Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Outubro

Será mesmo bem-vinda a "Irmã" Morte?

O jeito de morrer de Francisco de Assis

 

Frei Almir Guimarães

Uma realidade que sempre nos causa arrepio é a da morte. Em condições normais todos preferiríamos que não viesse nos visitar. Mas morrer é sina de todos. Ninguém fica para semente. Se bem que Jesus afirma que o grão que morre dá fruto. Da morte vem a vida. Fato é que morrem as flores, os sonoros canarinhos e as viçosas árvores. Lei incontornável. Durante esta terrível pandemia nossas retinas receberam imagens terríveis… mortes aos borbotões sem que as pessoas tivessem um meio de dar um beijo ou esboçar um gesto de despedida nos que tanto tinham amado.

Sempre ficamos admirados com a “liturgia” que Francisco de Assis inventou para acolher, da melhor maneira possível, aquela que ele chegou a chamar de Irmã Morte.

Morre cedo. Em torno dos quarenta anos. Havia solenemente desrespeitado seu irmão corpo que dobrou com insensatas penitências. Teve que pedir desculpas ao “irmão asno”. Experimenta uma série de doenças. Está praticamente cego. Magro com problemas de abdômen. Além de preocupações com a Ordem. A impressão que ele tinha era de que o fogo inicial ardia menos. Mas dentro dele ardiam labaredas.

Queria morrer na sua “Porciúncula”. Que Francisco nos perdoe. Não era só dele, mas nossa também. Quantas recordações que ele tinha e que têm nossos corações deste espaço onde Deus andou visitando a terra…

Depois de ter abençoado seus irmãos entre eles, Frei Bernardo e Frei Elias, pediu um pão e deu um pedaço a cada um e pediu que fosse lida a passagem de João na qual Jesus fala de sua iminente paixão. André Vauchez, grande historiador, acredita que não se deve colocar em dúvida tais relatos de seu “trânsito”. Vauchez assim resume sua passagem: “Dois ou três dias depois pediu que o colocassem deitado no chão, pouco depois entregou sua alma, revestido de um cilício e coberto de cinzas, no noite de 3 para 4 de outubro de 1226, com quarenta e quatro ou quarenta e cinco anos”.

Como Francisco esforçou-se para fazer de sua vida um exemplo, quis teatralizar sua morte para fazer dela um drama sacro ao reviver as últimas etapas da vida de Cristo da Ceia a Getsêmani, deixando para os seus uma inesquecível lembrança daquele momento.

No final destas considerações não queremos deixar de lado o aparecimento de Fra Jacoba de Settesoli, a grande amiga de Francisco. O episódio em questão coloca em realce o lado humano de Francisco. Uns dias antes de sua more ele teve a visita de uma mulher da alta linhagem, Jacoba de Settesoli que pertencia à família romana dos Frangipani. Quando ele se dispôs a escrever-lhe pedindo que viesse, ela já chegava trazendo o necessário para os últimos pormenores: a túnica de cor cinza com a qual ele poderia ser enterrado, cera para fazer as velas e o incenso para perfumar o espaço em que ele celebraria seu trânsito. Francisco estava vivo e conseguiu ainda degustar o famoso doce de amêndoas (mostacciuollo) que ela sabia fazer e que ele tanto apreciava. Um santo que morre conseguindo comer um pedacinho de doce de amêndoas.

Depois Francisco é arrastado para a glória. O Poverello é levado onde o Amor o aguardava.

A Igreja conserva o corpo do Senhor

Eucaristia, Pão da Vida, uma presença que permanece além do momento da Ceia.

A Igreja conserva a Presença sagrada do Corpo do Senhor com o maior respeito. Jesus disse: “Tomai…”. Ele deu seu corpo, que pertence à Igreja. Cristo é o Senhor ao qual a Igreja pertence, mas ele pertence também a nós. A Igreja é a esposa que conserva consigo o corpo sagrado do Senhor para distribuí-lo aos fiéis que tomam o caminho do encontro definitivo com Deus e aos que não podem participar da comunhão na “fração do pão” (na missa), porque ela sabe que este sacramento foi instituído para a comunhão, segundo a vontade formal do Senhor que disse: “Tomai e comei”.

Conservando, com grande veneração, o corpo do Senhor, a Igreja convida os fiéis a entrarem em comunhão com ele na forma sacramental e na forma espiritual ou mística. O cristão entra em comunhão com Cristo não só quando recebe as sagradas espécies, mas também quando se acha diante de sua Presença sacramental e permanece diante do Emanuel (Deus conosco) expondo-se à sua ação irradiante.

Apelando para seus direitos de Esposa, a Igreja conserva o Corpo do Senhor e responde ao dom permanente que Cristo faz de si, acolhendo-o com veneração. Pode-se dizer que sua presença não age se nós não a encontramos, e nós não a encontramos se não a acolhemos. Um estação de rádio emitiria em vão suas ondas se não existisse nenhum receptor adaptado ao comprimento dessas ondas. A presença permanente da Eucaristia no tabernáculo convida os corações receptivos a se comunicarem com aquele que é o Amor. Quando os fiéis oram ao Senhor sacramentalmente, devem aceitar, em seus corações, os sentimentos de Cristo, o dom que faz de si mesmo no mistério pascal; devem abrir-se ao seu mistério e à sua transcendência e manter-se em atitude de fé e de adoração, de ação de graças e súplica, de perdão e engajamento.

A comunhão não é somente um encontro íntimo entre o cristão e Cristo, mas também uma participação real no memorial (anamnesis) de sua paixão, morte e ressurreição. O memorial “perigoso da cruz” nos convida a nos darmos a Deus e aos irmãos, e exige uma disponibilidade e uma obediência até a morte. O amor acolhe o outro e se deixa acolher por ele; assim estabelece uma reciprocidade entre dois seres que se amam. Na Eucaristia realiza-se essa palavra de Cristo: “Vós em mim e eu em vós”. A Igreja ora diante da Presença sacramental “oferecida” e recebe sua irradiação pascal. Aquele que ora diante da presença “oferecida” está diante de Cristo, o Senhor, e goza de sua intimidade, abrindo-lhe o coração e orando pela salvação do mundo.

Joan Maria Canals, “Orar diante da Eucaristia”, Enciclopedia da Eucaristia, Paulus, p. 830-831

Pensamentos fortes, quase ácidos

Os pensamentos que agora transcrevemos são de Jean Sulivan, um intelectual francês irrequieto, profundamente crítico do mundo e das coisas dos cristãos. São do livro “Provocação”, publicado na França em 1959 (Tradução, Ed. Herder, São Paulo 1966).

Perfume Quinta-feira santa – Não devemos nos admirar de que na quinta-feira santa, antes da comunhão, Jesus lave os pés de seus discípulos. E diz: “Os reis das nações dominam sobre elas e dá-se-lhes o nome de grandes benfeitores. Não será, porém, assim entre vós. Aquele que quiser tornar-se grande entre vós, será vosso benfeitor e o que quiser ser o primeiro, será o escravo de todos, porque o Filho do homem não veio para se servido, mas para servir.

Não tenho culpa, é o Evangelho. Temos de medir por ele a caricatura do cristianismo vivido. O Evangelho nos condena a todos. Não condena a ninguém; chama-nos. A comunhão real supõe esse paradoxo vivido; o chefe que desce do pedestal e lava os pés daquele que ele dirige, não nos dias de cerimônia, mas na realidade cotidiana. Se aquele que ama não se humilha, o que é mandado é humilhado. Não se trata para o chefe cristão de manter no infantilismo das eternas crianças, mas sim de promover adultos e irmãos (p. 16-17).

Na busca do desconhecido – O problema da vida é um problema de passagem. A criança que sai de sua mãe tende para a luz, mas ela quereria também ficar atrás, e grita. O adolescente está dividido entre a revolta contra a família que o oprime e o gosto do carinho e do abrigo. O desconhecido tanto o atrai, como o repele. A fé é também pôr em questão toda situação adquirida, é um desligamento do ambiente “Abraão, sai”. Este grito da Bíblia é o apelo a todo homem, o convite para deixar seu meio, suas ideias, sua época a afim de entrar no desconhecido (p. 19).

Uma suposição – Fábula. Suponhamos que todo sábado chegassem a todas as paróquias do mundo discos em que estivesse gravada a homilia do domingo perfeitamente elaborada, por uma equipe de teólogos, moralistas, literatos e artistas de todas as nações – chegaria até nós palavra de Deus? Não. Porque a verdade eterna tem que ser filtrada por inteligências de homens, sensibilidades de homens. Deus só fala a um homem que se dirige a alguém. Jesus não escreveu seu Evangelho (p.44).

Eis a beleza que salva o mundo

Escreve-se hoje muito sobre a beleza e a beleza de Deus.

Naquele Crucificado, diz o evangelista João, é a própria glória que se revela. Naquele Crucificado supera-se a fratura entre beleza e ser. Ali, a arte como arte divina de amar oferece-se à contemplação cósmica.

A verdade do ser resplandece naquela imagem, imagem de um Crucificado, não [tão] bela para atrair o nosso olhar, mas representação da arte de amar de Deus, capacidade de amar até se tornar feio.

A beleza que transparece naquele Crucificado que bela é a pessoa que ama até o fim! A beleza que transparece daquela imagem, fulge e insinua-se a cada coração atento. Beleza como irradiação e manifestação do ser, da sua verdade última e íntima, identifica com o ágape. A arte não é, pois, representação bela de uma coisa, mas a interpretação com pathos logos de uma coisa bela. A arte é uma hermenêutica da realidade; não uma representação; a arte figurativa não repropõe a forma das coisas, mas interpreta o logos e o nomos nelas contidos, o projeto e o estatuto daquilo que é.

Naquele corpo tornado feio pelo espasmo, naquele corpo que é o reflexo do coração, reflexo de um amor louco e escandaloso até dele morrer, reside a beleza, a verdadeira porta do conhecimento. Eis a beleza que salva o mundo.

Ermes Ronchi, “Os beijos não dados – Tu és a beleza”, Paulinas, Portugal, p.134-135

Oração

Confiança

Deus, a ti nós chamamos.
Em nós existe a escuridão,
mas junto a ti há a luz.
Nós estamos sozinhos,
mas tu não nos abandonas.
Nós somos pusilânimes,
mas em ti está socorro.
Nós estamos inquietos,
mas em ti está a paz.
Nós não compreendemos os teus desígnios,
mas tu nos mostras o caminho.

Dietrich Bonhoeffer

Nesta edição

TIRANDO DO BAÚ COISAS NOVAS E VELHAS
Reinventando a vida a cada dia
Edição de outubro de 2020

Amigos, neste tempo de pandemia, envio-lhes preciosidades pérolas buscadas no fundo do baú. Coisas novas e velhas.
Bom mês de outubro.
Frei Almir Ribeiro Guimarães ,OFM
freialmir@gmail. com