor a magnífica humanidade. Adverte sabiamente a Carta Encíclica que, neste tempo de Inteligência Artificial (IA), quando a dignidade de muitas pessoas corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, é preciso investir para que todos possam “permanecer humanos”. Isto significa que o verdadeiro progresso se constrói na medida em que os corações são abertos um ao outro, com disposição para ouvir o semelhante, procurando mais o que une, ao invés de se buscar o que gera distanciamento.

Há de se ter cuidado com a assombrosa cultura do poder que se revela de variadas formas, conforme mostram as muitas guerras com suas consequências graves para a dignidade humana. Sublinha o Papa: tem sido evidente que a técnica, dissociada da ética e da responsabilidade, vem tornando cada vez mais rápida e impessoal a decisão sobre a vida e a morte. A opção imediata pelo uso da força desconsidera que a paz não é simplesmente um bem entre outros, mas condição inegociável para o bem comum. E considere-se que são muitos os tipos de conflito, de se operar a guerra. Além do uso das armas convencionais, convive-se com ataques cibernéticos, manipulação de informações, campanhas de influência e automatização de decisões estratégicas. Há de se refletir sempre mais sobre essa realidade, passo indispensável no desafio de permanecer humano e não se embrutecer.

São muitas e qualificadas as lições da recém-publicada Carta Encíclica do Papa Leão XIV, inspirando uma racionalidade humanizada, escolhas lúcidas que priorizem a vida. Dedicar-se à meta de permanecer humano é o único caminho para se evitar o risco de investir na construção da torre de Babel, que remete à confiança cega no poder e no orgulho. Abrir-se às lições da Carta Encíclica Magnifica Humanitas é uma experiência transformadora, um itinerário espiritual, que permite oportunas reflexões. Os ensinamentos de Leão XIV contribuem, assim, para que todos possam permanecer humanos: agentes na edificação de uma sociedade renovada.


Dom Walmor Oliveira de Azevedo – Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

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