Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Novembro 2017

NOVEMBRO 2017

Tudo passa, passa rápido demais. Vamos novamente abrir o baú da vida e tentar colocar à vista pérolas escondidas. Textos de esperança, orações que brotam da vida, alimentos para uma vida viçosa.

freialmir@gmail.com

I. PARA COMEÇO DE CONVERSA

Da saudade dos que largaram nossas mãos

 

Já vamos avançando no mês de novembro e o ano vai terminando. Novembro, em não poucas localidades, é tempo dos agapantos brancos e azuis, flores de pescoços esguios, que conservam certa majestade, baloiçadas pelos ventos. Azul-roxeado, cor da saudade. Branco da leveza e da alegria. Vida, morte, esperança, cemitérios e apertos no coração. Saudade daqueles que foram, largando nossas mãos.

 

Quantas perguntas, quantos questionamentos no momento em que nos deparamos com a realidade da morte, quando ela se aproxima de nós, de nossos conhecidos, daqueles que foram nossos companheiros. Fim da caminhada. O que fizemos de nossa vida? Que estradas percorremos? Quem segurará nossa mão na hora da passagem? O que acontecerá depois do trespasse? Proximidade da morte: momento de fazer as despedidas, de jogar-se confiantemente no Senhor. O Filho amado do Pai morreu na cruz e nossa morte se mistura com a morte dolorosa e gloriosa do mais belo de todos os filhos dos homens.

Tempo de saudade. Guardamos na lembrança os gestos desinteressados daqueles que já se foram. As palavras que nos dirigiram reboam ainda no templo intimo da saudade. Tínhamos a impressão que iam ficar sempre… Seus defeitos e suas falhas hoje nos parecem insignificantes diante do bem que nos fizeram. Caminhando por onde eles andaram sentimos ainda sua presença. Encontramo-nos com vestígios deles nas salas e quartos em que vivemos, nos parques que percorremos, nos livros que juntos apreciamos, nas decisões que tomamos.

Mortes, tantas mortes. Há a morte final e há mortes cotidianas a nós mesmos. Sabemos que se o grão de trigo não morrer não poderá dar frutos. Vamos morrendo e renascendo. Os que nos banhamos no sangue e na morte do Senhor entramos num processo de morte ao homem velho. Morrer para viver. Paradoxo. “Em Cristo brilhou para nós a esperança da feliz ressurreição. E aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade Senhor, para os que creem em vós, a vida não é tirada, mas transformada. E desfeito o corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível” (Prefácio dos Mortos, I).

Julien Green assim fala da morte de Francisco: “Uma vitalidade prodigiosa habita esse corpo que os irmãos veem quase se anular sob seus olhos. Os últimos dias devoraram de uma certa maneira a hidropisia. A pele se cola nos ossos, o esqueleto se desenha, mas uma força interior anima essa carne tão duramente martirizada como se tivesse estado na mão de um carrasco. Os irmãos estão lá em sua volta e até sob as árvores na frente da cela. Ele chama Elias. Ora, Elias está à sua esquerda. Francisco cruzando sua mão direita sobre o seu braço esquerdo a coloca na cabeça daquele que ele nunca pode se impedir de amar, apesar das oposições passageiras. Sua bênção ampla e detalhada é como a dos patriarcas do Velho Testamento: Eu te abençoo em tudo o que fizeres…Que o Deus , Rei do universo te abençoe no céu e na terra…” ( Julien Green, São Francisco de Assis, Ed. Francisco Alves, p. 225).

Nesse tempo de novembro faz bem ler esta página de bispo do século VII: “Que a esperança da ressurreição nos anime, pois o que perdemos neste mundo tornaremos a vê-lo no outro; basta para isso crermos no Senhor com verdadeira fé, obedecendo aos seus mandamentos. Para ele, todo poderoso, é mais fácil despertar os mortos que acordarmos nós os que dormem. Dizemos estas coisas e, no entanto, levados não sei por que sentimento, desfazemo-nos me lágrimas e a saudade nos perturba a fé. Como é miserável a condição humana e nossa vida sem Cristo torna-se sem sentido” (São Braulio de Saragoça – sec. VII – Liturgia das Horas IV, p. 1778.

A morte não tem a última palavra. O homem é feito para viver. Éloi Leclerc em lúcidas frases fala que o homem é feito para a plenitude de vida: “O ser humano é comparado a um rio. No curso superior ele corre em margens estreitas e apertadas, à sua medida, afinal. Mas o caudal das águas, a crescer continuamente, impele-o sempre mais longe. E ao chegar à planície, pouco a pouco as margens vão se separando cada vez mais, como para lhe darem mais espaço. Seria inútil tentar impedi-las de se alargarem de irem para mais longe. Até que chega o momento em que desaparecem por completo, deixando o rio à imensidade do imenso mar. Acabaram-se as margens. O rio passa a fazer parte do oceano que o acolheu no seu seio: transforma-se em oceano. Agora, ergue-se com as ondas e baila com o sol. O homem na luz do Verbo feito carne, é esse ser imenso que tem a sua plena realização na comunhão com aquele que é comunhão de vida. Com uma diferença, no entanto, fundamental, em relação ao rio que se perde no oceano: é que alcança então toda a sua grandeza pessoal na comunhão trinitária. Nenhuma barragem, nenhuma lei consegue eliminar o impulso de seu desejo. O homem é feito para a alegria divina de viver” (Éloi Leclerc, Vida em plenitude, Editorial Franciscana, últimas linhas).

Os que se foram, foram sem se for. A vida do que se foram “é incomparavelmente mais intensa do que a nossa. Sua alegria não tem fim. Sua capacidade de amar não conhece limites nem fronteiras. Não vivem separados de nós, mas muito mais dentro do nosso ser do que nunca. Sua presença transfigurada nos acompanha sempre. Não é uma ficção piedosa viver uma relação pessoal com nossos entes queridos que já vivem em Deus. Podemos caminhar envoltos por sua presença, sentir-nos acompanhados por seu amor, gozar de sua felicidade, contar com seu carinho e apoio; podemos inclusive comunicar-nos em silêncio e com palavras, nessa linguagem, nem sempre fácil, mas profunda e entranhável, que é a linguagem da fé”

(José A.Pagola, João, p. 170).

II. MOVIMENTOS E MURMÚRIOS DA ALMA

Pedindo entranhas de misericórdia

 

 

Senhor, se eu tivesse entranhas de misericórdia…

sairia de casa para encontrar-me com os mais necessitados;

de minha apatia para ajudar os que sofrem;

de minha ignorância para conhecer os ignorados;

de meus caprichos para socorrer os famintos;

de minha crítica para compreender os que falham;

de minha suficiência para estar com os incapazes;

de minhas pressas para dar tempo aos abandonados;

de minha preguiça para ajudar os cansados de gritar;

de minha burguesia para compartilhar com os pobres.

Ulíbarri
citado  em Grupos de Jesus
Vozes, p. 184

III. TEMPO DE ESPERA

Oração do Advento

 

 

Senhor,
a terra de minha vida anda ressequida!

De cansaço em cansaço meu ser anela pela tua vinda.

Meu ser inteiro suspira por tua chegada.

Não aguento mais a solidão de meus dias.

Caminho ao lado de uns e de outros,
converso com meus companheiros de caminhada,
paro diante de rostos solitários.

Tudo parece tão estranho em mim nesta hora.

As amizade nem sempre são fiéis,
as companhias que antes tanto me agradavam, hoje…
uma radical experiência de solidão toma conta de mim.

Tu podes acabar com esta solidão.

Creio na tua vinda.

Minha existência precisa entrar numa atmosfera de advento.

Creio que sempre vens a todos os homens.

Vivo a festa da espera.

É bom esperar por alguém que se ama.

Enfeito meu coração, preparo meu interior,
coloco flores alegres e cortinas brancas
nos cantos de minha vida.

Vem, Senhor Jesus, vem sem tardar.

As nuvens estourarão e o Justo
será a chuva da vida dos homens.

IV. TESTEMUNHO

O grito de um Lobo

 

 

Testemunho de Frei Henri Namur

 

Henri Namur, franciscano belga, antigo provincial dos franciscanos, vivendo um tempo em Paris foi designado como capelão do complexo penitenciário da Santé, depois em Fresnes. O depoimento dele que agora transcrevemos tem tudo a ver com o episódio do lobo de Gubbio descrito nas páginas das legendas em torno de Francisco de Assis.

A pessoa que mais me faz lembrar o lobo de Gubbio foi um preso, ainda jovem, um parisiense tido como particularmente perigoso. Violador em série, fora colocado numa parte de segurança máxima no presídio, afastado e de todos isolado. Meu capelão que me antecedeu, meu colega, tinha pedido que eu não deixasse de ir vê-lo no momento em que me transmitia suas funções. Bato à porta de sua cela. Entro e, de repente, me encontro em densa obscuridade. O homem havia vedado todas as fontes de luz. Se uma nesga de luz não viesse de uma minúscula fresta entre as grades, no alto da cela, nem teria podido saber que ele se achava ali, todo encolhido em sua cama, como um animal acuado. Apresentei-me dizendo que era meu predecessor que me recomendara esta visita. Não houve resposta. Uma vez acostumado à obscuridade da cela, nua de tudo, me dei conta que havia uma fotografia de uma mulher em preto e branco. Com o dedo indico a foto e o homem sai de seu mutismo: “É minha mãe!” Logo em seguida solta um verdadeiro grito de um animal: “Preciso que compreendam…”. Ele começa evocando sua mãe, falecida quando ele tinha apenas um ano. Seu pai? Desconhecido.

Uma vida destruída antes mesmo de começar. Confiado a uma família de acolhida na região da Bretanha, sofreu abuso sexual durante dez anos da parte de um tio da família. Terminou dizendo: “Fiquei contente de ter sido preso”. Sim, ao menos alguém, o juiz pode ouvir esta história que antes lhe tinham proibido de contar. Seu semblante não era acolhedor, mas fechado e ingrato. Na medida em quem o tempo foi passando pudemos continuar nosso diálogo e notei que ele se tornou menos tenso. Aquele que, no começo, assemelhava-se a um animal selvagem foi se tornando um pouco meigo reencontrando a criança que tinha sido, a inocência que nele tinha sido sufocada , penso eu, aceitando melhor as feridas que ele recebera e que, por sua vez, havia infligido a outros. Cheguei mesmo a vê-lo sorrir. Ele se tornou manso como o lobo de Gubbio porque o interlocutor que fora eu me dispusera a ouvi-lo por muito tempo, porque tinha podido fazer um relato de tudo o que sofrera que, ao menos me parte, explicava seu comportamento.

Obs.: Esse depoimento foi recolhido do livro Le Passe-Murailles François d’Assise: um héritage pour penser l’interculturel au XXIe siècle.
Michel Sauquet
Éditions Franciscaines, Paris, 2015, p. 28-29

V. LEITURA ESPIRITUAL

Na busca do rosto do Altíssimo

 

Nunca conseguimos divisar cabalmente o semblante do Senhor.  Ele mora numa luz inacessível e se esconde em nosso íntimo.  Emanuel Mounier dizia: “O Senhor me inventa cada dia comigo mesmo”. Eu sou instrumento  dele.  Caminhamos juntos.  Somos companheiros.

 

 

O coração puro consegue ver a Deus

“Deus está em todo lugar, imenso e próximo em toda a parte, conforme o testemunho dado por ele mesmo: Eu sou  o Deus próximo e não o Deus de longe. Não busquemos, então, longe de nós a morada de Deus, que temos dentro de nós, se o merecermos. Habita em nós como alma no corpo se formos seus membros sadios, mortos ao pecado. Então, verdadeiramente mora em nós aquele que disse:  E habitarei neles e entre eles andarei. Se, portanto, formos dignos  de tê-lo em nós, em verdade seremos vivificados por ele,  como membros vivos seus;  nele, assim diz o Apóstolo,   vivemos, nos movemos e somos.

Quem, pergunto eu, investigará o Altíssimo em sua inefável e incompreensível  essência?  Quem sondará as profundezas de Deus?  Quem se gloriará de conhecer o Deus infinito que tudo enche, tudo envolve, penetra em tudo e ultrapassa  tudo, tudo contém e esquiva-se a tudo?  Aquele que ninguém jamais viu como é. Por isto, não haja a presunção de indagar sobre a impenetrabilidade  de Deus, o que foi, como foi, com quem foi. São realidades  indizíveis, inescrutáveis, ininvestigáveis;  simplesmente,  mas com todo o ardor, crê que  Deus é como será, do modo como foi porque  Deus é imutável.

Quem, pois, é  Deus?  Pai, Filho e Espírito Santo, um só  Deus.  Não perguntes mais sobre Deus; porque os que querem conhecer  a imensa profundidade, têm antes de considerar a natureza.  Com razão compara-se  o conhecimento da Trindade à profundeza do mar, conforme diz o Sábio:  E a imensa profundidade quem a alcançará?  Do modo como a profundeza do mar é invisível ao olhar humano, assim a divindade da Trindade  é percebida como incompreensível pelo entendimento humano. Por conseguinte, se alguém quiser conhecer  aquele em quem deverá crer, não julgue compreender melhor falando do que crendo; ao ser investigada a sabedoria da divindade foge para mais longe do que estava.

Procura, portanto,  a máxima ciência  não por argumentos e discursos, mas por uma vida perfeita;  não pela língua, mas pela fé que brota da simplicidade do coração, não adquirida por doutas  conjeturas de impiedade. Se, por doutas  investigações  procurares o inefável, irá para mais  longe de ti   do que estava;  se, pela fé, a sabedoria estará à porta, onde se encontra;  e onde mora poderá ser vista ao menos em parte. Mas em verdade até certo ponto também será atingida, quando se crer no invisível, mesmo sem compreendê-lo;  deve-se crer em Deus por ser invisível, embora  em parte o coração puro o veja”.

Instruções de São Columbano, Abade, séc.  VII, Liturgia das Horas III, p. 216-218.