Carisma - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Impressão das Chagas de São Francisco de Assis

Oitocentos anos dos Estigmas de São Francisco de Assis

Frei Vitorio Mazzuco OFM

Introdução

De 1224 a 2024 temos a oportunidade de celebrar mais um jubileu franciscano: oito séculos da impressão dos estigmas no corpo de São Francisco de Assis. Esta reflexão quer propor um caminho de compreensão deste evento, mas não esgota toda a riqueza que este tema vai suscitar durante todo o jubileu. Deus nos criou e imprimiu uma natureza e uma imagem em nossa alma. Com a Encarnação de seu Filho a natureza humana torna-se participante da natureza divina, uma fusão de naturezas. O maior encontro de todos os tempos.

Algo mudou definitivamente na identidade humana e divina. Isto invade a interioridade humana e todo o universo.  O Amor de Deus não tem limites e nos convida a buscar a felicidade. O caminho para a felicidade é portador de desafios. Alegria e dor estão conosco nas setas indicativas da vida. O que nos impacta nos leva à mudanças. Francisco de Assis é um homem marcado pela dor, amor, entrega e certeza de que o Senhor falou com ele e o abraçou com chagas de imenso amor.

No caminho franciscano isto manifesta-se como conversão: mudar de mentalidade, mudar de lugar, mudar de rumo, mudar o modo de pensar, mudar o modo de ser, de querer, de sentir e de amar. O próprio Jesus, ao vestir-se da carne humana, veste-se do máximo despojamento, da veste da minoridade e da pobreza. Ele quer estar entre nós, quer servir, quer amar, quer sofrer, quer morrer por Amor. Diante de um Amor assim temos que ter gratidão. Jesus assume com humildade o nosso jeito para nos tornar humildes. Francisco compreende e assume esta postura.

1.A dimensão franciscana dos estigmas na vida de São Francisco de Assis e nas Fontes Franciscanas

Para Francisco a Paixão de Cristo é a máxima expressão do amor humilde, porque é a máxima doação.  Ele olha, contempla a Paixão, mas, sobretudo, entra nela, sente-se engajado, incorpora-se, abraça e é abraçado.  Impressiona-se com a revelação do Cristo Crucificado. Ao olhar sente que a cruz fala. Ele vê e escuta. Francisco está passando por um momento de decisão e, exatamente na hora dos enigmas, a cruz fala. É a escuta de uma inspiração.  Vejamos estes textos das Fontes Franciscanas: “Já transformado perfeitamente no coração, devendo em breve transformar-se totalmente também no corpo, num certo dia, andando perto da igreja de São Damião que estava quase em ruínas e abandonada por todos. Conduzindo-o o Espírito, ao entrar nela para rezar, prosternando-se suplicante e devoto diante do Crucificado e tocado por visitações insólitas, sente-se diferente do que entrara.  Imediatamente, a imagem do Cristo crucificado, movendo os lábios da pintura, o que é inaudito desde séculos, fala-lhe, enquanto ele estava assim comovido. Chamando-o, pois, pelo nome, diz: “Francisco, vai e restaura minha casa que, como vês, está toda destruída”. Francisco a tremer fica não pouco estupefato e torna-se como que fora de si com esta palavra. Prepara-se para obedecer, entrega-se totalmente ao mandato. E, porque ele próprio não pôde exprimir a inefável mudança que sentiu em si mesmo, convém que nos calemos. Desde então, grava-se na sua santa alma a compaixão do Crucificado e, como se pode julgar piedosamente, no coração dele são impressos mais profundamente os estigmas da venerável Paixão, embora ainda não na carne” (2Cel 10, 1-8).

“(….) Então, a partir daquela hora, a alma dele se derreteu, assim que o amado lhe falou. Pouco depois, o amor do coração se manifestou por meio das chagas do corpo” (2Cel 11, 4-5).

“Pois, num dia, enquanto rezava assim isolado e estava, devido ao excessivo fervor, todo absorto em Deus, apareceu-lhe o Cristo Jesus, pregado na cruz. À vista dele, sua alma se liquefez e a memória da Paixão de Cristo ficou tão profundamente impressa no íntimo do coração dele que, a partir daquela hora, quando lhe vinha à mente a crucifixão de Cristo, mal podia conter-se exteriormente das lágrimas e gemidos, como ele próprio contou mais tarde, familiarmente, quando se aproximava do fim” (LM 1,5).

Estes relatos nos mostram como Francisco se abre de corpo e alma ao mistério da cruz. Integra a Paixão na sua natureza humana. A vida tem realidades mais desafiadoras e ásperas. Há uma força vital de oblação. Ele entra com emoção: chora por paixão, chora por alegria. Há transbordamento de emoção. Sofre a dor, mas mergulha no mar da gratidão. O mundo é tocado pelo sangue do amor oferente. Vejamos como isto aparece na Carta aos Fiéis: “Esta Palavra do Pai tão digna, tão santa e gloriosa, o altíssimo Pai a enviou do céu por meio de seu santo anjo Gabriel ao útero da santa e gloriosa Virgem Maria, de cujo útero recebeu a verdadeira carne da nossa humanidade e fragilidade” (2Fi 4). Da Encarnação até a Paixão a cruz dá os contornos da existência. Cristo é o centro da criação e o centro da história e da existência humana. Por isso a cruz também ocupa um lugar central como caminho norteador. Somos membros de um Corpo Místico do qual Cristo é a cabeça. Uma cabeça cingida das marcas da cruz, com seus espinhos penetrantes.  O Corpo Místico não é adornado com bugigangas do mundo, mas com as marcas de um Amor que foi capaz de sofrer. O caminho indicativo da salvação passou pelo Calvário.

Sofrer faz parte de um processo de purificação para instaurar uma nova vida. Isso mexe com a nossa vida. É uma convocação própria de Jesus: “Quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8,34). No sinal e na força da cruz aparece a nossa identidade de penitentes.

O olhar de Francisco de Assis sempre foi a partir da Paixão. Ele se encanta com o amor desinteressado, pelo amor que se esquece do próprio eu, querendo em tudo ser conforme o Cristo Crucificado. Para ele, o Cristo suspenso na cruz é expressão da máxima pobreza. Isto lhe dá uma nova visão de vida. Trazendo a cruz em seu coração, sua vida, espontaneamente, se tornou outra. As coisas, as pessoas, os acontecimentos, tudo lhe aparece numa nova luz.

A cruz passou a ser a medida de sua vida interior. Morte para as coisas do mundo, nascimento para uma nova valorização do mundo. O conforto mundano, o sonho da juventude, agora se tornou para ele cruz.  Ele está unido integralmente à Paixão do Mestre. Ele vence o egocentrismo de sua vida e a cruz torna-se o argumento forte da minoridade. Ele sai da camada do padecer sentimental, para viver o compadecer: sofrer porque o Mestre sofreu.  Diz São Boaventura: “O grande admirável mistério da cruz se revelou a este Pobre de Cristo de um modo tão perfeito, que durante toda a sua vida só seguia os passos do Crucificado, só encontrava a felicidade na cruz, e só pregava a glória da mesma cruz! ” (LM 3).

Quando o Senhor lhe tinha dado um número considerável de irmãos, a Forma de Vida, a Regra dos irmãos começa assim: “ A Regra e a Vida destes irmãos é esta: viver em obediência, em castidade e sem propriedade e seguir a doutrina e as pegadas de Nosso Senhor Jesus Cristo que diz: Se queres ser perfeito, vai e vende tudo que tem e dá aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem e segue-me. E se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo e tome a sua cruz e siga-me” (Rnb 1,1). E no Testamento: “Nós vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, aqui e em todas as igrejas que estão pelo mundo inteiro, e vos bendizemos porque pela vossa Santa Cruz redimiste o mundo” (Test 5).

2.Os estigmas e o modelo vivo que é Jesus Cristo

A vida de Francisco é voltada para o modelo totalmente oblativo de Jesus Cristo, na sua dimensão sacrifical. Gratidão em face a humildade extrema de Jesus Cristo. Força de reconstrução da vida a partir do Crucifixo de São Damião. Para o franciscanismo a cruz é um sinal evidente de missão: mudar-se e mudar o mundo.  É a trilha que nossos pés percorrem. O Cristianismo nos coloca no peito uma cruz. Não pode ser apenas um brilhante amuleto em prata ou ouro, mas uma exigente realidade de seguimento. Mudar para instaurar o Reino não é algo tranquilo. Há muitos “nãos” quando se apresenta um Projeto de Salvação. Pecado é um não de rebeldia ao sim que brota dos desafios. Jesus Cristo não abre mão de seu Amor, apesar de receber muitos nãos.

A vida é uma Via Sacra que revela o currículo do caminho feito pelo Mestre.  O Deus infinito, todo poderoso e amoroso, sapientíssimo e bondoso, se limita a estreiteza de um seio materno, às contingências de um embrião, de uma criança em todas as etapas nas graduações evolutivas de sua formação. Cresceu em idade, sabedoria e graça. Está consciente dos altos e baixos das caminhadas neste mundo.

Faz a vontade do seu Pai do céu. Faz de sua atuação o mais completo servir. Ganha pão no suor de seu rosto nos tempos ocultos de Nazaré: peso de trabalho e mão calejada. Vai confundir, aos 12 anos, os teólogos do Templo. Trinta anos de anonimato num lar pacato. Desconhece a violência dos revolucionários, mas exige conversão. Enfrenta a egolatria dos fariseus e não tem medo de repreende-los. Comprova a verdade de suas palavras com milagres, e achavam que ele fazia isto pelo poder dos demônios. É maltratado, injuriado, caluniado, e sempre fugindo das armadilhas dos que querem prendê-lo e leva-lo à morte. “ Se digo a verdade, por que não acreditais? ” (Jo 8, 46).

Cada vez mais é apertado pelo círculo da perseguição. Encontra dormindo os que deviam vigiar. É traído. Passa por um tribunal que o condena. Quem o entrega é um dos doze, um de seus mais próximos seguidores. Não se defende. Os maus o acusam e os bons se trancam no medo. Muitas vezes Ele se cala. Ele é a encarnação real do Servo de Javé (Is 58). O Deus feito humano chega ao auge do sofrimento, experimentando um abandono total.  Da flor da sua idade, 33 anos, e do meio de uma benfazeja missão de três anos de pregação, presença e milagres, é arrancado e submetido as mais cruéis das torturas na flagelação e coroação de espinhos. O Deus feito humano, o ser mais livre, está preso na cruz. Não pode movimentar seus membros nem mexer a cabeça. Os soldados trancam o caminho dos que querem se aproximar.  Mesmo assim, neste momento, Ele sente vivamente a mão segura do Pai e entrega a Ele seu espírito. A partir de então seu Reino não é mais deste mundo, Ele não quer e nunca quis concorrer na luta pelo poder. Não veio para ser servido. Deu literalmente cada momento de sua vida para todos. Humanamente o que poderia ser um fracasso tornou-se uma força universal de amor. Cumpriram-se os planos de Deus para que Ele fosse Salvador e Redentor. A partir de então Ele não pode mais ser apresentado sem a sua cruz salvadora e nem nós, cristãos e cristãs, poderemos viver sem a cruz.

Ele ainda faz a derradeira prece de glorificação e triunfo: “Pai, chegou a hora. Revela a natureza divina do teu Filho a fim de que ele revele a tua natureza gloriosa. Pois tens dado ao Filho autoridade sobre todos os seres humanos para que ele dê a vida eterna a todos os que lhe deste”.  (Jo 17). Francisco entende bem esta força gloriosa da cruz a partir do olhar do Crucifixo de São Damião: entrar na Mística da Cruz é ver nela a glorificação! Isto não é para todos. É reservado aos pequenos, aos menores: “ Jesus exulta de alegria no Espírito e diz: Pai, Senhor do céu e da terra, eu te dou graças porque escondestes essas coisas aos sábios e inteligentes e as revelastes aos pequeninos. Sim, Pai, bendigo-te, porque assim foi do teu agrado! ” (Lc 10,21).

3.Francisco de Assis e o Amor que deixa marcas. O Amor toma forma num corpo. Uma interpretação entre tantas interpretações

“Homem novo, Francisco tornou-se famoso por novo e estupendo milagre: por singular privilégio, jamais concedido nos séculos anteriores, apareceu assinalado, ou ornado, com os sagrados estigmas, configurando o seu corpo mortal ao corpo do Crucificado. Tudo o que a humana língua possa dele falar sempre estará aquém do louvor de que é digno. Inútil procurar a razão, porque é maravilhoso, nem se trata de buscar um exemplo, pois é único. Todo o empenho do homem de Deus, quer em público, quer em particular, dirigia-se para a Cruz do Senhor. Desde o primeiro instante em que começara a servir sob o Crucificado, diversos mistérios da Cruz resplandeceram em torno dele” (3Cel 2,1).

Quem centra a sua vida numa determinada busca, numa focada paixão, num visível enamoramento, percebe claramente que o objeto deste Amor vai aparecendo nas nuances da vida. O que amamos nos surpreende em evidentes sinais como uma reveladora novidade.  Francisco de Assis foi estigmatizado, e os estigmas são como as marcas do Crucificado que São Paulo dizia trazer consigo. Um humano renovado se molda sobre um caminho de grandes desafios e porque não, de sofrimento. O Amor deixa marcas, e amar tem a sua glória e cruz, tem a sua flor e dor. Toda renovação vai à fonte inicial da vida que é parida em dor. E podemos perguntar: o que tem de humanidade nova nisto, o que tem de novidade? A novidade presente em sofrer por amor é muito raro na literatura espiritual antiga. Vamos encontrar no antigo Império Romano, a presença do termo novus ou novitas, no discurso de Cícero, orador romano, na sua peça de oratória, chamada “Pro Murena”, onde ele defende que não devemos ignorar as marcas deixadas pelo sofrimento nos caminhos da consolação. Para Cícero, as marcas da dor são glórias da luta. Cícero escreve isto para Murena, um senador romano, dizendo para ele que “as virtudes de um senador são mais importantes que o seu nascimento”. As marcas deixadas pelo Amor não são sofrimento pelo sofrimento, mas reconhecimento.

Novo homem, ou a novitas, pode ser entendido como o original. Em Francisco a sua Forma de Vida era viver o Evangelho segundo o Crucificado. Imprimiu na alma esta verdade, e da alma ficou impressa no corpo. Mas o que é o humano novo? São Paulo diz: “Em Cristo fostes ensinados a remover o vosso modo de vida anterior – o homem velho que se corrompe ao sabor das coisas enganosas, e a renovar-vos pela transformação espiritual de vossa mente, e a revestir-vos do homem novo, criado segundo Deus, na justiça e santidade da verdade” (Ef 4,20-24).  Ser uma nova criatura não é revestir-se de si mesmo, mas revestir-se de Cristo, fazer a investidura do que se ama. Isto é um processo para toda vida. A estigmatização de Francisco aconteceu vinte anos após a conversão, mas foram vinte anos de seguimento e de imitação apaixonada. Voltemos a São Paulo: “Vós vos revestistes do homem velho com as suas práticas e vos revestistes do novo, que se renova para o conhecimento segundo a imagem do seu Criador. Aí não há mais grego ou judeu, circunciso ou incircunciso, bárbaro, cita, escravo ou livre, mas sim o Cristo que é tudo em todos” (Col 3,10-11). O humano novo não é apenas um indivíduo particular ou uma aventura psicológica de mudança efêmera, mas é um humano singular, único e original que assume uma nova postura de vida, como que uma nova aliança.

Estigmatização é renovação vinda de um caminho percorrido, não é algo imaginário, mas real quando se percebe uma extraordinária transformação. Renovar-se é a força do humano que não se sente mais escravo de nada, é livre, diante da natureza e da lei, do selvagem ao civilizado, mas acrescenta algo a identidade humana. Francisco apresentou-se ao mundo com as marcas da fraternidade que vinha de uma vivência cristológica dia após dia. Ele marcou a vida de um modo todo seu; no Cântico das Criaturas ele integrou a terra e os astros, o masculino e o feminino, o selvagem e o civilizado. O seu corpo é o corpo da existência fraterna, por isso pode integrar o natural e o espiritual, o bárbaro e o comportado, o homem e a mulher.  “Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas; eis que se fez uma realidade nova” (2Cor 5,17).

Voltando a Cícero, ele entendia o homem novo como aquele que assumiu um cargo público e deve ser o primeiro a mudar. Voltando a Francisco de Assis, ele é o mercador, filho de mercador, desprezado pela nobreza de então, mas assumiu o código de cavaleiro, não pela função em si, pois jamais fez a iniciação cavaleiresca, mas pelos valores que a sua vida exigia. Assim ele vence o desprezo e a incompreensão, ele vence a estigmatização social, mostrando que ele agora tem uma nova função, mesmo com todo sofrimento que isto implica. Ele não se identifica mais com as funções que o pai e a sociedade queriam para ele, mas sim com a nova função, levar ao mundo o jeito sempre novo da Boa Nova, nascida no presépio e complementada na cruz, caminho total de mudança radical. O Evangelho e o Reino anunciado e vivido por Jesus tornam-se a grande novidade: a inesperada humanidade de Deus e a inquietude humana em abraçar esta humanidade nova, que vai trazer a máxima liberdade, a fecunda liberdade, o espírito de coragem, o acesso definitivo à filiação divina.

No Testamento, Francisco diz: “Foi assim que o Senhor concedeu a mim” (Test 1), ele sabe que ele não foi um profissional da religião, mas um enamorado guardião de uma grande inspiração. Os estigmas de Francisco são sinais concretos e não imaginação. O Cristo que o inspirou não foi estigmatizado, mas crucificado! Os textos do Evangelho contam com mais detalhes a Paixão de Jesus do que o seu nascimento.

4.Os estigmatizados na história cristã

A intensidade de uma vida deixa marcas e consequências. Não devemos nos prender a confusão entre narrativa e iconografia. Tem gente que está preocupada em provar se São Paulo caiu ou não do cavalo em Damasco. Toda a questão é ver o que mudou na vida de São Paulo. Nós também não precisamos buscar o corpo de Santa Catarina de Sena, Santa Rita de Cássia, Verônica Giuliani, Catherine Emmerich, e Padre Pio de Pietrelcina, para ver fenômenos excepcionais que aconteceram na vida destes santos e santas, mas sim buscar indícios na vida do quanto aconteceu neles uma grande transformação do humano com sinais divinos, e estes sinais estão em marcas corporais que se aproximam das marcas do Cristo Crucificado. Estes personagens não foram canonizados ou beatificados por causa dos estigmas, mas sim pelas virtudes. A partir do próximo item vamos procurar entender os efeitos sobrenaturais num corpo natural. Não precisamos do exagero de sangue e feridas do filme de Mel Gibson, “A Paixão de Cristo”, de 2004, que conta as últimas 12 horas de Jesus de Nazaré, mas precisamos entender o que a mística franciscana afirma: quem muito ama, mais sofre; mas quem mais sofre por causa de um intenso amor, mais salva.

5.Os estigmas de São Francisco, fenômeno sobrenatural ou lepra?

Ainda que historiadores e escritores de literatura espiritual, com hermenêuticas e pesquisas, como por exemplo, Donald Spoto em seu livro, “Francisco de Assis, um Santo Relutante”, de 2003,  que inspirou o filme também de 2003, “Francisco de Assis, o Santo Relutante”, um bom documentário baseado na obra de Spoto , tendo como diretora, Pamela Mason Wagner, e o grande ator Robert Sean Leonard como Francisco e Liev Schreiber como narrador, defendam que Francisco de Assis teve o contágio da lepra e não estigmas, esta tese nunca foi comprovada e sobretudo os estudos de seus restos mortais feitos em laboratórios provaram que ele nunca teve hanseníase.

Os estigmas de Francisco são descobertos e decifrados depois da sua morte, mas as marcas de Cristo já estavam com ele em vida. Marcas são reconfigurações em vida e que a morte deixa como uma herança.

Francisco de Assis recebeu a marca de um serafim como a polivalência de uma teofania. É a chama que se acende quando o anjo e o homem se encontram. É a figura divina inacessível ferida de Amor e dor que toca o humano ferido de Amor e dor. É o encontro heroico com as marcas do Amor que glorificam uma entrega. Vida evangélica, vida mística, vida fraterna deixam marcas do interior para o exterior.

Francisco de Assis tem que ser visto na inteireza de sua vida e não no fato isolado de sua estigmatização. Porque os estigmas são convergência de um caminho de santidade, de fundador de uma Ordem, de um profeta de um novo mundo. Os estigmas recontam a vida de Francisco do início ao fim, mostram a inteireza de sua existência. Ele é o humano novo dentro de um mundo envelhecido de ontem e de hoje. Ele libertou o mundo de então do medo, do voltar-se para o egoísmo, ambição e avareza, do fixar-se em propriedades, dos privilégios de sangue nobre e castas sociais, e fez com que a fraternidade não fosse apenas um modo de monges viverem juntos, mas o jeito de conviver nas estradas do mundo. Ele fez Cristo voltar a andar nos caminhos mais costumeiros da vida, e este Cristo que um dia andou pelas estradas da Palestina amou tanto que foi crucificado. Sofrimento e perfeita alegria. Transformação e laços consanguíneos com o Amado. O corpo de Francisco foi marcado pela centralidade da sua busca: ser igual a Cristo! Ele tatuou em sua carne a palavra encarnada e inovadora.

Quem um dia deixou-se marcar pela cruz trouxe a salvação para a humanidade. O Amor não tem sofrimento inútil. O Amor é uma fusão de vontades amantes. Diz Tomás de Celano: “O filho respondeu diligentemente ao pai, sabendo que pelo Senhor lhe era dada a palavra da resposta: “Dize-me, por favor, ó pai, com quanta diligência teu corpo obedeceu às tuas ordens, enquanto pôde? ” Ele disse: “Filho, dou meu testemunho de que ele foi obediente em tudo, em nada poupou a si mesmo, mas quase se precipitava sob todas as ordens. Não fugiu de trabalho algum, não escapou de incômodo algum, bastava-lhe poder cumprir as ordens” (2Cel 211).

O corpo de Francisco de Assis não é mais dele, mas do Amor! Não é apenas um fragmento de macrocosmo, uma simples modalidade de viver nesta terra, não é um sangue anônimo. Ele é um corpo transfigurado pela vontade do Amor! É um corpo livre do mundo, da eclesiologia, das doenças e dos demônios, e de tudo o que o ameaça.  Agora não é mais corpo em forma de carne humana, mas sim totalidade de uma vida, é Corpo de Cristo! É um corpo ritual e sagrado. Ele agora pode mostrar a dramatização de uma Encarnação: de Greccio ao Alverne este corpo mostra o que o Amor moldou em si. Em Greccio Francisco encenou o Presépio, no Alverne Francisco sangrou a identificação com a Palavra Encarnada!  E agora, não é um Natal para crianças, mas uma Natividade para adultos. Quer amar? Então toque o Verbo na sua manifestação mais natural e mais amorosa. Não é mais apenas ouvir a Palavra, mas ter a Palavra no sangue. A Palavra se fez carne porque a carne fez-se Amor. É a Palavra expressiva num corpo expressivo. Agora o corpo tem uma importância eterna porque tem as marcas do Amor!

Francisco estigmatizado é o corpo traspassado de um desejo profundo. É o corpo que se fez portador da vontade do Senhor assim como Maria: “Faça-se em mim segundo a tua vontade! ” (Lc 10,38). Maria deu-nos o Menino, o Emanuel, o Deus Conosco. Francisco deu-nos o Cristo Pobre, Humilde e Crucificado. Greccio e Alverne se encontram na mesma verdade! Este Corpo arde e fala! Este corpo concretizou encontros e rupturas. Deu todos os bens para abraçar a pobreza. Deu todo o afeto para abraçar o leproso. Deu toda a sua pureza de coração para abraçar a fraternidade. Deu todo os seus ouvidos ao Crucificado de São Damião que pediu a reconstrução da casa. Deu um novo início ao Evangelho transformando-o em forma de vida.

No corpo estigmatizado de Francisco a impressão de sua vida inteira, estigmatizada pela pobreza, obediência e pureza de coração. No corpo de Francisco as marcas de sua marginalidade assumida, pois foi rejeitado por nobres e cidadãos de sua época.  No corpo de Francisco o Amor devorante de Deus e por Deus, um Amor capaz de assumir a fraternidade dos marginalizados da sociedade oficial. Como o Amado ele também abraçou os cegos, os camponeses, os paralíticos, os que não podiam ganhar nada para viver, as mulheres que não podiam nem falar e nem seguir fora da vigilância das autoridades. Ele assumiu em si os estigmas sociais de seu tempo. Não foi um bode expiatório, sim um reformador fraterno de um modo mais leve de viver o Evangelho.

No corpo estigmatizado de Francisco a responsabilidade de conduzir uma Fraternidade que nele acreditou e que não tinha onde reclinar a cabeça. Eram peregrinos e viandantes, vivia com os seus companheiros primitivos a beleza de estar no mundo como um claustro transitório. Neste mundo encontraram a criação que restituíram ao Criador, pois viram nela a fonte da beleza, do louvor e da graça e, por isto, podem falar da criação como uma consanguinidade familiar, um laço universal que autoriza a falar de todas as criaturas como irmãos e irmãs. Devolveram tudo para não ter posse e inveja de nenhum acúmulo. Viveram uma metamorfose ambulante.

No corpo estigmatizado de Francisco a consolação bela e prudente da serena irmã e companheira, Clara de Assis! Ela entendeu que a cruz tinha que ser guardada e cuidada para sempre, e que Francisco era seu espelho. Francisco foi ao mundo levar o Evangelho. Clara ficou no claustro para reviver o ventre de Maria. O Amor tem que ser concebido cada dia. Francisco teve que sofrer pela liberdade de Clara, mas os dois foram muito felizes na liberdade do Amor. A natureza do Amor foi reconstruída como o verdadeiro claustro. Em Clara a vida do Mosteiro é matriz na qual cada dia a palavra de Deus vem ao mundo. Clara não é apenas uma seguidora de Francisco, ela beija o sangue dos estigmas que ele conquistou e bebe na mesma Fonte. Diz Ângela de Foligno: “Na plenitude de Deus, eu colho o mundo inteiro, além de tudo, dos mares e dos abismos, do oceano de cada coisa. E em tudo, não percebo outra coisa que não seja a potência divina, de modo inenarrável. Então, no ápice da admiração, a minha alma exclama: esta natureza de Amor é grávida de Deus!” (Ângela de Foligno, Memoriale, VI, 1285-1298 ).

No corpo externo estigmatizado de Francisco o esponsal com o corpo interno, a sua vida interior, marcada pelo Amor ao Crucificado. É uma prova evidente: ele que tocou com o Amor toda a obra de Deus, foi tocado com muito Amor pelo próprio Deus. Não é dor corporal, mas sentidos da vida que passam pelo crivo da entrega mais radical por Amor. Francisco não somatizou a dor, mas sim deixou que o Amor marcasse seu corpo. Ele e o Amor tornaram-se um!

6.Uma experiência pessoal a partir da visita ao Monte Alverne

Fiz várias visitas ao Monte Alverne, na Itália, onde no dia 17 de setembro de 1224, Francisco de Assis recebeu os estigmas. A montanha é sempre um sinal de elevação. Para as grandes tradições religiosas é o lugar onde a divindade se manifesta. São vários lugares expressivos que revelam a presença do sagrado: Monte Sinai, Monte Tabor, Monte Athos, Monte Olimpo, Monte Horeb. A ascensão física corresponde a uma ascensão espiritual. Da terra para o céu. É o lugar da mediação onde o grande e pequeno universo se tocam. A montanha é sinal de fortaleza, estabilidade, permanência, uma posição dominante, soberana, que deve ser escalonada degrau por degrau.

É o reflexo de uma mística de busca e senda da iluminação. Lugar da culminância, do silêncio e da meditação necessária. Perto do firmamento, do sol, da lua e das estrelas; ela possui cavernas e grutas para mostrar que é preciso viver dentro e viver sobre o mais alto. Nas culturas temos as Pirâmides do Egito, a Torre da Babilônia, as torres dos templos e os altares. Muitas celebrações feitas na montanha são para estar mais perto daquele que brilha no alto e que aparece e se esconde entre nuvens, relâmpagos e trovões. O sol nasce e se põe entre montanhas e amplos horizontes. É o lugar de grandes e especiais ensinamentos, secretos ou explícitos. O Sermão da Montanha é a grande síntese da pregação de Jesus. Francisco de Assis chega ao Monte Alverne porque quer encontrar e contemplar seu tesouro escondido, a sua mais profunda união mística. Compreender o significado do lugar mais elevado foi a minha primeira experiência no Alverne.

A segunda grande experiência foi encontrar-me, em maio de 1989, com monges budistas, em retiro meditativo neste monte onde Francisco recebeu as chagas. Numa parte mais alta do Monte Alverne estabeleci um inesquecível diálogo com um destes monges que veio das montanhas do Tibet. Minha conversa com ele iniciou-se com a pergunta: Por que um monge budista no Alverne? E ele respondeu: Estamos aqui por dois motivos: primeiro porque este lugar é sagrado; segundo, porque Francisco de Assis é o ser humano cristão mais iluminado do ocidente. E o diálogo continuou com outra pergunta: qual o significado dos estigmas para um budista? E o monge disse que tinha lido nas Fontes Franciscanas que um Serafim, com o rosto de Jesus Cristo marcou Francisco de fora para dentro. E que para eles, que também tem monges estigmatizados, as marcas vêm de dentro para fora. São explosões iluminadas de santidade que correm no coração e nas veias e explodem nas extremidades fontais do corpo. Mente, coração, mãos e pés são conexões com o mundo de dentro para fora. E o monge questionou: Por que vocês no ocidente têm tantas doenças vindas, da coluna, do coração, tumores no cérebro, nas mamas e nos ossos? Porque travam as energias do amor e da fé. É preciso deixar fluir mais a força afetiva e espiritual. Doenças são bloqueios de energias. Santidade tem a ver com o sadio da existência, e Francisco de Assis, mesmo doente dos olhos, dos ossos, sofrendo no corpo e na alma, permitiu que a força divina saltasse de seu interior. Esta experiência em ouvir uma outra cultura, marcou e ampliou a minha experiência de Alverne.

Conclusão

Encerro esta reflexão com um texto necessário na comemoração deste jubileu. Após a Legenda I Fioretti temos um anexo que se intitula: “Dos sacrossantos estigmas de São Francisco e de suas considerações”, e na terceira consideração lemos: “(…) Deus cuida com solicitude de mim; porque dentro de poucos dias Deus fará tão grandes e tão maravilhosas coisas sobre este monte que todo mundo ficará maravilhado; porque Ele fará algumas coisas novas, as quais não fez mais a nenhuma criatura neste mundo”.(…) E orava desta forma: “Ó Senhor meu Jesus Cristo, duas graças te peço que me faças antes que eu morra; a primeira é que em vida eu sinta na alma e no corpo, quanto for possível, aquelas dores que tu, doce Jesus, suportaste na hora da tua acerbíssima Paixão; a segunda é que eu sinta no meu coração, quanto for possível, aquele excessivo amor do qual tu, Filho de Deus, estavas inflamado para voluntariamente suportar uma tal Paixão por nós pecadores”. E estando por longo tempo nesta oração, compreendeu que Deus o escutaria e que quanto fosse possível a uma simples criatura, tanto lhe seria concedido sentir as preditas coisas. Tendo São Francisco esta promessa, começou a contemplar devotissimamente a Paixão de Cristo e a sua infinita caridade: e crescia tanto nele o fervor da devoção que todo ele se transformara em Jesus pelo amor e pela compaixão. E estando assim e inflamando-se nesta contemplação, naquela mesma manhã viu vir do céu um serafim com seis asas resplandecentes e inflamadas; o qual serafim com voo veloz aproximou-se de São Francisco de modo que ele o pôde discernir, e viu que trazia em si a imagem de um homem crucificado, e suas asas estavam assim dispostas: duas asas se estendiam sobre a cabeça, duas se estendiam para voar e as outras duas cobriam todo o corpo. (…) E estando nesta admiração, foi-lhe revelado, por aquele que lhe aparecia, que por divina providência aquela visão lhe era mostrada em tal forma, para que ele compreendesse que, não por martírio corporal, mas por incêndio mental, devia ser todo transformado na expressa similitude do Cristo crucificado. Nesta aparição admirável todo o Monte Alverne parecia arder em chama esplendidíssima, a qual resplendia e iluminava todos os montes e vales vizinhos, como se fosse o sol sobre a terra” (CSE 3). Com este expressivo texto das Fontes concluímos esta reflexão para mostrar o sinal iluminado e sagrado que tomou forma num corpo. Em louvor de Cristo, Amém!


Texto original publicado na revista: https://franziskaner.net/zeitschriften/mission/FM-2024-1-DO/10/