Notícias - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Revista “Casa Comum” nasce para não deixar apagar a esperança

02/06/2022

Notícias

São Paulo (SP) – Tendo como pano de fundo a espiritualidade franciscana, atualizada nos últimos 50 anos, a partir da declaração de São Francisco de Assis como Patrono da Ecologia, a Ação Social Franciscana, responsável pelo Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras), lançou nesta quarta-feira, 1º de junho, a Revista “Casa Comum”, com o tema “Cuidar de si, do outro e do planeta”, abrindo, com isso, um caminho para participar das questões da sociedade, das questões do mundo, que a todos interpela e que atinge, sobretudo, os mais frágeis encontrados todos os dias nos serviços de portas abertas do Sefras.

O evento reuniu representantes de vários movimentos e organizações sociais, colaboradores e frades do Sefras, também contou com a presença da atriz Letícia Sabatella no Cine Petra Belas Artes.

A Revista “Casa Comum”, na verdade, é um projeto de comunicação multiplataforma de iniciativa do Sefras em parceria com uma série de organizações, coalizões, movimentos e coletivos que atuam no Brasil, além de contar com o desenvolvimento editorial do Estúdio Cais – Projetos de Interesse Público. Ela terá a periodicidade trimestral e, em sua plataforma on-line e redes sociais, terá diariamente novas reportagens, artigos, podcasts e vídeos.

O diretor-presidente do Sefras, Frei José Francisco de Cássia dos Santos, falou da alegria e da importância e não poupou agradecimentos aos presentes. “Obrigado, Letícia por estar aqui presente nos dando esse apoio. Você não faz ideia o quanto é importante”, disse.

Segundo o frade, a Revista é lançada em um contexto onde destaca três elementos. O primeiro deles é o próprio Sefras, que nasce das iniciativas de um ou outro frade, sensível às questões dos vulneráveis, presentes em todas as fraternidades, e ali começa a reunir pessoas, acolher, apoiar e defender as causas das quais vão se apresentando. “E nós vamos, com as políticas públicas da assistência no Brasil, ganhando corpo e se adaptando. Eu digo assim que a organização do Sefras não é uma criatividade dos franciscanos, mas é uma sensibilidade nossa, porque as políticas públicas vão nos direcionando como instituição”, explicou.

Frei José lembra, contudo, que se discutia e ponderava que não se queria ser uma organização exclusivamente preocupada na prestação de serviços aos mais vulneráveis. “É importante porque a gente quer fincar o pé lá, ouvindo, sentindo toda a dor, tudo aquilo que as pessoas passam e vivem. É muito importante estar juntos, na perspectiva de Francisco de Assis, que não se conteve em viver dentro da cidade de Assis, mas pulou os muros e foi viver com os leprosos. Então, essa questão de ‘estar com’ as realidades faz muita diferença e a gente tenta fazer isso em todo o trabalho que realizamos nas bases, nos vários públicos nos quais nos encontramos. A Revista, então, do ponto de vista da organização franciscana, é esse olhar no momento em que nós vivemos. Ela proporciona que nós nos apresentamos com essa iniciativa, que não somos uma instituição que está exclusivamente na prestação de serviços, mas estamos interessados em participar das questões da sociedade, das questões do mundo que nos cerca hoje, que nos interpelam e que atingem sobretudo os mais frágeis”, acrescentou.

Outro ponto importante, detalha o frade, é o contexto social que se vive hoje. “Um contexto intolerante, voraz, consumista, depredador, que deixa um rastro de destruição enorme por onde se passa. “E mais: tudo isso é planejado. Essa depredação da natureza e com tudo aquilo que ela contém e que uma parte somos nós mesmos. Nessa perspectiva, a leitura que fazemos para que isso aconteça está na desinformação, no desvio das atenções, tudo isso que leva a gente a passar como que distraído, desapercebido, diante de tantas coisas que acontecem. Por outro lado, há uma dificuldade grande de organizar as ideias e de proporcionar um debate, uma partilha daquilo que é relevante, sobretudo do ponto de vista dos mais vulneráveis, os que sofrem as consequências. Então, esse é um contexto social que vivemos hoje. Aí tem a questão política, religiosa, econômica, de raça, da mulher, LGBTQIA+, dos migrantes. São muitas as causas e questões que nos interpelam hoje e que tornam muito relevante essa iniciativa”, avaliou o frade.

Por último, a perspectiva de esperançar, tema desta primeira edição. “O Papa Francisco tem dito muitas vezes que a gente não pode deixar que nos roubem a esperança. A gente pode perder tudo, mas não pode perder a esperança e todo nosso trabalho tem que assegurar a esperança às pessoas. Paulo Freire levanta essa bandeira e o Papa Francisco vai na mesma tônica”, disse.

Frei José Francisco, então, falou da perspectiva franciscana nos últimos 50 anos. “Francisco não é uma figura exclusivamente nossa, dos franciscanos, muito menos dos católicos. Ele ganha um espaço em muitos nichos onde palpita a vida”, disse, elencando alguns pontos que reforçam esse pensamento. Primeiro, em 1978, um grupo de ambientalistas, que não tem nada a ver com religião, procurou o Papa João Paulo II e pediu que ele declarasse São Francisco Patrono da Ecologia. O Papa aceitou e publicou um documento declarando o santo Patrono da Ecologia. “O mesmo Papa, que todos nós sabemos, em muitos casos divergimos, mas ele era bastante inteligente, estrategista, reuniu, em 1986, mais de 100 líderes religiosos do mundo todo para fazer um pronunciamento em favor da paz e para condenar qualquer tipo de violência que tivesse origem na religião. Isso foi chamado carinhosamente por nós como Espírito de Assis, porque ele escolheu a cidade de São Francisco para levar esse evento. Já em 1999, a Revista ‘Time’ fez uma pesquisa no mundo inteiro para eleger o personagem do milênio. Umma revista que não tem nada a ver com princípios religiosos e, para surpresa nossa, São Francisco foi eleito o homem do milênio”, recordou.

Por último, em 2013, com a renúncia do Papa Bento XVI, foi eleito o Cardeal Mario Bergoglio: “Ele tomou para si Francisco de Assis, vamos dizer assim, a política do seu Pontificado. E, com isso, ele tem sido para todos nós, franciscanos, um grande desafio. Ele tem apresentado uma releitura e uma atualização da perspectiva franciscana no mundo para os nossos dias. Com esse cenário, penso que se os inúmeros problemas que temos hoje nos desafiam muito, por outro lado, a espiritualidade franciscana, a herança franciscana, se oferece como uma possibilidade. Como o próprio Papa Francico diz, nós não temos a resposta, mas juntos podemos construir uma resposta, um caminho”, indicou o frade.

Ele concluiu: “Penso que a Revista nasce nesse contexto, animada por esse espírito e, ao mesmo tempo, desafiada por esse contexto que a gente vive. Uma perspectiva que nos anima, que nos interpela, que nos enche de esperança e nos coloca todos os dias no caminho do trabalho para sonhar. Não deixa apagar a esperança. Ela nasce no contexto de construir o diálogo com vários atores, movimentos, organizações”.

A atriz Letícia Sabatella disse que estava honrada em poder encontrar pessoas que são verdadeiras exemplos e referências para ela. Falou da camiseta que ganhou em homenagem ao educador Paulo Freire. “Honra muito o trabalho que é feito pelo Sefras. A gente precisou tanto disso e viu de onde vieram as mãos estendidas nesse país, ainda mais nessa crise absurda que a gente viveu e está vivendo. É muito necessário saber que tem uma mão estendida e não solta a mão de ninguém”, disse.

“A Casa Comum é o termo mais bonito que a gente pode se referir à Terra, ao Planeta, ao patrimônio ambiental, aos recursos ambientais. É o termo mais abrangente e verdadeiro, mais pragmático também. É uma casa de todos. E, com essa visão, estamos cuidando de algo que é de todos, que é o único lugar que temos para nos segurarmos, com toda a gravidade que existe neste planeta”, ressaltou.

“A gente está a serviço dessa resiliência, dessa resistência, cada passo é dado a serviço de uma comunidade justa e que seja generosa, que no mínimo seja compartilhada no que tiver de possibilidades para todos.  Não são só os seres humanos que precisam desse olhar”, disse, pedindo que se diminua em nós essa arrogância de termos armas e ferramentas contra os seres que vivem nesse planeta. “Eu desejo que a Revista ecoe e fortaleça toda a resistência que nós temos de ter”, observou. Letícia está na peça “A Vida em Vermelho”, que conta um pouco a história de um fictício e improvável encontro entre a cantora francesa Edith Piaf (1915-1963) e o dramaturgo e compositor alemão Bertolt Brecht (1898-1956).  “Duas pessoas que traduziram em arte o que gritam os oprimidos”.

O lançamento contou com uma programação de ‘roda de conversa’, que reuniu Yaponã Bone, do povo indígena Guajajara da terra indígena Arariboia no Maranhão, estudante de Publicidade e Propaganda pela UFG, Universidade Federal de Goiás, integrante do coletivo de comunicação mídia índia e colaborador da APiB – Articulação dos Povos Índígenas do Brasil; Laurah Cruz, ativista trans e atuante nos movimento de defesa do povo de rua; Zezé, a baiana Maria José Menezes é uma das grandes referências para as mulheres negras na luta por direitos e contra o racismo e o machismo; e Franklin Félix, da Abong, que congrega organizações em Defesa dos Direitos e Bens Comuns que lutam contra todas as formas de discriminação, de desigualdades.

São parceiros Institucionais: Agentes de Pastoral Negros do Brasil, Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente (Anced), Associação Brasileira Organizações Não Governamentais (Abong), Organizações em Defesa dos Direitos e Bens Comuns, Agenda 2030, Articulação Economia de Francisco e Clara, Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Casa Galileia, Ciranda, Coalizão Direitos Valem Mais, Coalizão Negra por Direitos, Coalizão pela Vida, Conferência Popular de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, Escola de Ativismo, Escola Nacional Paulo Freire, Família Francisca na do Brasil, Frente Nacional Contra a Fome, Fórum Social Mundial, Franciscans International, Grito dos Excluídos, Instituto Peregum, Movimento Laudato Si’, Movimento Nacional de Direitos Humanos, Movimento Nacional de Pop Rua, Movimento Nacional de Fé e Política, Periferia Viva, Plataforma Dhesca Brasil, Rede de Advocacy Colaborativo, Rede de Trabalho Decente, Rede Jubileu Sul, Rede Nacional de Primeira Infância, Rede Brasileira de Conselhos, 6ª Semana Social, Via Campesina e Serviço Inter-Franciscano de Justiça, Paz e Ecologia (SINFRAJUPE).

A cantora e ativista Laurah Cruz encerrou o evento com “Pais e flhos”, do Legião Urbana

Guiados pelos valores franciscanos de Acolher, Cuidar e Defender, o Sefras atua pelo Brasil atendendo mais de 4 mil pessoas todos os dias. São serviços diários que promovem apoio social e jurídico para população em situação de rua, acolhimento e inclusão social de imigrantes, contraturno escolar para crianças e adolescentes, convivência e proteção de idosos, além de ações de defesa dos direitos e melhoria de políticas públicas voltadas a esses grupos.


Links de interesse

Portal Casa Comum: https://revistacasacomum.com.br/
Site Sefras: https://sefras.org.br/
Instagram Casa Comum: https://www.instagram.com/revistacasacomum/


Moacir Beggo