Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Setembro

O fervor da dimensão contemplativa

Uma página realista de Thomas Merton

A religião tem sempre tendência a perder a consistência interior e a verdade sobrenatural quando lhe falta o fervor da dimensão contemplativa. É justamente o elemento contemplativo, silencioso, “vazio” e aparentemente “inútil’ na vida de oração que a torna verdadeiramente uma vida. Sem a contemplação, a liturgia tende a se tornar apenas um piedoso show, e a oração paralitúrgica um simples tagarelar. Sem a contemplação, a oração mental nada mais é do que um estéril exercício da mente. E, no entanto, nem todos podem ser contemplativos. Não é este o ponto em foco. O que importa é a orientação contemplativa da vida de oração inteira.

Se a orientação contemplativa da oração para ser oração é seu vazio, sua “inutilidade”, sua pureza, podemos dizer ela perde seu verdadeiro caráter na medida em que se torna muito “ocupada”, cheia de fins ulteriores e engajada em programas abaixo do seu próprio nível. Claro que isso não significa que não possamos “rezar para” obter bens particulares. Podemos e devemos realizar a oração de petição e isso é mesmo compatível – numa forma muito simples e pura – com o espírito de contemplação.

É possível passar diretamente da oração de pedido à contemplação, quando se possui uma fé muito profunda e uma esperança teologal de grande simplicidade. Porém, quando a oração permite ser explorada para fins que lhe são inferiores e nada tem a ver diretamente com nossa vida em Deus, torna-se rigorosamente impura.

A oração deve penetrar e vivificar todos os setores de nossa vida. Incluímos aí aquilo que é mais temporal e transitório. A oração não despreza os aspectos aparentemente mais humildes da existência temporal do homem, Ela tudo espiritualiza, dando uma orientação divina. Mas é maculada quando a desviam de Deus e do espírito para ser manipulada pelos interesses de fanatismo grupal.

Thomas Merton, “A oração contemplativa”, Ecclesiae, Campinas, p. 168-169

Getsêmani, o horto

Marcos, 14; Mateus, 26; Lucas, 22 e João, 18

Um espaço na noite. Não propriamente um jardim. É Getsêmani com suas oliveiras que escutam em silêncio.

“Jesus passava o dia no templo a ensinar e saía para passar a noite no monte dito das Oliveiras”. O evangelho de Lucas observa que naquela noite “Jesus se dirigiu como de hábito ao Monte das Oliveiras”. Seria devido à multidão vinda a Jerusalém para festejar a Páscoa e numerosa demais para que a cidade pudesse acomodar todo mundo? João observa que nessa época Jesus se escondia de seus inimigos. De qualquer forma para ali se dirige com o intuito de passar a noite. Os espaços de Getsêmani nos falam de um homem, de um homem perseguido, contando com o perigo e que não se expõe inutilmente. Busca um pouco de paz para dormir enquanto seus inimigos estão acordados. Judas será pago para dizer onde ele se encontra. Ele sabia porque era um dos doze.

Nesta noite em que tudo faz lembrar Getsêmani ou “prensa de azeite”, Jesus não consegue descansar. Tendo chegado ao Monte das Oliveiras, dizem os textos de Mateus, Marcos e Lucas, ele quer rezar. “Ele começou a sentir medo e angústia”, observa Marcos e diz aos discípulos que o acompanhavam, aos três que anteriormente tinham sido testemunhas da transfiguração: “Minha alma está triste até à morte”. “Cai por terra” e se põe a pedir: “Abba, Pai, tudo te é possível: afasta de mim esse cálice!”, Lucas acrescenta: “Apareceu-lhe um anjo do céu que o confortava. E cheio de angústia orava com mais insistência. Seu suor tornou-se como gotas de sangue caindo por terra”.

O próprio Jesus é o “lagar” nesse jardim da prensa. Todos os evangelistas falaram de sua angústia quando ele se deu conta que não havia mais escapatória.

Os Doze conheciam bem o jardim de Getsêmani. Nesta noite estiveram todos com Jesus lá, menos Judas. Segundo Lucas a todos ele adverte: “Orai para não cairdes em tentação”. A Pedro, Tiago e Joao ele pede que vigiem. E todos dormem. Jesus vela, reza e sofre sozinho.

Getsêmani guarda também a memória da traição. E para lá que se dirige Judas com um bando armado de espadas e varapaus para prender o Mestre. Judas beija o Mestre, sinal dado para que os soldados o prendessem.

Somente Jesus é preparado para o que acontece. “Todos o abandonaram e fugiram”, assinala Marcos.

O céu, no entanto, não estava fechado. Ao Filho que grita “Abba!” do fundo de suas trevas, o Pai não falta. Lucas assinala: “Apareceu um anjo do céu que o confortava”. E o Filho proclama seu infinito sofrimento: “Não o que eu quero, mas o que tu queres”, sem compreender, sem que a angustia se amenize.

Getsêmani é verdadeiramente o Jardim da imensa Paixão. Sozinho Jesus atravessa a noite.

Tudo isso se passa no Jardim das Oliveiras. As árvores da paz não foram espectadoras da luta armada. Um dos presentes tirou a espada e feriu o servo do sumo sacerdote. Jesus pede que coloque a espada na bainha. Recusa este modo de vitória. Morre em vista de mostrar um modo de manifestar o amor fraterno e em relação a Deus. Em Getsêmani acontece este único amor que é um triunfo até a morte Em breve o sol vai nascer em outro jardim. Será o tempo da inauguração da nova Paz.

Madeleine Le Saux, Dossiers de la Bible, março de 1985, n. 7.

As lágrimas de Jesus no Jardim de Getsêmani

A epístola aos Hebreus recorda as lágrimas de Cristo na hora de sua morte, cena que não foi conservada pelos evangelistas, extremamente sóbrios no momento em que relatam a paixão: “Ele, nos dias de sua vida mortal, dirigiu preces e súplicas, entre veemente clamores e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte e foi atendido por sua piedade. Embora fosse Filho de Deus aprendeu a obediência por meio dos sofrimentos” (Hb 5, 7-8).

No Jardim das Oliveiras atravessam a noite para subir até Deus que parece se ter escondido. Uma vez que Jesus é na verdade o Filho de Deus, Deus que chora e suplica a Deus. As lágrimas do Messias constituem uma maneira de questionar, de maneira radical, a impassibilidade de Deus. Teólogos com Jürgen Moltmann chegarão a dizer: “O próprio Deus sofreu em Jesus, Deus morreu em Jesus por nós. Na cruz de Jesus, Deus é “para nós’ e por ela torna-se o Deus e o pai dos sem Deus e dos abandonados de Deus”. Salto qualitativo: na fé, os fiéis confessam que é também Deus que chora. Suas lágrimas se revestem de uma outra dimensão. Elas recolhem todas as suplicações de todos os tempos. Transportam-nas até o fim dos tempos, até que chegue esse dia novo, como promete o Apocalipse, Deus terá morada definitiva com os homens. Então ele enxugará toda lágrima de nossos olhos: “Enxugará as lágrimas de seus olhos e a morte já não existirá. Não haverá mais luto, nem pranto, nem dor, porque tudo isso já passou” (Ap 21,4).

Pelo fato de que o Filho de Deus verteu lágrimas de angústia, de desolação, de dor, cada homem pode acreditar, a partir de então, que cada uma de suas lágrimas é recolhida como fina pérola pelo Filho de Deus. Lévinas, numa fórmula fulgurante, assim compreendera: “Lágrima alguma se pode perder, morte alguma deixara de ressurgir”. Os cristãos, com efeito, confessam que depois das lágrimas de Jesus, lágrima alguma se perde.

Anne Lécu, Des larmes, Ed. CERF, Paris, p. 72-73

Humildade

Cora Coralina

Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura,
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo de meu fogão de taipa
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.

Cora Coralina
Seleção de Darcy França Denófrio
Global Editora, São Paulo 2004, p. 321

O memorial eucarístico - final

ANTECIPAR (4)

Há quatro meses, nesse nosso “Tirando do Baú”, estamos sendo muito bem acompanhados pelas reflexões do Joseph Moingt sobre a Eucaristia: lembrar, partilhar, anunciar e finalmente antecipar. Como seria bom se recuperássemos toda a riqueza desse grito de ação de graças da paixão, morte e ressurreição do Senhor que acontece nas missas e em nossa vida!

O anúncio da paixão, morte e ressurreição que atualiza a lembrança no tempo de sua representação, se volta para o futuro; não rompe seu laço com o passado, ele dá um futuro ao que se passou, porque o Senhor se libertou da morte para abrir uma passagem para a vida “ até que ele venha”, para todos aqueles que haveriam de segui-lo no mesmo caminho. Quando ele comia a Páscoa, a última com os seus discípulos, relata o evangelho de Lucas, Jesus não via que ela iria se consumar no tempo daquela precisa refeição, no momento de deixar os seus, mas anunciava que ela devia “ se realizar (chegar a seu termo) no reino de Deus” onde ele ia lhes preparar um lugar à mesa de seu Pai. Por isso, a eucaristia dos cristãos não está concluída quando os gestos e as palavras foram realizados. Prolonga-se na vida da Igreja. Ela tem como tarefa construir a casa de Deus entre os homens e levar sua história a seu termo: ela antecipa, ativamente, a realização do mistério do qual ela ergue um sinal no mundo, sinal de unidade.

Não é suficiente anunciar, é preciso trazer em sua carne a morte de Cristo na cruz, que é morte ao pecado, para aceder à sua vida, que está escondida em Deus, como ensina São Paulo. Uma vez que Cristo não morre mais e que sua morte é sua subida para o Pai, a entrada na verdadeira vida não é simplesmente remetida para o dia de nossa morte. Já nos é dada em germe e em penhor, por antecipação, pelo Espírito cujas primícias recebemos, e pois, conclui o apóstolo, já ressuscitamos e sentamo-nos nos céus com o Cristo. Independente de já ser dada, a vida no Espírito resta ainda a ser feita. Trata-se do cotidiano trabalho da vida espiritual. Paulo tem receio que os cristãos pensem terem rapidamente chegado ao termo e se afastem as atividades de todos os dias. Chama-lhes atenção para o preceito primordial do amor mútuo sob a forma mais humilde e concreta: “Suportai-vos uns aos outros”, quer dizer, que uns aceitem os outros como eles são, tolerar os defeitos dos outros, perdoar-lhes as ofensas, não se colocar acima de ninguém e que todos se voltem para as coisas do alto. O ideal proposto não é que cada um perfaça sua própria santidade, mas comportando-se como pessoas que juntas edificam o corpo de Cristo que é a Igreja. A plena eficácia da Eucaristia é de ordem eclesial. A tarefa indicada cabe a todos que partilham do mesmo pão. A verdade plena da Igreja é de ordem eucarística: sinal voltado para o mundo, mesa aberta.

A Igreja é o corpo do Pão de vida sob a forma de ser dado ao mundo, como Cristo, entregue ao serviço dos homens, serviço de alimentação. Os primeiros cristãos viviam tendo como horizonte o fim dos tempos. Esperavam a vinda do Senhor num futuro próximo. O horizonte dos cristãos de nossos dias se dilatou às dimensões da história. Sabem que receberam a herança, a tarefa de preparar a vinda do Senhor que vem ao mesmo tempo do futuro e do passado da história, porque o Reino, embora inacabado, já está entre nós como dizia Jesus a seus discípulos. Ensinava-lhes como levar o Reino ao encontro das pessoas: ele se sentava à mesa dos pecadores. Era esta a imagem primeira que ele dava da mesa da Eucaristia e da mesa do reino. A primeira delas tinha como finalidade ser uma antecipação da segunda. Este é a dimensão missionária da Eucaristia. Jesus queria reunir os seus à mesa eucarística para que estivessem com ele e o Pai quando todos iriam se sentar à mesa do Reino. “Que sejam um como nós somos um” não se referia apenas a eles, mas estava abraçando antecipadamente a todos os que viessem a ouvir sua Palavra. Estendia-se a toda criação, à multidão de homens e mulheres chamados a se tornar filhos de Deus. Os cristãos que partilham o pão e o vinho são os herdeiros deste testamento: recebem a incumbência de construir a paz entre os povos, o respeito a toda pessoa humana, a unidade da humanidade. Não podem duvidar que esta missão tem a ver com a eucaristia.

Todos esses traços da Eucaristia são constitutivos da singularidade do cristianismo como religião: o dever de lembrar não fecha os cristãos num passado fundador; o preceito de “fazer isto” não diz que o culto seja uma suficiente prática da fé; a obrigação de estarem unidos não faz com que a comunidade se dobre sobre si mesma não autoriza carregar perpetuamente sofrimento e luta, a espera da volta não os afasta das tarefas na cidade dos homens. Todas estas afirmações aparentemente restritivas conferem à Eucaristia a “ilimitação” do Evangelho. Ela é memória viva; e a memória cristã sob o signo eucarístico, se faz memória da humanidade, lembrança de uma história santa a se reproduzir na história dos homens.

(fim).

Nesta edição

TIRANDO DO BAÚ COISAS NOVAS E VELHAS
Reinventando a vida a cada dia
Edição de setembro de 2020

A vida não nos é dada feita. É uma aventura que requer audácia a cada instante. Há os que procuram nos ensinar a viver. Mas no fundo cada um de nós precisa apreender a andar com as próprias pernas, inventar ou reinventar a vida a cada dia. Há certos e desacertos. Amores e desamores. Avanços e retrocessos. Somos seres inacabados.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
freialmir@gmail.com