Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Trindade: a união no amor, na diversidade plural e na Igreja de batizados (Mt 28,16-20)

27/05/2021

 Imagem ilustrativa (fonte: Catholic Pictures)

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM[1]

A partir do evangelho de Mt 28,16-20, vamos compreender o sentido da Trindade a partir de sua relação com o batismo. Primeiro, uma pergunta: o que é mesmo Trindade? Você, com certeza, dirá que já sabe o que é Trindade. Será? Sim e não. Qual cristão católico que não aprendeu, desde pequeno, a fazer o sinal da cruz sobre a fronte invocando o Pai, o Filho e o Espírito Santo. É bem verdade que o sinal da cruz, nascido nos primeiros séculos do cristianismo, tinha como objetivo visualizar a fé na morte e ressurreição de Jesus. Só mais tarde é que ele foi associado à Trindade. Os evangélicos não fazem o sinal da cruz com a justificativa de que ele não tem fundamentação bíblica.

Para responder às perguntas acima, vamos pontuar a história da compreensão da fé trinitária, sua simbologia, sua relação com o texto bíblico, com a tradição e sua importância para os nossos dias.

O substantivo Trindade nos recorda o número três. Ele vem do latim (trinitas) e quer dizer tríade ou três. A tríplice menção do Pai, do Filho e do Espírito Santo e sua relação com o batismo, conforme Mt 28,16-20, fez da Trindade a marca de todo cristão batizado. Essa citação reflete a prática das comunidades do primeiro século do cristianismo. No entanto, quem usou pela primeira vez o termo Trindade foi Tertuliano (160-220 E.C.)

Agora, vejamos o simbolismo do número três. Ele representa no judaísmo a união e a consistência. O três tem relação com o Sagrado. O fazer três vezes uma coisa significa que ela é durável e firme em toda a vida. Por isso, o judeu teria que ir três vezes ao Templo de Jerusalém durante o ano, nas festas das Tendas, da Páscoa e de Pentecostes. Ah! Outro detalhe, a Bíblia dos judeus, o Primeiro Testamento, está dividido em três partes (Torá, Profetas e Escritos).

Na Bíblia, o três aparece em várias formas: a) a profissão de fé judaica, o Shemá Israel, está baseada no amor a Deus em três condições, práticas de amor: o amar com o coração, com o ser e com as posses (Dt 6,4-9); três vezes Pedro nega a Jesus (Mt 26,69-75); três anjos aparecem a Abraão no carvalho de Mambré (Gn 18,1-33); Jesus ressuscitou ao terceiro dia (Mt 28,1). Poderíamos continuar citando inúmeros outros modos de usar o três na Bíblia, mas já basta para dizer como esse modo de pensar judaico propiciou a fé cristã na Trindade.

Ainda a propósito do Shemá Israel, vale ressaltar que a essência de Deus é o amor.  Falar da Trindade é falar de amor. Falar do amor é falar da família que é constituída por um pai, uma mãe e um filho(a). São três pessoas unidas pelo amor. Todos são diferentes, mas estão unidos na mesma raiz. O pai não é a mãe, a mãe não é o filho. Os três têm a mesma única essência, a mesma natureza, mas são pessoas distintas. A partir dessa relação, podemos compreender a Trindade.  Não são três deuses, mas um só Deus em três pessoas.

Difícil para entender? Pode ser. Saiba que, para a Igreja, também não foi fácil chegar ao dogma, a expressão de fé, na Trindade. Foram séculos de discussão. A declaração trinitária ocorreu no Concílio de Niceia, em 325 E.C., e foi reafirmada no Concílio de Constantinopla, em junho de 380, pelos bispos. O resultado dessa fórmula de fé está nos Credos de Niceia e Constantinopla. Para que isso acontecesse, muitas heresias, controvérsias trinitárias, foram rechaçadas pela Igreja, ainda por séculos adiante.

No evangelho de João, Jesus, o Filho, constantemente fala de si mesmo como revelação do Pai. “Quem me viu, viu o Pai. Eu estou no Pai e o Pai está em mim” (Jo 14,9-11). Jesus envia, assim como o Pai, Espírito Santo para os apóstolos (Jo 14,15-17; 20,22). O amor está sempre presente no evangelho de João.

A relação trinitária é a da unidade na diversidade. Para entender isso, permita-me outro exemplo. A comparação da Trindade com a água.[2] Conforme sua temperatura, podemos encontrar a água em três estados: líquido, sólido (gelo) e gasoso (vapor). Trata-se, no entanto, da mesma água em formas diferentes. O líquido é o Pai, que é a base de tudo, que está em toda parte, com a sua manifestação plena. O gelo é a manifestação de Deus-Pai no Filho, no Jesus histórico. O vapor, a brisa é a manifestação de Deus-Pai no Espírito Santo que nos dá o vigor, o frescor da vida, embalado pela presença o Pai e do Filho. Em qualquer estado, a água sempre será água. Viu, agora, como assim é fácil entender esse mistério de fé?

Uma última consideração. Se a Trindade é, essencialmente, a unidade na diversidade das pessoas, isto é, um é o mesmo Deus que nos desinstala e nos coloca sempre em ação, haveremos de reconhecer que vivemos num mundo plural, na diversidade de dons, de opiniões, e de modos de ver o mundo na Igreja, na sociedade e na política. O grande desafio do ser trinitário é respeitar as diferenças. Essa foi a mensagem central da Campanha da Fraternidade de 2021.

A Trindade é, sim, a melhor comunidade, como escreveu Leonardo Boff, [3] um mistério carregado de uma energia libertária capaz de eliminar todas as formas de opressão, possibilitando a inclusão em todos os sentidos, no social, no econômico, no religioso etc. E tudo só será possível, por causa de dois motivos: a) o princípio trinitário é o amor que nos une nas diferenças; b) se um dia fomos batizados, voltando à pergunta inicial dessa reflexão, é porque “o batismo é a iniciação à vida trina de Deus, que é indispensável da vida de Deus com cada criatura ao longo do tempo – passado, presente e futuro. A participação nessa vida trina é mediada através da vida da Igreja.”[4]

No batismo, o Espírito Santo nos impulsiona para missão. Na ressurreição de Jesus, voltamos para os braços, para a casa do Pai, de onde viemos. Na eternidade do tempo, somos amor, somos trinitários.


[1] Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE-BH. Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de exegese bíblica. Membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quatorze.  Caso se interesse por aulas sobre Bíblia e apócrifos, inscreva-se no nosso canal no You Tube: Frei Jacir Bíblia e Apócrifos ou https://www.youtube.com/c/FreiJacirdeFreitasFariaB%C3%ADbliaAp%C3%B3crifos

[2] Paróquia São Sebastião, Diocese de Teresina. Santíssima Trindade. Disponível em: https://semeandocatequese.wordpress.com/2016/10/11/santissima-trindade-dinamica-2/

[3] BOFF, Leonardo. A Santíssima Trindade é a melhor comunidade. Petrópolis: Vozes, 1989.

[4] GAILLARDETZ, Richard. Trindade: a relação amorosa define o próprio ser de Deus. National Catholic Reporter, out. 2016. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/560853-trindade-a-relacao-amorosa-define-o-proprio-ser-de-deus

 

Download WordPress Themes
Download Best WordPress Themes Free Download
Premium WordPress Themes Download
Download WordPress Themes
free download udemy course
download lenevo firmware
Free Download WordPress Themes
download udemy paid course for free