Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Março 2019

Apresentação deste número

TIRANDO DO BAÚ COISAS NOVAS E VELHAS

Reinventando a vida a cada dia

Edição de março de 2019

             O tempo voa.  Voa rápido demais. Já estamos em março. Entramos na Quaresma. Alegrias e apertos do coração se sucedem na vivência desse tempo de reflexão e de acertos na caminhada, enquanto dispomos de tempo. A Quaresma é tempo de retiro. Todos precisamos de coragem para  não cair na terrível rotina que esteriliza  o que há de promessa em nós. Tempo de balanço, de refletir sobre as coisas da vida.  Abrimos mais uma vez o baú. Coisas velhas e coisas novas. Boa leitura.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

freialmir@gmail.com

Na hora da Cruz do Filho Amado

Para começo de conversa

Nesse tempo da Quaresma sentimos necessidade de nos recolher no silêncio e no despojamento do quarto. Contemplamos a cruz, a solidão da morte, as torturas do mais belo dos  filhos dos homens. Quanta solidão! Éloi Leclerc, franciscano, que chegou às portas do desespero nos campos de concentração na Segunda Guerra mundial, nos faz mergulhar no imenso mar de solidão em que foi  imerso o  Senhor no alto da cruz.  No epílogo de seu  livro “Reino Escondido”, publicado pela Ed. Franciscana do Porto,  ele fala do silêncio de Deus no momento do desfecho da trajetória de Jesus.  O livro todo merece ser lido.  Diria mesmo que precisa ser lido pelos que desejam sair da mesmice.  Texto longo, mas merece atenção. Ah! Esse silêncio de Deus na barbárie dos campos de concentração e nas noites que atravessamos! Noite, secura, solidão. 

Jesus é o mensageiro de uma nova proximidade de Deus. Uma proximidade que até então não existia, realiza-se agora com sua presença.  Uma proximidade inesperada que não se vale da Lei, mas a todos se oferece sob o signo duma absoluta gratuidade. Trata-se de uma comunicação de Deus, absolutamente graciosa e misericordiosa.  Contra tudo o que seria de se esperar, essa aproximação divina não se dá com o homem virtuoso e religioso, com o fiel cumpridor da Lei, mas antes com o mais afastado de Deus, o transviado, o sem piedade, sem Lei e sem esperança.  Jesus declara isto rotundamente: “Não vim para os justos, mas para os pecadores”.  Esta palavra não é uma palavra de circunstância, uma expressão retórica. Não. Esta declaração exprime o sentido profundo, essencial, da sua mensagem e da sua missão. De resto, Jesus não se contenta em dizê-lo; vive-o: vai ter com publicanos e pecadores, precisamente com esses que toda a gente considera os excluídos da Aliança.  Toda sua vida traduz o movimento de Deus em direção ao mundo perdido e que vive sob o signo da ausência de Deus.

Eis a grande novidade que estilhaça o próprio conceito de Deus sobre o qual se assentava o judaísmo antigo. Jesus apresenta-se como o portador duma nova proximidade de Deus. E começa por levá-la na sua total gratuidade, precisamente onde ela era menos esperada, indo ter com o homem no seu distanciamento de Deus, na sua experiência de ausência de Deus.

Este empreendimento culmina na morte. Rejeitado pelo seu próprio povo, excluído ele mesmo da Aliança, equiparado aos ímpios, Jesus aceita a morte dos malditos, por fidelidade à sua missão.  Assim, ele alcança a humanidade perdida, sem esperança e sem Deus; vê-se mergulhado num despojamento total; experimenta ausência de Deus e a miséria infinita do homem. Na cruz, a relação íntima de Jesus com o Pai transforma-se numa espécie de ausência a desembocar no vácuo.  Mas aí, no fundo dos nossos abismos, no abandono mais completo, traz-nos ele o absoluto de Deus, torna Deus presente no seio do silêncio. Equiparado aos malfeitores, revela-lhes a inefável proximidade: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso…”, declara ele ao companheiro de tortura. Para lhe poder dizer  isso, era necessário que antes tivesse experimentado com ele o mais fundo da miséria e da desgraça humana. Assim, pelo seu próprio abandono, Jesus dá a Deus os abandonados de Deus. É o que Paulo salienta na carta aos Efésios: “Nesta altura estáveis sem Cristo, privados do direito de cidadania em  Israel, e alheios às Alianças da Promessa, sem esperança e sem Deus no mundo. Mas agora, vós que outrora estáveis longe, aproximastes-vos, graças ao sangue de Cristo” (Ef 12, 12.13).

É inesgotável o sentido da morte de Cristo na cruz. A Boa Nova da proximidade do Reino, longe de ser uma utopia à margem da realidade dum mundo sem Deus, apresenta-se, pelo contrário, como que  ligada à experiência mais dilacerante que um homem pode ter do silêncio de Deus.  O Evangelho é este fato indesmentível, incomensurável: o homem que teve a intuição mais imediata e profunda da proximidade de Deus, e que a anunciou ao mundo de forma mais clara, é também aquele que faz a experiência mais tétrica da ausência e do abandono de Deus. E foi precisamente por esta experiência que revelou ao mundo uma proximidade divina inultrapassável e indestrutível. Consciente e convencido do amor de Deus para com os homens, Jesus, para testemunhar essa verdade, não hesitou em se embrenhar no caminho tenebroso do abandono, fazendo assim brilhar na noite da ausência o esplendor do Ágape.  E com essa iniciativa, o silêncio de Deus tornou-se o lugar privilegiado de sua revelação.

Para captar perfeitamente o sentido dessa morte, importa notar  que não tinha que ser assim, não era nenhum fatalismo. Jesus não é como um herói antigo, um ser arrastado pelo destino. É um homem livre. Podia recuar perante o horror da morte e privar-se dessa situação degradante. Fez uma opção com inteira liberdade. Ele cuja vida se alimentara sempre da proximidade inefável de Deus, para cumprir até o fim sua missão, aceitou mergulhar nos nossos infernos humanos. Aceitou este despojamento que equiparava o Filho único aos banidos e abandonados. Procedendo assim, Jesus ultrapassou-se: saiu dos limites dum povo e duma cultura;  abriu-se  à condição universal do homem; desposou essa condição na sua nudez radical. E por isso mesmo se elevou a um nível de redenção universal. Se a respeito de Jesus é lícito falar de universalidade, é exatamente por motivo dessa opção. E, ao mesmo tempo, a nova proximidade de Deus, de que ele era mensageiro e portador aparece em todo o seu alcance: oferecida a todos, numa gratuidade absoluta, alcança o homem até nos seus infernos. Verifica-se aqui a palavra do salmo:  “Eu dizia: As trevas esmagam-me. Mas a noite transformou-se para mim em luz radiosa” (Sl 139, 11).

A originalidade da mensagem evangélica reside neste testemunho,  que faz da condição humana mais negra e mais abandonada o lugar privilegiado do encontro de Deus com o homem. Não é uma mera natureza humana, intemporal e abstrata, que  Jesus assume e abre  para Deus;  é a condição humana concreta, na sua nudez existencial, na sua experiência de distanciamento e ausência de Deus: “Felizes vós, os pobres: é vosso o Reino de Deus!” Pobres são todos os que duma forma e de outra  experimentam na sua vida a “morte” de Deus. É toda a multidão imensa de homens e mulheres de quem Jesus dizia: “Andam perdidos como ovelhas sem pastor”.

Ora, precisamente a esses homens e mulheres, revela Jesus  uma proximidade divina totalmente inesperada, não como uma realidade estranha à vida, mas  como uma força de ressurreição. De que maneira?  Indo ter com eles nos caminho de seus desvios.

Jesus foi tão longe na busca do homem perdido, que também ele se perdeu, na ânsia de testemunhar o amor de Deus aos mais arredados.  Mergulhou, ele também, no silêncio de Deus.  Mas pela sua presença, pelo seu grito no barranco das trevas, o silêncio alcançou uma densidade infinita;  tornou-se  a linguagem do espanto.

Na revelação de Deus ao mundo há um aspecto desconcertante, trágico mesmo, que tem a ver não só com a recusa que o homem lhe pode opor,  mas também com a profundidade da comunicação divina.  Não há linguagem capaz de traduzir essa profundidade. As nossas palavras, os nossos conceitos, os nossos raciocínios não estão à medida desta desmedida. Chega um momento em que a Palavra se confunde com o silêncio. Silêncio que não significa um vazio, mas um transbordar de presença.

O esplendor do Ágape  divino em parte nenhuma brilha tanto como na noite da cruz, no momento em que o silêncio de Deus atinge a máxima densidade. Esse silêncio é mais do que o ápice da Revelação; é o lugar onde se dá e se recebe toda a Revelação.

É necessário saber escutar esse silêncio onde germina e cresce, como a alvorada ao fim da noite, a pergunta, a única pergunta: “Quem é Deus, para nos amar assim?”

As novidades do ambiente digital

Jovens 

Muitos de nós acompanhamos com interesse  o Sínodo dos Bispos  sobre  “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”.  Temos já o Documento Final.  Para sua reflexão transcrevemos algumas considerações  a respeito dos  jovens e o ambiente digital. 

Uma realidade difusa

O ambiente digital caracteriza o mundo contemporâneo. Grandes parcelas da humanidade estão mergulhadas nele de maneira cotidiana e contínua.  Não se trata apenas de “usar” meios de comunicação, mas de viver em uma cultura amplamente digitalizada, que tem impactos extremamente profundos  sobre a noção de tempo e de espaço, sobre a percepção de si, do próximo e do mundo, sobre  a maneira de comunicar, aprender, obter informações, entrar em relação com os outros. Uma abordagem da realidade que tende a privilegiar a imagem em vez da escuta e da leitura  influencia o modo de aprender e o desenvolvimento do senso crítico.  Já se tornou evidente que “o ambiente digital não é um mundo paralelo nem puramente virtual, mas faz parte da realidade cotidiana de muitas pessoas, especialmente dos mais jovens” (Bento XVI, Mensagem para o XLVII Dia Mundial das Comunicações Socais, n. 3).

A rede de oportunidades

                A web e as redes sociais constituem ambientes onde os jovens passam muito tempo e se encontram facilmente, embora nem todos tenham igual acesso às mesmas, de modo particular em determinadas regiões do mundo. Contudo, elas constituem uma extraordinária  oportunidade de diálogo, encontro, intercâmbio entre as pessoas, bem como de acesso à informação e ao conhecimento.  Além disso, o ambiente digital é um contexto de participação sociopolítica  e de cidadania ativa, e pode facilitar a circulação de informações independentes, capazes de proteger eficazmente as pessoas mais vulneráveis, revelando as violações dos seus direitos. Em muitos países, a web e as redes sociais  já constituem um lugar indispensável para alcançar e envolver os jovens nas próprias iniciativas e atividades pastorais.

 O lado obscuro da rede 

            O ambiente digital é também um território de solidão, manipulação, exploração e violência, até o caso extremo de dark web. A mídia digital pode expor ao risco de dependência, isolamento e perda progressiva de contato com a realidade concreta, dificultando o desenvolvimento de relações interpessoais autênticas.  Novas formas de violência propagam-se através das mídias sociais, por exemplo, o cyberbullying;  de igual modo, a web constitui um canal de divulgação da pornografia e da exploração das pessoas para fins sexuais ou através de jogos de azar.

Por fim, no mundo digital existem gigantescos interesses econômicos, capazes de criar formas de controle  que são tão sutis quanto evasivas, criando mecanismos de manipulação  das consciências e do processo democrático. Frequentemente, o funcionamento de muitas plataformas acaba por favorecer  o encontro entre pessoas que pensam do mesmo modo, impedindo o encontro entre as diferenças. Esses circuitos fechados facilitam a divulgação de informações e notícias falsas, fomentando preconceitos e ódio. A proliferação dos fake News é a expressão de uma cultura que perdeu o sentido da verdade e adapta a realidade a interesses particulares. A reputação das pessoas é comprometida  através de processos sumários on-line. O fenômeno diz respeito também à Igreja e seus pastores.

Documento final

Sínodo dos Bispos

XV Assembleia Geral Ordinária, n. 21-24

Em torno da multiplicação informativa

Mundo atual

      Hoje fala-se muito de transparência.  A verdade é que liberta.  Não queremos ser iludidos pela propaganda dos bancos, dos políticos e da comunicação. Um autor espanhol-basco escreveu um interessante livro sobre a transparência  (Quanta transparência podemos digerir?  Francesc Torralba, Vozes).  Eis uma poucas linhas sobre  transparência e informação.  Estamos crescendo como pessoa  nesse tempo das redes sociais?  Onde e como acolhemos tantas informações?

A transparência que exigimos dos órgãos públicos, dos representantes eleitos das instituições políticas e dos cargos das administrações também é exigida dos meios de comunicação. Queremos que sejam neutros, imparciais, que exponham a  realidade assim como ela é, que manifestem com clareza o que acontece, sem maquiá-lo, poli-lo, intoxicá-lo  ideologicamente.

            Os meios de comunicação, no entanto, não têm como finalidade mostrar o que acontece no mundo, e sim apresentar notícias e a notícia não é um diagnóstico do que acontece, mas algo que tem, supostamente,  interesse público  por sua novidade, pelas consequências que terá, pelo seu exotismo, pela transcendência do acontecimento.

A verdade, no entanto, é bem diferente.  Segundo Byung-Chul Han: “A massa de informação não engendra nenhuma verdade. Quanto mais informação é dada, tanto mais intrincado se torna o mundo. A hiperinformação e a hipercomunicação não lançam nenhuma luz na escuridão.”

Com efeito, esta é a impressão de quem consome notícias  pelos meios de comunicação. A multiplicação de informações sempre e a partir de meios diferentes em nada esclarece o que está acontecendo no mundo. Pelo contrário, o obscurece. Viemos de um tempo sem informação e viajamos para um tempo caracterizado pelo excesso informativo.

(…)

A massa de informação não engendra nenhuma verdade se por verdade entendemos o ser das coisas, o que são em si mesmas.  Muito pelo contrário: a multiplicação exponencial de informações engendra o caos, a perplexidade, a sensação de não saber o que exatamente aconteceu, porque ao contrastar as diversas fontes informativas  tomamos consciência de cada uma é escrava de determinados interesses. O mundo apresentado pelos meios de comunicação se torna mais obscuro, mais caótico.

Heidegger advertiu, há mais de cinquenta anos, que já não é possível fazer uma imagem global do mundo.  Não há mais norte, nem sul, nem bússola para se orientar. Só há um dilúvio contínuo de notícias que se sobrepõem uma às outras e que não nos permitem construir um relato com sentido.

A multiplicação informativa entretém, distrai, dá margem a todo tipo de comentários e de análises a contrarrelógio, mas é impossível distanciar-se desse quebra-cabeças informativo e ter a mínima ideia para onde caminha o mundo. Assim, pois, a hiperinformação, longe de fazer o mundo mais transparente, o obscurece, o dissimula com milhares de manchetes que envelhecem à velocidade da luz.

No fim, temos a sensação de não saber nada, mesmo estando tão pontualmente informados. 

Francesc Torralba

Quanta transparência  podemos digerir?

Vozes, p. 43-45

Cuidados pastorais diante da iminência da morte

Chamamosde pastoral da saúde aquela que se ocupa das atenções humanas e cristãs prestadas aos doentes e mesmo aos que já estão no limiar de viver a experiência da morte. Quais as linhas de pastoral adequadas para acompanhar as pessoas que estão para esta realidade inevitável que  Francisco de Assis chamava de  “irmã morte”?

a. Enfrentar a morte

Nós, cristãos e agentes de pastoral, não podemos ficar indiferentes  diante da ocultação da morte que acontece em nossos tempos.  A Igreja, enviada por Jesus Cristo, para anunciar o sentido último do ser humano, sente-se chamada a enfrentar a realidade da morte sem a negar e a ocultar.

Primeiro serviço a ser prestado: mostrar que a morte é um acontecimento que faz parte da vida e que ignorá-la porque muitos veem nela um fracasso, um sem sentido é uma destruição intolerável não é a melhor maneira de encará-la. Diante da morte o ser  humano tem que se atrever a fazer as perguntas fundamentais. Já que a morte é uma  componente essencial da vida, como dar um sentido à vida quando não se sabe dar nenhum sentido à morte? A finitude de cada indivíduo é presságio da finitude de todo o humano; e se todos e cada um dos homens terminam no nada como se pode falar em progresso e humanização da história?  Se a pessoa desaparece pura e simplesmente na morte, como entender o valor absoluto da pessoa?

Tendo como base a sua fé em Cristo crucificado, a Igreja  tem que se tornar presente nessa tensão não resolvida de maneira digna pelo homem atual para resgatar o verdadeiro sentido da morte, anunciando o que já está  no núcleo da fé: “Com a morte, a vida não é destruída, mas transformada” (Prefácio I dos mortos). Para a Igreja, negar a morte seria tornar impossível, em boa parte, o anúncio realista de sua fé na ressurreição do homem e da história.

b. Acompanhar quem morre

Há que reagir contra a mentalidade de distanciamento da morte com um pastoral de comunhão com aquele que morre e sua família. Ninguém deveria morrer sozinho; nenhuma  família deveria ficar abandonada em sua dor.  Toda a comunidade cristã tem que se sentir responsável por acompanhar e por viver em comunhão cristã com a morte de cada homem e de cada mulher.

Em primeiro lugar a Igreja é chamada a renovar a melhorar a proximidade e o acompanhamento humano e religioso à pessoa que está na iminência de morrer.  Ninguém morre em nosso lugar.  A solidão é uma dimensão da existência humana. Mas a solidão não significa isolamento.  Para que haja uma morte mais humana é necessária uma melhor comunicação com o moribundo ao longo de todo o seu processo. Morrer em companhia é um direito que a Igreja tem que defender e exigir para todas as pessoas.  Precisará estar perto da família daquele que morre.

Assim escreve José Antonio Pagola: “Ocorrida a morte, a Igreja é chamada a situar  este acontecimento no seio da comunidade cristã, como o lugar mais digno para despedir o defunto e para exprimir a  solidariedade com sua família.  Daí  a importância da comunhão paroquial As casas mortuárias, os crematórios e outros lugares de serviços fúnebres não têm o caráter  humano e simbólico da Igreja paroquial  onde se reúne a comunidade cristã em volta do cadáver  para se despedir de seu ente querido. Por outro, os diversos contatos com as empresas de serviços fúnebres não podem substituir os laços de solidariedade da comunidade cristã, que tem de ajudar a família a viver o luto de maneira digna e  positiva”  (p, 100).

c) Humanizar o ato de morrer 

A Igreja  também é chamada a recordar que o enfermo moribundo é um ser humano e não somente um organismo que precisa de atenção e do controle médico. Temos, indubitavelmente, de dar valor e de agradecer o progresso da assistência técnica  ao doente, mas ao mesmo tempo temos que fazer com que esse progresso não se realize sacrificando o  conteúdo humano da existência.

A Igreja tem que colaborar para que o homem não perca o seu direito de presidir à própria morte de forma pessoal. A morte é uma experiência que pertence à pessoa e não à medicina. Cada enfermo tem o direito não só  a uma assistência médica  que alivie sua dor e faça com que ele viva com a melhor qualidade de vida possível, mas também de receber a ajuda necessária para conhecer sua situação e preparar e viver a sua própria morte.

O moribundo tem necessidades psicológicas, afetivas, religiosas e familiares que devem ser atendidas.  A Igreja deve colaborar de modo que  nenhum  doente fique abandonado ao seu destino à espera de sua morte mais ou menos pressentida, como se já não fosse precisa mais nenhuma ajuda ou acompanhamento, exceto o controle eficaz dos aparelhos de  assistência.  Assim, como ninguém tem que viver sozinho  e abandonado sem a ajuda necessária para enfrentar a morte.

Novamente  Pagola: “…é tarefa importante da Igreja ajudar os crentes a “morrer no Senhor” (Ap 14,13).  O cristão não morre para o vazio, mas para o Deus que ressuscitou Jesus. A sua morte é um “com-morrer”  com Cristo ( cf. 2Tm  2,11) e, por isso,  deve estar configurada pelo espírito e pelas atitudes de Jesus na cruz;  confiança radical  no Pai, abandono total ao seu  mistério de amor, solidariedade com os irmãos, concepção generosa do perdão. Por isso, a  Igreja tem de cuidar da ajuda  religiosa que oferece a cada  cristão enfermo”  (p. 101).

d. Comunicar esperança cristã

Toda esta atuação da Igreja se inspira na fé em Cristo ressuscitado e por ela é impelida.  Ao prestar o seu serviço aos homens ela tem de ser e tem de aparecer como sinal da esperança cristã.  É a fé no mistério da morte e ressurreição que está em jogo nesta pastoral ao redor do ato de morrer e da morte.  Não se trata de fazer da morte uma obsessão nem dos funerais o centro da pastoral, mas de convidar a comunidade cristã a ver a morte com realismo e esperança, como uma realidade aberta à comunhão definitiva com o Deus que ressuscitou  Jesus Cristo. 

Texto inspirador:

Ide e curai

Evangelizar o mundo da saúde e da doença

José Antonio Pagola

Paulus  de Lisboa,  p. 98-101

Celebração da paternidade

Contemplando São José

Em nossa viagem pela vida, em nossa caminhada na busca do Senhor, tivemos vários encontros com  José, o esposo da Virgem Maria.  Guardião do Menino,  cuidador da lar de Nazaré, homem laborioso.  Sylvie Germain, intelectual francesa da atualidade, houve por bem nos presentear com primorosa  reflexão sobre a paternidade lançando o olhar  sobre a figura de São José. Dela nos inspiramos para organizar estas  linhas.

♦ >> Paternidade, maternidade…correr o risco do desconhecido, da liberdade, do imprevisto. A comunicação com o outro não se faz num mar de tranquilidade. Como lançamo-nos na aventura da vida, precisamos correr o risco de colocar filhos no mundo.  A empreitada  supõe sempre acreditar no outro e aceitar o desafio. A beleza consiste nesse risco assumido. José, “o justo” aceitou o desafio de ser pai de um filho que Maria, aquela a quem estava prometido em casamento, lhe apresentava. Não era seu filho biológico.  Como as coisas foram acontecendo?

♦ >> José é um dos personagens mais discretos dos evangelhos e até mesmo o mais misterioso. Mateus e Lucas, é bem verdade, traçaram sua genealogia, o primeiro remontando aos principais mensageiros das promessas messiânicas,  Abraão e Davi, o segundo  chegando a Adão, bem lá nas origens da humanidade. Uma genealogia nobre começando onde tudo começava.

♦ >> O humilde carpinteiro provém de nobre linhagem. Descende de Adão, o pai universal segundo a carne, e, sobretudo de Abraão, pai espiritual do povo eleito. É herdeiro da Aliança.  Mesmo com esses títulos ele permanece um desconhecido que vive na sombra e no silêncio. Um quase nada. Um quase ninguém.  Com toda modéstia possível é que ele aparece inscrito em sua nobilérrima  ascendência.  O menino  do qual vai se ocupar não vem de sua linhagem.  O céu resolveu fazer as coisas diferentemente. Um outro jeito de paternidade.  O que ia nascer tinha a ver com o  Espírito Santo e foi acolhido na linhagem de José. Os contemporâneos referindo-se  Jesus, diziam: “Não é ele o filho de José?”

♦ >> Abraão mesmo sendo  o pai biológico de Isaque quase cortou  o fio da descendência quando parecia que estava parecendo receber  ordem para matar seu filho sobre o Monte Moriá. Era o momento da provação. Já ia levantando o cutelo para o sacrifício. Um anjo se apressou para impedir que ele cometesse um infanticídio, salvaguardando a vida de uma criança que era um dom de Deus.  Dessa raiz, da descendência do seu menino, nasceria, mais tarde, bem mais tarde outro Menino, nesta geração abraâmica, muitos séculos mais tarde, o Menino de Maria, do qual José foi pai nutrício.

♦ >> Obedecendo àquela ordem terrível que lhe havia sido dada pelo mesmo Altíssimo que lhe havia dado a graça da paternidade no tempo da velhice, renunciando bruscamente à alegria da paternidade, Abraão despojou-se de si mesmo. Reconheceu a filiação espiritual de seu filho.  Deus estava sempre intervindo. As raízes divinas tinham predominância sobre as raízes  terrestres.  Na prova, no desafio de Moriá, Abraão inaugura uma nova figura paterna que aceita uma parte de falta, de incompletude. Abraão entra numa “co-paternidade”  com Deus.

♦ >> Abraão consentiu em sacrificar o próprio filho. José resolve se “sacrificar” no sentido de não assumir a paternidade carnal.  A oblação se faz na fonte.  Mas é extrema e dolorosa.

♦ >> Se o sacrifício pedido a Abraão pode parecer “monstruoso”, aquele pedido a José pode parecer  “vergonhoso”, quando lhe é pedido de endossar uma paternidade da qual não teve papel algum. O anjo interfere.  O céu se faz presente.  O anjo se faz presente.   José tinha decidido despedir Maria em segredo.  Queria privá-la da lapidação.  Seu desejo era que ele e ela pudessem sair discretamente desta situação embaraçosa. Ele não sabia que a criança não era de um outro, mas do Outro.

♦ >> No episódio do Monte Moriá, o anjo apareceu no momento fatal   retendo a mão de Abraão.  O anjo que apareceu em sonhos a José  reteve os lábios, as palavras, a boca de José para que ele não pronunciasse dizeres de repúdio.  José foi aprendendo a se calar e a contemplar.

♦ >> “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e tu o chamarás com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo de seus pecados.  Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor havia dito pelo profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e o chamarão  com o nome de Emanuel  (Mt  1, 20-23).

♦ >> José agora é convidado a um outro despojamento.  É-lhe dito um segredo. Acolhe esse segredo da presença do Espírito e desiste de despedir Maria em segredo. Sua esposa não está gravida de um desconhecido. O Filho é fruto do Sopro do Espírito.  Esse filho divino será o salvador do mundo.  José aceita ser paia, de uma paternidade sublimíssima.

♦ >> O anjo chama José por seu nome, diz o nome que deverá dar ao filho que está para chegar, mas não diz seu próprio nome. Um enviado, um anjo sem nome. José precisará ainda penetrar no mistério. Isaque, Jesus: a paternidade de Deus se inscreve  no nome de seus filhos humanos. Isaac, forma derivada de Yçhq-El que  significa  Deus riu;  Jesus, Yehoshu’a,  que significa  Deus salva.

♦ >>José, pai nutrício, pai por procuração, cuidador zeloso, discreto, silencioso. Uma carinhosa, zelosa, oculta e discreta paternidade.  Pai das coisas de todos os dias, pai com as preocupações de todos os pais, pai contemplativo.  Pai que leva a esposa e o Menino  no lombo de um jumento, Pai que carrega o Filho do Promessa.  São José, rogai por nós.

Texto  inspirador

Célébration de la Paternité

Regard sur Joseph

Sylvie  Germain

Célebrations chrétiennes

Albin Michel, 2004, p.  61-89